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Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

ensaio sobre a verdade e a mentira, Victória.

JRLuis, artista circense, Circus AKademie Berlin


… por vezes há que reconsiderar sobre os temas, chorar lágrimas corajosas, revisitar  espaços e lugares onde a saudade é, tal como as nossas cabeças, não mais que uma ilha alagada de imagens;  por vezes, o nosso corpo, último reduto da nossa individualidade, exposto fronteiriço ao lago, devolve-nos parecenças em que dificilmente reconhecemos paridade. e a dúvida instala-se e se transmuta numa caixa de pandora, que aberta, dificilmente se controla; e é da cobra o lugar dos céus, e é da ave a terra e a miragem. e chove dos olhos lágrimas de pedra, e os lábios são sementeiras roxas fendidas de palavras vindimadas, encimados por códigos de barras que nenhum photoshop apaga -  estão e permanecem lá,  ainda que não manifestos, abutres atentos sobre a matéria seca.

submissas aos desígnios das modas, damos mais um passo, Marias Antonietas a caminho do cadafalso,

“que morra, que morra”, gritam uns quantos enquanto que, por dentro, na convicção do dever cumprido, se afirma victoriosa a carne envelhecida, seca cavaca que nenhum lume ateia. e isso mata.
esconjuradas e renegadas, duvidamos da verdade, como duvidamos da mentira. somos aquela ou a outra? somos a que julgámos ser, ou a que que se travestiu por artes mágicas e, por iguais magias, apagou as rugas, retocou as curvas, vestiu a saia justa onde a mulher exacta não cabia mais? na nossa incapacidade própria de lidar com o tempo, perdemos a noção do real, extremamos os extremos, desviamos o desvio-padrão e, no limite dos limites, não ousamos ser, de quem somos, contemporâneos, viver agora e o já. projectamos o futuro num passado imaginado e, por fim, extra-temporais, renegamos o presente – são assim os dias nebulados de que me falava Victória ontem ao fim da tarde, quando me sentei com ela a beber os últimos raios de sol das Lezírias numa chávena de chocolate quente.
noutros dias, continuava,  a memória dos momentos alvos, cada vez mais escassos quando o fim se aproxima,  devolve-nos um universo de música audível de olhos cerrados, um mimetismo equilibrado como uma bola de cristal nas mãos de um artista - harmónica, sensorial, translúcida. desliza em afago de brisa a pele de que somos pele; toca-nos tão ao de leve num emaranhado de percepções e tempos sociais como aquele que a trouxe de novo aqui, menina.  tão ao de leve,  que,  abençoados, tomamos então consciência de que, e  na verdade, é  o tempo escamoteado por nós  que tece e cirze e alinhava uma teia finíssima de atalhos e nos permite revisitar quem fomos.  é o tempo que, nos que gerámos em ventre de águas mansas, carne, linfa e sangue da nossa própria carne, nos leva à eternidade. e é, na profundidade de uns,  que somos outros, singulares e plurais,  presente, passado e futuro, como agora, entende? talvez sim, respondi a medo. entende? - repetiu. sim, Victória, sim... 

se este diálogo existiu? da verdade e da mentira nada sabemos, sequer das razões que lhes comummente assistem. permanecemos inconclusivos ainda que revisitemos amiúde Foucault, em particular  quando, e a propósito da dúvida conceptual sobre a verdade ou a mentira,  saibamos que terá dito de forma categórica: “… a verdade? a verdade é uma mentira cozida pelo tempo".
a acompanhar os meus pensamentos, como se os lesse,  julguei ouvir de Victória - “e  sobre a mentira nada sabemos,  de igual modo, menina. e essa é a nossa salvação maior. suprema, direi, até …"
levantei-me. a tarde tombava na campina. uma luz serenava-lhe o rosto: era tempo de voltar a casa…


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Physalis, Cremilde, Sidónia e outras mulheres.


a Physalis(1) crescia no vaso de barro. anunciava, em floração de invernos,  o fruto próximo.  de árvore em árvore,  de galho em galho, um bando de pássaros negros abanava as manhãs num chilreio de ignomínias formando uma barreira contra o avanço da tempestade. num trapézio de ensaiar vaidades, subiam de tom, alteavam-se. dispersavam-se, porém,  e depois a chuva retomava o seu curso, espessando a claridade, que, no óbvio, diminuía francamente a visibilidade - o rio era então uma linha leitosa, esbatida contra as margens, contra o cinza matriz do céu.  Sidónia encostou-se à ombreira da casa, embrulhada num robe azul-marinho desbotado como as memórias, e que, àquela hora da manhã, já alta, por sinal, quase meio-dia,  ainda lhe aconchegava o corpo escanzelado de magro. era assim, nos últimos tempos.  sem ocupação conhecida,  e sem projecto de vida, sem quem a olhasse além dos olhos migalhados dos pássaros negros, os tais que povoavam os campos metafóricos da vida,  cada dia se aprontava mais tarde, e, por mais que se tentasse convencer de necessárias ablações, era-lhe inequívoca a urgência reclusa dos espelhos dos olhos. das pupilas, das meninas dos olhos, razão de sua existência. ou não! Sidónia tinha alma de pássaro e estava morta – teria sido talvez por isso que quando os rios se juntaram em forma de cruz, no mouchão fronteiriço, as mulheres sangraram pela primeira vez, e as lezírias foram searas maduras. dizia, para quem a sabia ouvir, da democracia das águas e de como lavavam uns e outros sem atentarem às origens.  lavavam tudo, menos a má língua. 

numa manhã de atrevimento, atreveu-se. olhou de frente o céu, ele mesmo a atrever-se contra o espessamento da chuva, cada vez mais próxima. era a hora de partir.  deitou mão a alguns pertences, colocou a capucha de burel a agasalhar-se nos ombros ossudos, subiu-a ao peito,  determinada,  e contra o queixo, o mais que pode. resguardada assim do frio da invernia rigorosa, saiu para a rua, sem destino concreto. os passos, firmes, igualmente determinados, chão do seu próprio chão,  encaminharam-na para o palácio da sua meninice. mediu diferenças, se as havia, afinou a esquadria. nada mudara, apenas envelhecera. o bulevar permanecia intacto, o lago dos peixes vermelhos ladeado de árvores,  as laranjeiras em fila indiana formavam uma espécie de praça forte contra a rudeza dos dias;  e que dizer do o ar dali, macio, ungento, a vedar-lhe golpes na própria casca?  aspirou forte. isso, Sidónia, tu podes, tu consegues. um passo em frente, dois atrás, um de novo, agora…
talvez devesse dar-se ouvidos – reconsiderar o que a movia além dos passos, do verdete dos caminhos. talvez sim, quem sabe? 
igual a sempre, a profusão de folhas e de cores formava com o barro e com a bosta dos animais passantes uma pasta onde se enterrava, prazeirosa;  um emplastre calmante a que se dava,  maçarica, esperançosa de que, numa outra vida, alciónica quiçá, fosse luz além da barra. um dia, quando seguia a bordo para a ilha, o mestre Carlos falara-lhe dos maçariços, "almas-de-mestre", guias,  as estrelas mais brilhantes das Plêiades, segundo o próprio.
e  não era isso que a minava? pólipos alciónicos? como cogumelos a proliferar nas vísceras... tudo se conjugava afinal... conversa de merda...  quanto tempo lhe restava? querer alienar o tempo, dissera-lhe, era pois, uma impossibilidade - ele deixa sempre marcas. por isso o remédio,  se é que existe, está em não haver remédio;  enfrentar a besta pelos cornos de forma  austera e ríspida.  as bestas não reconhecem outra linguagem, Sidónia.  o doce já não resolve, sabes? por essas e por outras é que este país está como está, cravejado de diamantes em pano roto. fazes parte da "não pandilha" e resistes, ou, pelo contrário,  optas por chorar por dentro como as grutas, criatura? 
ainda te resta a escolha, o livre arbítrio…
um passo em frente, dois atrás; recorrente  o ditado americano "hell hath no fury like a woman scorned" fustigava-lhe o rosto. tantas as formas de traição e tamanha a sua passividade... ultrajante o frio que a varejava de vitupérios e injúrias. seria bruxa, pois. que fosse!
_
saiu sem rumo. havia dias,  vários, e  que a Cremilde  seguramente  pareciam   meses,  que perdera a vontade de se mimar, de se cuidar, de ser quem fora, ou cuidara  ser,  até então.  só a espaços, cada vez mais abetesgados e raros,  é que, e  por efeito dos tachos e as panelas, dos cheiros  das compotas fumegantes ou das sopas, todos eles  fortes e revigorantes, sempre diferentes e feitos a olho, sem medida,  sem regra pelas suas próprias mãos intuitivas, as imagens do futuro se lhe revelavam,  vaporíferas. surgiam-lhe ora  recortadas e  figurativas, ora exactas em geometrias bruxuleantes, contra as paredes.  em ambos os casos despertavam-na para um sentimento a que chamava, plagiando sabe-se lá quem,  de "saudades de futuro". ainda  assim,  conservam-na  numa espécie de banho-maria.  
nesses momentos inalava  profundamente a vida nas coisas breves consciente de que   havia, algures, instalada num lugar distante, uma espécie de metanóia que a penitenciava em clausura e a mantinha prisioneira sem pulseira electrónica, sem apelo, sem agravo, na face oculta das coisas e se transformava na expressão corriqueira do seu sentir.  e havia, constatava vidente, alhures,  um tanque,  piscina olímpica,  de lágrimas não choradas, que, como um vento ronceiro, lhe impunha a mudança no pensamento...
 talvez devesse pôr-se em causa - reconsiderar o que a movia, além da cor. do imediato do seu mundo de folhas amareladas, dos silêncios e dos uivos dos cães, que, em ablação, a entristeciam, talvez devesse. mas não...
foi mais ou menos por essa altura que se avistaram em espelho. Cremilde baixou os olhos. Sidónia, pelo contrário, não tinha nada a perder, olhou-a bem de frente. nunca se soube de que falaram, mas o que quer que fosse durou horas, prolongou-se além do inimaginável. o gelo da noite, como farpas, chispavas-lhe os olhos. na calada, Sidónia, envolta em burel,  uivou e era loba, embrenhada na floresta,
Cremilde retornou os passos. na cesta de vime carregava  as laranjas de todos os pomares que nunca haviam sido enxertados, bravos como ela mesma.  sem pressas, abriu um a um cada fruto, retirou-lhes os caroços, colocou-os a salvo, prestativos os sabia em pectina, cola natural e  consistente. e o quanto necessitava dela para realinhar os cacos - a vida era-me de vidro e partiu-se, disse. quanto às laranjas laminou-as em juliana, cobriu-as com água, macerou-as de forma demorada. no fim trancou as portadas...
uma luz súbita rasgava o ventre da terra, o leito era-lhe desconforto e ansiedade. ergueu-se,
                    soprou o dia, a noite e a madrugada. por fim, na manhã já alta, banhou-se, aprimorou as vestes, enrolou o cabelo na nuca, colocou a rede e as travessas. teria perto de cem anos. abeirou-se da cozinha;  rigorosa nos seus próprios preceitos e princípios, inflexível consigo mesma, retomou a feitura dos dias de laranja amarga...


Nota:(1) Physalis

sábado, 15 de dezembro de 2012

Eu embalo-me nestas causas... E você? "embalagens solidárias"


Não porque seja Natal, mas porque é da minha natureza, e já as divulguei aqui noutras ocasiões, mas também porque é Natal, vos falo delas de novo - das "embalagens solidárias" - , e da sua ENORME utilidade ... Usá-las  é simples, muito simples, ora vejam 
   
CTT's ajudam a ajudar
Onde as encontrar ?

Nas Estações de Correios de todo o país existem folhetos com a informação sobre os bens solicitados e as instituições de solidariedade destinatárias e onde estão disponíveis gratuitamente, caixas de transporte para os bens doados: é só colocar o bem solicitado, endereçar à instituição de solidariedade seleccionada e enviar. Estas caixas de transporte chegarão ao seu destino através da rede de distribuição dos CTT. 
Ex.: Lista de Instituições do Continente e Bens Solicitados
Lista de Instituições Receptoras
  e neste Natal, em especial, esta

     Campanha de Natal do Banco do Bebé

 campanha de Natal Banco do bebe
"...Os bens mais necessários para o Banco do Bebé são:
  1. Leite de transição ou leite adaptado para bebés (dos 0-6 meses e a partir dos 6 meses;
  2. Fraldas descartáveis a partir dos 2kg até aos 20 kg; 
  3. Papas para bebés dos 0-6 meses e a partir dos 6 meses; 
  4. Produtos de higiene – toalhitas descartáveis, cremes assaduras, champô e gel de banho, entre outros.
Basta deslocar-se à Loja CTT mais próxima com os bens que quer doar, pedir uma embalagem solidária dos CTT com a morada do Banco do Bebé e colocar lá dentro os bens a doar. Os CTT enviarão para o Banco do Bebé sem custos e o Banco do Bebé fará chegar a quem mais precisa.
Nota: poderão enviar ainda outros bens necessários para bebés e crianças até aos 6 anos de idade como roupa nova ou usada em bom estado, mantas, roupa de berço ou cama de grades." 
in CTT

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Em suma, 

1) existem instituições das mais variadas, a apoiarem os mais diversos tipos de carências e públicos-alvo, sejam eles, crianças, idosos, doentes, refugiados ...  e/ou sócio-excluídos da sociedade, seja qual for a sua origem e a razão...

2) existe uma empresa, os CTT, que se disponibiliza a fazer chegar a quem precisa, de forma absolutamente gratuita, a sua ajuda.

o que não existe, na verdade, é como dizer que não pode embalar-se nesta ideia... 
 (um exemplo só: a ABRAÇO recebe cabos elécticos para reciclagem ... )


Cabe-me, por fim, expressar aqui, e na oportunidade, a minha gratidão de sempre a todos quantos me honram com a sua presença, quer aqui, quer na minha página homónima, de poesia, no sapo.


Feliz e Santo Natal


Bem-hajam  


Nota: Fotos e informação da net 

   

 

 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

“marcos-falos” [republicação]


Enquanto viajava detinha-me sempre nos marcos quilométricos da estrada. Uma referência ao destino que, à falta de GPS, me ia conduzindo, dia após dia, a distâncias de mim (ou proximidades) na medida exacta que me aproximava do local para onde caminhava. No caso, o espaço onde trabalhava à época, numa perdida aldeia Ribatejana, vizinha do rio.

Era Inverno, no seu início. Os dias estavam já pequenos, bolorentos e tristes. Os frios sentiam-se dentro e fora de casa. E nas almas; e nas palmas das mãos e nas espinhas/esqueletos e nos corpos. E nos corações… no meu, no deles…; no frio congelavam os sorrisos e os afectos. Como conchas, cada um a seu modo, engolia o molusco que o habitava, num processo de pré-hibernação. Envoltos em mantas, uma espécie de múmias vivas. Ali!

“O Inverno aqui, Doutora,  é sempre muito triste, depois verá …”. Laura, a cozinheira foi-me adiantando logo nos primeiros dias que cheguei … Era então Verão, num Julho a torrar as uvas das vinhas circundantes. Num sol estuante e inóspito. Não saíam de casa; calor em demasia …, cansavam-se. afogueavam-se…, “...mas no Inverno então, verá… isto é um desconsolo. um dó de alma.”

Via-lhe a verdade do discurso no olhar e nos maneirismos do corpo. E temia que tivesse razão. Temia o Inverno, retinha estas e tantas outras conversas, retalhos amiúde com que ia construindo as mantas trapeiras da minha própria velhice, e que guardava, a contento, em baú de sândalo. Memórias que dançavam agora à minha frente.

Respirava fundo, bebia a estrada, focaliza os marcos. Concentrava-me nos pequenos paralelepípedos de topo boleado a emergir da berma, altivos … na estrada e na vida. Alguns jaziam quebrados no chão de alcatrão empapado pela neblina matinal, nalguns locais gelo, estado vítreo…

Um dia lera de um autor que, a ele, lhe pareciam falos. Falos decepados pela metade (mais ou menos esta seria a ideia, de que não me consigo sequer recordar onde e quando a imagem de “marcos-falos decepados” entrou na minha caixa de “parafusos desapertados" …). Pouco importa. Incorporou-se em mim, e, em ausência exacta de referência bibliográfica, perdura per si, imagem: “marcos-falos decepados” no rubor da tumescência, no ardor de uma qualquer paixão, ou à falta desta, de excitação induzida, vulgo masturbação.

Viajava, conduzindo maquinalmente, e, naquele dia, mais que em qualquer outro, os marcos e as conversas da tarde anterior com Bonifácio, queimavam-me os neurónios, ainda semi-despertos, à falta do café da manhã e na falta de respostas sociais e socialmente certas.

O que era o certo? O que são as (in)certezas livrescas perante as realidades pungentes da vida? O que é lá isso de “envelhecimento activo?”. Afinal não era esta a temática que me havia num qualquer dia da minha própria utopia, proposto a estudar? - “Envelhecimento activo”… a que níveis? Com que níveis e grau de satisfação? Em que condições? … “marcos-fálicos” …

“...menina, somos velhos mas não somos capados como os porcos, nem sequer nos cortaram o pirilau, entende …, mas olham-nos como se fossemos. Para a maioria desta gente, ser velho é o mesmo que perder tudo. Perder a identidade, perder a vontade, perder a dignidade, inclusive perder o interesse por uma mulher …somos quase robôs, autómatos… “vá para ali, chegue-se para acolá” … lavam-nos e vestem-nos como se fossemos bonecos desarticulados, e, tantas e tantas vezes não entendem que ainda somos gente…”

Dizia-me tudo isto num rompante de palavras, como se, se o não fizesse, perdesse definitivamente a oportunidade de o fazer, e, simultaneamente, a coragem de, num qualquer dia, numa qualquer tarde, abordar o assunto. Dizia-me enquanto bebia o sal das lágrimas que lhe incendiavam a espaços o olhar mortiço. Dizia-me enquanto as face enrugadas, vincadas aos ossos e aos registos dos tempos, se enrubesciam de genuína vergonha.

Jaime olhava-me fixamente, tentando entender sinais de mim, ao mesmo tempo que, olhava, estupefacto, o seu companheiro de quarto Bonifácio, sentado na cadeira a seu lado. Nos sofás em frente, outros idosos residentes olhavam distraidamente o ecrã da televisão, ou, em alternativa, dormitavam… não falavam, quase que não comunicavam entre si. Eram assim os dias de Inverno de que Laura me falara nos primeiros dias …

Bonifácio agarrava-me o braço num gesto de quem quer uma bengala, de quem quer, da parte de alguém a quem chama de “Doutora”, a afirmação lógica e científica do “não despautério” que acabava de dizer …, então não lhes diziam sem dizer que já estavam meio-mortos?

Agarrei-lhe a mão. Transpirava abundantemente, gélida. Olhei-o nos olhos, não sabia que dizer. Envolvi-o num afago de olhar, apenas. Não lhe disse nada… Continuou:

“...sabe, a minha mulher que Deus haja – que a tenha em bom descanso, que já se me foi há quase dez anos -, era uma companheira e pêras, percebe Doutora? Entre nós havia amor, e, nem a Igreja, nem o Senhor Padre (o que morreu, bem se vê...) nos viesse dizer o que, entre a cal das nossas paredes, podíamos ou não fazer… éramos crentes a Deus e casámo-nos e amámo-nos à luz dos Sagrados Mandamentos mas também muito para além do que nos queriam fazer querer ser a palavra de Deus para o matrimónio: gerar família, procriar, cuidar dos filhos e da fé...
Só para procriar? Não, Senhora Doutora (sorria)…, sempre que podíamos, ouviu? Às vezes – tanta vez -, vinha numa corrida à hora da janta aqui a casa por via de poupar a minha esposa a canseiras de ir levar-me a merenda ao campo. Vinha àquela casita além, que a Doutora sabe, onde antes vivia, e, perdão da palavra … que se lixasse a sopa, porra… que se lixasse ...  Comia um naco de pão seco na volta com um punhado de azeitonas … a gente a modos que se devorava um ao outro…. Ai menina … só se perderam as vezes que não foi assim (sorria de novo…); fui feliz menina, com perdão, Senhora Doutora, mas e agora? Como quer que me resigne a esta solidão, a este desamparo? Não fiz voto de castidade, não sou padre, e, mesmo eles, vossemecê acredita que são castos? Ora, ora … Valha-me Deus que tudo superintende… nos céus e na terra, nos mares e na guerra santa...
Não acha normal que ainda sinta vontade de amar, de namorar outras mulheres? Que ainda sinta vontade de abraçar e beijar outras mulheres? Ora diga lá, que a senhora deve saber se, por um homem ser velho – tá certo, tenho quase oitenta anos -, não tem coração? …”

Bonifácio não sustinha as lágrimas. Tremia. O lado esquerdo estava-lhe paralisado de um AVC, ia para mais de seis anos, mas em termos cognitivos e de memória estava lúcido. Gastava o tempo a fazer palavras cruzadas. Tinha feito o exame da 3ª já homem, à luz do candeeiro de petróleo - contara-me noutra ocasião. Ao lado Dulce, sua mulher, que o acompanhava noite a dentro enquanto remendava as calças farpadas dos trabalhos do campo, e que, nem sempre entendera aquela vontade de conhecer letras. Queria que se fosse a deitar. Entende, menina... perdão, Doutora? ... mas que mais tarde, quando ele já sabia ler e ela não, era pelas letras dele que ouvira lindas histórias…

“...contei-lhas, Doutora. Li-lhe as Farpas, O Cavalo Espantado… conhece, Senhora Doutora??? Ela gostava tanto... Nunca aprendeu as letras, nem grandes nem pequenas, não andou à escola em menina, em adulta não tinha tempo, pensou aprender quando fosse mais de idade ... e depois padeceu de cataratas, ainda menos … ”;

Homem capaz de enumerar factos e datas, suas e da sua aldeia, sem vacilar. Capaz de ordenar rigorosamente quem havia chegado e partido do Lar depois de para ali ter entrado… A biblioteca a que as funcionárias recorriam quando queriam confirmar este ou aquele dado… mas, pese embora esta realidade, eram, tantas e tantas vezes, ainda que sem consciência do quanto o magoavam, elas as primeiras as que, em surdina, censuravam os seus olhares sobre uma mulher quando saiam em passeios, por exemplo. Na Festa da Flor, no Magusto... escassos momentos em que se viam rostos outros que não os dos residentes como ele e os delas próprias a quem guardava respeito como se fossem suas filhas. Suas irmãs. Sem sexo e sem corpo. "sabe Senhora Doutora, nas noites, nos turnos, oiço-as ali na sala a falarem umas com as outras, a rirem das vidas delas. Fico feliz, são a minha família agora ...". Mas troçavam em surdina, sim... E disto Bonifácio, como de todas as outras realidades, se apercebia e com isto se magoava. E nada dizia. E tudo calava. E morria todos os dias um pouco. Agora estava Lícinia no Lar. Tinha sido sua parceira na dança no Rancho de Folclore Espigueiros do Tejo. Agora o seu coração palpitava de novo. Agora queria dar-lhe a mão e levá-la a ver o jardim em frente… e, porque não, ler-lhe a Morgadinha dos Canaviais, ou o Crime do Padre Amaro ...

        “Acha o quê, Senhora Doutora? Que pensa? ...Bem sei que estamos os dois aqui, que não devemos dar maus exemplos … mas gosto dela, Senhora Doutora… vossemecê, que me diz? Diga-me, por amor da Santa Senhora D’Alcamé, … É mau um velho ainda amar? É?..”…

            “marcos-falos”… Espigueiros do Tejo, 1Km. …
                                                   A quantos o fim da estrada, Bonifácio?

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Publicado aqui, em 25/09/08, e, posteriormente cedido (1) para inclusão na   Antologia "Quem acrescenta um ponto ....", 2009. 
(1) vidé 
"Sinopse: Colectânea de contos escritos por alunos da Escola Secundária Avelar Brotero e que conta com a colaboração de cinco escritores que disponibilizaram histórias e poemas para a mesma. A organização desta antologia foi efectuada também por alunos desta escola de Coimbra."

sábado, 25 de agosto de 2012

equilíbrios



No jardim um pássaro acende a tarde e é verão...
(Chamaste ou é o apelo da noite que aí vem?) (1)

o problema, disse-lhe, não é tanto o que tu és hoje, mas, essencialmente, aquilo que não queres ser. nem hoje, nem amanhã, nem nunca. trata-se, na verdade, de  uma questão de resiliência,
ou de princípios, como lhe queiras chamar - brumosos nos são os espaços em que o tempo se vigia  a si próprio, concluiu, melódica,  em pausa.

melissa olhou, frontal, o rio.  a dois passos, na colina ascendente, o fogo consumia campos de memória. impotente, levou a limonada aos lábios, prescrição antiga, herdada sua infância: “bem sabes, ensinei-te: espremem-se os limões,  e, para que não trave tanto, adicionas-lhes uma boa laranja.  da baía, se as tiveres. espremes tudo para um jarro de vidro; juntas o açúcar (pode ser moscavado, eu prefiro, é mais saudável); finalizas, por fim,  calmamente, vertendo sobre o preparado água a ferver,  e, claro,  não páras de mexer.  depois cobres  o jarro com um pano de linho branco. deixas arrefecer totalmente; quando frio, juntarás cubos de gelo... quanto à hortelã, não a esqueças..."
tomou o copo de um só trago;  o gelo das pedras, formas caprichosas do que já fora, horas antes, água, colocou-se, peçonhento,  à fala. desejou chorar como todas as fontes caladas da colina acima em esbanjamento de culpa,  mas apenas uma lágrima se atreveu, ácida de sal e dor, e,  logo ali, parou, estancada, na fronteira pestanuda do olhar,  foi-lhe,  apenas
cloreto de sódio.
desejou-se, a si própria, talentosa, ágil e hábil, capaz de contornar, um a um, liminarmente, todos os obstáculos,
desejou-se
distante do seu passado,  e, contudo, próxima do futuro de ser presente,
- o passado volta sempre, maria, dissera-lhe naquela tarde de Agosto.  "a solidão tem tanto Agosto"(2), e,   por isso, vamos íngremes pelo espaço da memória em busca de clareiras de segurança e tranquilidade, em busca de emoções equilibrantes.  talvez por isso tu me tragas aqui, e eu, apaziguada, solte a língua das pedras e do gelo das limonadas e  te fale de mim, de quando tinha numa cama amniótica a esperança perpétua de ser continuidade,
sabes, maria, um dia escrevi, quase te posso recitar em voz alta,
… no trapézio da vida, há, seguramente, uma nota simbólica.  e há, em absoluto,  simbolismo em tudo isto - tu estás aqui e poderias não estar. acreditaste.  és, do amor, prova inequívoca, semente a germinar em condições inóspitas. e força.  e determinação, e, por isso, também,  multiplicação do pão-palavra em minha boca.
sorriram ambas. cortaram as emoções num, vamos à Areia Branca comer um gelado? bora lá, eu pago...

que importava quem pagava, ou se até não pagava?  não mais esqueceriam aquela tarde. nem os livros, nem as cartas de marta a maria, nem do limoeiro, ou os limões, sequer das limonadas que as levavam de regresso aos pátios, às chácaras, e à infância.  aos cheiros dos verões, da roupa branca, do sabão, da simplicidade, da arte das gomas e das  barrelas, do cheiro do vime. de ambas.
de menta com pistácios? não, de manga com canela... igual para mim!
a tarde caia nas vagas sadias das suas mãos, na conversa lenta,
não podemos descer a Pai Mogo, devido à instabilidade das escarpas. não vá o diabo tecê-las. costumávamos ir na maré-baixa...
...
regressou a si. as labaredas contornavam a serra, estavam próximas do casario. uma nuvem de fumo espessava-se contra os vultos frios das pedras. humanizadas, tomavam uma cor de medo. e  nada que era humano lhe(s) era estranho. nem sequer o grotesco das labaredas a encarquilhar cepas,  a dizimar esperança de ser vinho, numa dança com os bagos,  pedúnculos e cachos, a arrancar-lhe(s) o sal, o mel, e as cinzas.
a morte não existe, disse, apenas da vida uma porta de passagem. como um portal, um arco-íris…
ou uma esquina,

tenho sede - determinou. sede. simples não é? nisso não há  qualquer novidade, é verão.
...pois, será por isso.

encaixou-se na poltrona de verga, afundou-se, profunda,  até ser, desta,  quase parte; sem terra firme,  tomou o jarro, verteu de novo. reteve a forma. a limonada, de partículas antes suspensas, assentava o fundo do copo que, quente das palmas submissas de suas mãos, a transformavam: mais se assemelhava a água choca. bebeu-a, ainda assim - fruto do meu fruto, e, no meu ventre,  real e  reinventando, verbo - frase,  traço contínuo, recta sem ponto final. porquê? para quê? para quê????
da serra, o vento.
o fogo, a chama - à beira do fogo, crepita o fogo, a acha, a chama. e o vento. há, escuta bem,  um gemido fino neste vento. consigo ouvi-lo, maria, e, por isso, não nos foi possível ir à ilha - oiço-o aqui, tal como te oiço, a desfolhar trevos de memórias, trevos de quatro folhas.  naquela tarde, não nos foi possível a travessia (nem sempre os tempos são propícios)...
agora aqui,  na lezíria, percorro  palavras de Einstein - quando não há crise, todos os ventos são brisas.
quem dera, fossem!
e são, dirias, confirmo-to! brisas marinhas.
quando regressas? amanhã? no próximo verão? quem sabe? iremos comer gelados e ser de novo meninas no areal da praia. claro que sim. claro que sim…claro que sim.

melissa ergueu-se, recta. por essa altura, dirigiu-se aquele lugar só dela - nunca falara dele a quem quer que fosse.   como, jamais falou, ou falaria,  das  linhas subtis, e suas guias,  na noite escura.
subiu as escadas, degrau a degrau. escutou-se, atenta. sentiu apenas a poeira ao redor dos pés. o ranger dos dentes e do sobrado. o choro dolente das árvores consumidas, o gemido, fino,  pianíssimo: basta-me que respire. que respires, tão-somente,  na melodia breve de notas de rodapé, apelo uterino dos frutos tomados das árvores - as suas árvores, os seus frutos. simples. muito simples. na simplicidade das coisas simples que tanto a engrandeciam.

regressou ao pátio. os dedos, pesados dos dias em negação de afagos, demoraram-se no vidro grosso, nos contornos trapezoidais da estrutura a que se apoiava. abriu a janela, um raio de luz iluminou o sobrado.  de novo os olhos parados no vermelho acidulado das labaredas. de novo o fumo a tingir a copa das árvores, o negro viscoso das coisas indizíveis. de novo a crise segundo Einstein,
"... a criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura",

encenou os passos.  de novo aquela fome das palavras próprias, capazes  de engolir nevoeiros e  labaredas.  apostou-se contra a estrutura. o barrote, trave mestra e estrutural, rangeu.  o sobrado, ferido das palmas e dos pés ausentes, iniciou o bailado de vésperas.  inúmeras, indispensáveis, as notas de um piano de cauda deram o mote. depois, afirmaria,  havia ali uma orquestra, íntima e  residente,  transparência das escamas e acervo de um casulo de peixes voadores,  que a abriga no contraditório de todas as coisas e si própria.

olhou o copo. estava vazio de coisas e pleno de graças. num pacto de sangue, afagou o ventre, dedicada. como quem gira em torno do mundo, subiu a mão, ao lugar de abrigo. aqui, estás aqui, entronizado. aqui, na furna que sopra,  
       "amar-te é antigo e não acaba"(3)...

melissa, maria, marta, imperatrizes de um templo salvífico, humanas e terrenas, sabiam-se distintas e comuns aos ciclos das colheitas. sabiam, de modo igual,  da audácia dos cardumes, da ordem das colmeias e da descoberta dos corpos.  e da elegância dos gestos novos,

            e de como o Outono acalenta a terra prescrita para a queda branda das folhas…



(1) Eduardo Bento, in “O nevoeiro dos dias”,  (65 Poemas), 2009, Ponte Editora
(2) Alberto  Pereira, in "Amanhecem nas rugas precipícios", 2011, Edium Editores
(3) Casimiro de Brito, in "Amar a vida inteira", 2011, Roma Editores 

sábado, 30 de junho de 2012

descodificação dos poentes



sentava-se, por vezes, na tarde que passa, a descodificar os poentes. entre o rio e a estrada. 
se não contas a tua história, estás a falar de histórias vazias, balelas, frases feitas, em que, para teu comodismo, e, porque não, para os demais, os outros, aqueles que  te escutam, dizes o mundo plano; simplificas em demasia, e, nessa simplicidade radicular, retiras a beleza óbvia ao contorno dos gomos das árvores que ocultam a casa morena dos teus olhos …

colocou-lhe dois dedos unidos sobre os lábios. a mão dele, húmida, trémula, reteve a sua. mediu-lhe o pulso na tempera dos dias tristes. olhou-o, plena, imensa, a acolhê-lo, como só ela sabia. havia  um vagar doce e magoado, uma cor de asfalto, esculpido e portentoso, no timbre nortenho da  sua fala. uma constatação súbita de percurso, a mensuração irrefutável de um destino ainda não alcançado, havia,

eu oiço-te, disse-lhe. ainda que nada fales. oiço-te.
redobrou-se a olhá-lo,  redonda na ogiva terrena dos seus olhos de terra. confirmou-o num gemido, numa súplica.
fica. fica!!!  não lho disse. nunca lhe disse,  contudo.
ao invés, atirou-lhe, súbita:
 ...que códigos imobilistas são esses em que tropeças e te impedem a progressão óbvia dos passos? ...
queres mesmo que fale?

estavam ali, finalmente a respirar o mesmo ar, a beber do calor que lhes vinha de dentro. um neblina subia, vaporosa,  canícula a derreter percursos. o  alcatrão pastoso. e as palavras.
fala... fala... 
suspensos.
...sim, claro. falaremos. quem começa? eu, falo, disse-lhe ela.
...do que me recordo, assim - quando as nascentes eram escassas e a água não alimentava os peregrinos, tu chegaste qual bênção.  talvez por isso, a imagem não nos fosse alternativa única e/ou necessária - havia, em rigor, rente às tuas margens, na quadrícula exacta onde projectaste o holograma do meu corpo indizível,  o rumor ázimo das minhas fontes num latejar de tempo novo, acérrimo e intuitivo...
interrompeu-a, 
... e as batidas ritmadas das pedras?, e, do que recordo, ainda, quando cerro os olhos à tua falta,  um relógio de sol, pousado no teu corpo de dor e  d'água, 
... simmm...sim...
disse-lhe num fio de voz, de negação infirmada. 
Erica, Erica... fica. por favor.
olharam-se, nus,  na casa ossuda dos corpos envelhecidos, pela primeira vez. despidos, como sempre imaginaram. leves. como se pássaros fossem. na curva onde o rio se insinuava,  era-lhes, àquele tempo,   distante o mundo  e  uníssono o  querer e o sentir.
lembras-te? eu abria-te, moroso, o fecho do corpo, o teu vestido de sombra  tombava
açucenas
nardos a teus pés, 
...sim, e agora?
nada....
deu-se conta disso quando o ventre  respondeu ao movimento das palavras. não sentia nostalgia nem saudade - apenas uma espécie de quirozene a  levantar-se dos ponteiros do relógio de cuco suspenso na parede por um prego enferrujado. cento e trinta anos de espera... cento e trinta!!!
que importa? 
Erica, meu amor...

caminhavam as searas. o verão, cão raivoso, aferrava-lhe os músculos tensos. olhou-os, atenta, na busca de lhes encontrar movimento. inquietava-se desnecessariamente. no estore veneziano,  por vezes (e só nessas circunstâncias), quando as pestanas, árvores metamorfoseadas a azul cobalto, lhe impediam a visão límpida, um glaciar antigo parecia cortar o tejo. ai, aluviónicas, as sementeiras  e as maças do rosto contraiam as verdades indesmentíveis contra o céu da boca. fazia-se silêncio. pão em sua boca. e aquela fome de amá-lo...
Erica...
o que faço com que tenho dentro de mim?- disse-lhe. há, pressinto,  uma engrenagem de processo, um amontoado de peças, sobressalentes, por certo, sempre dispostas a colmatar as falhas mais visíveis, e estas folhas, virgens dos teus dedos, que agora lês - não sou eu e também sou, somos sempre o rastilho da tinta antes que o bico raspe a folha,  aparo rangente, impiedoso,  a imitar o som do vento...
somo-nos,
sobreviventes!  é isso...

no pousio da hora, regressava ao tempo em que o conhecera - era Dezembro, estava frio, o Natal tilintava nos copos de vinho que a obrigavam quase a beber; nunca bebera. todos sabiam. e ainda assim...
és dona de ti, Erica. ninguém te pode obrigar a nada. mesmo a nada. bebeu. no néctar adivinhou a grainha. as cepas retorcidas. o sol nas folhas. a terra ressequida. bebeu de  novo, a comungar o cálice.
ele vogava entre os demais, aceso num cigarro que teimava em bengalar-lhe os dedos; parecia ter milhões de anos sobre os ombros de tão corcunda. o cinzento da estrada sobre os cabelos. cinzentos. um gemido uterino de dor apossou-se dela. bebeu de novo. sentiu vontade de o proteger, de o amparar, de lhe dar, naquela hora, e já, um abraço perene, que lhe devolvesse o porte, a dignidade, a força que lhe adivinhava, convicta de que lhe era caminho. ao invés, amparou-se a si própria no terror do escuro. que fazia ali? em tudo há um propósito. talvez.
Érica!!! o acento no nome dela. a sílaba tónica. 
Érica!!!!
...

ao fim de, para ser quase exacta,  trinta de dois mil e um cigarros, sugados até ao sabugo dos dedos, e destes, fogo-fátuo, a alumiar-lhe a estrada, foram os olhos dela que o guiaram,  linhas difusas,  ou, como ouvira um dia, sabê-la, exacta, e  ilha sua, contida na raiz da baixa-rio...

                                       de  quantos cigarros se fazia uma jangada?



domingo, 13 de maio de 2012

Balbucio

(Republicação)

Pese embora a forma como chegara ao bairro, corriam os fins dos anos sessenta, o senhor Aquilino era estimado e considerado por todos. A fazer jus ao nome, já entrado na casa dos setenta, mantinha o porte e a verbosidade de sempre. Sem ocupação outra que não de vigiar a miudagem e arbitrar contendas entre vizinhos, gastava o dia para cá e para lá ao longo da linha branca orlada a amarelo ocre:  o “seu” bairro. Em passinhos mansos, como quem “não quer a coisa”, o Senhor Aquilino, às páginas tantas, tinha ganho, à boca pequena, o epitáfio de “o pisa-flores”. O “pisa-flores” para cá, o “pisa-flores” para lá…
Com o decorrer dos dias, dos meses e dos anos, quase todos se tinham esquecido do seu verdadeiro nome, ou melhor dizendo, daquele com que se tinha apresentado aos restantes moradores, quando, numa tarde alcantilada nas memórias de todos, a Vivi, Virgolina de seu nome, por ele se fez acompanhar de braço dado…
Teuda e manteuda, abrenuncio Santo Padre…, bem se via pelo andar da carruagem que este era o destino dela. Nunca teve dez alqueires de siso. O povo diz com razão: "muito riso, pouco siso". Por conta, é o que é. Uma afronta para o bairro. Somos gente pobre, mas digna. Aqui nunca se viu coisa igual…”
Vira. Mas a memória colectiva era curta. E apontar o dedo dava jeito. Enquanto se apontava o próximo não se falava das misérias próprias. Mas isso era “outros quinhentos mil-réis” e, do que vos falo hoje é mesmo do “pisa-flores”. Ora não nos desviemos então…
À porta do número 31, lá estava o Ford preto, chovesse ou ventasse, estacionado e empoeirado pela falta de uso. Só uma ou outra viagem à cidade se impunha e, nesses dias, nos que antecediam ao grande acontecimento que era o de ver o Ford de marcha à ré a levantar poeira por todos os cantos, Vivi e as manas, desdobravam-se em idas à fonte, lavando primorosamente o distintivo da sua “qualidade de vida”… zelando escrupulosamente para que, nem um só risco ofuscasse o fulgor do dito, quando descesse até à, Nacional 10. E, claro, nos lavadores e nas lojas, por onde passavam ou mandavam se não iam, sempre iam anunciado a necessidade imperativa do “Senhor Advogado Aquilino”, ir à cidade receber as rendas e vigiar o bom andamento dos seus negócios…
Por aqueles tempos não se sabia ao certo que negócio tinha o “Senhor Advogado”, nem que rendas lhe eram devidas. Fossem quais fossem, o certo era que, sempre que voltava, a Vivi ostentava o sucesso das itinerâncias e os dias da ausência eram sempre de grandes labutas. A casa arejada, encerada e limpa ao pormenor. As jarras enchiam-se de flores e Vivi dormia e andava de rolos na cabeça vários dias antes. No dia da chegada, defumavam-se as divisões com folhas de laranjeira e rosmaninho e mais umas quantas plantas secretas, por via dos maus-olhados. Vivi vestia um dos seus melhores vestidos, as manas gastavam meio dia a ripar-lhe os cabelos até ai enrolados em rolos, como já se referiu, e cuidavam para que tudo fosse a contento do “Senhor Advogado”. Os acepipes, o prato principal… O vinho...
E, ei-lo que chegava…
Nos dias seguintes ao regresso, quando os homens voltavam das fábricas e dos campos, lá estava ele, encostado à figueira centenária, com o cachimbo da “paz” na queixada adunca… Esperava-os para lhes falar da cidade grande e, como não quer a coisa, ir ouvindo aqui e ali o que lhe interessava ouvir: dos bulícios, dos desconfortos, dos anseios e movimentos dos trabalhadores: - “Confidente, meus senhores… estejam comigo à vontade, mas olhem o balbucio… falem baixo, nada de confusões, perguntem, perguntem que, no que puder vos hei-de ajudar… mas cuidado com o balbucio, homens, cuidado…É que há a lei e o espírito da lei, como sabem…”. Enfatizava o “balbucio”, vezes sem conta...O eco propagava-se em mim, desmesuradamente: “Balbucioooooooooo”…
Menina que era à altura, agarrava-me ao macaco que meu pai vestia, tremendo que nem varas verdes… Balbucio? Quem seria? Se havia uma Balbina, uma Ti-Balbina, podia ser um Ti-Balbucio… mas não me fazia sentido… Os “Ti” da serra eram todos pachorrentos e boas pessoas e aquele “Balbucio” a fazer fé no tom com que era prenunciado, pela certa era ou bicho ou coisa ruim… Temia, pois. E, porque me haviam ensinado a não me meter nas conversas dos adultos, não perguntava nada mas quando a noite tombava e as estrelas se escondiam no galinheiros das minhas “pitas”, escondia-me por sob todos os cobertores e rezava ao menino Jesus para que me livrasse do “Balbucio”… E ao pai, à mãe, aos primos, e aos vizinhos… E à minha cadela Traquina, e ao meu gato Jeremias… A todos. Todos…
Correram os tempos. As viagens continuaram. As do Ford, as do Senhor “pisa-flores”… E, curiosidade das curiosidades,  a aldeia deixou de ser tão tranquila…
A cada “itinerância” do Senhor Advogado, correspondia uma agitação sem comparação no antes… Homens estranhos começaram a visitar a aldeia amiúde. A visitar as casas de cada um. A vasculhar as casas de cada um, detalhadamente. As vidas de cada um…O banzé, o “balbucio” tinha por fim chegado sem aviso… Mais baixo que se pronunciava o cognome de “pisa-flores”, passou a correr outro cognome como senha … “o Pide…” Mas não a tempo de uns quantos, aqueles que haviam solto a língua naquelas conversas inocentes de fins de tarde sobre as figueiras dos figos de capa-rota, não terem “rebentado a boca”. Uns presos, outros admoestados e devolvidos provisoriamente à liberdade…
Agora já ninguém confiava a disputa das contentas ao Senhor Advogado, nem sequer paravam por perto dele. Agora era o tempo de cerrar fileiras a estranhos ao bairro. E cerrar a boca e abrir os olhos e os ouvidos. E medir o rigor de cada palavra. “da lei e do espírito da lei”, dos rumores e dos balbucios, do “diz que disse”.
Não disse! Não ouviu! Não viu! Nem sabe quem viu, ouviu ou disse…
Estancar a verborreia num garrote apertado… Apressar o passo!
Afinal, foram dele sempre as palavras “olhem o balbucio, meus senhores, olhem o balbucio…”.
                            E minha a intuição de que “balbucio” só podia ser coisa ruim…




Trabalho fotográfico: desconheço o autor

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...