Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

No Jardim da (i)lógica

Naquela noite, o mar estava incendiado. O Menino aguardava a vinda da sua Fada, por detrás da janela, olhando-o de frente. Tanta gente, tanta gente, e, contudo sentia o seu coraçãozinho demasiado sozinho .

A sua Fada, aquela que chegava quando o dia se despia e ele vestia o pijama do avesso, tinha o condão de lhe trazer uma Paz e um bem estar de que tanto necessitava para enfrentar o frio da madrugada. Tantas perguntas, tantas questões para lhe colocar. E, contudo, pressentia que haveriam muitas, às quais ela nunca iria responder ... ou talvez sim!

Na última noite a Fada quando se despedira, havia-lhe dito:

“Descansa meu tonto... acalma esse coração ... sente o marulhar das vagas, o rebentar das ondas nas falésias, deita-te na areia, encosta o ouvido bem sobre ela... e ouvirás o respirar da Terra. Ouvirás, que lá dentro, ela, como tu, tem medos e treme, ela, como tu, sorri e chora ...

A terra vive, cresce e evolui, tal como tu, tal como as estrelas e os planetas ... tudo tem um principio e tudo cessa e, de novo tudo recomeça. Um circulo contínuo!"

Tal como a Fada lhe dissera, deitara-se de barriga na areia, colocara o ouvido atento no seu ventre e, jurou que sentira a Terra a soluçar, a tremer e a vibrar ... com tanta, tanta força que se levantara de um ápice e correra saltando de vaga em vaga, envolvendo os pés e as pernas, envolvendo os calções e a camisola de espuma ...

A Terra chorava? A Terra sofria? A Terra...

Sempre pensara que só os animais tinham sentidos (sentimentos, não era isso?). E agora concluíra que ventre da Terra, lá no fundo, tal como uma criança ainda dentro do ventre de sua mãe, a Terra, ela própria, borbulhava e fervia ...
Porque choraria a Terra?

A sua Fada não chegava ...
Olhou de novo, uma e outra vez através das cortinas do Tempo... olhos com os seu olhos cor de Terra ... E, como por Magia, como respondendo ao apelo do seu coração, a Fada vinda do Jardim dos Deuses, materializou-se, vestida das cores do arco-íris... num sorriso de Luz, na melodia de harpas e flautas ...

O quarto era agora um lugar mágico. Sem mais, sentiu o beijo sereno de que já se habituara a tombar sobre a testa, no centro do seu espaço visual, sentiu-lhe as mão que o afagavam num abraço eterno. Sorriu....

- Fada... hoje pensei que já não vinhas...

- Meu querido, virei sempre, mesmo que os teus olhos me não vejam, o teu coração e a tua Alma saberá que estive aqui...

- Mas eu quero ver-te! Quero ...

- Querido ... nem sempre aquilo que nós queremos se pode obter. O que importa é que nós tenhamos a consciência que desenvolvemos todos os esforços para o conseguirmos...

- Sabes, Fada, hoje queria falar contigo sobre o que me disseste no último dia, quando me falaste de que a Terra sofria ...

- A Terra, meu querido, é um ser vivo, e como tal, sofre as maldades que os humanos fazem com ela… o desrespeito pela Mãe Natureza, como por todas as mães do Mundo, é sentido no ventre da Terra … quando o Homem não respeita os ciclos da Vida … esgota os recursos (destrói florestas, captura espécies animais em vias de extinção, quando pesca em épocas de reprodução, etc …), meu querido, isso faz a Mãe Natureza sofrer …

- Fada… eu nunca farei nada disso … prometo!

- Eu sei, querido … descansa agora…

- Sim, descansarei … conta-me então uma história … aquela do Jardim da Ilógica … não era assim que se chamava?

- Meu querido, essa já te contei … até já contei na net …

- Na net ? ... Fada!!! Tu tens net no teu Reino?...

- Tenho sim, meu querido … escrevo histórias … lá sou só contadora de Estórias (sem H ”… e com um “E”)… A Meldemim. Apenas para ti, Karmel ...".

- Só para mim !!!! ... Fada … isso está mal escrito …. Estória ? Ehhhh eu sei que está… Histórias é com H e com um I …

- Talvez meu querido … mas estas são de uma Fada para o seu menino, são Estórias (I)Lógicas … ora ouve então:

"Uma Rosa & Um Sapo"

“Era uma vez um sapo que vivia no Jardim do Éden. Tinha sido vítima de um feitiço, e por isso continuava ali, camuflado entre a folhagem verde, esperando o dia em que ela (a folhagem, claro) se transforma-se, amarelece-se e, assim ele, o Sapo, se pudesse revelar. Era um belo sapo... O tempo passava, sem que o Outono chegasse, o verde exuberante matizava a Primavera e perpetuava-se no Verão …

O Jardim, resplandecia em todo o seu vigor. Túlipas, dálias, amores-perfeitos … e rosas! Milhões de matizes e um Sapo, verde …


Assim decorria o tempo. Lento … O Sapo desanimava… Mas, vá-se lá saber porquê, durante a longa espera ...o Sapo apaixonou-se (coisas de animais) por uma Rosa do Jardim do Éden. Era uma rosa-espinhuda, uma rosa solitária. Vivia suspensa numa roseira mesmo na beirinha do lago habitado pelo Sapo … Gerou-se entre eles uma química (sabes o que é química, querido?... atracção, partilha de emoções ...sim, eu já te disse que no Jardim da (I)lógica tudo é possível ...e, não te esqueças, era ai que ambos viviam ...).

Se a Rosa o amava? Dizem que sim... Mas a rosa tinha espinhos, o sapo escorregava... Se algum dia o caso se resolveu?...

Espera, tenho sono... Pensando bem, talvez ta conte noutro dia.
Dorme agora, dorme bem, meu Pequeno Príncipe... chove lá fora, torrencialmente... Ou será dos olhos meus?
Dorme agora, Príncipezinho ...


E dizendo isto, aninhou-lhe a roupa, acariciou-lhe os cabelos, depositou-lhe ao de leve um beijo e partiu. Levava no olhar um estranho brilho ...
Seria que o seu pequeno príncipe alguma vez descobriria quem era a "Rosa"? ...

Para além do Infinito está agora a Fada Karmel ... escreve na Net uma outra Estória ... sobre Cães e Pessoas-Cães. A que irá no próximo fim de dia contar ao seu menino ...

___***___

Era assim... faz algum tempo, quando a Mel escrevia em O Melhor de Meldemim, Feiticeira (rsrrs)

domingo, 7 de junho de 2009

"in Pulsos..." nossos ...


Aconteceu ontem, ao fim da tarde. Lisboa, Campo Grande 56...

Ali, entre um auditório cheio de amigos de vários quadrantes, Cleo deu à luz o seu filho literário primogénito. A mim coube-me a muito honrosa tarefa de o "amparar" com as minhas próprias palavras.

E, porque o fiz com muitíssimo prazer e grande amizade, aqui vos deixo esta nota, caríssimos leitores e o esboço de que me socorri para o momento ...
***

.... Em primeiro lugar cabe-me agradecer veementemente o convite que a Cleo (Lurdes Dias), me fez para, neste dia especial para todos nós, seus amigos e companheiros de palavras e, muito em particular para ela (o Lançamento do seu primeiro livro), estar aqui a seu lado e não ai, na plateia, onde certamente estaria de igual modo...

De seguida, agradecer a todos vós, a presença. E, claro, e não menos importante, à Editora por ter convencido, sublinho… convencido a Cleo a sair da tela e dar-nos o prazer de a ler num qualquer lugar …

O livro é e será sempre um dos principais canais de aproximação entre o autor e o leitor… sem esquecer que ainda existem muitas e muitas pessoas que não dominam as novas tecnologias …

Posto isto, apenas uma pequena nota pessoal, e, de imediato passarei ao “busílis da questão” que é como quem diz… falar da Cleo e da sua obra…

A tal nota: A Mel (eu) e a Cleo (ela), cruzaram-se um dia no blogoesfera…
tinham outros nicks, como é natural nestas coisas...

A Cleo, Medusa … quanto a mim….Sorry … esqueci… e, em rigor também pouco importa, na medida que é da Cleo que hoje queremos saber.

Apenas fica o registo e o sublinhar que, se hoje a Mel tem poemas em várias Antologias, livros publicados, mais de mil poemas registados, etc... deve-o, em boa parte a esta amiga, que, desde o primeiro instante a impulsionou a publicar… a aderir a sites…

E destas coisas se fazem amizades,
e destas coisas e nestas coisas se definem as pessoas …
cumplicidades, partilhas, valorização do outro, generosidade.
Coisas tão inversas a mesquinhez e a invejas pequeninas…

Eis pois, em traços largos aquilo que ao longo destes cerca de três anos encontrei na Cleo… no seu carácter, no seu modo de estar e de ser ...

Repito, sintetizando: Desprendimento, generosidade, simplicidade …

Agora então o tal “busílis da questão” … Falar da escrita da Cleo.

Agora, meus amigos, companheiros de e nas palavras… é aqui que - usando uma expressão popular - , perdoem-me “a porca troce o rabo, se rabicha não for” … podem rir, eu “autorizo”, não esqueçam pois que, tanto a Cleo, como eu mesma, somos de aldeias e/ou crescemos em aldeias… e lá e por lá a sabedoria popular impera …

Pois é… Lamento... mas pouco ou nada há a dizer sobre a escrita da Cleo…

Ou melhor… eu, a tal "prolixa Mel", não tenho, não encontro, palavras melhores para classificar, definir, catalogar a escrita da Cleo, se não as suas próprias…

Ora permitam-me então que a leia, em prosa:

“Simplicidade das palavras” … pág. 15 …

“Hoje alimento-me das palavras, a maior parte delas, encontro-as escritas, nos mais variados sítios por onde me passeio nos fins de tarde dos dias mais ou menos vazios... ou pelas madrugadas fora, na ausência das horas que me controlam, mas que por um qualquer motivo, ficaram presas no relógio pendurado naquela parede branca atrás de mim e para onde nem sequer olho...
Palavras escritas, faladas ou ouvidas, são palavras que definem sentimentos. Podem confortar, alegrar, dar esperança ou tirá-la… podem excitar, insinuar, esconder ou mentir. São apenas palavras…
Algumas dessas palavras são tão belas, que me recuso a colhê-las para mim, deixo-as ficar no mesmo sítio, para que possam ser admiradas por todos os olhos que as encontrem também. Outras são demasiado caras, sempre o foram e só com um dicionário por perto, as conseguiria alcançar, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com elas... por isso nem sequer lhes tento chegar perto. Outras ainda, são demasiado floreadas e engenhosamente complicadas de modo que de nada me serviriam também, por isso, deixo-as para os entendidos. Há ainda aquelas, que me acenam com sorrisos, mas são demasiado oferecidas, não as levo, deixo-as ali, para que outros se sirvam...
Há também aquelas que magoam, que me ferem os sentimentos e me entristecem profundamente… não as quero, não as desejo nem as ofereço a ninguém. São horríveis!
Sou esquisita, só gosto daquelas outras mais simples, que me enchem o olho logo no primeiro encontro e é dessas mesmo que me alimento e as devoro logo ali, naquele preciso momento.
Hum... que delicioso banquete este, de palavras suculentas e cheias de vitaminas, que me satisfazem e me dão um novo alento. Mas as palavras não são tudo..."

Não, de todo não, caríssimos senhores aqui presentes. As palavras são importantes, em certos casos determinantes, mas não são tudo.

Mas das de Cleo dizem
tudo ... (ou quase tudo dito)…

A prosa de Cleo é uma limpa, clara, sem subterfúgios, sem pedantismos, e porque assim é, chega-nos ao mais profundo de cada um de nós, provocando reflexão… provocando vontade de retornar ao ponto de partida e reler…

.... (desde sempre lhe disse que era fã da sua prosa … )

E quando a lemos num outro registo? Como se expressa, como se manifesta, Cleo em poesia?

De novo … nada a dizer: A Cleo deixa que a sua escrita fale mais alto e nos cale para que a possamos, atentamente, escutar:

Atrevo-me a lê-la …
(perdoa, Cleo, mas sou amadora nestas lides …)

“Divagações sob uma folha branca …” – pág. 42

Soubera eu
Ser poeta
Ou poetisa
Como também se diz

E não me desolaria tanto
Com o branco
Desta folha nua...

Talvez escrevesse sonhos
Desejos
Magias
Segredos
Ou degredos
Que por vezes
Me povoam
Os pensamentos
E me adornam os dias
Até os mais cinzentos

Porém...
Não sou capaz!

A poesia
É dos que a transpiram
Que a fazem sua
Nas madrugadas claras
E caladas
Sejam Verões quentes
Ou Invernos chuvosos e frios
Não importa muito...
O que importa sim
É o acto em si
Em que o poeta e sua amante
Se embrenham um no outro
E se entranham
Consumando aquilo que alguns apontam
Como um acto ilícito
Mas que importa isso?!
Se eles o fazem
Ali mesmo
Sem pejo
Nem preconceitos
Sem testemunhas
Que os incriminem!...

Não...!
Desenganem-se aqueles
Que a pensam sua
Só porque a roubaram dos outros
Os desacautelados
Que a deixaram ao abandono
Num qualquer algures
Mas que a reconhecem de imediato
Mesmo que vestida de outra cor
Que não aquela com que a deixaram
E que a sabem sua
Para todo o sempre
Esteja ela onde estiver!

Mas também não é daqueles
Que a desprezam
Com crueza
Com frieza
E arrogância
Logo após a serventia
Qual prostituta barata
Da antiga rua direita
Da cidade de Coimbra...

E com tudo isto
Só agora reparei
Que me enrolei
No fio da meada
Que me trouxe até aqui

Foi já tanto
O quanto divaguei
Que me esqueci
E já não sei
Ao que realmente vim!

Ah! Já sei!
Dizia eu...
Que talvez escrevesse sonhos
Desejos
Magias
Segredos
Ou degredos
Mas porque será que não consigo
Derramar nesta simples folha
Tudo isso?!
Fogem-me as letras
Das palavras doces
E fico sem saber
Como as escrever...
Por isso
Fico-me com a raiva
Presa ao que não escrevo
E ao azedo
Do arroto que me saiu sem querer

E fito a folha
Que me sorri com desdém
E que continua aqui
Bem diante de mim
Assim... despida...
Sem vergonha
Nem culpa
Visto que essa
Essa...
É só minha!"

Por fim, e para não vos cansar, vejamos este outro poema, partindo do seguinte questionamento:

O que faz a Cleo com as “horas que lhe sobram”?
… sobrarão muitas horas a quem trabalha, a quem é mãe, a quem é mulher? … À partida não …
digo eu ...

Todavia

deixo-vos a resposta de quem sabe que o tempo tem um tempo de ser tempo e que, o que deixamos escrito perdura muito para além de nós, perdura ad eternum…

“Nas Horas que me Sobram” …. Pág. 28 …

Nas horas que me sobram
Dos dias que me fogem
Procuro o que me escapa
Nas entrelinhas do que escrevo...

São pequenos detalhes
Das coisas que não vejo
Mas que pressinto...
Estão lá
Em cada vírgula que não meto
Em cada ponto final que não uso
Até nas interrogações que por vezes me faço
Nas afirmações que admito
E nas reticências que me denunciam...

É este o meu livro
De matéria virtual
Que escrevo em tela negra
Sem festa nem pompa...
À mercê de um qualquer vírus
Que o apague dos registos
Ou o leve sem destino...

Não me importo
Escreverei outro
Tenho tempo...

Até que alguém se lembre
De me obrigar a parar!"
***

Posto isto, palavras minhas para quê, meus amigos?

As da Cleo são, indubitavelmente mais fortes, mais reveladoras, da sua obra e da sua pessoa…

E, tal como dizia Alçada Batista que, infelizmente não está mais entre nós, “melhor que qualquer biografia ou até autobiografia, a obra do autor…”

Partilho o pleno desta afirmação. In pulsos, em formato livro, fala sem necessidade de imagens ou sons (a que a nossa Cleo se socorre nos seus blogs e que lhe conferem uma tónica muito própria, sem dúvida...). In pulsos em formato papel, basta-se a si, pela força da palavra.

In Pulsos é, em suma, e no meu entender, uma obra vestida de uma enorme e genuína simplicidade, quer linguística quer estrutural, e, por essa razão, muitíssimo bela.

Bem-hajas Cleo por nos teres dado este presente!

***
Foto: "roubada ao bloguista "Rouxinol do Pomar"... Obrigada Sr. Rouxinol ...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"Quem acrescenta um ponto" ...

Foi com imenso prazer que recebi o convite por parte da Esc. Sec. Avelar Brotero (Coimbra), no sentido de integrar a Antologia "Quem Acrescenta um Ponto" (um projecto que pretendiam levar a cabo e que reuniria trabalhos dos seus alunos e de alguns autores que estes haviam encontrado na net e que apreciavam).

A escolha foi totalmente da responsabilidade dos mesmos, sendo a única condição que coloquei, a de que, os "contosdemulheres" não fossem usados dado que, espero seja o meu próximo livro.

Projecto concluído, "Quem Acrescenta um Ponto" é uma obra que honra a juventude envolvida e me honra particularmente pela escolha do texto ... um texto alusivo à terceira idade.

"Marcos Falos", aqui publicado, é então a selecção dos alunos e da Escola.

Resta-me agradecer publicamente e desejar-vos, jovens escritores e corpo docente envolvido, e claro à Temas Originais (editora) muitos e muitos projectos similares.

A Mel estará sempre disposta a ceder trabalhos.
Por causas destas e, em especial, por causas sociais. Não hesitem em contactar-me.

Contém sempre com o meu apoio incondicional.

Grata
Mel



sábado, 23 de maio de 2009

A montanha aguarda-nos

Varro a noite em gestos baços na procura breve de já ser dia.
Aspiro do pomar ao lado o aroma perene de maçãs, de laranjas, de romãs.

A lavra recente solta para o ar o bafo da terra quente.
A nogueira eleva braços ao ar, agita-se em ansiedade humilde de te abraçar. Um fruto cai, é noz aberta, casco de barco, em busca do aconchego decifrado do teu mar.
Noz quebrada, rebola no negro da noite e encontra o gelo do alcatrão da estrada.

Abro as portadas, afasto as rendas das cortinas, desembacio janelas.
Atento com mil cautelas no peso dos passos cansados dos guardadores de sonhos e de gado.
A montanha aguarda-os.

A montanha aguarda-nos, pastores de longa jornada.
É prato lauto, d’erva tenra, macia, aspergida - é cidadela fortificada na unidade da vida.
Bebe-nos a essência, roubando, no desafio de comum medo, em recato e desejo segredado, um a um, lentamente, devagar, todos os beijos demorados no cetim do nosso olhar.
O Sol pesponta, tímido garoto. Tremeluzente solta os cabelos revoltos p’los montes. Ao longe e logo aqui, a fraga secular refulge evidente na pigmentação d’azeviche.

Desacatamos ventos, impomos ao tempo um tempo recluso de ternura e de acalmia.
Cinjos, unos, voamos d’asas fincadas na proa das madrugadas, por sobre vales, mares maiores, rios e fontes. Seguimos a rotas das ondas, a quentura das correntes,
sem promessas,
sem bússolas, ou sextantes,
sem guias que não sejam o rasto de comum memória.

Estrelas mareantes, dizemos amor na forma pura. Dizemos amor em leitos vastos e abertos. Em estrados aplanados de crença e de candura. No sal da pele, d’alvoroços acordados.

Enrodilhada na cadeira de baloiço oiço agora o sino d’aldeia, os zumbidos das obreiras, o bulício da colmeia.

E na manhã das horas tu chegas e escreves na tua ausência
o memorial da nossa história.
Chove. Chove agora.
***

Texto anteriormente publicado aqui

sábado, 9 de maio de 2009

“Correspondência ao rio…”

Alhandra, Longitude: 9° 0' 0" West Latitude: 38° 55' 0"

Sobre o muro que a separava à distância de cinco andares do chão abaixo, comprimia as mãos. O parapeito amparava-lhe a eventual queda, separava-a do vazio. Como que para se prensar imprimia força contra o rebordo áspero e estreito. Sentiu dor. Ainda sentia dor…
Na memória a conversa da noite anterior:

“Sabes mamã - dizia-lhe -, o pregador naquele dia em que o encontrei ali em baixo na borda rio, falou-me do seguinte modo:
- quando tu tens trabalhos duros a pele de tuas mãos fica, dia a dia, mais áspera, mais grossa, gretada até, mas mais insensibilizada, ao ponto de, se nalgum dia decidires hipoteticamente andar de palmas de mãos no chão, de pés para o ar, seres capaz de, sem dor, o fazer, tal a dureza com que as intempéries da vida te calejaram. Assim é, meu jovem, com os males do coração, da alma. Aqueles que te não matam, mas que, porque os não esperaste, não te acautelaste para eles, te cortam a pele também te tornam menos sensível. Contudo mais preparado para os que dai por diante possam vir. E, podes acreditar que muitos outros virão. E, doravante sentir-te-ás mais insensível. Isso é bom ou mão? Depende do ponto de vista …

Tornares-te menos humano, menos crente na espécie humana é o que desejas? … Nisso reside a tua escolha. Partamos do pressuposto de que não te queres insensibilizar: só há uma maneira de conservares a pele do teu coração saudável, jovem rapaz… e essa é a fé, a convicção de que aqueles que te magoaram o fizeram porque, eles próprios foram calejados pela rijeza da sua própria vida. E, sendo assim, só em ti está, porque conheces a mensagem, quebrar esta cadeia de ressentimentos capazes de tornar o ser humano desumanizado, se assim se pode dizer…”

Rosário comprimiu de novo as mãos. O tirolês do revestimento penetrava-as quase ao ponto de sangrarem. Os nódulos tornavam-se escuros ao mesmo tempo que as palmas e as costas das mesmas empalideciam …Olhou-as. Bem tratadas, o verniz neutro, as unhas curtas. Dois anéis de algum valor. Subiu o olhar. Os braços não musculados, a pele lisa e ainda sem cor de Verão… A penugem fina a reluzir aos últimos raios de Sol daquela tarde. Conclui: Bom trato. As suas mãos, os seus braços, não conheciam a dureza das tarefas árduas…

À sua direita, sobre a serra, o monumento às Linhas de Torres (o boneco do forte, como na vila lhe chamavam). Os pinheiros. O casario novo no sopé do monte e ao redor de onde se encontrava. De frente o rio… Dali, daquele promontório, a distância era mínima. O caminho de ferro bordejava margens, a auto-estrada do norte fazia uma curva sinuosa aproximando todos os caminhos (os percorridos e os outros) e a fé. ...

A fé … Erguia-se altiva a Igreja Matriz. Branca. Nas Lezírias a outra, a da Senhora de Alcamé. Aquelas eram as suas realidades. E as restantes? Ficção? Uma mescla copiosa de que nem sempre (ou quase nunca) se desligava. Por vezes os lugares comuns, talvez por deles precisar, melancólica, ao ler sinais outros da vera realidade, de realidade inapelável… Sem apelo, apelava-se a si mesma no misticismo dos lugares onde se acolhia em reflexão: o seu rio, as vistas latas onde o prodígio da alma humana não encontrava grades…

De novo a janela das suas memórias se entreabria. Uma leve brisa percorria-lhe a penugem do corpo mordendo-lhe os poros. Abraçou-se. As últimas horas. A alma retalhada, a dificuldade de se desligar definitivamente de quem, amiúde, sem pejo, a vilipendiava. A procura constante de ver para além do mediado, de procurar em cada um dos que a rodeavam o seu melhor, certa de que, se o fizesse estaria a encontrar o melhor de si mesma…

A aragem acossava agora mais forte as copas dos pinheiros. Lá dentro Martinha nos seus sete meses chamava por ela, pelos seus afagos. Uma vida ainda de pele lisa … “La Vie et Belle”, pensou …
No aeródromo um ultraleve içava-se perigosamente da terra batida (não a via, mas sabia-a assim. Batida. Vermelha. “Não temos de ver tudo para saber que existe…”, considerou.). Acompanhou o voo. O pequeno aparelho metálico içava-se rapidamente, tomava altura, num abanar de asas, desenhava sobre o azul do rio arriscadas piruetas. Estabilizava. Depois repetia a façanha uma e outra vez. O risco. A coragem, a vontade de ver mais alto e mais perto …
Abriu os braços. A imagem do Titanic, dos dois amantes na proa do barco… Como se lá estivesse em seu lugar …

“…mamã, já algum dia sentiste a tua pele a ficar insensível? Já alguma vez te magoaram tanto que desejaste não sentir mais nada?…”

Sorriu-lhe. Olhou-o dentro dos seus olhos castanho mel. O seu filho… Um homem a quem a vida não se cansava de pregar partidas e a quem sempre tentara passar a mensagem de que o melhor da vida são os afectos. Os amigos, a família. A quem tentara passar a mensagem de não julgar pelas aparências, de aceitar a diferença, de não sentenciar sem provas. O benefício da dúvida… sempre.
Questionava-se agora sobre o trabalho feito. Márcio tornara-se num jovem de valores, era certo, mas não menos certo, frágil. E, porque frágil, imprecatado para a dureza e crueldade duma sociedade estigmatizante e redutora. Piercings, raztas… “uns galdérios…”.

Sentiu o rio a subir-lhe pelas veias. Aflorar-lhe os olhos numa tempestade de dor. Não, não eram lágrimas salgadas aquelas que sentia descendo o rosto. Eram de uma nova espécie só sua: lágrimas de rio. Doces. Percorriam distâncias em nome de todos os seus amores, naquela janela virada ao Tejo. Espraiada, sentiu necessidade absoluta de não perder de vista a razão nuclear das coisas. De não gastar todas as energias escassas em prodígios ficcionais. A realidade, a sua realidade, apelava-a a dar respostas concretas de forma constante.

De novo os sons de dentro. Martinha clamava os seus braços suscitando-lhe o ininterrupto de novas e sempre renovadas reflexões…

Despediu-se do terraço, do último sol da tarde, das linhas paralelas, das piruetas circunstanciais do ultraleve. Por fim, a norte, do monumento das Linhas de Torres…

Esfriava. Entrou na sala tomou Martinha em colo, sentiu o cheiro da sua pele de bebé e abençoou a vida, sentiu-se viva, fortalecida, revigorada …

“…mamã, já algum dia sentiste a tua pele a ficar insensível? Já alguma vez te magoaram tanto que desejaste não sentir mais nada?…” repetia-lhe a voz de dentro, como eco.

E o eco abrigou-a da própria resposta… Essa, enviá-la-ia ao rio em correspondência póstuma… por ora viveria sem medo de sofrer…


domingo, 26 de abril de 2009

As escadas da distância

Dizem que pouco mais tinha de dois anos quando meus pais vieram para este bairro. Duas moradias: a nossa, própria, de R/C e quintal e a que eles já habitavam, tomada de renda, aos “Gaibéus” assim chamados por serem da zona de Viseu.

Não éramos do bairro, esse de construção recente, de casas exíguas e igualmente ocupadas a renda por trabalhadores das industrias próximas. Cada um de seu canto, originários. Nós éramos os “vizinhos das moradias”, algo que nos distanciava ligeiramente dos demais. Por comodidade, com o decorrer dos tempos a nossa rua que findava exactamente na casa dos “Gaibéus”, a Rua das Amendoeiras, passou a findar no início da rampa que nos distanciava dos demais: cerca de 100 metros de terra batida, hoje alcatroada, e, a fazer jus ao nome, ladeada de amendoeiras. Oliveiras, também, mas não era destas a rua. Rua das Amendoeiras, portanto. E, por comodidade também, passamos a ser "bairro" … Afinal apenas o tamanho das casas e pouco mais nos distanciava dos restantes. Nem água, nem esgotos, sequer energia eléctrica. O rio como janela e os contrafortes dos montes.

Não me recordo obviamente de aqui ter chegado. Nem do tempo em que as nossas duas casas tinham fossas assépticas e não esgotos. Como não me recordo de, entre elas, nem sequer haver qualquer muro (viria a ser construído mais tarde, a delimitar as extremas, mas com pouco mais de um metro de altura e que nunca nos impediu de dois dedos de conversa, ou, no meu caso, de o saltar em dois tempos, abreviando o incómodo de ir ao redor dos muros ...). Como dizia, não não me recordo de muitas coisas naturalmente desses tempos, mas, curiosamente, tenho uma vaga memória de descer e subir aquelas escadas de forma estranha. Falo das escadas empinadas, de degraus estreitos. Escadas enormes, que, pelas traseiras acediam ao 1º andar onde eles moravam. Única e exclusiva forma de lá chegar. As duas moradias, a nossa e a deles, feitas pela mesma planta, dispunham-se de igual forma. As traseiras davam acesso à cozinha e aos quintais. No caso deles, escadas exteriores e os quintais. Corredores de acesso laterais. E por ai se uniam.

Recordo-me pois de, sentada, com o rabo nos degraus, descer lentamente e sempre a medo, um abismo de altura. De os ouvir lá do alto: "Melinha, vai devagar, Melinha, tem cuidado … ai Melinha …" (era Melinha e sempre fui, até hoje, para todos os meus vizinhos…).

Recordo-me igualmente de, sorrateiramente, me escapar à vigilância de minha mãe ou de minha avó e, agarrada, ou melhor, amparada, à parede da casa, passinho a passinho, subir até lá, num medo grande, grande… e, não raras vezes, a meio ouvir a minha mãe aflita:
"Melinha, sobe com cuidado, ai valha-me nossa Senhora…". E continuar a subir.

Lá em cima estavam vários homens e mulheres, todos novos. Comiam sopa de feijão com um fio de vinagre (coisa estranha), riam muito… E estava a certeza de saltar de colo em colo, de braço e braço. Eu, nos meus pouco mais de dois anos, um pedacinho de carne com duas safiras nos olhos e cabelos de palha, a rir das cócegas que me faziam… Não tinha mais vizinhos. Só eles. Este relato de factos, ouvido enésimas vezes das suas bocas, sempre que alguém lembrava esses tempos acabou por ser uma memória quase quadro em minha mente... Vivida e escutada, passada de boca em boca - "A nossa Melinha ..."

Mais tarde, muito mais tarde, percebi que eram um casal e respectivamente e a pares, irmão e irmã de cada um e ainda um amigo. Por vezes, temporariamente, mais uma prima ou outra. Todos vindos da zona da Figueira da Foz procurar melhor vida. A fábrica que os acolheu também era aquela em que trabalhavam os “Gaibéus”. Feliz coincidência que os colocou na vivenda ao lado da minha. O casal ficou até hoje, nos seus mais de setenta anos. Diziam que nunca voltariam às origens. Convenci-me que assim seria...

Passaram quarenta e seis anos. E entre risos e choros e sopas de feijão e couves galegas e confidências e condolências, sempre vivemos juntos. Lado a lado. Sem uma única discussão, sem uma má palavra. Presença contínua (o casamento colocou-me ao nível deles, dado que a minha moradia foi ampliada por essa altura). O R/C da moradia dos "Gaibéus" teve um sem número de inquilinos e desses não se rezam histórias ...

Partiram hoje com destino à sua terra de origem. Definitivamente. As escadas que tantas e tantas vezes subi a medo ditaram o fim da nossa vizinhança.

No meio de um lago de emoções, a minha vizinha soltou: “Melinha, as escadas… não as poderíamos subir por muito tempo, tu sabes como são difíceis e perigosas…”
Sei. Sei sim…

Há pouco, quando voltei ao andar de baixo, desabitado desde a morte de meu pai detive-me a olhá-las e amaldiçoei-as pela primeira vez…

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Carreiros de formigas

Sentou-se na beira da pedra. No caminho da pedra. No silêncio da pedra. A Páscoa ao lado, a quatro dias. As férias da escola - apenas reuniões a retinham. A aldeia em espera. Os sargaços, as sarças que lhe trilhavam os fatos, os enxames das abelhas… O povo. A sua aldeia. O umbigo de Vénus onde se sentia una. Integra. Integrada na ruralidade que a serenava. Ali na cidade não era o seu lugar.

De manhã quando entrara no carro não pudera deixar de pensar. Desde o Carnaval que não se falavam. Como se o a época pascoal impusesse o afastamento das almas afins. Como se a quarentena fosse além do culto cristão … E, contudo, prevalecia o azul no rio em frente, o sol descaía mole na Lezíria todas as tardes. As andorinhas no seu beiral já haviam gerado filhos, enchiam-lhe o chão de porcaria… Amava-as, da mesma forma: os pássaros e as crianças eram esperança. De quando em vez as bolas batiam contra as vidraças. Estilhaçavam vidros sempre baços. Os donos acorriam em fúrias e logo a benevolência da vizinhança repunha a ordem nos cacos e nos gonzos onde, despidas de vidro, as janelas permaneciam… Até um dia! Aquele em que nada mais restaria...

Sentou-se. Aconchegou-se em si. Nos seus próprios braços e a braços com o mundo. Abraçou com um olhar a dinâmica de gerações que, no parque em frente, alheias à tempestade, ao tremor da terra, aos sismos de Àquila, à devastação da argamassa e da pedra, dos ferros trucidados, à fúria cíclica da natureza, elevavam vozes ruidosas. Olhou o sismógrafo. O seu. O que vivia, dia após dia, em cada ruga que via em sua face. A terra e ela, enrugadas a um só tempo. E as falhas tectónicas que sabia, havia, nos terrenos que pisava…

Minutos antes, como se lhe tivesse lido os pensamentos, o telefone tocara. O silêncio, o jejum pascoal, quebrado por breves minutos e o pedido de que mantivesse a luz acesa. Uma lágrima. Recalcitrante lágrima, brotara da raiz do tempo. Olhou-se na pedra e não se viu. Hesitante pegou a caneta, buscou uma folha branca no monte de papéis desordenados que mal cabiam na pasta. Finalmente, escreveu:

“Restauro a liberdade de te amar.
restauro-me em prosas que não entendo, em versos que me são, em tantos minutos, em tantos segundos, intrinsecamente adversos. Olho o que escrevo e compreendo que não mais são do que conversas inoxidáveis em que, no edificar propósitos de te deificar, apenas tento superar o meu medo de solidão e, nesses escassos instantes de liberdade poética, acredites ou não, sinto por ti imensa gratidão.
Existe uma dupla hélice, meu amigo, no barco varino em que viajo as fímbrias desta cidade … Uma alimenta o moinho da minha imaginação, outra, corta-me as vísceras sem qualquer sentido. Peixe fora de água, respiro por guelras. Mas os olhos ficam cada dia mais mortiços … Subjaz o sangue e as lampreias do rio que sobem ao teu em desova. E a seiva que aromatiza a erva que uso na confecção dos caracóis e que a mantém na forma erecta … (Bem vês, no meu espírito reina sempre um turbilhão de ideias, não busques lógicas no que escrevo …).

Restauro a liberdade de te amar,
em cada manifestação cromática de uma nova folha a nascer, em cada olival, em cada oliveira altiva em prumo à vida, nos ramos em flor que se erguem e varrem a noite em resquícios de coragem a raiar loucura. Restauro, meu amigo, mas, para tanto tenho que te apagar a luz. Desculpa … Dizem que é importante a ecologia. A poupança de recursos energéticos. E dizem também que há que buscar energias renováveis.
Dizem ainda que em ambientes de dificuldades acrescidas regra geral florescem talentos. Dizem também que cada um de nós acarreta em si um instinto de conservação das espécies… e, dizem uma vez mais que - e de novo tenho de concordar -, não é a pistola que mata, mas o dedo que aperta o gatilho….
No nosso caso, quem aperta o gatilho? Quem fuzila, quem mata, o que luta por nascer? Quem combate a inércia e defende a conservação das espécies? Onde se oculta a verdade e a mentira contrasta?…
Por tudo isto, apago-te a luz. Talvez, definitivamente assim, encontres o caminho.”

Levantou-se. Seguiu, sem olhar para trás, o carreiro determinado das formigas…. Das de asas. E solitária, igualizou-se a elas e voou.

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...