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Pintura Edvard Grieg, "Separation", 1896, Museu Munch em Oslo. |
Se é para fazer, que seja bem
feito; se é para ser que seja inteiro; se é para amar que seja amor (o amor é o
meu objectivo, ou melhor dizendo, O objectivo maior). Concordas? …
Não me respondes, aliás e de um
modo geral não respondes nunca, esse é o teu modus operandi: refugias-te na caverna do silêncio.
Continuo: … é tão difícil saber o
que é o certo ou o errado, mas, se escolhes errar ou erras porque escolheste
errado, então assume o erro, errando com muita classe. Oiço-me e pergunto-me:
pode haver classe no erro? Creio que sim, em tudo pode haver classe, elevação, postura,
atitude, até no erro ou na assunção do erro. Prossigo, em monólogo,
… a vida, segundo o meu prisma
óptico, é para ser devorada à boca cheia, sorvida de forma desabrida, ou para ser saboreada na lentidão das coisas prazerosas,
e não o seu contrário, na mediania dos medíocres. E, se me perguntas, dir-te-ei
que então: - estou convicta de que não faz sentido insistir, insistir até aos
limites, no que não tem sinal positivo, no que não te acrescenta. E, como disse
alguém, se já não é sentido, não tem
sentido. A tua caminhada (é dela que falamos hoje, neste dia chuvoso de
mais um Abril, não um Abril qualquer, mas neste em particular e para o qual, videntes
ou iluminados, vaticinaram próxima mudança do campo electromagnético do planeta
e o dia do juízo final), gerou em ti uma ideia de invencibilidade, uma ideia de
posse e o poder cegou-te. E, em rigor dos rigores, as coisas são só “coisas”, e
todos nós, eu ou tu incluídos, temos muitas e demais. Não só de pão vivemos,
não só de prazeres mundanos, da crueza da carne… Assim era em Roma, “pão e circo”,
mas desde lá até então, evoluímos, certo? Somos muito mais energia do que
matéria, vamos além do corpo, do ego e até
do intelecto. Somos alma. E quanto ao poder, de que te vale agora? Nesta
viagem nos tempos modernos em que temos, do ponto de vista material, tudo, e a
vida muito facilitada, impõe-se reflectir profundamente sobre o seu sentido,
sobre a mensagem que nos trouxe aqui. Sobre o amor, portanto. Impõe-se um olhar
sobre outras realidades, o tal olhar de fora, atravessando a nossa crosta, a
nossa pele, se é lá, debaixo da pele que existimos … Fácil? Não, não é, mas impõe-se!
– a nossa caminhada aqui, no planeta azul, é o que fazemos com ela.
Gostas de futebol, bem sei. Então
falemos dele. Compras um bilhete, escolhes o lugar e vês de onde queres ver. É-te
sempre reservado o livre arbítrio, não obstante possas pôr isso em dúvida e pensar
o contrário; é-te permitida a escolha do lugar e do tempo em que, da bancada,
assistes ao jogo: esse é o teu lugar. No
limite poderias não ter escolhido comprar o bilhete se os lugares disponíveis
não te agradavam. Mas compraste. Sentado na bancada, dás-te conta de que foi uma
má escolha, e, ainda assim, é-te permitido, continuar sentado e deixar que o
jogo se desenvolva à tua frente sem que, porque o lugar que escolheste não te
permite ver na totalidade, possas opinar sobre uma série de lances, jogadas,
jogadores: a tua visão é segmentada, condicionada a escolhas erradas e
condicionada também à tua imobilidade. Entregas aos outros a criação de
condições capazes de validar a tua decisão de permanecer ali – que se removam
os pilares que te cortam o ângulo de visão, que se mudem os assentos incómodos,
que o treinador disponha os jogadores de forma diferente dentro das quatro
linhas, que se mudem as cores dos equipamentos, o relvado, enfim, que se faça
qualquer coisa, mas faça: tu compraste o lugar. Pagaste e tens direitos.
Pensas, esta é a minha oportunidade e não posso rasgar o bilhete, e, agarrado
que estás a um sentimento de posse, nem sequer equacionas tentar trocar de lugar
e ter outro ângulo de visão, outro ponto de vista. Ainda que nessa troca saias a perder, a escolha
venha a manifestar-se de novo errada. Mas tu tentaste, procuraste novas
abordagens ao problema, permitiste que se instalasse em ti a convicção de que fizeste
a tua parte e uma vez feita a entregaste – o que vem depois não é tarefa tua. Ou nossa.
Nossa é, deverá ser, a preocupação com o sono dos outros …
Nossa é, deverá ser, a preocupação com o sono dos outros …