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Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"sete-estrelo e umas botas"


(REPUBLICAÇÃO)

Mirou-as demoradamente. Acariciou-lhe o couro com o olhar. Deteve-se no picotado do cano, na cor de terra. No brilho de coisa nova, nunca usada. Depois, na calma que a vida lhe trazia aos poucos, olhou o horizonte, em ocres iguais. O ocaso chegava já, num Inverno que ainda não era Natal, e, contudo,  já se anunciava em cada rua, em cada esquina. Olhou o céu limpo em busca do Sete-estrelo. Desde sempre lhe ensinara a procurá-lo: azul, qual reflexo do mar que a habitava…
Agora eram suas, como lhe prometera. Não, nunca as usara. Quando as terminara, por fim, os seus pés não cabiam mais nelas. Crescera em demasia…
Abraçou-as, mediando o tempo desde que as vira a primeira vez, por sobre uma das múltiplas prateleiras empoeiradas que emolduravam grosseiramente o exíguo do espaço, a par de formas e calçados por consertar.
“...são tuas, um dia acabo-as e serão tuas...”

As linhas iam e vinhas no ritmo das sovelas a perfurar o couro, as solas batidas e rebatidas na pedra dura. As solas mergulhadas em água, por dias e dias. Pastosas. E depois moldadas ali, ao talhe dos pés.
“...um dia, quando tiver tempo, faço-tas. Nunca terás de andar descalça, que te durarão uma vida. A vida inteira… nem que isso seja a última coisa que faça. Não terás de andar, como eu, a ver “sete-estrelas” e umas botas … nos pés dos outros…"

As linhas iam e vinham no bico das sovelas, no cuspo das mãos, nas mãos magoadas. Pai…
“… um dia serão tuas, quando as acabar. Tem tempo. Agora tenho trabalhos em mãos, que te dão o pão da boca. Mas se tas prometo, faço-tas”
E logo o olhar turvado sem brilho no brilho da lágrima contida:
“nunca lhas cheguei a fazer…”

As linhas de sisal iam e vinham, rangiam na sola; na sola dos pés o frio de tantas horas ali parado. Era Inverno…

“Sete-estrelo e umas botas.”
Naquela manhã o povoado acordou em sobressalto. Francelina, de pouco mais de quarenta anos e oito filhos menores, morrera. Uma forte dor na nuca. Nunca se soube ao certo. As bocas pequenas falaram da “porradas” que o marido lhe "amandava", quando ao fim do dia de jorna, aquecido no pingo da bebida, ajustava as contas com a vida no corpo não menos estafado da mulher. Comadre. Quando enviuvou do primeiro marido e pai das suas duas filhas mais velhas, arrimara-se a ela
“por bem querer, senhora Francelina, serei um pai para as suas filhas, um marido de respeito para vossemecê. Cuido-lhe do nome e das terras, minha comadre. Que fará vossemecê com duas filhas neste fim de mundo onde o diabo perdeu as botas? fraca e pequena como vossemecê, nem com os cântaros há-de poder, que via o senhor meu compadre – que a terra lhe seja leve -, a carregá-los serra a cima… casemos pois, senhora Francelina. Não dê outro padrasto a suas filhas e minhas afilhadas, que sou seu amigo e “mai-lo” delas…”

Casaram. Sem pompa, sem circunstância. Sem o agrado do povo, nem dos pais. Sem a bênção da família da viúva recente e já nubente. Que guardasse distancia e logo tomasse rumo. Mas assim? Em pouco mais de dois anos? Certo que Jorge era parente, conhecia os cantos à casa e nela trabalhava desde que os seus pais o haviam posto fora de portas
“Ora, coisas de rapazolas. Uma má palavra e o meu pai se deu por ofendido. Levantou-me a mão e perdi a cabeça…”
sempre ia dizendo a despeito da sua deserdança:
“... que coma a terra, que por mim hei-de apanhar e chamar de meu, mais que aqueles palmos de terra”.

Achou. Achou a confiança do compadre, os olhares gulosos sobre as terras que eram suas e, porque não dizer?, sobre as ancas de Francelina  - “boa parideira, a minha comadre, tem um par de ancas que a benza Deus” e fome de lhe morder os seios e beber o leite que se lhe escorria “valha-lhe Deus, minha comadre, que esse leite é uma perda”… avançava, entre dentes, em falsa compaixão, sob olhares lascivos.

Tomou-a sua, ocupou o lugar do falecido nas terras e na cama, e, desejoso de lhe fazer prole, acrescentou mais seis aos dois filhos de Francelina.
Esta respondia, no início, às investidas do marido, à fome das ancas e dos seios, com cansaços e pouco deslumbramento - na verdade nunca o amara. Nem pouco nem muito. Temera a solidão, o deserto do casal, o comando das terras. Era seu compadre, mal não lhe havia de fazer, por certo. Sempre era um homem, elas três mulheres…

Amor tivera ao falecido, que a cobria de atenções e mimos. Que a abraçava demoradamente antes de lhe avançar na carne. Que a olhava num olhar maior, quando lhe soltava em adoração de alma e corpo, os cabelos de um ruivo luminoso que a inundavam de luz, e que, sob o manto do céu tangido de Sete-estrelo, sob a bênção do Sete-estrelo, a desnudava por completo e se desnudava a si, para a amar profundamente. Quando, em luar maior, se adoçava o gesto da posse. As noites eram sempre pequenas para os amantes e eles amavam-se…

Detinha-se íntima e introspectiva na Lua que, pressentia, alguma vez teria novamente, que se quedava agora sempre negra lá fora, nos braços dos salgueiros e nas urzes serranas. Amor tivera a quem a aconchegava de beijos antes que, bem amada, dormisse, e, na manhã seguinte a acordava com uma chávena de leite quente. …

“agora” a cama gemia e acordava as crianças. A palha de milho roçagava o vento que se escapulia das telhas vãs. As noites eram longas demais e, não raras vezes, na manhã seguinte, à beira rio, onde lavava as ceroulas de Jorge, os cueiros dos filhos mais novos e as camisas dos mais velhos, as mulheres do povoado lhe viam as marcas enegrecidas da “paixão”.
“ó Francelina, que é lá isso, ó mulher? Tens uma negra nesse braço… e que é isso na boca? Tá a modos que rebentada…”.
“… não, senhor, não é nada … fui eu que me abracei no descuido com um cepo no quintal,  calhando que ia de cabeça no ar …”
De olhos baixos, esfregava primorosamente as fraldas até a pedra se queixar e as mãos enregeladas do inverno se abrirem em sangue. Chupava os dedos para que estancasse, dava por concluída a tarefa, e, de alguidar numa anca, bilha na cabeça, e por último,  a cria mais nova, sua filha de meses, escarranchada na outra anca, avançava a custo o íngreme do monte. Nos entretantos, a sós com Deus e com a sua vida, rezava em contas das próprias lágrimas. Agora era tarde para recuos, como tarde se anunciava o dia já a pôr-se enegrecido no ocaso. Apenas uma luz lá no alto lhe conduzia o andar nos pés mal calçados de solas safas. Perscrutava o Sete-estrelo …

A proximidade do casal já se sentia, no latido dos cães e nas correrias das crianças que, no instinto se acercavam dela. Soltava Rosa da anca, confiava-a a Manuela, uma das mais velhas, gritava o nome de Raimundo, de Carlos e dele, o dono temporário das botas…
Acorriam em algazarra.
“mãe, mãe…”
“rapazes, onde está o gado? Já o arrecadaram? E a lenha? Trazei-me dai uns cavacos que se faz tarde…e o vosso pai já deve andar por perto…”
Manuela ajudava no pendurar da roupa, os rapazes acendiam o lume, os mais novos corriam em torno das suas saias. Por instantes eram uma família feliz. Francelina abraçava os filhos, beijava-os, deitava sobre eles um olhar de esperança – um dia as coisas mudariam. Seriam eles a tomar conta das terras. Jorge afinal não era dono de nada, valha-lhe Deus… Um dia. Um dia … “Sete-estrelo”
“...um dia faço a vossemecê, minha mãe, umas botas de cano grande, por via de não andar de pés no chão, nem com as pernas rotas dos silvados, vossemecê verá, senhora minha mãe… vou ser sapateiro, como o senhor Joaquim do Vale, meu padrinho."
Afagava-lhe o cabelo encaracolado e loiro. Abençoava-o. O seu filho mais velho, daquele casamento desgraçado. E agradecia, contudo. Lindo o seu filho. Grata, olha-o …
“… um dia, filho…”

O latido aflito do cão de guarda mais ao fundo do portão indicava a proximidade do dono. Era ele sempre a primeira vítima. “…é cão duma peste, não te calas nunca!”. Um pontapé ou uma verdascada marcavam o ritmo do discurso iniciático.
As crianças sumiam. Cada um para o seu canto, para as camas improvisadas em cima das arcas do pão, com mantas trapeiras.
Francelina colocava apressada Rosa no berço, com uma chucha de açúcar e vinho. Dormiria. Tinha de ser…
“já comeram os rapazes? É bom que sim, que quero descanso”.

Acenava que sim. Muitas vezes não, mas ninguém dizia nada. Ajoelhava-se aos pés do marido, ajudava-o a tirar as botas. Ele media-lhe o corpo enquanto se levantava rumo ao lume.
As couves fervidas a escaldar o pão. A “tiborna” com o alho. Tudo pronto.

Baixava os olhos, mexia o caldo e servia o seu homem. Depois a sua malga. Comiam em silêncio. Jorge por debaixo da mesa procurava-lhe as pernas. As mãos grosseiras, apertavam os joelhos, arranhavam desapiedadas a pele. Avançavam, subiam, buscavam o sexo. Achavam-o. Penetrava-o desvairado, e, se o sentia húmido da corrida e dos labores, dos cansaços do dia, que fosse, começava ali o chorrilho de difamação “puta, ‘tas com ela aos saltos, não é?, quem é que te comeu hoje, minha puta?”. Levantava-se num ápice, empurrava-a contra a parede, abria a braguilha, soltava o bafo do vinho pelas narinas de besta e possuía-a ali mesmo, sem uma palavra. Mordia-lhe a boca, mordia-lhe o corpo, fazia soltar os seios do corpete alvo, apertando-os impiedosamente. Rodava-lhos os bicos já macerados de vezes outras, mordia, sugava-lhe o leite e o sangue que escorria – ainda amamentava -, . . “puta, agora estás satisfeita? É disto que precisas, não é? Cadela, puta... ”. ...
Por fim largava-a. Voltava para a mesa, comia outra malga de sopa, bebia, raras vezes se lavava. Deitava-se.

Francelina chorava sem um ruído. Arrumava o que havia a arrumar, engraxava de sebo as botas de seu marido, recolhia as roupas caídas junto ao leito e, quando o julgava adormecido ia levar as malgas aos filhos às camas. Finalmente, quando as crianças adormeciam, voltava ao quarto e tomava o seu lugar na borda da cama, no silêncio que a palha lhe permitia.
Noutros dias, naqueles em que ele a tomava e a achava seca, nem por isso as coisas corriam de melhor feição “puta, não queres o teu homem? Gostas mais dos moços de estrebaria é? Ou dos oficiais de cavalariça? – dizia-o em alusão clara ao facto do primeiro marido ser da tropa. -, “morreu, puta, deste cabo dele, não foi? Rebentaste-o debaixo de ti..., agora rebento-te eu, que vais ver o que é um homem.”

Francelina foi a enterrar. O povoado inteiro em torno das crianças. Os padrinhos a adivinhar a falta. Cada um para sua banda. Cada um por si, ou Deus por todos...

Ele seguiu o padrinho, sapateiro de profissão. O pai desceu ao Vale três semanas mais tarde e naquele mesmo dia fez-lhe a trouxa, amarrou-a um pau e deu-lha para a mão.
“… vai, o teu padrinho já te espera. Aprende a profissão. Aqui não há lugar para malandros”.

Tinha onze anos. Olhou pela última vez os cães, olhou a casa deserta das feições de sua mãe. Abraçou. um a um. os irmãos, desceu o monte, procurou o vale e lá a casa do sapateiro… era noite fechada. Guiou-se pelas estrelas “uma, duas, três, quatro … sete-estrelas e umas botas”.
Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...”
Apenas o eco: Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...” Um homem não chora! Não era homem: chorava...

“ ... um dia hei-de fazer-te as botas, filha. Se não as fiz para ela...”
Nunca a nomeou. Como se as lembranças o matassem dia a dia, como naqueles dias em que o via a ele a possui-la, à sua mãe, ali na cozinha de lenha, quando o julgavam já acamado. Jurou que um dia o matava... mas ela morreu primeiro. A sua mãe. Tinha onze anos e foi ser “maltês”...

Olhava-as agora, castanhas, na cor da terra, da terra que aguardava para sempre: as suas botas (que nunca usara), as dela, que nunca as tivera ...
Abraçava-as devagar. lenta_mente.
O céu em Lua cheia.

Soltou os cabelos cor de fogo, os que herdara dela, e, num gesto insano possuída pelo tempo que não foi seu, jurou à Lua que nenhum homem a possuiria sem que a amasse de verdade, que nenhum homem encostaria um dedo que fosse no seu corpo sem que da sua alma se tivesse primeiro apossado em troca da que lhe tivesse confiado. Magicamente calçou as botas. Perfeitas. À sua medida.

Dizem que é Ninfa do Tejo, que o Sete-estrelo dança nas cores de seu olhar ...
                    Dizem!




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Notas:
In Wikipédia: “Sete-estrelo”- Trata-se das Plêiades, um grupo de estrelas na constelação do Touro, que consistem de várias estrelas brilhantes e quentes, de espectro predominantemente azul. A névoa azul que as acompanha deve-se à fina poeira interestelar da região em que elas se encontram que reflecte a luz azul das estrelas.
Referências Bíblicas a Sete-estrelo:Livro de : 9-9 [...] quem fez a Urso, o Órion, o Sete-estrelo e as recâmaras do sul"; 38-31 "Ou poderás tu, atar as cadeias do Sete-estrelo, ou soltar os laços de Órion?" ; Livro de Amós: 5-8 "[...] procurai o que faz o Sete-estrelo, e o Órion, e torna a densa treva em manhã e muda o dia em noite; o que chama as águas do mar, e as derrama sobre a terra: o Senhor é o seu nome."

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...