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(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Como pode acontecer, Cidália?


Ainda te sinto nas minhas mãos, Cidália. Ainda sinto a quentura da tua pele, o bafo quente do teu beijo, a tua língua enrolada na minha. E o teu desejo, Cidália? O teu desejo… a hora em que eras mais tu, e logo mais minha. Cidália… Como pode isto acontecer ? Eu acreditava em ti, eu queria o melhor para ti, o melhor para mim, o melhor para nós. Como pode isto acontecer? Em que é que falhei, Cidália? Porque fui eu que falhei, Cidália…

Sabes, Cidália, enquanto atravessava o país de lés-a-lés, enquanto atravessava as horas de todos os dias, os dias de todas as semanas, as semanas de todos os meses, os meses de todos estes anos, era em ti que pensava, era no calor do teu corpo que descansava, era o desejo que via nos teus olhos que me guiavam na madrugada. Tinha fome de ti, Cidália, fome, Cidália, fome!

Às vezes, às vezes – confesso-te agora, que não importa mais -, parava num qualquer Club, bebia uns copos… Sim, Cidália, sim, isso mesmo que estás a pensar… Saciava a carne, a fome da carne. Mas nunca te trai, Cidália. Nunca, ouviste? Nunca amei nenhuma delas, nunca desejei mais que o instante em que o corpo se esgotava. Ai, Cidália, fechava os olhos e eras tu que eu via, os teus seios pequenos nas minhas mãos, as tuas ancas a ondular na fome do teu prazer… tinhas prazer, Cidália, que eu sei… Ou fingias??? Tu fingias Cidália??? Não, Cidália, não posso acreditar que todos estes anos fingias orgasmos, que me mentias… que me enganavas. Cidália, diz-me que não, que esta suspeita não tem qualquer fundamento… que eu, o teu marido, te dava prazer… Cidália, fala, fala … não me deixes nesta incerteza, não deixes que esta dúvida me torture para o resto da vida… tens a noção de que isto é a honra dum homem? Um homem, Cidália!!! Cidália, vais-me dizer que não era homem para ti? Que quando te possuía não te dava o que um gajo deseja dar a uma mulher, à mulher que ama… eu sempre te amei, sabes? Tudo menos isso, Cidália, tudo menos isso! Sempre fui macho, Cidália, antes de ti, tive várias mulheres e, Cidália, sei que foram felizes comigo, sei, percebes? Um homem sabe, Cidália, um homem sente… ou não sabe, Cidália??? Ou pensa que sabe e não sabe coisa nenhuma? De que natureza são feitas vocês, mulheres? Cidália…

Ainda te sinto nas minhas mãos, Cidália. A estremecer, a vibrar… e agora Cidália, a chuva que cai lá fora, a chuva que empapa a noite, cai pesada dentro do meu corpo, cai desgovernada dentro do meu cérebro. Sinto-me a afogar, as águas a subir, os caniços da margem cada vez mais longe, cada vez mais longe… estou agoniado, Cidália, não sustenho o vómito, o vómito tem a cor do alcatrão, o alcatrão de todas as estradas, de todas as noites que não dormi na febre de ir dormir a teu lado… como naquela noite em que depois de ter enganado o taquímetro, fiz mais de mil quilómetros. Cheguei inesperadamente, entrei no quarto, dormias, as crianças dormiam, tirei os sapatos e possui-te, vestido, sem te ter acordado sequer… Tinha fome, fome de te ter, Cidália, entendes? Não te tinha há quase dois meses … Apenas os primeiros raios da manhã iluminavam o nosso quarto. Sonhavas, aceitaste-me e quando abriste os olhos… não sei, Cidália, não sei dizer o que vi nos teus olhos… disseram-me … Sei lá, Cidália… que estavas a sonhar, pensei! Embrulhaste-te tão rapidamente, Cidália … sonhavas, pronto! Com quem sonhavas, Cidália? Com quem?...
Dói-me o peito, a luz baralha-se-me na mente, relampeja-me em trovões, e estes zumbem-me nos ouvidos… Oiço-te claramente, numa voz que nem é mais a tua, que não reconheço… e, contudo, és tu! Tu! Só tu…
A chuva ensopa-me a memória, a sopa escaldou-me a boca, os vomitados ensopam o sobrado, o nojo sou eu, o nojo é a vida, esta vida de enjoo… Como pode isto acontecer, Cidália? Tenho de dormir, dormir mil anos antes de puder entender a mensagem que me mandaste para o telemóvel ontem quando jantava … Bebi, bebi sim. Bebi até perder o norte de mim, até não distinguir o norte do sul, nem sei como vim parar aqui…
Oiço agora as risadas do Tomás, do Henrique, do Alfredo e sei lá de quem mais. Vejo toques de braços, olhares zombeteiros... “Vais para casa hoje, Miguel? Telefona antes, pá … não vás ter surpresas… As mulheres fazem surpresas a um gajo… dormem por casa das mães, têm medo do escuro, do bicho papão …”
E riam, Cidália, riam e acotovelavam-se se como que a passarem mensagens em código morse… nunca liguei, Cidália. O que eles tinham era dor de corno, as mulheres deles não eram como tu, Cidália… não tinham o teu viço, o teu brilho… Tínhamos uma vida bonita, uma casa um carro … E continuava, Cidália, trabalhava o mais que podia, queria o melhor para ti, o melhor para nós. Não, Cidália, não te ligava, como bem sabes… Não queria que pensasses que desconfiava de ti, que te estava a controlar. Telefonava ao Domingo, Cidália, sempre. Nunca me esquecia de ti, nestes anos todos de estrada, Cidália, e quando vinha, Cidália … ai, Cidália, tu sabes…
o vento zumbe, as árvores secas mergulham galhos na tempestade. O camião está lá em baixo, por debaixo da sacada, o destino do frete o Norte de Espanha, parto amanhã daqui d’Elvas…
Cidália, como é que esta merda foi acontecer???
O quarto cheira a vómito, eu sou vómito, eu sou esterco, bosta humana. Olho de novo e não acredito no que vejo … devo ter alucinado de vez, Cidália… cegado de vez… Como pude ser tão cego? Leio uma vez mais...

“estou no hospital … nasceu o meu filho. Os nossos filhos ficaram na casa da tua mãe… não me procures mais”…

Cidália… ainda sinto as tuas mãos, a tua boca, o teu corpo … como é que isto pode acontecer?


Republicação, in "Contos de Mulheres" ©, - livro no prelo
Imagem Bruno Moreira, Olhares

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...