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Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Hélder ou a encenação do silêncio

[REPUBLICAÇÃO] 

somos o lugar e o domicílio de todas as solidões"
Constantino Corbain

Na "hora do lobo", escreveu, quando lhe entregaram para que preenchesse um formulário complicado.   No espaço destinado ao "local", campo exíguo, por sinal,  apertou as palavras, contraindo-lhes o ar "domicílio de todas as solidões". Deslizou a mão não fosse esborratar a folha e, no fim, no campo das "Observações", declarou: Morte natural, nada mais a declarar.  Para que constasse.  
Levantou-se rígido, encaminhou-se direito ao galinheiro, sangrou o galo capão, molhou o indicador. Depois colocou no local da assinatura a sua marca própria, de analfabeto funcional.  Olhou o impresso, transparente como a linfa, última invenção da sociedade burocrática. Max Weber haveria de jubilar se conhecesse tal incremento da tecnologia. Sorriu de antecipado gozo. Cumprida a missão. Leu [se] em voz alta. Havia falha de informação – não sabia a hora ou sequer a data exacta  a averbar em certidão, o dia de morrer – o seu.  Juiz em causa própria, morrera em todos eles,  como vivera. Disso tinha convicção plena. Sabia que morrera, águas depois,  marés mais tarde, que o cão, fiel companheiro de olhos doces de saudade (também ele há vários anos solitário), seguidamente à hora da  gata de olhos de porcelana e miar de fogo.  A tartaruga, inexpressiva, como convém a tartaruga que se preze, mantinha a obrigação de exigir a cabeça fora das costas a arrastar na tijoleira a  carapaça.  Contudo, o brilho dos olhos estava há um horror de vidas riscado de solidão. Não contava, portanto. Companheira, essa, voara como um fumo em dias vendaval -  não lhe sabia nem queria saber o onde ou para onde nem com quem. Ficara-lhe apenas dela o cheiro em todas as fendas da casa, em todas as gavetas que se recusava a abrir. Em todas as roupas que ela usara e deixara suspensas em cruzetas, dobradas a rigor dentro de cómodas, a par com saquinhos cheios de lavanda e alfazema. Ficara-lhe dela  os pentes, as escovas ainda com resquícios de cabelos (eram de fogo os cabelos, talvez de cobre, não sabia muito bem…), ficara-lhe ganchos, travessas, elásticos e bijutarias de algum valor,  sobre a cómoda de nogueira em  caixas pintadas pelos seus dedos – via claro agora que nunca os beijara, nem chupara. Teriam sabor diferente dos da Filipa ou dos da Joana? Os dela, de Rosália, a que saberiam? Inquietou-se. Um nó estranho apertou-lhe a maça do pescoço. Desapertou-se. Dela  ficara-lhe o cheiro impregnado na cozinha das suas compotas, dos bolos, das iguarias com que durante anos o mimoseara  e aquela mágoa a que chamavam dor de corno, por não ter sido homem para a segurar. Não lhe faltara com nada a não ser com o que, raios as parta, desejam as mulheres – um beijo ao amanhecer e outro, se possível mais longo e mais profundo, antes de dormir, Afinal, homem, podes nem acordar. Ou eu, quem sabe? Ou eu….
Em certos dias nem lhe respondia, noutros, Sim, sim, tá bem, até amanhã, dorme que se faz tarde,
Virava o rabo, olhava as frinchas das portadas, contava carneiros se não adormecia de imediato  – o que era raro –, Que falasse. Quanto a ele,  em dois tempo roncava,  C'os diabos era lá homem de lamechismos?  Beijos dava-os às moçoilas quando rapaz, se as apanhava a jeito num esconso em que as subia e as trepava por todas as colinas, em que lhes prometia a mesa farta do seu corpo.  Desse tempo, ficou-lhe o gosto, retomado a cada dia. Rosália era virgem quando a tomara sua e nunca passou desse estado a seus olhos ainda que neles bailassem luares a agourar a experiência íntima do excesso. Hélder era, por conseguinte canónico com a mulher e putanheiro com as demais. A sua era santa, e, se vinha em mácula – bebido ou tocado pelo pecado da carne fora de portas, não lhe tocava ao de leve,  nem para o beijo de boa noite, Tu vives no Paraíso, Rosália, sabes lá o que é o mundo. É cão, morde as canelas dum gajo, o mundo é mar traiçoeiro a virar traineiras mesmo quando se anuncia mar-chão,
Às vezes o Paraíso, respondia-lhe em surdina, mata mais que o Inferno, mata mais profundo que o mar de onde vens,  e tudo o mais. O fogo é lento e a água ferve em banho-maria, por anos e anos,
Tens tudo, nada te falta, Falta-me a vontade, Pois bem, sim, sim,  faz rendas e bordados, não te obrigo a fazeres mais nada. Já te olhaste em espelho? Não tens marcas de esforços,  estás lisa e luzidia, nem rugas tens (no corpo dela, havia,  sem que as visse, marcas intrigantes de violência –  iam e vinham, a espaços, como as marés  –  amareladas, pardacentas...)

Morreu quando tudo à sua volta começou a morrer, o bolor tomou conta do frigorífico, as plantas do jardim secaram em pleno Inverno, as orquídeas deixaram de florir, o lixo se acumulou pelos quatro cantos da casa.  Morreu no dia em que a viu no jornal na coluna da necrologia. A custo leu a notícia de letras demasiado pequenas para a graduação dos óculos. Recriminou-a, palavroso – era obrigação dela,   só dela, ter providenciado a consulta atempada do oftalmologista, as mulheres têm papeis destinados desde a nascença - cuidar dos pais, dos filhos, dos maridos, Vês Rosália, agora nem sei se estou a ler em condições ou se as letras bailam a enganar-me como tu,  mulher sem préstimo. As lentes estão desfocadas, que bicho ruim não morre nunca, Rosália, o que leio é maquinação tua, mandaste escrever estas palavras para te ilibares e me incriminares a de mim,   puta que te pariu,  ingrata,
                 “Hélder do Carmo encenou a morte de Rosália Lira durante mais de trinta anos de vida conjunta mas foi pelas mãos da própria que a peça subiu a palco", puta que a pariu, repetia para se ouvir,   foi ela quem assim escolheu.

Pela primeira vez em muitos anos sentiu a face molhada. Não chovia. As águas da ria subiram o sobrado onde se encimara. Por ali ficou. Puta que a pariu...


Imagem da net, autor desconhecido.

terça-feira, 9 de abril de 2013

a recusa da evidência

"Há noites que levamos à cintura / como um cinto de grandes borboletas. 
E um risco a sangue na nossa carne escura / duma espada à bainha dum cometa."
in A recusa das imagens evidentes, Natália Correia

 não tinha memória, verdadeiramente, de quando abraçara alguém de verdade.
naquela manhã de vésperas reabilitara a sua velha aparelhagem, uma Sharp dos anos 80, vintage como ela própria. para sua desolação o leitor de CD's não trabalhava, por certo pelo acumulado de poeiras. haveria de resolver a questão numa outra hora. agora não, disse a si própria, agora não, repetiu-se. "não há insubstuíveis, sabes?, a arte está na procura de outras alternativas. 
procurou o comando de infra vermelhos por toda a casa. por fim, no derradeiro minuto, no quase a desistir, encontrou-o, desventrado e sem pilhas; uma bênção, concluiu -  de outra forma estariam calcinadas e o comando corroído. em tudo havia sempre um lado positivo e nada haveria de contrariar os seus planos -  agora bastava encontrar novas e isso não se afigurava tarefa fácil, dado que, por sistema, eram sempre consumidas em "n" aparelhos, e, no carregador ninguém parecia interessado em manter nenhuma viva. pouco importa, há sempre alternativas, pensou em voz alta. decidida, retirou as necessárias de um outro comando disposta a, nessa mesma tarde, sem falta,  as repor. não tencionava deixar rasto dos seus dias, sequer das suas escolhas. ao fim de muitos anos tomava, determinada, o pulso ao tempo e às suas coisas. sintonizou a Smooth Fm - tocava Diana Krall, Every time we say goodbye. esfregou os olhos a dissipar a névoa que, súbita, desceu sobre o seu rosto. abriu os roupeiros e começou a seleccionar o que haveria de levar consigo;  de tudo o que não cabe numa mala, pensou, não ficará rasto... Blame it on my youth, blame... talvez fosse. a culpa fosse da "sua" juventude. tarde em demasia, agora.  
esfregou os olhos com mais força. adivinhava-se no horizonte um tempo novo de sombras perfiladas, soldados à porta de armas, e, dentro de si, em relutância de princípios,  passos perdidos em claustros monásticos. projectavam-se desabrigados, hoje como ontem, nas veredas e calçadas, nos silêncios remoídos, na espessura das searas, nas canas bravas. havia, contudo (e sabia-o desde criança)  atalhos no rumo rectilíneo das águas ..."ah, se os meus cabelos, soubessem da textura dos teus dedos... ah, se...". uma imensa trança ornava-lhe o ombro direito, espessa como um pulso de donzela casta, fulgente como crepitar de uma lareira, de chama e pontas  triunfante sobre a cinta. ..."ah, se …”
em fúria, a contrariar o rumo do pensamento, arrancou-lhe  o atilho.  os dedos a dedilhar os fios, a retalhar os nós, a doer no leito nupcial do seu desejo. um humor grosseiro a rasgar o rosto, um sorriso a morrer por dentro. uma mágoa bastarda e ilegítima.  de tudo o que não cabe numa mala, esguiava-se o verbo em neblina de movimento. vigilou-se, impôs-se a si mesma, como quem controla o acto e alibi, e agora, que lhe restava? "porque os outros" amam "mas tu não"...
a doçura da sua natureza nua, os dedos a desfibrilhar os nós, a chuva a magoar beirais, os cabelos soltos, a certeza de que  naufragamos  por vezes infinitas em mãos inimigas… a frescura da resina a impedir a morticidade da alma.
retomou o comando, aumentou o volume até que o jazz lhe trespassasse, cinzelando, em vibrato de vidros, todos os poros, levando para longe a poalha dos dias e as lágrimas - a lágrima é um cisco entre o olhar e o lábio  num apuro corrompido à falta de argumentos, pensou em voz alta. recomposta, com a cara enrubescida de emoções, mergulhou na feitura da mala, nos planos de batalha, na teoria do quadrado, na quadratura do circulo. estava agora  aturdida de um frio escuro (talvez fosse o inverno, ainda, e as estações do ano e da vida não necessariamente verdadeiras)  a subir-lhe as pernas bamboleantes. em dialéctica de contrários, surpreendia-se tantas vezes, a si  própria, ao salpicar a história de água benta, amolecida em recusa de imagens evidentes,  e,  contudo…
não são minhas as palavras, sequer as letras de um qualquer alfabeto; nem tão pouco os verbos que não contenho nas palmas abertas de uma vida; minhas, por certo, serão as formas com que visto  o tempo, este, branco de neve e espanto que me aguarda em Primavera que não chega, disse-lhe, enquanto Ricardo a escutava sem que dos seus lábios aceirados se soltasse uma palavra...
fez-lhe, um sinal, a mão a suplicar-lhe, mais perto. deixa-me abraçar-te, segredou-lhe já com a cabeça a tombar-lhe urgente sobre o peito. e, como se para si própria falasse, disse-lhe: sabes, meu filho, quando sonhas (e sendo tu, como és,   parte de mim, talvez seja a mim que o diga), quando sonhas, repito, olhas o horizonte, este que te rodeia, alvíssimo de branco, ou outro que quer que seja, e és, não do teu real tamanho, como já alguém o disse, mas do tamanho dos sonhos em que te atreves ser numa espécie de artes performativas, mas, quando te dás ao tempo de te olhar por dentro, de te ouvir por dentro, então, direi que vives. a assertividade não é incompatível com a performance que imprimes no rumo de tua vida...
lentamente afastou-o de si. o sol teimava em iluminar a cadeira de vime vinda de um verão longínquo. Catarina beijou-lhe o rosto onde uma lágrima parecia indiciar o entendimento do que acaba de ser dito. elevou a cara a buscar-lhe o rosto. depois, como lhe fazia quando ele era menino e lhe entrava um cisco, uma areia, uma poeira que fosse, para os olhos, segurou-lho entre as mãos e beijou-lhos, sugando-lhe as lágrimas. afastou-lhe o rosto de novo, riam os dois. gata, disse-lhe, és mesmo uma gata. bem sei, respondeu-lhe a franzir as sobrancelhas levemente, afirmativa e inquisitiva,  e, para que conste, tenho sete vidas.  o segredo dos gatos é uma espécie de metáfora de asas...  
ou a asa de um segredo a sombrear o tempo, retorqui-lhe. em tudo o mais, sempre te digo da importância desmedida de tudo o que não cabe numa mala… 
numa mala cheia de gatos?  num miar de gatos,  riram juntos. 
                 afinal, gato que mia não morre ... 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Além daquilo que [nos] faz chorar.



Além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com que 
os soldados se lancem para a frente e percam a vida 
à luz do sol: que será, Bill?           
(Carl Sandburg)


Morriam lado a lado como peixes podres com os olhos esbugalhados ao ridículo da questão. Por vezes, quando o Inverno lavrava leivas desapegas na argila lisa, improperando os terrenos à caminhada, impondo tempos de pousio em vésperas de cultivo das novidades, quando o frio antecipava a morte e lhes impregnava a pele no mofo de pregas vincadas - "féleo jugo" de ser pó e ao pó voltar -, davam-se conta, ainda que de forma ténue e nunca verbalizada, de que, dia a dia, esmoreciam de vontades e de futuros em afasias e extemporaneidades. Aí os dedos aproximavam-se aos gestos.

Mas não havia liturgias nem salmos nem oráculos divinos. Tudo era, à luz negrejada pela noite lá fora (e dentro de cada um) uma espécie de função utilitária onde só os corpos fermentavam em leveduras requentadas; os olhares, de baços,  já não se nutriam de palavras e, dia a dia, morriam. No canto espúrio dos olhos dela, por vezes havia ainda uma luz, centelha fortíssima à força de pedra. Jade, onde as lágrimas resilientes nascidas algures numa nascente de serra se retalhavam antes de tombarem largas a eviscerarem, iguais às chuvas torrenciais, o tecido do rosto. No canto espúrio dos olhos dele, no modo inverso, parecia já não haver espaço a manietações gravíticas, inquietações, desideratos sódios ou sequer projectos adocicados.

Em tangência virtual, vendiam-se ao tempo que passa, por dois reis de sobrevivência. Em litologias de anjos barrocos e olhares de peixes mortos.

Dela ainda a esperança de ser Fénix. Além do que fazia chorar os peixes. Vertebrados. 


______________

Publicado in A Arte pela Escrita, Três, pg. 164,  Mosaico das Palavras, Editora, Rio Tinto, 2010

domingo, 10 de fevereiro de 2013

ensaio sobre a verdade e a mentira, Victória.

JRLuis, artista circense, Circus AKademie Berlin


… por vezes há que reconsiderar sobre os temas, chorar lágrimas corajosas, revisitar  espaços e lugares onde a saudade é, tal como as nossas cabeças, não mais que uma ilha alagada de imagens;  por vezes, o nosso corpo, último reduto da nossa individualidade, exposto fronteiriço ao lago, devolve-nos parecenças em que dificilmente reconhecemos paridade. e a dúvida instala-se e se transmuta numa caixa de pandora, que aberta, dificilmente se controla; e é da cobra o lugar dos céus, e é da ave a terra e a miragem. e chove dos olhos lágrimas de pedra, e os lábios são sementeiras roxas fendidas de palavras vindimadas, encimados por códigos de barras que nenhum photoshop apaga -  estão e permanecem lá,  ainda que não manifestos, abutres atentos sobre a matéria seca.

submissas aos desígnios das modas, damos mais um passo, Marias Antonietas a caminho do cadafalso,

“que morra, que morra”, gritam uns quantos enquanto que, por dentro, na convicção do dever cumprido, se afirma victoriosa a carne envelhecida, seca cavaca que nenhum lume ateia. e isso mata.
esconjuradas e renegadas, duvidamos da verdade, como duvidamos da mentira. somos aquela ou a outra? somos a que julgámos ser, ou a que que se travestiu por artes mágicas e, por iguais magias, apagou as rugas, retocou as curvas, vestiu a saia justa onde a mulher exacta não cabia mais? na nossa incapacidade própria de lidar com o tempo, perdemos a noção do real, extremamos os extremos, desviamos o desvio-padrão e, no limite dos limites, não ousamos ser, de quem somos, contemporâneos, viver agora e o já. projectamos o futuro num passado imaginado e, por fim, extra-temporais, renegamos o presente – são assim os dias nebulados de que me falava Victória ontem ao fim da tarde, quando me sentei com ela a beber os últimos raios de sol das Lezírias numa chávena de chocolate quente.
noutros dias, continuava,  a memória dos momentos alvos, cada vez mais escassos quando o fim se aproxima,  devolve-nos um universo de música audível de olhos cerrados, um mimetismo equilibrado como uma bola de cristal nas mãos de um artista - harmónica, sensorial, translúcida. desliza em afago de brisa a pele de que somos pele; toca-nos tão ao de leve num emaranhado de percepções e tempos sociais como aquele que a trouxe de novo aqui, menina.  tão ao de leve,  que,  abençoados, tomamos então consciência de que, e  na verdade, é  o tempo escamoteado por nós  que tece e cirze e alinhava uma teia finíssima de atalhos e nos permite revisitar quem fomos.  é o tempo que, nos que gerámos em ventre de águas mansas, carne, linfa e sangue da nossa própria carne, nos leva à eternidade. e é, na profundidade de uns,  que somos outros, singulares e plurais,  presente, passado e futuro, como agora, entende? talvez sim, respondi a medo. entende? - repetiu. sim, Victória, sim... 

se este diálogo existiu? da verdade e da mentira nada sabemos, sequer das razões que lhes comummente assistem. permanecemos inconclusivos ainda que revisitemos amiúde Foucault, em particular  quando, e a propósito da dúvida conceptual sobre a verdade ou a mentira,  saibamos que terá dito de forma categórica: “… a verdade? a verdade é uma mentira cozida pelo tempo".
a acompanhar os meus pensamentos, como se os lesse,  julguei ouvir de Victória - “e  sobre a mentira nada sabemos,  de igual modo, menina. e essa é a nossa salvação maior. suprema, direi, até …"
levantei-me. a tarde tombava na campina. uma luz serenava-lhe o rosto: era tempo de voltar a casa…


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Physalis, Cremilde, Sidónia e outras mulheres.


a Physalis(1) crescia no vaso de barro. anunciava, em floração de invernos,  o fruto próximo.  de árvore em árvore,  de galho em galho, um bando de pássaros negros abanava as manhãs num chilreio de ignomínias formando uma barreira contra o avanço da tempestade. num trapézio de ensaiar vaidades, subiam de tom, alteavam-se. dispersavam-se, porém,  e depois a chuva retomava o seu curso, espessando a claridade, que, no óbvio, diminuía francamente a visibilidade - o rio era então uma linha leitosa, esbatida contra as margens, contra o cinza matriz do céu.  Sidónia encostou-se à ombreira da casa, embrulhada num robe azul-marinho desbotado como as memórias, e que, àquela hora da manhã, já alta, por sinal, quase meio-dia,  ainda lhe aconchegava o corpo escanzelado de magro. era assim, nos últimos tempos.  sem ocupação conhecida,  e sem projecto de vida, sem quem a olhasse além dos olhos migalhados dos pássaros negros, os tais que povoavam os campos metafóricos da vida,  cada dia se aprontava mais tarde, e, por mais que se tentasse convencer de necessárias ablações, era-lhe inequívoca a urgência reclusa dos espelhos dos olhos. das pupilas, das meninas dos olhos, razão de sua existência. ou não! Sidónia tinha alma de pássaro e estava morta – teria sido talvez por isso que quando os rios se juntaram em forma de cruz, no mouchão fronteiriço, as mulheres sangraram pela primeira vez, e as lezírias foram searas maduras. dizia, para quem a sabia ouvir, da democracia das águas e de como lavavam uns e outros sem atentarem às origens.  lavavam tudo, menos a má língua. 

numa manhã de atrevimento, atreveu-se. olhou de frente o céu, ele mesmo a atrever-se contra o espessamento da chuva, cada vez mais próxima. era a hora de partir.  deitou mão a alguns pertences, colocou a capucha de burel a agasalhar-se nos ombros ossudos, subiu-a ao peito,  determinada,  e contra o queixo, o mais que pode. resguardada assim do frio da invernia rigorosa, saiu para a rua, sem destino concreto. os passos, firmes, igualmente determinados, chão do seu próprio chão,  encaminharam-na para o palácio da sua meninice. mediu diferenças, se as havia, afinou a esquadria. nada mudara, apenas envelhecera. o bulevar permanecia intacto, o lago dos peixes vermelhos ladeado de árvores,  as laranjeiras em fila indiana formavam uma espécie de praça forte contra a rudeza dos dias;  e que dizer do o ar dali, macio, ungento, a vedar-lhe golpes na própria casca?  aspirou forte. isso, Sidónia, tu podes, tu consegues. um passo em frente, dois atrás, um de novo, agora…
talvez devesse dar-se ouvidos – reconsiderar o que a movia além dos passos, do verdete dos caminhos. talvez sim, quem sabe? 
igual a sempre, a profusão de folhas e de cores formava com o barro e com a bosta dos animais passantes uma pasta onde se enterrava, prazeirosa;  um emplastre calmante a que se dava,  maçarica, esperançosa de que, numa outra vida, alciónica quiçá, fosse luz além da barra. um dia, quando seguia a bordo para a ilha, o mestre Carlos falara-lhe dos maçariços, "almas-de-mestre", guias,  as estrelas mais brilhantes das Plêiades, segundo o próprio.
e  não era isso que a minava? pólipos alciónicos? como cogumelos a proliferar nas vísceras... tudo se conjugava afinal... conversa de merda...  quanto tempo lhe restava? querer alienar o tempo, dissera-lhe, era pois, uma impossibilidade - ele deixa sempre marcas. por isso o remédio,  se é que existe, está em não haver remédio;  enfrentar a besta pelos cornos de forma  austera e ríspida.  as bestas não reconhecem outra linguagem, Sidónia.  o doce já não resolve, sabes? por essas e por outras é que este país está como está, cravejado de diamantes em pano roto. fazes parte da "não pandilha" e resistes, ou, pelo contrário,  optas por chorar por dentro como as grutas, criatura? 
ainda te resta a escolha, o livre arbítrio…
um passo em frente, dois atrás; recorrente  o ditado americano "hell hath no fury like a woman scorned" fustigava-lhe o rosto. tantas as formas de traição e tamanha a sua passividade... ultrajante o frio que a varejava de vitupérios e injúrias. seria bruxa, pois. que fosse!
_
saiu sem rumo. havia dias,  vários, e  que a Cremilde  seguramente  pareciam   meses,  que perdera a vontade de se mimar, de se cuidar, de ser quem fora, ou cuidara  ser,  até então.  só a espaços, cada vez mais abetesgados e raros,  é que, e  por efeito dos tachos e as panelas, dos cheiros  das compotas fumegantes ou das sopas, todos eles  fortes e revigorantes, sempre diferentes e feitos a olho, sem medida,  sem regra pelas suas próprias mãos intuitivas, as imagens do futuro se lhe revelavam,  vaporíferas. surgiam-lhe ora  recortadas e  figurativas, ora exactas em geometrias bruxuleantes, contra as paredes.  em ambos os casos despertavam-na para um sentimento a que chamava, plagiando sabe-se lá quem,  de "saudades de futuro". ainda  assim,  conservam-na  numa espécie de banho-maria.  
nesses momentos inalava  profundamente a vida nas coisas breves consciente de que   havia, algures, instalada num lugar distante, uma espécie de metanóia que a penitenciava em clausura e a mantinha prisioneira sem pulseira electrónica, sem apelo, sem agravo, na face oculta das coisas e se transformava na expressão corriqueira do seu sentir.  e havia, constatava vidente, alhures,  um tanque,  piscina olímpica,  de lágrimas não choradas, que, como um vento ronceiro, lhe impunha a mudança no pensamento...
 talvez devesse pôr-se em causa - reconsiderar o que a movia, além da cor. do imediato do seu mundo de folhas amareladas, dos silêncios e dos uivos dos cães, que, em ablação, a entristeciam, talvez devesse. mas não...
foi mais ou menos por essa altura que se avistaram em espelho. Cremilde baixou os olhos. Sidónia, pelo contrário, não tinha nada a perder, olhou-a bem de frente. nunca se soube de que falaram, mas o que quer que fosse durou horas, prolongou-se além do inimaginável. o gelo da noite, como farpas, chispavas-lhe os olhos. na calada, Sidónia, envolta em burel,  uivou e era loba, embrenhada na floresta,
Cremilde retornou os passos. na cesta de vime carregava  as laranjas de todos os pomares que nunca haviam sido enxertados, bravos como ela mesma.  sem pressas, abriu um a um cada fruto, retirou-lhes os caroços, colocou-os a salvo, prestativos os sabia em pectina, cola natural e  consistente. e o quanto necessitava dela para realinhar os cacos - a vida era-me de vidro e partiu-se, disse. quanto às laranjas laminou-as em juliana, cobriu-as com água, macerou-as de forma demorada. no fim trancou as portadas...
uma luz súbita rasgava o ventre da terra, o leito era-lhe desconforto e ansiedade. ergueu-se,
                    soprou o dia, a noite e a madrugada. por fim, na manhã já alta, banhou-se, aprimorou as vestes, enrolou o cabelo na nuca, colocou a rede e as travessas. teria perto de cem anos. abeirou-se da cozinha;  rigorosa nos seus próprios preceitos e princípios, inflexível consigo mesma, retomou a feitura dos dias de laranja amarga...


Nota:(1) Physalis

sábado, 15 de dezembro de 2012

Eu embalo-me nestas causas... E você? "embalagens solidárias"


Não porque seja Natal, mas porque é da minha natureza, e já as divulguei aqui noutras ocasiões, mas também porque é Natal, vos falo delas de novo - das "embalagens solidárias" - , e da sua ENORME utilidade ... Usá-las  é simples, muito simples, ora vejam 
   
CTT's ajudam a ajudar
Onde as encontrar ?

Nas Estações de Correios de todo o país existem folhetos com a informação sobre os bens solicitados e as instituições de solidariedade destinatárias e onde estão disponíveis gratuitamente, caixas de transporte para os bens doados: é só colocar o bem solicitado, endereçar à instituição de solidariedade seleccionada e enviar. Estas caixas de transporte chegarão ao seu destino através da rede de distribuição dos CTT. 
Ex.: Lista de Instituições do Continente e Bens Solicitados
Lista de Instituições Receptoras
  e neste Natal, em especial, esta

     Campanha de Natal do Banco do Bebé

 campanha de Natal Banco do bebe
"...Os bens mais necessários para o Banco do Bebé são:
  1. Leite de transição ou leite adaptado para bebés (dos 0-6 meses e a partir dos 6 meses;
  2. Fraldas descartáveis a partir dos 2kg até aos 20 kg; 
  3. Papas para bebés dos 0-6 meses e a partir dos 6 meses; 
  4. Produtos de higiene – toalhitas descartáveis, cremes assaduras, champô e gel de banho, entre outros.
Basta deslocar-se à Loja CTT mais próxima com os bens que quer doar, pedir uma embalagem solidária dos CTT com a morada do Banco do Bebé e colocar lá dentro os bens a doar. Os CTT enviarão para o Banco do Bebé sem custos e o Banco do Bebé fará chegar a quem mais precisa.
Nota: poderão enviar ainda outros bens necessários para bebés e crianças até aos 6 anos de idade como roupa nova ou usada em bom estado, mantas, roupa de berço ou cama de grades." 
in CTT

___

Em suma, 

1) existem instituições das mais variadas, a apoiarem os mais diversos tipos de carências e públicos-alvo, sejam eles, crianças, idosos, doentes, refugiados ...  e/ou sócio-excluídos da sociedade, seja qual for a sua origem e a razão...

2) existe uma empresa, os CTT, que se disponibiliza a fazer chegar a quem precisa, de forma absolutamente gratuita, a sua ajuda.

o que não existe, na verdade, é como dizer que não pode embalar-se nesta ideia... 
 (um exemplo só: a ABRAÇO recebe cabos elécticos para reciclagem ... )


Cabe-me, por fim, expressar aqui, e na oportunidade, a minha gratidão de sempre a todos quantos me honram com a sua presença, quer aqui, quer na minha página homónima, de poesia, no sapo.


Feliz e Santo Natal


Bem-hajam  


Nota: Fotos e informação da net 

   

 

 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

“marcos-falos” [republicação]


Enquanto viajava detinha-me sempre nos marcos quilométricos da estrada. Uma referência ao destino que, à falta de GPS, me ia conduzindo, dia após dia, a distâncias de mim (ou proximidades) na medida exacta que me aproximava do local para onde caminhava. No caso, o espaço onde trabalhava à época, numa perdida aldeia Ribatejana, vizinha do rio.

Era Inverno, no seu início. Os dias estavam já pequenos, bolorentos e tristes. Os frios sentiam-se dentro e fora de casa. E nas almas; e nas palmas das mãos e nas espinhas/esqueletos e nos corpos. E nos corações… no meu, no deles…; no frio congelavam os sorrisos e os afectos. Como conchas, cada um a seu modo, engolia o molusco que o habitava, num processo de pré-hibernação. Envoltos em mantas, uma espécie de múmias vivas. Ali!

“O Inverno aqui, Doutora,  é sempre muito triste, depois verá …”. Laura, a cozinheira foi-me adiantando logo nos primeiros dias que cheguei … Era então Verão, num Julho a torrar as uvas das vinhas circundantes. Num sol estuante e inóspito. Não saíam de casa; calor em demasia …, cansavam-se. afogueavam-se…, “...mas no Inverno então, verá… isto é um desconsolo. um dó de alma.”

Via-lhe a verdade do discurso no olhar e nos maneirismos do corpo. E temia que tivesse razão. Temia o Inverno, retinha estas e tantas outras conversas, retalhos amiúde com que ia construindo as mantas trapeiras da minha própria velhice, e que guardava, a contento, em baú de sândalo. Memórias que dançavam agora à minha frente.

Respirava fundo, bebia a estrada, focaliza os marcos. Concentrava-me nos pequenos paralelepípedos de topo boleado a emergir da berma, altivos … na estrada e na vida. Alguns jaziam quebrados no chão de alcatrão empapado pela neblina matinal, nalguns locais gelo, estado vítreo…

Um dia lera de um autor que, a ele, lhe pareciam falos. Falos decepados pela metade (mais ou menos esta seria a ideia, de que não me consigo sequer recordar onde e quando a imagem de “marcos-falos decepados” entrou na minha caixa de “parafusos desapertados" …). Pouco importa. Incorporou-se em mim, e, em ausência exacta de referência bibliográfica, perdura per si, imagem: “marcos-falos decepados” no rubor da tumescência, no ardor de uma qualquer paixão, ou à falta desta, de excitação induzida, vulgo masturbação.

Viajava, conduzindo maquinalmente, e, naquele dia, mais que em qualquer outro, os marcos e as conversas da tarde anterior com Bonifácio, queimavam-me os neurónios, ainda semi-despertos, à falta do café da manhã e na falta de respostas sociais e socialmente certas.

O que era o certo? O que são as (in)certezas livrescas perante as realidades pungentes da vida? O que é lá isso de “envelhecimento activo?”. Afinal não era esta a temática que me havia num qualquer dia da minha própria utopia, proposto a estudar? - “Envelhecimento activo”… a que níveis? Com que níveis e grau de satisfação? Em que condições? … “marcos-fálicos” …

“...menina, somos velhos mas não somos capados como os porcos, nem sequer nos cortaram o pirilau, entende …, mas olham-nos como se fossemos. Para a maioria desta gente, ser velho é o mesmo que perder tudo. Perder a identidade, perder a vontade, perder a dignidade, inclusive perder o interesse por uma mulher …somos quase robôs, autómatos… “vá para ali, chegue-se para acolá” … lavam-nos e vestem-nos como se fossemos bonecos desarticulados, e, tantas e tantas vezes não entendem que ainda somos gente…”

Dizia-me tudo isto num rompante de palavras, como se, se o não fizesse, perdesse definitivamente a oportunidade de o fazer, e, simultaneamente, a coragem de, num qualquer dia, numa qualquer tarde, abordar o assunto. Dizia-me enquanto bebia o sal das lágrimas que lhe incendiavam a espaços o olhar mortiço. Dizia-me enquanto as face enrugadas, vincadas aos ossos e aos registos dos tempos, se enrubesciam de genuína vergonha.

Jaime olhava-me fixamente, tentando entender sinais de mim, ao mesmo tempo que, olhava, estupefacto, o seu companheiro de quarto Bonifácio, sentado na cadeira a seu lado. Nos sofás em frente, outros idosos residentes olhavam distraidamente o ecrã da televisão, ou, em alternativa, dormitavam… não falavam, quase que não comunicavam entre si. Eram assim os dias de Inverno de que Laura me falara nos primeiros dias …

Bonifácio agarrava-me o braço num gesto de quem quer uma bengala, de quem quer, da parte de alguém a quem chama de “Doutora”, a afirmação lógica e científica do “não despautério” que acabava de dizer …, então não lhes diziam sem dizer que já estavam meio-mortos?

Agarrei-lhe a mão. Transpirava abundantemente, gélida. Olhei-o nos olhos, não sabia que dizer. Envolvi-o num afago de olhar, apenas. Não lhe disse nada… Continuou:

“...sabe, a minha mulher que Deus haja – que a tenha em bom descanso, que já se me foi há quase dez anos -, era uma companheira e pêras, percebe Doutora? Entre nós havia amor, e, nem a Igreja, nem o Senhor Padre (o que morreu, bem se vê...) nos viesse dizer o que, entre a cal das nossas paredes, podíamos ou não fazer… éramos crentes a Deus e casámo-nos e amámo-nos à luz dos Sagrados Mandamentos mas também muito para além do que nos queriam fazer querer ser a palavra de Deus para o matrimónio: gerar família, procriar, cuidar dos filhos e da fé...
Só para procriar? Não, Senhora Doutora (sorria)…, sempre que podíamos, ouviu? Às vezes – tanta vez -, vinha numa corrida à hora da janta aqui a casa por via de poupar a minha esposa a canseiras de ir levar-me a merenda ao campo. Vinha àquela casita além, que a Doutora sabe, onde antes vivia, e, perdão da palavra … que se lixasse a sopa, porra… que se lixasse ...  Comia um naco de pão seco na volta com um punhado de azeitonas … a gente a modos que se devorava um ao outro…. Ai menina … só se perderam as vezes que não foi assim (sorria de novo…); fui feliz menina, com perdão, Senhora Doutora, mas e agora? Como quer que me resigne a esta solidão, a este desamparo? Não fiz voto de castidade, não sou padre, e, mesmo eles, vossemecê acredita que são castos? Ora, ora … Valha-me Deus que tudo superintende… nos céus e na terra, nos mares e na guerra santa...
Não acha normal que ainda sinta vontade de amar, de namorar outras mulheres? Que ainda sinta vontade de abraçar e beijar outras mulheres? Ora diga lá, que a senhora deve saber se, por um homem ser velho – tá certo, tenho quase oitenta anos -, não tem coração? …”

Bonifácio não sustinha as lágrimas. Tremia. O lado esquerdo estava-lhe paralisado de um AVC, ia para mais de seis anos, mas em termos cognitivos e de memória estava lúcido. Gastava o tempo a fazer palavras cruzadas. Tinha feito o exame da 3ª já homem, à luz do candeeiro de petróleo - contara-me noutra ocasião. Ao lado Dulce, sua mulher, que o acompanhava noite a dentro enquanto remendava as calças farpadas dos trabalhos do campo, e que, nem sempre entendera aquela vontade de conhecer letras. Queria que se fosse a deitar. Entende, menina... perdão, Doutora? ... mas que mais tarde, quando ele já sabia ler e ela não, era pelas letras dele que ouvira lindas histórias…

“...contei-lhas, Doutora. Li-lhe as Farpas, O Cavalo Espantado… conhece, Senhora Doutora??? Ela gostava tanto... Nunca aprendeu as letras, nem grandes nem pequenas, não andou à escola em menina, em adulta não tinha tempo, pensou aprender quando fosse mais de idade ... e depois padeceu de cataratas, ainda menos … ”;

Homem capaz de enumerar factos e datas, suas e da sua aldeia, sem vacilar. Capaz de ordenar rigorosamente quem havia chegado e partido do Lar depois de para ali ter entrado… A biblioteca a que as funcionárias recorriam quando queriam confirmar este ou aquele dado… mas, pese embora esta realidade, eram, tantas e tantas vezes, ainda que sem consciência do quanto o magoavam, elas as primeiras as que, em surdina, censuravam os seus olhares sobre uma mulher quando saiam em passeios, por exemplo. Na Festa da Flor, no Magusto... escassos momentos em que se viam rostos outros que não os dos residentes como ele e os delas próprias a quem guardava respeito como se fossem suas filhas. Suas irmãs. Sem sexo e sem corpo. "sabe Senhora Doutora, nas noites, nos turnos, oiço-as ali na sala a falarem umas com as outras, a rirem das vidas delas. Fico feliz, são a minha família agora ...". Mas troçavam em surdina, sim... E disto Bonifácio, como de todas as outras realidades, se apercebia e com isto se magoava. E nada dizia. E tudo calava. E morria todos os dias um pouco. Agora estava Lícinia no Lar. Tinha sido sua parceira na dança no Rancho de Folclore Espigueiros do Tejo. Agora o seu coração palpitava de novo. Agora queria dar-lhe a mão e levá-la a ver o jardim em frente… e, porque não, ler-lhe a Morgadinha dos Canaviais, ou o Crime do Padre Amaro ...

        “Acha o quê, Senhora Doutora? Que pensa? ...Bem sei que estamos os dois aqui, que não devemos dar maus exemplos … mas gosto dela, Senhora Doutora… vossemecê, que me diz? Diga-me, por amor da Santa Senhora D’Alcamé, … É mau um velho ainda amar? É?..”…

            “marcos-falos”… Espigueiros do Tejo, 1Km. …
                                                   A quantos o fim da estrada, Bonifácio?

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Publicado aqui, em 25/09/08, e, posteriormente cedido (1) para inclusão na   Antologia "Quem acrescenta um ponto ....", 2009. 
(1) vidé 
"Sinopse: Colectânea de contos escritos por alunos da Escola Secundária Avelar Brotero e que conta com a colaboração de cinco escritores que disponibilizaram histórias e poemas para a mesma. A organização desta antologia foi efectuada também por alunos desta escola de Coimbra."

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...