Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

sábado, 5 de janeiro de 2008

Escancarei o horizonte

Escancarei o horizonte,
decantei águas rasgadas de todas pontes. De todas as fontes…
Abri as pernas e pari.

Eras o último amor a rasgar asas no perfil vazio do rosto da solidão. Senti os pés gelados cravados em lajeado granítico e julguei serenas raízes …
E em mim refloresceram flores, e em mim poemas ecoaram ondas rubras de sangue, suor e penas.
Escancarei astros moribundos, palmilhei despida a terra nua,
bebi lamaçal de todas as valas, de todas as valetas de todas as ruas, insuflei bálsamos de todos os atoleiros e, desmedida, abocanhei ainda estrelas na ânsia maior de ser sonho, de te dar o meu olhar de mar risonho, de te dar o meu colo aberto e, em mim e de mim, jorraram bocas franqueadas no pavor inóspito de escalpes arrancados às virgens madrugadas.
Caladas!
E os silêncios ecoaram hipnoses, e os poemas dilaceraram sílabas desvalidas de tão perdidas, entre o hipotálamo e a hipotenusa do círculo vicioso da tua vida.
Da tua vida…
Busquei o sagrado no sangue derramado em cruz, bebi do cálice da minha própria dor e fui tua.
Era nesse tempo flor.
Flor incerta de pétalas assépticas, marginadas cérceas à margem do desamor.
Coloquei um lençol de linho na minha cama de mulher, ungi o corpo no perfume esguio, no fio de uma roca por tecer e, semi-deusa, submergi e esperei que sobre mim, que sobre ti, que sobre nós, descesse o Sol das searas de trigo por colher. O azul da luz…
No leite dos cactos e das piteiras embriaguei a solidão da espera de uma vida inteira.
E os meus seios foram teus outeiros em deleite do acontecer.
A noite chegou em gritos amordaçados e os corpos não se ajustaram grudados, nem as bocas, nem os beijos, nem as águas se amancebaram nos seixos perpetuamente rolados, do rio ao mar.
… do rio ao mar!
A noite chegou sem a tarde acontecer…

Escancarei os horizontes,
as sílabas subiram, descendo os montes, em hecatombes de claridade, desaferrolhando silhuetas de pássaros por dentro de todas as chagas. Voaram-se para além de si. Perfuraram penumbra adentro… por dentro de mim, por sobre ti, quebrantados, não mais que amantes pulverizados no desenlaço de em si volver.

São agora sonhos que um dia pari e que vi morrer.
***
in "Textos Esparsos" © Todos os direitos Reservados

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Chão de maças ...

Chão de maças…
Agora nu, gretado de tão esfriado, já não retém o cheiro no vazio perpetuado e na geada das manhãs. Nas franjas das suas saias e na ponta roxa das canelas apenas a lama recorda a enxerga pálida, o leito ardente d’antigamente.
O chão lavrado, o mar arado …
Caíram as últimas folhas…
De reduzido metabolismo restam apenas as que o céu silvestre de Inverno agasalha e talha. As persistentes.
As insistentes.
Friccionava as mãos de gestos dormentes. Olhava o infinito campo e nele o tempo dos ramos elevados aos Deuses, dos ramos afilados a perfurar planos. Todos os seus planos. O verde dos frutos, os frutos e os sucos, e os fluidos astutos. Mecânica de fluidos.
Fluía fria no confuso dos pensamentos. Dos sentimentos.Olhava o campo, o descampado retalhado do momento. Escorria em orvalho e logo sangue, em labareda acesa por cada berma, por cada atalho, por cada filamento de roseira ainda não podada, por cada nogueira hoje arrepiada p’lo incessante frio.
Chão de maças …
Abrigava-se em paredes de pedra negra, no xisto da aldeia perdida na serra. Da sua serra. Ao longe o barulho das pedreiras, o sibilar das pedras na encosta dos medos. Dos seus medos, os medos de menina sozinha nos corredores da vida.
“…não me deixarás mais só?...”
“…não, Teresa, nunca mais!” Deixara! De novo e outra vez. E outra vez de novo …
De novo … na novidade conhecida de se reencontrar a sós consigo nos corredores de uma noite interminável de tão comprida. Perdida!
A noite escura, a fruta apodrecida de tão madura. Os porcos e as pias e as manjedouras vazias. As ovelhas brancas numa dança tenra, os cães ao lado. Sem guia e sem pastor, apenas os seus olhos reconduziam o gado, por entre a sequência de factos ininterruptos e sucedâneos e de jardins excêntricos.
Sem aviso, desfolhavam-se agora em rosáceas folhas quando recordava um texto de um livro antigo, num outro tempo, num outro acto. O argumento, o facto, o contra facto: “quem ama a poesia anda sempre de mãos dadas”…“ Teresa, quero-te  para sempre de mãos dadas comigo…”.
Tanto sentido. Todo o sentido. Chorava e sorria… Dera-lhe as mãos, a alma, o coração. Dava-lhe agora uma a uma, todas as lágrimas com que adubava a crisálida e a magnólia, as que, teimosamente, se transmutavam ou refloresciam sob o céu aguado …
                                   Chão de maças…

Imagem da net.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Apresentações do meu livro "Sibilam Pedras na Encosta"

Deixo aqui um pequeno registo fotográfico do que foram os momentos de apresentação do meu livro de poesia "Sibilam Pedras na Encosta", com a chancela da Corpos Editora.

A todos os que tiveram a amabilidade de me acompanhar, de me direccionar mensagens de incentivo e felicitação, deixo um enorme e sentido agradecimento. Bem hajam!

Maria Amélia de Carvalho (Mel de Carvalho)
****




quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O espaço que me circunda

Neste espaço onde cresci, se desenham muitas das minhas histórias. O silde que a seguir apresento, resultou de um trabalho fotográfico perfeitamente amador de uma amiga do meu filho João, a Paty, a quem aqui expresso os meus agradecimentos.
***

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Quem sou?


"Alguém" que ainda não construiu este blog... mas que promete que o fará tão breve quanto o tempo lhe permita.

Fará então a mudança da "Casinha Sapo" de igual nome para aqui. Mas apenas parte ... a poesia, essa, ficará por lá ... afinal foi por lá que encontrei tantos dos que leio com o maior apreço e que me lêem a mim. E, defeito ou virtude, sou fiel aos meus espaços ... e aos meus afectos.

Por agora, e porque muitos dos "Blogspot" não me recebem por lá, fiz por aqui os alicerces da nova casa. E, deste modo, escolham pois, estimados amigos e leitores, a casa que vos for mais confortável: - "Sapo" ou Blogspot".

Por mim, aguardo-vos com estima, respeito e consideração, em qualquer delas.
Ambas "noite" - o espaço do dia onde, em regra a escrita melhor fluí, e sempre "Mel", que, como a maioria de vós já sabe, não se trata sequer de um nick, mas de um diminutivo do meu nome real: Maria Amélia...

Um abraço fraterno
Mel

sábado, 7 de abril de 2007

Voar em "V"


Há muito tempo atrás, não existiam andorinhas na minha vida!... Minto!... Existiam as que, penduradas de asas abertas, contra a parede branca, enfeitavam a casa da minha infância.
No Verão, quando o Sol impunha a limpeza e o aprumo, também elas eram conduzidas a um mergulho reparador, num qualquer alguidar de barro ou celha.
Na minha inocência imaginava o sofrimento a que eram votadas, horas a fio, de molho – barrela como se dizia à época -, a granel com um infindável número de objectos diversos, de decoração: azulejos pintados com dizeres, borboletas de barro, flores de plástico, etc., todas aguardando a vez de serem devolvidas ao seu lugar, não sem antes a parede ter recuperado o alvo da sua dignidade, recoberta com cal a largas pinceladas.
Nessas tardes de estio, introduzia as minhas mãos de menina na água suja, onde estavas mergulhada, tacteava e procurava-te. Procurava-te!
Conhecia-te os contornos, o volume, o tamanho. Distinguia-te, de todos os outros objectos submersos na barrela. Conhecia-te a forma, de tantas horas que te admirara ao de longe, suspensa que estavas sobre a porta principal. Tal como as tuas irmãs, também agora mergulhadas e submersas, tal como elas, tinhas a parte superior negra, negro profundo, reluzente ao Sol, reflexos azuis, uma cauda em “V”, com filamentos fulgurantes. O teu lado negro. O lado branco - o peito, a parte anterior das asas, tal como a barriga, o ventre, as entranhas -, a mim parecia-me sempre levemente rosado. Branco rosado!... Mas, o que te tornava única, era sem dúvida a face avermelhada, ruborizada! Em resultado da minha admiração constante, imaginava! E era essa a magia que nos unia. A tua inocência de andorinha, a minha inocência de menina... A tua beleza, essa, encantava-me, fascinava-me, diria agora, volvidas tantas Primaveras...
Quando estavas suspensa – inacessível aos meus afagos, mirava-te e remirava-te... Desejava que um golpe de vento, uma brisa da tarde, te fizesse tombar no meu regaço. Então colocava-me de bibe azul céu aberto, por debaixo do teu poiso, para que o tombo te não fosse doloroso. Mas não, tu continuavas lá, no teu lugar de sempre, e eu voltava, dia após dia, para te admirar, e tu, acho agora, esperavas o fim da tarde para os nossos reencontros.
Falávamos uma linguagem desconhecida dos comuns mortais – a língua das “meniaves” num código só nosso, onde os silêncios e os tempos se mediam para além dos compassos dos relógios – do relógio de cuco -, que lá na sala grande trinava (impondo o meu regresso à família), do relógio do torreão da aldeia, com as suas oito badaladas – a hora do jantar!
Nesses tempos em que a linguagem era “meniave”, imaginava ter-te nas minhas mãos de criança, aconchegar-te no meu calor, no calor do meu peito, como fizera um dia com o estorninho bebé que caíra do ninho...
Mas não! Durante meses a fio, permaneceste sobranceira, colada à parede, indiferente ao chamamento do meu coração...
De repente, ali estavas tu, na celha de lavagem, quase a afundares-te num mar revolto. Não por um golpe de vento, ou uma brisa, mas  pela mão dos homens, pela mão de uma mulher, talvez...
Nessa tarde de estio, finalmente, encontrava-te! Tomava-te nas minhas mãos, afagava-te lentamente, retirava-te o excesso de água, que te havia inundado as entranhas, colocava-te em água limpa, retirava-te os restos de sujidade, com um infinito carinho, um imenso cuidado... de leve, de mansinho.... sem pressa, como só as crianças sabem tão bem fazer....
Limpa, resplendecias ao Sol! O brilho azul azeviche das tuas asas abertas ofuscava-o, diminuía-o aos meus olhos, como que me cegavam de tanta beleza. Paralisavas-me os gestos, fazendo com que tudo o resto, se perdesse para além do agora.
Recordo que, nessa tarde, por breves instantes, cerrei os olhos e desejei que me levasses para o teu Mundo, feito de argila e pó.
Cerrei os olhos, não sem antes te aconchegar no calor das minhas mãos, dispostas uma sobre a outra em concha – uma espécie de ninho de amor, branco e imaculado, tal como a parede a que desejavas voltar a ser suspensa, a parede para a qual, a qualquer instante voltarias a voar...
Cerrei os olhos, com força! Cerrei os olhos e os dedos, que aos poucos, se foram entre-juntando, entre-cruzando, numa malha humana, aprisionando a minha andorinha.
Sempre de olhos cerrados, desejei que aquele momento fosse para sempre. A minha andorinha era, naquele instante, prisioneira do meu ser!
As minhas mãos de menina, haviam apreendido uma força da natureza! Um ser minúsculo, que viajava dias a fio, em busca de um poiso seguro para construir o seu ninho...
Desejei que aquele instante não acabasse, que, para todo o sempre, no tempo dos tempos, menina e andorinha se fundissem em uníssono, sob o Sol de Verão. Aprisionei-te com tanta força, que as marcas das tuas asas, ficaram marcadas em forma de “V” nas palmas das minhas mãos...
Mas não! …
Não consigo imaginar sequer uma razão e contudo, sob a minha pele quente pelo Sol de Verão, as tuas asas de barro, aos poucos começaram a tomar vida, começaram a debater-se com a energia do amanhecer...
Recordo como o teu peito, contra a palma da minha mão esquerda, arcava, e como o teu bico irrompia pelo orifício formado pelo polegar e indicador... Como do teu bico, mudo até aí, aos ouvidos dos humanos, saiam os primeiros acordes, algo desafinados, algo incongruentes...
Certo, certo é que a minha andorinha, ganhara vida! E a vida é sempre um dom. Eu tinha, com o meu amor, dado vida a uma andorinha, tinha-lhe dado um dom.
Ao de leve, deixei que o seu corpo recém-nascido, saísse de mim, das minhas mãos. Ao de leve, muito ao de leve, como uma brisa de fim de tarde, impulsionei-te o voo, não sem antes te falar dos hábitos das andorinhas de verdade a que, a partir de agora, passaras a pertencer.
Falei-te de como as andorinhas vinham do sul, em longos bandos, de como eram “aprendizes até ao último bater do coração”...
Recordo como esta frase teve impacto e de como ficas-te, durante breves instantes suspensa da minha estória...
“Sim, minha andorinha, as tuas irmãs são animais gregários, vivem sempre em comunidade... vais ter que, também, desenvolver capacidades comunitárias... vais ter que percorrer grandes distâncias, sempre em bando, sulcando os céus, sobre os Oceano... numa espécie de trapézio sem rede, sem um bibe azul de menina, para te apoiar...”
E continuava...“Sim, minha jovem andorinha, as tuas irmãs sulcam os céus, dispostas em “V”! “V” de “vitória”, “V” de “vigília”, “V” de “vigor”... “V” de “vida”...
Aí, acho que aí, pela primeira vez, vi o teu lado negro:
“V” de....”Vingança”!... Disseste-me!
De que te querias tu vingar? Do tempo que havias passado aprisionada à parede branca, por um prego de metal? De tanto tempo aprisionada num corpo de barro? O meu amor libertador não era suficiente para te ajudar?
“V” de vingança!!” - repetias!
“Não, minha jovem andorinha, essa é uma palavra que não existe no vocabulário das andorinha....” “V” de “ver”... Ver mais longe, ver para além de ver, “V” de “vigor”...
“V” de “vício”, insistias! “V” de “vergonha”...vergonha por viver num Mundo de faz de conta, viver uma vida que se não desejou, um abandono que nos conduz ao “V” de “valeta”, ao “V” de “Vale ou vale...quase tudo” ...
Numa vida onde só existem “vencidos”, poucos são os que desenvolvem voos de “vencedores”... onde a palavra “verdade” só raras vezes tem “valor”...”V” de “vaidades”, vaidades que comandam vidas, “V” de “vexame” a que somos todos os dias submetidos .... “V” de “vicio”, insistias... ““V” de vingança!!”
Sentia as tuas asas a debaterem-se, a agitarem-se, numa rebeldia inconsolada, inconformada. Dorida.
“Não, mil vezes não, as andorinhas da nossa estória - as de que te quero falar - não conhecem vícios; as andorinhas de que te quero falar, desenvolvem o seu voo em vê, em sinal de “virtude” – virtude de dar e receber, virtude de partilhar, amparar, ajudar!...
Sempre, baixinho, insistia:
“Sim, porque as andorinhas, são seres gregários, que vivem predispostas a partilhar, a viver juntas, a gerar família, a amparar a família, a amparar-se na família... Uma andorinha, pode até morrer de solidão, não resistir à solidão de um ninho vazio e frio... A solidão, ou a prisão, têm o poder de matar!
Na verdade, estas criaturas, não sobrevivem sós ou prisioneiras: de si mesmas ou dos outros. Quando tal acontece, em cativeiro, creio que encetam longos voos dentro de si mesmas, mascarados de silêncios finos. Ausentam-se de si e do Mundo, do Mundo que as aprisionou... Entendes de que falo, minha jovem andorinha?
Quando estavas suspensa na minha porta, presa por um prego, que te atravessava as entranhas, confesso agora, ter visto, não raras vezes o teu dorso manchado de lágrimas que tombavam dos teus olhos escuros...
Eram saudades, imaginava! De África! Do colo que todas as andorinhas buscam e necessitam... por isso desejava que tombasses sobre o meu bibe azul, para te poder dar um pouco do meu colo de menina...”
No dia em que impulsionei o teu voo, senti que te estava a perder para sempre! Tive medo de que, à distância de um Oceano, não me lembrasses mais. E, contudo, corri o risco! Correria o risco de novo, uma e outra vez...”
Durante os meses que se seguiram, ao dia em que deste o teu primeiro voo, ensaiavas, voando cada vez para mais longe, durante horas a fio, a tua grande viagem, a que te levaria, para longe de mim pela primeira vez.
Durante esses voos de treino, que eu observava da minha varanda virada a sul – o sul que tu buscarias no final do Verão -, caçavas em voo, alimentavas-te nos céus e, só voltavas no fim do dia, aquele que fora durante tanto tempo o “teu pequeno Mundo”.
Aos poucos, o frio foi-se aproximando, os dias foram-se tornado mais pequenos, a bola de fogo, caia cada dia mais cedo no horizonte... Tudo em meu redor se preparava para a nossa despedida!
Nessas tardes, vinhas poisar ao de leve, muito ao de leve, no beiral da minha vida. Juntos, traçámos planos para o teu futuro, juntos contemplámos o Sol poente... uma e outra vez, ora em longos silêncios, ora a espaços, no dialecto meniave...
Sei que recordarás para sempre as nossas conversas na língua meniave.... E que, um dia, em jeito de estória, aos filhos que a vida te reservar falarás do dia libertador... E talvez lhe mostres um pequeno tesouro – um fio de ouro que levaste dos meus cabelos...
Nas vésperas do dia em que haverias de partir, falei-te uma vez mais, da importância de voar em grupo, em bando. Poisada no meu ombro direito, bem perto do coração, ouvias o meu discurso embalada na sua musicalidade...
“... O bater das asas de uma andorinha, ajuda a outra que se lhe segue, e assim sucessivamente... A primeira rasga caminho, fazendo com que, a corrente de ar ascendente impelia as restantes a prosseguir – dizia-te de mansinho... Mas o mais importante, minha jovem andorinha, é a certeza de que, uma vez cansada - porque a distância entre Continentes é imensa -, poderás sempre contar com uma segunda para te substituir no comando do voo, e que a segunda contará com uma terceira, e assim por diante numa cadeia de solidariedades...
Na verdade, minha jovem andorinha, esta é a regra de sucesso no reino das andorinhas, no rumo das andorinhas! A certeza de que não estão/estamos sós, o sentimento de que, atrás de nós, um bando inteiro nos impulsiona o voo, apoia o rumo que conferiremos à nossa vida!...”
Ouviste a minha estória, muito quieta, imóvel, muda. Viajaste dentro de ti, como quando estavas prisioneira... E tiveste medo!
Aninhaste-te de encontro ao meu colo, afaguei-te o corpo, recompus-te as penas em sobressalto...
Olhaste-me profundamente, bem no fundo dos meus olhos – verdes, azuis, cinzentos: Verdes-água, azuis-céu, cinzentos de fim de tarde. Verdes mar – o mar que nos afastaria para sempre, o céu que haverias de sulcar o cinzento que deixarias na minha vida...
Sei que, naquele instante, duvidaste de tudo o que te dizia. Como poderia uma menina de cabelos de oiro, saber das vidas das andorinhas, dos sonhos das andorinhas, das expectativas das andorinhas?
Duvidaste! Sei que duvidaste. A tua asa afagou-me ao de leve os cabelos, o teu bico debicou-me o pescoço, na base da minha nuca. Os cabelos de oiro, sob o sol da tarde eram agora prata... O teu bico aprisionou um fio e partiste...
Juntaste-te com mais de cem andorinhas, nos fios de telefone, nesse fim de dia e, de manhã, com o raiar da aurora, partiste! Partiram todas, juntas.
Partiram em Vê...
Tu a comandar o voo, a comandar o vê... como tanto desejavas!
Acompanhei-te até onde os meus olhos conseguiram alcançar. Depois, de mansinho, chorei a tua partida, num choro invisível aos olhos dos comuns mortais. Chorei e rezei por ti, noites a fio, quando a bola de fogo entrava pelo mar dentro e tudo ficava bruma, silêncio e nada mais!
Recebi notícias tuas, no outro dia, por outro pássaro migrante!
 Em África, quando construíste o teu ninho, de barro vermelho, a cor da tua terra, amassado com o calcorrear dos pés das tuas gentes, no fazer constante de caminhos, caminhando, desse barro, terra/suor/dor – fizeste o teu ninho: um ninho de amor. Nele entrelaçaste, para sempre, um fio de ouro/prata...
 Confidenciou-me, esse pássaro migrante que reluz ao sol dos trópicos, distingue-se de todos os demais... De todos, o mais lindo, o mais perfeito, que tem até alguma inveja, de não ter um ninho assim...
 Como que por magia, o fio de prata atravessa oceanos. Em cada Primavera que nasce, eis que de novo, na ponta do teu bico, sulca os céus e une Continentes, ligando o teu ninho a um novo ninho onde geras família, e tudo começa de novo.
 E assim, ano após ano, século após século, se repete a lição das andorinhas, que se baloiçam num trapézio sem rede – numa rede invisível de mil fios de prata e ouro, prata e preto, preto e prata.
As andorinhas afinal tinham um lado branco!

Abri os olhos. Senti o corpo da andorinha de barro nas minhas mãos... De asas abertas em sinal de "V"!
Fora um sonho, um sonho de libertação de uma andorinha em cativeiro!


Lx: 2004
___
Imagem: Monalli

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Falar da Morte ... Aceitar ...


Naquela noite, a Fada tardava. O Menino aguardava na maior ansiedade... o dia havia sido repleto de emoções; de descobertas... Tantas questões que tinha para colocar à sua Fada.
Um em especial, borbulhava-lhe no espírito inquieto: A Morte... O Suicídio. Ouvira num programa de Rádio, que o vocalista de uma Banda (escrevera o nome no seu caderninho) se havia suicidado com apenas 25 anos. E de uma forma tão estranho, com uma corda...
Mas as cordas não serviam só para atar os molhes de lenha, que mãe levava para casa e para o seu baloiço, lá no fundo do quintal? Na oliveira maior... aquela, que fora o avô do avô a plantar?
Não entendia... E mais a mais, se era cantor?...
Então quem canta não está contente? Ele só cantava quando estava muito alegre. Verdade seja dita que mãe cantava quando estava muito aborrecida e até já a ouvira dizer vezes sem conta: “Quem canta, seus males espanta... ”… (3)
Seria esse o caso? ...
O menino estava muito inquieto!
Para além disso, haviam dito também que o tal vocalista padecia de uma doença estranha... Epilepsia (seria isso?)...
Epilepsia... Outro palavrão para perguntar à Fada... sim, porque só mesmo ela lhe seria capaz de explicar estas coisas.
A impaciência atormentava-lhe o seu pequeno coração. Olhava vezes sem conta através da cortina que separava a janela do Mundo lá fora… A Fada tardava … A Fada Karmelia…
Sim, ou simplesmente … Fada Lia … ou Karmel como ele “Nevoeiro” gostava de lhe chamar … Karmel, do Hebraico … ( Jardim dos Deuses).
Seria lá que morava a “sua Fada”?
E porque se demorava tanto? Contava os segundos um a um na impaciência, enquanto no seu pequeno MP3 ouvia a canção que havia gravado … O seu inglês era ainda reduzido, mas entendia … ou pensava entender …

“A change of scene, with no regrets,
A chance to watch, admire the distance,
Still occupied, though you forget.

Different colours, different shades,
Over each mistake were made.”
(1)

De repente, envolta num manto de estrelas fosforescentes, Karmel chega … Todo o quarto adquire uma luminosidade mística.
A Fada dobrasse sobre si própria e ao lado dele. Com a doçura de uma brisa de Verão, beija o seu menino, bem no centro da testa, ali onde os pensamentos se misturam com os objectos … Onde os olhares se descodificam, os objectos captados através do olhar readquirem o posicionamento original, se converte o invertido através do prisma óptico … (a professora falara disso um dia …).
Tudo se torna tão limpo na sua mente … A SUA Fada.
- Fada, Fada, queria tanto que tu chegasses, tenho tantas perguntas para ti… gostas de música que eu sei, diz-me quem canta está triste?
A Fada olhou o menino apreensiva… de onde surgia tal questão? Estava já habituada à precocidade do seu menino, mas porquê tão estranha forma de iniciar a conversa? Incentivou-o a prosseguir!
- Meu querido… a tristeza é um estado de Alma (já te falei no sentir com a Alma)... Em que o Mundo parece todo coberto de uma fina camada de pó ou uma maresia ou mesmo de um denso nevoeiro …
- Eu sou o Nevoeiro, Fada …
- Tonto, tu és um menino Sol … nada de nevoeiros … Claro que tens dias em que ficas triste … Por exemplo, o dia em que caíste da tua bicicleta e partiste a perna …
- Fada!!!! Esse dia não foi Nevoeiro!!!! Foi muito pior … Foi Noite!!!! Noite sem ti Fada!!! Noite escura… porque a minha bicicleta se aleijou … e eu também!!!
- Tu aleijastes-te … e muito! Tens ainda a perna partida … estás aqui, sem puderes ir ver o Sol e brincar na Chuva … A tua bicicleta, é de metal… ficou apenas amassada, sem sofrer dor … Bem, não sei … talvez … mas deixa para lá, não te quero confundir … Fala-me das tuas dúvidas…
- Fada …. Eu sei um bocadinho de Inglês e gosto de música e ouvi na rádio que o … espera Fada, dá-me o meu caderninho, está mesmo ao teu lado, aí na minha escrivaninha … Sim o … Ian Curtis, o vocalista dos Joy Division se suicidou … e era muito novo … disseram, 23 anos … Fada eu fiquei muito triste … só tinha mais uns anos que eu … bem … mais uns … alguns … e, Fada, tinha uma voz tão bonita, como os anjos … Fada … ele, era como eu … eu sou nevoeiro (sou Fada) ele nasceu em Inglaterra … está sempre nevoeiro, a Professora disse … seria por isso que era triste?
- Meu querido???? Que loucuras te vão na cabeça! Em Inglaterra, como noutros lugares, existem pessoas tristes e pessoas alegres… Claro que o clima influencia o espírito das pessoas, mas não podes ver as coisas de forma generalizada. Sabes o que é “generalizada”, não sabes? Todos iguais! Somos todos iguais, apenas em direitos e deveres, porque em relação à nossa identidade, somos todos diferentes e temos que ser olhados como diferentes … chama-se a isto: Equidade … tratar cada um com respeito pela sua diferença, dentro dos mesmos valores sociais … Entendes, meu querido?
O menino absorvia como uma esponja cada palavra que a sua Fada lhe dizia. Tê-la ali, falar com ela, de igual – a Fada tratava-o com "Equidade"? - era, na verdade, o melhor momento do seu dia…
- Sim, Fada, eu entendo … mas, então senão foi pelo nevoeiro, porque foi Fada? Ele era … espera, eu escrevi … “Poeta mais do que músico, génio para muitos” – foi o que a senhora disse na rádio … Era um Génio …
- Sim, meu querido, era certamente um génio, alguém com dotes especiais, com uma mente brilhante …
- Mas Fada, se era … porque se matou? Eu quero Viver … muito … Fada, mas só se tu gostares de mim…
- Tonta criança, já te disse que te quero muito, muito mesmo, estarei sempre por perto …
- Fada … eu quero que TU ME AMES!!!!! Eu já disse, estou apaixonado por ti…
- Meu querido, és um menino tonto … apenas te sentes bem com a minha companhia … quantas vezes te tenho de dizer que nós não amamos as pessoas pelo que elas são, mas pelo que nos fazem ser, quando estão connosco? E, querido, tu comigo … sentes-te entendido, compreendido e … amado. E por isso pensas que me amas …
- AMO-TE Fada! … Tá bem, desculpa…
E, dizendo isto, sorria malandro, encobrindo o rosto com o manto azul do céu … sorria ... sorria ... a Sua Fada, ele sabia, amava-o, que ele sabia ... só nunca lhe dizia, mas ele sabia sim...
- Tá bem, Fada, não te falo mais nisso … quero saber mais … O que é … espera, eu vou ler … “Epilepsia” … ele tinha isso!!!
- É uma doença, meu querido, não física, como a que tu tens (ossos quebrados), mas uma doença em que a mente comanda os músculos de uma forma desordenada e, no fim, as pessoas que a têm ficam com muitas dores … um grande cansaço, como se tivessem feito muitos e muitos quilómetros de bicicleta, por exemplo …
- Então ele ficava mesmo muito cansado… eu só vou à Vila e venho e dóiem-me bués as pernas …
- Sim, querido, ficava … e como isso lhe acontecia muitas vezes, a sua mente ficou também muito cansada … Talvez tenha sido por isso … Talvez ...
- Fada … tenho tanta pena! Eu gostava que pessoas como ele vivessem para sempre …
- E vivem, meu querido … vivem em cada um de nós, nas sementes que deixam… estás a ver? Estamos aqui há tanto tempo a falar dele … ele vive em ti, vive em mim … e em tantas outras pessoas … Quantas vezes, meu querido te tenho de dizer que quem ama nunca esquece? E o teu coração começou hoje a amar Ian, certo? ...
Vais ouvi-lo muitas e muitas vezes … a sua voz vai gerar raízes no teu coração de menino, as suas palavras serão sementes de outras novas palavras que irás pronunciar ao longo da tua vida … Ian, viverá para sempre … porque o tempo que viveu fisicamente, foi um Ser de Luz… (Sabes o que é, não sabes?)...
- Como tu, Fada …
- Não meu querido … como tu!!! Tu que pensas e tentas aprofundar os teus pensamentos … tu que escreves as palavras difíceis no teu caderninho e procuras mais tarde perceber o seu significado…
- Sabes, Fada … já estou menos triste … se me dizes que o Ian não morreu … eu acredito! Acredito mais em ti, que na Senhora da Rádio. E fico mais feliz...
A Fada sorriu. Uma lágrima ameaçadora emergiu dentro dos seu olhar ... Não, não poderia chorar, ao lado do seu amigo. Jamais...
Quedou-se ...
Como explicar a um menino ainda tão pequeno que a Vida encerrava tantas dualidades? Tantos antagonismos? Que o sucesso nem sempre é sinónimo de felicidade e o seu inverso também se verifica? Que a doença se pode tornar tão insuportável que o ser humano pode em certos momentos ambicionar a morte? Desejar a morte? Provocar a morte? Que o apelo do abismo existe em todos nós; que só o amor, a amizade, podem evitar a queda … evitar apenas, que em muitos casos, nem sequer estes sentimentos são suficientes … Como? ...
Afagou-o ternamente, uma e outra vez ... continuadas vezes ... sempre e para sempre ... estaria sempre ao seu lado, pensou intimamente.
A música, essa continuava; O menino ouvia atentamente …
A Fada sorria, aconchegava-lhe a roupa e preparava-se para partir … O som enchia todo o quarto… vindo do Além, numa toada de “elevação espiritual” ...
(Não era assim que lhe dissera um dia a sua Fada? Elevação espiritual .... olhar dentro de si e entender-se ... melhorando, sempre ... ).
Sim ... O caminho ... a Viagem Eterna ...
O deixar cair uma a uma as máscaras e aceitar quem se é na verdade, melhorando ...
Olhar o Mundo através de novas lentes ... elevando-se!

(...)
“I took the blame.

Directionless so plain to see,
A loaded gun won't set you free.

So you say.

We'll share a drink and step outside,
An angry voice and one, who cried,
'We'll give you everything and more,
The strains too much, can't take much more.'

I've walked on water, run through fire,
Can't seem to feel it anymore.

It was me, waiting for me,
Hoping for something more,
Me, seeing me this time,
Hoping for something else...."
(2)

1 e 2 ) - Poema dos “Joy Division”
3) Adágio Popular

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...