Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

“Quem és tu, Sara?...”

Sempre se soube desatenta, meio “lunática”, meio aérea.

A comprová-lo um sem número de episódios absurdos: o dia em que foi para o emprego com sapatos diferentes, absolutamente diferentes – um castanho e outro preto, um de salto fino e o outro não, um com um berloque e o outro com uma chapa metálica no peito do pé -, ou ainda o dia em que acompanhou, no seu carro, durante mais de oitenta quilómetros, um suposto tio falecido … Sim porque, na hora aprazada o funeral que passou não era o do seu familiar e, pese embora não ter reconhecido nenhum dos rostos dos seus familiares nos carros próximos, decidiu que sim, era aquele o funeral e segui-o…. Acabaria por chegar adiantada ao cemitério e esperar lá pelo defunto. Afinal nada se perdia… tinha feito “companhia” a uma alma e agora ali estava, no papel de boa sobrinha, a aguardar a chegada do morto que deveria ter acompanhado…

No rosto um vazio e nas mãos rosas amarelas “dou-te a minha rosa amarela”, lera em algum lado. Rosas amarelas, símbolos de afectos, de amizade …

O seu olhar perdia-se frequentemente como se andasse sem ela pelos prados e pelas avenidas. Como se vagueasse em nomadismo de alma… Como se os seus passos se levantassem antes de si e, na manhã dos dias, já se tivessem antecipado às rotineiras tarefas e lhe tivessem aprontado as torradas e o café… Os seus passos, antes de si!

Tempos houveram em que se “enganava a si mesma”. À noite, depois da família estar aconchegada, Sara preparava a mesa do pequeno-almoço, a máquina do café. Cortava o pão, introduzia-o na torradeira e… colocava um temporizador em ambos os electrodomésticos. Quando chegava à cozinha a sua criada invisível, o seu mordomo, haviam-lhe preparado o breakfast… Continental, pois claro, mas era o que se podia arranjar… do mal o menos. Afinal merecia!!!

Sempre se sentiu ausente de si e do mundo. Não raras vezes desligava os comandos e deixava que o piloto automático comandasse a sua existência. E assim acontecia. Tudo se ia ajustando, como se uma mão invisível … (vinham-lhe agora à memória as teorias de Adam Smith e as suas últimas palavras, as que terá proferido à hora da morte: “Liberdade para sempre”...)
Uma mão invisível… uma liberdade para sempre. A sua forma "lunática" era a sua maior liberdade...
Em boa verdade, dos seus tempos de aluna, vinham-lhe mesclados os conceitos de “mão invisível” com os de "liberdade de acção", da sua acção enquanto ser social, da sua determinação operante e operacionalizante, a sua capacidade de agir em sintonia com a sua consciência social. Sentia-se não raras vezes nos antípodas de si mesma. O verso e o reverso. O ser e o não ser.

Eram nesses momentos, em especial, que os conceitos económicos lhe emaranhavam os neurónios. A curva de Gauss, a normalidade dos “trajectos”, o ponto de Cournout…
Não entendia aquele súbito interesse por temas económicos, mas o facto é que a pressão da “economia doméstica”, da "gestão doméstica", faziam-na repensar o factor “investimento”, o “curto e o longo prazo”, os "recursos e os métodos" … e as "economias de escala", e as "economias sociais" ...

A vida era um imenso comboio em que a haviam colocado sem lhe determinarem a função. Ou seria antes uma linha de montagem? E ela, quem era? Pessoa? Máquina?
Talvez! Ou talvez não... Não que quisesse, conquanto, maquinalmente ia empurrando a vida (ou puxando por ela, como preferirem).

A sua vida fora sempre um sucedâneo de actos não previstos em que as soluções haviam surgido de improviso. Improvisada. Resolvia. Desenvolvia. Unia pontas, cerzia e passajava uma manta esburacada de gasta. No fim, tudo parecia perfeito, como se os remendos fossem patchwork, como se aquela tivesse sido, desde sempre, a intenção da obra. Patchwork ...

No percurso impunha-se um distanciamento de si própria. Um olhar-se de cima, como na noite em que, uma hemorregia não prevista, em resultado de uma simples operação às amígdalas lhe ia custando a vida. Tinha então cinco anos... Viu-se de cima, viu médicos e enfermeiras a lutarem por ela... Para quê? Não sabia... eles tinham tanto mais que fazer. Mas lutou também. Sara um dia seria médica (ou talvez não).
Impunha-se o tal distanciamento. Camuflava-se, como intimamente dizia (metamorfoseava-se no seu casulo). E protegia-se expondo-se. De novo nos antípodas de si mesma. Nos paradoxos.

Num destes dias, de conversa com uma antiga colega que não via há anos, ouviu dela aquilo que sempre soube, o que intuía ser a leitura que dela faziam:

- Sabes, Sara, sempre te achei “estranha”… desculpa lá, mas é verdade. Aparentemente és uma tipa aberta, “uma porreiraça” mas, quando achamos que já te estamos a conhecer… ausentas-te de nós e é como se uma barreira se erguesse, invisível e inultrapassável. Desarmas qualquer pessoa. Tão “lunática”, mas tão densa, amiga… perdoa a análise. Quem és tu, Sara?

Sara sorriu… Abraçou a amiga, um abraço sincero e, naquele jeito muito seu de ser “ausente” rodopiou sobre os saltos altos, pegou na mala deposta sobre a cadeira ao lado e, com um sorriso a bailar-lhe nos olhos e um véu de tule sobre ele, respondeu:

- Sei lá, Carminho … sei lá!

O eco perpetuou a pergunta por muito, muito tempo … para além do tempo. Sem tempo, Sara continuou ...

“Quem és tu, Sara?...”

terça-feira, 24 de junho de 2008

estrada interdita

não sei de onde
nem quando
ou em que era ou idade, se na do Bronze
ou se em puberdades d’antanho,
nasceu em mim a fome de ser quem sou de verdade:

um mar
um oceano de facto

que não abarco
que não sustenho
que me esgota do choro ao riso,

por onde navegam sem custo batéis (in)constantes de papel e de palavras,
sem rimas e sem nexo,
ofuscados d’anímicas por um sol excessivo.

cega, indago fórmulas secretas em busca da raiz perdida, matematizo números, dos inteiros aos fraccionários, dos reais aos imaginários, muno-me da vassoura de bruxa e, sem nenhum esforço corro com os fantasmas todos, um a um, da sala escura à vassourada…

desço e subo a escada, (dizem que conduz ao paraíso)
deslizo pelos supranumerários…
(estes, dos muitos gabinetes, sem reciclagem possível. incrível, como a traça não destrói a permanente bagunçada, que bem precisa!!! ).

numa loucura concisa proponho tempos novos ao tempo.
um tempo em que, maestrina, de batuta descoordenada, assumo meu e dirijo num ritmo alucinado de um cansado metrónomo.

na vanguarda de mim
viro cento e oitenta graus a cabeça
(que a tenho suspensa por um único osso, quase, quase despegada, já meio degolada…)

olho os meus bolsos de trás, aqueles onde guardei uma centelha de esperança. tem a cor robusta das moçoilas da aldeia, das papoilas erguidas nas searas da vida, com que incendeio o caos que sempre m’habita, de forma permanente (direi que infinita), este, que em cada poema se solta dos terminais dos dedos e transita em julgado, sem método, sem regra outra, e s’eleva em vagidos de sons, banda em dia de festa, no centro de um coreto, ali, ao lado do lago, onde vislumbro o canto incessante de um cisne, se me busco pecadora confessa, na desventura e na desdita de, num registo telúrico, de movimento impreciso, ousar rebuscar a forma harmónica na ogiva inacabada de uma estrada interdita.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

"...as novidades são dois dias"

Tinha-o deixado lá muito atrás, umas décadas atrás, direi. Tinha-o deixado “arrumado” nas memórias de um 5º Ano de Liceu (9º agora) deveras atribulado.

Corria o ano de 1976. A revolução dos cravos estava no seu auge. Eram adolescentes, ávidos de saber, de viver, de ser. Ela, a delegada de turma, para além de ser membro da associação de estudantes. Ele fazia parte daqueles colegas de quem se guarda um sorriso - que o tinha sempre nos lábios -, uma voz marcante e uma delicadeza de trato e no trato autênticas, tão escassas em jovens daquela idade e, demais a mais, num período de pós-revolução em que os direitos adquiridos pareciam querer por em perigo a polidez e a cortesia, assentando na boca de rapazes e raparigas, até ai comedidos no vernáculo e no deselegante da verve, palavras menos airosas. Não nele, correctíssimo, para além de deter uma imagem de príncipe loiro. Não necessariamente um príncipe consorte, que tais sentimentos não cabiam na conjuntura…

Provinham de classes sociais diferentes, ele e ela. Ele, de uma burguesia campesina, ligada às tradições tauromáquicas, às Lezírias. Ela, ligada igualmente à terra, por via de seus avós maternos, pequenos lavradores. Ele tinha as herdades (se bem que à época, mercê do 25 de Abril, as mesmas estivessem ocupadas e transformadas em cooperativas agrícolas de produção), ela apenas uns pedaços de terra que tios e primos não cultivavam mas pelos quais se digladiavam. Ele criado com criadas, ela habituada desde tenra idade a ter de “comer o pão que o diabo amassou”, a ter de executar uma a uma todas as tarefas da casa, a ter de acompanhar os pais nas idas nocturnas a mercados (tinham-se dedicado ao comércio, entretanto).

Em comum, pouco ou nada teriam, em boa verdade, a não ser o olhar edílico e sonhador sobre o mundo, fortes convicções, e posicionamentos políticos diferentes, se bem que na essência das coisas, muito próximos. Humanitários.

Fossem quais fossem as razões, sempre foram amigos. Não de se visitarem ou trocarem telefones, não de andarem a trocar beijos por dá cá aquela palha, mas de se abraçarem sinceramente quando se cruzavam. Sem mais. De desejarem no fundo de si mesmos que cada um encontrasse o seu caminho e fosse o mais possível, feliz, sem que o tivessem publicamente anunciado.

Cedo se separaram e se perderam. Moravam a 10 Km de distância mas os seus mundos não se cruzavam. Até àquela tarde.

Mariana, vamos chamar-lhe assim, saiu do seu trabalho e, à semelhança de tantos outros dias, dirigiu-se a uma grande superfície próxima. Daquelas em que, para além do supermercado, e em seu redor, “n” lojas de “n” coisas se localizam e onde se vende da roupa ao calçado, passando por lavandarias e farmácias. Era-lhe confortável poder, num só acto, efectuar todas as tarefas rotineiras de sua casa. De família alargada, casada e mãe de três filhos, nada parecia chegar nunca. Saturava-se com aquelas “ninharias”, a busca de lugares onde os bens fossem mais acessíveis, a procura diária dos melhores produtos… a sua mente andava sempre a mil e, não raras vezes, se despistava e se perdia no emaranhado dos corredores, ou abandonava o carrinho de compras num local, ia buscar os bens e, ao invés do seu, agarrava outro qualquer … era, em boa verdade, despistada. Não via nada nem ninguém, se bem que os seus olhos parecessem sempre querer abarcar o mundo (talvez quisessem, mas a dimensão era outra …).

Entrou numa loja de modas, duma marca “branca”. Tinha um vale para rebater, um bónus duma compra anterior. Não pretendia gastar mais dinheiro. Pesquisou o equilíbrio entre a utilidade e o valor do mesmo. Seleccionou. Levaria aquela camisa para o filho mais velho. Estava decidido.

De repente, a seu lado, uma voz. Falava com uma criança, fazia-se acompanhar com uma senhora de cerca de sessenta anos. Olhou, magnetizada. Olhou de novo. O conjunto formado pelos seus “vizinhos de compras” era heterogéneo. Familiar, mas “estranho”. Não se consubstanciava como pai/avó/neta … De todo não.

Mas o que na verdade a prendera era a voz. Conhecia-a. Mas não conhecia ou reconhecia o seu dono. De barba comprida e quase branca, alto, bastante alto, vestido de forma muito simples, com alguns quilos a mais que o devido … Não conhecia, definitivamente não conhecia. Afastou-se, tentando não olhar mais. Mas não conseguia. Mecanicamente colocou-os de novo na sua linha de visão … Continuavam a falar. Percebeu que, tal como havia intuído, a senhora não era familiar, mas sim criada, governante ou algo similar.

De repente tudo ficou claro. Era o António (chamemos-lhe assim). O António Albuquerque, da Quinta das Orquídeas. Como por magia, como se sentada num cinema antigo, via claramente o filme da sua juventude.
Olhou-o descaradamente e esperou que ele sentisse o peso do seu olhar. António virou-se, encontrou os seus olhos, o seu sorriso…
Sentindo-se observado, esboçou timidamente um sorriso. O tamanho da figura e a timidez do sorriso, confirmaram a sua convicção. Era o António, seu colega e amigo.

- Olá António, tu és o António…
- Sim… mas não a conheço…
- Conheces sim. Olha bem para mim…

António olhava-a agora, céptico. Na sua frente uma mulher meio grisalha, com uma jeans usadas, uma camisola de malha roxa, igualmente usada. Sem pinturas, excepção as unhas… para o “cheio”, sem ser gorda …

- Mariana, tu és a Mariana … rapariga, só te restam os olhos… eras loura, onde deixaste o cabelo?
Sorrindo, acrescentou: - E o resto?.. Bem!!! ... Desculpa, desculpa…

Riam-se ambos, abraçados, perante o olhar estupefacto dos vendedores e dos demais. Perante o olhar incrédulo da criança e da criada. António apresou-se a apresentá-la:

- Menina, esta senhora foi colega do papá, no Liceu; Rosália, a D. Mariana é uma amiga de longa data … minha colega de Liceu, a Rosália não a conhecia, não costumava ir lá a casa…

O diálogo retomado como se não houvesse entre eles a distância de mais de trinta anos. A urgência de saber do outro… da vida do outro. Do bem-estar do outro. Alheios a tudo o resto.
António falou de si, do seu casamento, do seu divórcio. Das suas irmãs, das suas primas. Dos seus projectos, dos sucessos e dos insucessos de uma vida inteira. Formado em Direito. De como havia ganho e perdido várias batalhas.
Mariana de si, de coisas iguais. Formada em Psicologia…. De como fazia a gestão das crises… das suas próprias crises, das crises dos seus pacientes… existenciais e outras.
Riram como riam quando se contradiziam politicamente e no fim concluíam que afinal em quadrantes diferentes eram tão iguais.
No fim de tudo, e em jeito de conclusão, António foi dizendo:
- Sabes Mariana, a questão é que hoje em dia se perdeu o hábito de cerzir, remendar, passajar. Aproveitar. Reaproveitar. E se é assim na economia doméstica, como melhor do que eu sabes, é assim nas relações humanas… é a política do usa e deita fora. A começar pelas ligações afectivas. E, minha querida Mariana… na verdade, tu que como eu és da terra, sabes que “as novidades são dois dias…”

Neste registo a conversa fluía. António estava ali para ajudar uma das suas filhas a comprar, tal como foi dizendo, “uns trapos” para ir a um casamento no dia seguinte. Ali, numa loja de linha “branca”….

Havia que economizar, habituara-se a fazê-lo desde sempre, em especial quando toda a família se viu sem recursos com as terras ocupadas. Era avesso a desperdícios de qualquer espécie. Reajustar, reutilizar. Minimizar os gastos…

- Ela está a crescer, Mariana… não vale a pena gastar muito.
- Claro que não...
Mariana sorria. António continuava tão igual a si, mas tão igual.
Dirigiram-se ambos para a caixa com as suas compras. António pagou, Mariana entregou o vale…

- Não tem nada a pagar, minha senhora.
- Obrigada, boa tarde.
- Não tens nada a pagar? Bem, ainda consegues ser pior que eu, rapariga….

Riram de novo. Riram novamente...

Já fora da loja, abraçaram-se francamente emocionados por aquele encontro. Mariana avançou para as restantes compras, António igualmente. Separaram-se.
Talvez um dia, num qualquer supermercado, a vida lhes cruze os corredores. Enquanto não, perdurará por certo em cada um o prazer genuíno de um reencontro, maior que todas as novidades, que essas “são dois dias”…

segunda-feira, 9 de junho de 2008

10 de Junho, Viana

Há uma solidão de braços e de pernas
meu amor
Roda de feira, gigante, palco de vaidades em que balançamos suspensos
Apensos
ao equilíbrio imposto pelas leis da gravitação, da gravidade dos corpos e nos encontramos grávidos de espanto (ainda).
Existe um movimento oscilatório, pendular, lupanar (também)
d’artefactos soltos
de relógios antigos em alacridade insanas. Clic-clac(s) de dor e cor. Feéricos clamores acesos num ribeiro manso que corre lento p’ro mar.

Há um registo hidrográfico de caudais de cheias que nos lembram as percas de searas, sementeiras de trigo, de milho e de arroz, quando as Lezírias se alagam com as águas derivadas de todos os montes, quando as barragens a norte abertas, detonam sem contenção, gravilhas e mísseis dalgum navio fundeado com roturas no porão.
De Viana, talvez, em dia de comemoração.

Naval se faz o verbo e o rio é Lima. Lima laranja, d’acidez e paleação. Futilidades várias.
Paliativos os cuidados ambíguos consignados a um povo que, vivo, definha e morre. À luz já difusa e imprecisa dos Direitos consagrados em Constituição.
Esquecida, olvida, adormecida em qualquer lugar
“… a educação, a habitação, a saúde, a dignidade …”

É tempo de ser verdade, pois então!!!!

Subaz
um gosto azedo a tilintar o palato, a encortiçar a língua. A língua de um povo que grita poesia na fúria das suas guelras. Um povo que vibra no sal salgado das suas margens. A pele retinta nas cores dos cinco continentes “todos iguais, todos diferentes”. Pois!!!!

Ah, este mar de rugas e de vielas largas, este mar onde os auto-estradas ainda têm cancelas… e as docas são portos onde navios de guerra se estiolam na insensatez d’amaragem. Sem cautelas, sem aulas de boas práticas, de navegação.

Comemora-se o acto de renascer Nação. Talvez.

Um gramofone ecoa agora semibreves e colcheias
E mais além um termómetro
em que o mercúrio há muito disparou todas as escalas, de um povo que agoniza já em fome. Fome de escola, de pratos cheios com as letras de todos os alfabetos. Fome de afectos. Fome de que nunca estes tenham que ser legislados por Portarias e Decretos.

Basta de sermos bestas e de gerarmos ventres de inumanidade.
Nasçam poetas, por favor, com trigo a jorrar pela boca e sangue vivo nas guelras. Mulheres, não tendes medo, abríeis as pernas pari em amor se amadas fordes em acto de ser amor. Que esta Nação necessita de sangue novo, de crianças a correr e a plantar cravos e rosas em contradição. Que seja então!


Existem falas
meu amor…
Falas que um ponto escondido nos revela de uma peça de que não sabemos o términus, o início. E durante a qual, embalados no canto da letargia, temo, adormecemos um dia.
Soltemos agora as palavras: térmitas em guerra nas entranhas da terra.

Existem esotéricas linhas d’horizonte, por onde à solta gravitam isótopos desprendidos de uma qualquer infusão. Ou talvez não ...

terça-feira, 27 de maio de 2008

"Tara perdida".

Existem momentos em nossas vidas que jamais conseguimos esquecer. Ou porque foram de tal modo dolorosos ou pelo seu inverso. Ou simplesmente porque nos fizeram, como neste caso, sorrir por dentro e nos marcaram.
Corria o verão de 1991, julgo não me falhar a memória. Num daqueles dias em que uma boa esplanada ao pé do mar nos chama mais do que qualquer outro lugar.
Mas não, fossem quais fossem as razões, a família estava reunida em torno da mesa e almoçava placidamente, num daqueles almoços que parecem não ter fim, acima de tudo porque o não desejamos.
As crianças, filhos e sobrinhos, brincavam alegremente, sujavam-se e espalhavam os sumos por cima deles e das mesas. Não adiantavam ralhetes, eram pequenos de mais e estava-lhes na massa do sangue.
Sobre a toalha de xadrez garrafas vazias contavam a história líquida daquele dia.
A determinado momento a minha filha Rita, então com 7 anos e a frequentar a 2ª Classe, fixou-se em leituras de rótulos e embalagens. Até ai nada de estranho. Quem a conhecia sabia daquela “queda” para as leituras em tudo o que era sítio.
As conversas cruzadas, as piadas e as graças continuaram entre nós, os adultos e, entre as crianças a atenção prendia-se em torno das leituras da Rita.
De repente o seu rosto ensombra-se. Os olhos, imensamente verdes, abrem-se de espanto e cobrem-se de uma névoa a ameaçar tempestade… Como íman, todos olhámos em sua direcção. Eu, em especial.
- O que foi filha? Não sabes ler alguma coisa? Posso ajudar?
Abanou veementemente a cabeça e uma lágrima ameaçou rolar o rosto. Mais inquieta ainda insisti:
- Diz lá filha, que foi? Que tens?
A Rita pegou na garrafa à sua frente e deu-ma:
- Mamã… “Sem retorno. (es)Tara perdida". Tá perdida mamã… tá perdida, como o mano se perdeu na praia naquele dia …
“Sem Retorno. Tara perdida”.
Escusado será dizer que levei largos minutos a tentar acalmá-la. A tentar explicar o sentido de “Tara perdida”. E a fazê-la entender que as garrafas nunca seriam “crianças perdidas”. Eram seres sem alma, apenas matéria. Vidro no caso, sem retorno e sem valor se devolvido. Restava reciclar e nesse tempo o conceito em Portugal ainda era muito pouco difundido. Definitivamente, a nossa garrafa estava perdida.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

És tudo o que em mim germina

És tudo em que em mim germina a cada final de tarde.

És sonho moribundo, és devaneio renascido; és desamor e virtude d’amar sem ter sentido; és sol ocultado em renúncia de viver, vivendo. És chuva, na eira e no nabal (a que danifica e a que é providencial).
És cognição, função superior de meu cérebro; és um tempo vegetativo que m’atormenta o sangue quente. Que me acorrenta nas fímbrias angulosas das neblinas e nos anéis de Neptuno (e o próprio planeta, fustigado por fortes ventos … tão fortes…). Serás, quiçá, Juno, a deusa da luz e, em certos instantes, vingativa.
És desassossego, destempero, ausência permanente em meu corpo e presença d’alma, obstinada.
Em certos momentos, gostaria de poder apagar de mim esta atitude proposicional, este metabolismo pensante que me catapulta de forma desequilibrada entre a razão e a emoção; entre a inteligência no acto de fugir ou simplesmente esquecer e, a resiliência do corpo ao facto.
Da invisibilidade dicotómica destes momentos, resultam estragos maiores, cataclismos eminentes (que os pressinto).
Não, de todo não há razoabilidade em mim. A desorganização é sistémica, a claustrofobia toma proporções de arritmias, o coração bombeia, a loucura dos caminhos. Em dualismo cartesiano (hoje vou reler Descartes …)
Simbólicos, os dedos tacteiam os infinitos dos medos, dedilham harpas na insanidade de serem membros estropiados de improváveis guerras. Póstumas.

É urgente desarmar os verbos. É urgente desminar terrenos férteis. Replantar semente de utopia….

É urgente germinar da verve, a matriz da poesia!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Baralham-me

Baralham-me estes silêncios
confiscados ao vazio da noite
giestas a chibatarem meu corpo num eco inviolável de palavras.

Confundem-se mais do que algum dia
me confundiu o milagre da separação dos mares, do que me atribula a mente saber que existem ânforas depósitas nos fundos de todos os mares. E nelas, tesouros maiores por encontrar. Teus e meus. Nossos …

Ai esta raiva de ser impotência, de ser verbo d’encher e nada ser
senão
planta arrancada pela raiz na fúria de tua mão…
flor ...espalmada.

Baralham-me
cartas baralhadas, dadas e repartidas e as desbotadas, as de marear nas sete partidas dos mares, por onde marinheiros de vastas águas se fizeram ao mundo. E esta peleja permanente entre os homens e as águas.
Cavadas sem norma, regra, sem jeito
à veia cava do meu peito
aberto
oferto
em dádiva …
Arrestam-me ventos do norte
e as velas incendiadas no horizonte
mordem-me as entranhas descaradamente.
No que não dizem, no que não fazem, no que fazem e desmentem.

Baralho-me na recidiva,
confundo-me, derivada, cognata em mim. Abocanho a madrugada e dela a luz, ainda que declinada e ela, a luz, sabe-me, imutavelmente a água salsa. Salmourada. Ao sal que se escorre em face lívida, ao sal curtume da minha pele.
Estendida. Tensionada por cordame de barcos. Turbulentos, inquietos e logo abalroados no limite dum horizonte improvável.·

Hoje, como ontem, como no dia que adivinho rastilho do devir, embrulho-me na poeira do caminho, revisito o vale sagrado dos afectos e, baralhada, retorço o sentido de todos os alfabetos.

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...