na realidade, somos nós os maiores obreiros das nossas vidas. cada dia, dia-após-dia, pela eternidade...
o futuro começa hoje, agora, já. começa dentro de cada um de nós. na força e na certeza de que, dos pequeno gestos, nascem as grandes causas.
a todos um 2012 pleno de boas energias - dádiva sincera e respeito pelo outro. em tudo o mais, prossigamos, passo a passo, certos que o universo devolve sempre o que [lhe] ofertamos...
Bem-hajam, meus amigos, Feliz Ano Novo!
Mel
Sobre mim ...
- Mel de Carvalho
- Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
- (Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
A dança dos pares
"Dançava, às vezes, por dentro de si mesma."
Baptista-Bastos
Dobrava-os meticulosamente, atenta às nervuras, aos canelados, aos canhões, estes últimos de diferentes alturas. Em tudo o mais, aparentemente iguais - uma tortura para quem gostava que não ocorressem falhas, trocas impróprias. Sobre o leito, meticulosamente feito, as roupas puxadas e repuxadas para que não ficasse vinco algum, eles, os peúgos pretos que tanto a irritavam. E, ao lado, a tortura análoga das suas próprias meias, que, sem saber muito bem como, nunca pareciam emparelhar. Como se, a cada viagem rotativa por dentro do tambor, exactamente como lera um dia de uma conhecida escritora, houvesse internamente ali, invisível mas eficaz e persistente, um monstro acéfalo, devorador que, não só surripiava alguns dos pares, como, pior, deformava, relaxava e descoloria outros. E talvez ai residisse o mais nefasto daquela história - no descolorir da imagem, no prolapso dos elásticos, no desbotar a cor inicial numa espécie de pasta mole, aguada, se perdia, irremediavelmente, e sem retorno possível, a forma das coisas. Ao seu olhar, fica ali algo sem préstimo, sem brilho e sem pujança. O amorfismo era, sem margem à dúvida metódica, no ser humano e na matéria invertebrada de um modo geral, algo que a tirava do sério. Amorfos seriam, por conseguinte, os pares dispares ali expostos.
Maria Leonor levantou-se. Num gesto desconexo empurrou os parceiros sobrantes para o fundo de uma cesta onde, regularmente, colocava a roupa por passar a ferro. O vime entrançado dava-lhe, ainda que ilusoriamente, a segurança de que a obra prosseguiria a bom termo - o engomar, bem entendido. Decidiu que não gastaria mais tempo a emparelhar peúgas - demasiado precioso lhe era o tempo. Do lado direito chegava-lhe, em jeito de abraço, um blue. Não um qualquer som de um qualquer tema, mas sim um blue. Sorriu. Na verdade, a sua vida estava incessantemente pautada por "não coincidências". A forma musical agora ouvida era-lhe “utilitária“. Atentou no uso de notas cantadas e tocadas numa frequência baixa, nas estruturas [sempre] repetitivas. Construiu mentalmente um puzzle de imagens metafóricas. Veio-lhe em memória a fé, a espiritualidade, as comunidades escravizadas, e, óbvio, as subtis manifestações de protesto contra a escravidão servil dos dias. Os caminhos ásperos e palcos aveludados. E os passos, os pés, agasalhados e simétricos, aninhados interinos nas formas melódicas, na harmonia dos traços e das notas - as formas puras de escapar dela...
Deixou-se impregnar dos sons, de todos os que, vindos dali, a tomavam sua. Os pés, soltos das sapatilhas imaginárias, desnudos em revelação do calcanhar de Aquiles afagaram a madeira, provocando-lhe uma onda de calor nas pernas igualmente desnudas. Solitária na dança, rodou a roda dos enjeitados, determinada a ser
água, pássaro ou tornado. Como as meias que escondera das vistas há minutos, irmanada na diáspora, na concepção binária de diferença, no deslocamento proximal a que se obrigava a si própria da, e na, até então, zona íntima de conforto. Determinada à luta volveu a si: abraçou-se, em cadência, dançou a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das águas íngremes, até à exaustão. Por fim, já a noite ia alta, tombou, algo binária, como folha rubra e lívida, na cama própria. Desejou o esquecimento mitigado do cheiro, do som, do sal da pele, em suma, o sono dos justos. Como um disco riscado, o blue fez o resto.
água, pássaro ou tornado. Como as meias que escondera das vistas há minutos, irmanada na diáspora, na concepção binária de diferença, no deslocamento proximal a que se obrigava a si própria da, e na, até então, zona íntima de conforto. Determinada à luta volveu a si: abraçou-se, em cadência, dançou a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das águas íngremes, até à exaustão. Por fim, já a noite ia alta, tombou, algo binária, como folha rubra e lívida, na cama própria. Desejou o esquecimento mitigado do cheiro, do som, do sal da pele, em suma, o sono dos justos. Como um disco riscado, o blue fez o resto.
Acordou matinal, dando-se conta que, no dobrar de pares apenas suas as nervuras das folhas persistentes a revestir de incenso e mirra as lombadas dos cadernos da vida. E nada mais.
Tela: Júlia Calçada
terça-feira, 1 de novembro de 2011
"sete-estrelo e umas botas"
(REPUBLICAÇÃO)
Agora eram suas, como lhe prometera. Não, nunca as usara. Quando as terminara, por fim, os seus pés não cabiam mais nelas. Crescera em demasia…
Abraçou-as, mediando o tempo desde que as vira a primeira vez, por sobre uma das múltiplas prateleiras empoeiradas que emolduravam grosseiramente o exíguo do espaço, a par de formas e calçados por consertar.
“...são tuas, um dia acabo-as e serão tuas...”
As linhas iam e vinhas no ritmo das sovelas a perfurar o couro, as solas batidas e rebatidas na pedra dura. As solas mergulhadas em água, por dias e dias. Pastosas. E depois moldadas ali, ao talhe dos pés.
“...um dia, quando tiver tempo, faço-tas. Nunca terás de andar descalça, que te durarão uma vida. A vida inteira… nem que isso seja a última coisa que faça. Não terás de andar, como eu, a ver “sete-estrelas” e umas botas … nos pés dos outros…"
As linhas iam e vinham no bico das sovelas, no cuspo das mãos, nas mãos magoadas. Pai…
“… um dia serão tuas, quando as acabar. Tem tempo. Agora tenho trabalhos em mãos, que te dão o pão da boca. Mas se tas prometo, faço-tas”
E logo o olhar turvado sem brilho no brilho da lágrima contida:
“nunca lhas cheguei a fazer…”
As linhas de sisal iam e vinham, rangiam na sola; na sola dos pés o frio de tantas horas ali parado. Era Inverno…
“Sete-estrelo e umas botas.”
Naquela manhã o povoado acordou em sobressalto. Francelina, de pouco mais de quarenta anos e oito filhos menores, morrera. Uma forte dor na nuca. Nunca se soube ao certo. As bocas pequenas falaram da “porradas” que o marido lhe "amandava", quando ao fim do dia de jorna, aquecido no pingo da bebida, ajustava as contas com a vida no corpo não menos estafado da mulher. Comadre. Quando enviuvou do primeiro marido e pai das suas duas filhas mais velhas, arrimara-se a ela
“por bem querer, senhora Francelina, serei um pai para as suas filhas, um marido de respeito para vossemecê. Cuido-lhe do nome e das terras, minha comadre. Que fará vossemecê com duas filhas neste fim de mundo onde o diabo perdeu as botas? fraca e pequena como vossemecê, nem com os cântaros há-de poder, que via o senhor meu compadre – que a terra lhe seja leve -, a carregá-los serra a cima… casemos pois, senhora Francelina. Não dê outro padrasto a suas filhas e minhas afilhadas, que sou seu amigo e “mai-lo” delas…”
Casaram. Sem pompa, sem circunstância. Sem o agrado do povo, nem dos pais. Sem a bênção da família da viúva recente e já nubente. Que guardasse distancia e logo tomasse rumo. Mas assim? Em pouco mais de dois anos? Certo que Jorge era parente, conhecia os cantos à casa e nela trabalhava desde que os seus pais o haviam posto fora de portas
“Ora, coisas de rapazolas. Uma má palavra e o meu pai se deu por ofendido. Levantou-me a mão e perdi a cabeça…”
sempre ia dizendo a despeito da sua deserdança:
“... que coma a terra, que por mim hei-de apanhar e chamar de meu, mais que aqueles palmos de terra”.
Achou. Achou a confiança do compadre, os olhares gulosos sobre as terras que eram suas e, porque não dizer?, sobre as ancas de Francelina - “boa parideira, a minha comadre, tem um par de ancas que a benza Deus” e fome de lhe morder os seios e beber o leite que se lhe escorria “valha-lhe Deus, minha comadre, que esse leite é uma perda”… avançava, entre dentes, em falsa compaixão, sob olhares lascivos.
Tomou-a sua, ocupou o lugar do falecido nas terras e na cama, e, desejoso de lhe fazer prole, acrescentou mais seis aos dois filhos de Francelina.
Esta respondia, no início, às investidas do marido, à fome das ancas e dos seios, com cansaços e pouco deslumbramento - na verdade nunca o amara. Nem pouco nem muito. Temera a solidão, o deserto do casal, o comando das terras. Era seu compadre, mal não lhe havia de fazer, por certo. Sempre era um homem, elas três mulheres…
Amor tivera ao falecido, que a cobria de atenções e mimos. Que a abraçava demoradamente antes de lhe avançar na carne. Que a olhava num olhar maior, quando lhe soltava em adoração de alma e corpo, os cabelos de um ruivo luminoso que a inundavam de luz, e que, sob o manto do céu tangido de Sete-estrelo, sob a bênção do Sete-estrelo, a desnudava por completo e se desnudava a si, para a amar profundamente. Quando, em luar maior, se adoçava o gesto da posse. As noites eram sempre pequenas para os amantes e eles amavam-se…
Detinha-se íntima e introspectiva na Lua que, pressentia, alguma vez teria novamente, que se quedava agora sempre negra lá fora, nos braços dos salgueiros e nas urzes serranas. Amor tivera a quem a aconchegava de beijos antes que, bem amada, dormisse, e, na manhã seguinte a acordava com uma chávena de leite quente. …
“agora” a cama gemia e acordava as crianças. A palha de milho roçagava o vento que se escapulia das telhas vãs. As noites eram longas demais e, não raras vezes, na manhã seguinte, à beira rio, onde lavava as ceroulas de Jorge, os cueiros dos filhos mais novos e as camisas dos mais velhos, as mulheres do povoado lhe viam as marcas enegrecidas da “paixão”.
“ó Francelina, que é lá isso, ó mulher? Tens uma negra nesse braço… e que é isso na boca? Tá a modos que rebentada…”.
“… não, senhor, não é nada … fui eu que me abracei no descuido com um cepo no quintal, calhando que ia de cabeça no ar …”
De olhos baixos, esfregava primorosamente as fraldas até a pedra se queixar e as mãos enregeladas do inverno se abrirem em sangue. Chupava os dedos para que estancasse, dava por concluída a tarefa, e, de alguidar numa anca, bilha na cabeça, e por último, a cria mais nova, sua filha de meses, escarranchada na outra anca, avançava a custo o íngreme do monte. Nos entretantos, a sós com Deus e com a sua vida, rezava em contas das próprias lágrimas. Agora era tarde para recuos, como tarde se anunciava o dia já a pôr-se enegrecido no ocaso. Apenas uma luz lá no alto lhe conduzia o andar nos pés mal calçados de solas safas. Perscrutava o Sete-estrelo …
A proximidade do casal já se sentia, no latido dos cães e nas correrias das crianças que, no instinto se acercavam dela. Soltava Rosa da anca, confiava-a a Manuela, uma das mais velhas, gritava o nome de Raimundo, de Carlos e dele, o dono temporário das botas…
Acorriam em algazarra.
“mãe, mãe…”
“rapazes, onde está o gado? Já o arrecadaram? E a lenha? Trazei-me dai uns cavacos que se faz tarde…e o vosso pai já deve andar por perto…”
Manuela ajudava no pendurar da roupa, os rapazes acendiam o lume, os mais novos corriam em torno das suas saias. Por instantes eram uma família feliz. Francelina abraçava os filhos, beijava-os, deitava sobre eles um olhar de esperança – um dia as coisas mudariam. Seriam eles a tomar conta das terras. Jorge afinal não era dono de nada, valha-lhe Deus… Um dia. Um dia … “Sete-estrelo”
“...um dia faço a vossemecê, minha mãe, umas botas de cano grande, por via de não andar de pés no chão, nem com as pernas rotas dos silvados, vossemecê verá, senhora minha mãe… vou ser sapateiro, como o senhor Joaquim do Vale, meu padrinho."
Afagava-lhe o cabelo encaracolado e loiro. Abençoava-o. O seu filho mais velho, daquele casamento desgraçado. E agradecia, contudo. Lindo o seu filho. Grata, olha-o …
“… um dia, filho…”
O latido aflito do cão de guarda mais ao fundo do portão indicava a proximidade do dono. Era ele sempre a primeira vítima. “…é cão duma peste, não te calas nunca!”. Um pontapé ou uma verdascada marcavam o ritmo do discurso iniciático.
As crianças sumiam. Cada um para o seu canto, para as camas improvisadas em cima das arcas do pão, com mantas trapeiras.
Francelina colocava apressada Rosa no berço, com uma chucha de açúcar e vinho. Dormiria. Tinha de ser…
“já comeram os rapazes? É bom que sim, que quero descanso”.
Acenava que sim. Muitas vezes não, mas ninguém dizia nada. Ajoelhava-se aos pés do marido, ajudava-o a tirar as botas. Ele media-lhe o corpo enquanto se levantava rumo ao lume.
As couves fervidas a escaldar o pão. A “tiborna” com o alho. Tudo pronto.
Baixava os olhos, mexia o caldo e servia o seu homem. Depois a sua malga. Comiam em silêncio. Jorge por debaixo da mesa procurava-lhe as pernas. As mãos grosseiras, apertavam os joelhos, arranhavam desapiedadas a pele. Avançavam, subiam, buscavam o sexo. Achavam-o. Penetrava-o desvairado, e, se o sentia húmido da corrida e dos labores, dos cansaços do dia, que fosse, começava ali o chorrilho de difamação “puta, ‘tas com ela aos saltos, não é?, quem é que te comeu hoje, minha puta?”. Levantava-se num ápice, empurrava-a contra a parede, abria a braguilha, soltava o bafo do vinho pelas narinas de besta e possuía-a ali mesmo, sem uma palavra. Mordia-lhe a boca, mordia-lhe o corpo, fazia soltar os seios do corpete alvo, apertando-os impiedosamente. Rodava-lhos os bicos já macerados de vezes outras, mordia, sugava-lhe o leite e o sangue que escorria – ainda amamentava -, . . “puta, agora estás satisfeita? É disto que precisas, não é? Cadela, puta... ”. ...
Por fim largava-a. Voltava para a mesa, comia outra malga de sopa, bebia, raras vezes se lavava. Deitava-se.
Francelina chorava sem um ruído. Arrumava o que havia a arrumar, engraxava de sebo as botas de seu marido, recolhia as roupas caídas junto ao leito e, quando o julgava adormecido ia levar as malgas aos filhos às camas. Finalmente, quando as crianças adormeciam, voltava ao quarto e tomava o seu lugar na borda da cama, no silêncio que a palha lhe permitia.
Noutros dias, naqueles em que ele a tomava e a achava seca, nem por isso as coisas corriam de melhor feição “puta, não queres o teu homem? Gostas mais dos moços de estrebaria é? Ou dos oficiais de cavalariça? – dizia-o em alusão clara ao facto do primeiro marido ser da tropa. -, “morreu, puta, deste cabo dele, não foi? Rebentaste-o debaixo de ti..., agora rebento-te eu, que vais ver o que é um homem.”
Francelina foi a enterrar. O povoado inteiro em torno das crianças. Os padrinhos a adivinhar a falta. Cada um para sua banda. Cada um por si, ou Deus por todos...
Ele seguiu o padrinho, sapateiro de profissão. O pai desceu ao Vale três semanas mais tarde e naquele mesmo dia fez-lhe a trouxa, amarrou-a um pau e deu-lha para a mão.
“… vai, o teu padrinho já te espera. Aprende a profissão. Aqui não há lugar para malandros”.
Tinha onze anos. Olhou pela última vez os cães, olhou a casa deserta das feições de sua mãe. Abraçou. um a um. os irmãos, desceu o monte, procurou o vale e lá a casa do sapateiro… era noite fechada. Guiou-se pelas estrelas “uma, duas, três, quatro … sete-estrelas e umas botas”.
Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...”
Apenas o eco: Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...” Um homem não chora! Não era homem: chorava...
“ ... um dia hei-de fazer-te as botas, filha. Se não as fiz para ela...”
Nunca a nomeou. Como se as lembranças o matassem dia a dia, como naqueles dias em que o via a ele a possui-la, à sua mãe, ali na cozinha de lenha, quando o julgavam já acamado. Jurou que um dia o matava... mas ela morreu primeiro. A sua mãe. Tinha onze anos e foi ser “maltês”...
Olhava-as agora, castanhas, na cor da terra, da terra que aguardava para sempre: as suas botas (que nunca usara), as dela, que nunca as tivera ...
Abraçava-as devagar. lenta_mente.
O céu em Lua cheia.
Soltou os cabelos cor de fogo, os que herdara dela, e, num gesto insano possuída pelo tempo que não foi seu, jurou à Lua que nenhum homem a possuiria sem que a amasse de verdade, que nenhum homem encostaria um dedo que fosse no seu corpo sem que da sua alma se tivesse primeiro apossado em troca da que lhe tivesse confiado. Magicamente calçou as botas. Perfeitas. À sua medida.
Dizem que é Ninfa do Tejo, que o Sete-estrelo dança nas cores de seu olhar ...
Dizem!
___
Notas:
In Wikipédia: “Sete-estrelo”- Trata-se das Plêiades, um grupo de estrelas na constelação do Touro, que consistem de várias estrelas brilhantes e quentes, de espectro predominantemente azul. A névoa azul que as acompanha deve-se à fina poeira interestelar da região em que elas se encontram que reflecte a luz azul das estrelas.
Referências Bíblicas a Sete-estrelo:Livro de Jó: 9-9 [...] quem fez a Urso, o Órion, o Sete-estrelo e as recâmaras do sul"; 38-31 "Ou poderás tu, atar as cadeias do Sete-estrelo, ou soltar os laços de Órion?" ; Livro de Amós: 5-8 "[...] procurai o que faz o Sete-estrelo, e o Órion, e torna a densa treva em manhã e muda o dia em noite; o que chama as águas do mar, e as derrama sobre a terra: o Senhor é o seu nome."
Achou. Achou a confiança do compadre, os olhares gulosos sobre as terras que eram suas e, porque não dizer?, sobre as ancas de Francelina - “boa parideira, a minha comadre, tem um par de ancas que a benza Deus” e fome de lhe morder os seios e beber o leite que se lhe escorria “valha-lhe Deus, minha comadre, que esse leite é uma perda”… avançava, entre dentes, em falsa compaixão, sob olhares lascivos.
Tomou-a sua, ocupou o lugar do falecido nas terras e na cama, e, desejoso de lhe fazer prole, acrescentou mais seis aos dois filhos de Francelina.
Esta respondia, no início, às investidas do marido, à fome das ancas e dos seios, com cansaços e pouco deslumbramento - na verdade nunca o amara. Nem pouco nem muito. Temera a solidão, o deserto do casal, o comando das terras. Era seu compadre, mal não lhe havia de fazer, por certo. Sempre era um homem, elas três mulheres…
Amor tivera ao falecido, que a cobria de atenções e mimos. Que a abraçava demoradamente antes de lhe avançar na carne. Que a olhava num olhar maior, quando lhe soltava em adoração de alma e corpo, os cabelos de um ruivo luminoso que a inundavam de luz, e que, sob o manto do céu tangido de Sete-estrelo, sob a bênção do Sete-estrelo, a desnudava por completo e se desnudava a si, para a amar profundamente. Quando, em luar maior, se adoçava o gesto da posse. As noites eram sempre pequenas para os amantes e eles amavam-se…
Detinha-se íntima e introspectiva na Lua que, pressentia, alguma vez teria novamente, que se quedava agora sempre negra lá fora, nos braços dos salgueiros e nas urzes serranas. Amor tivera a quem a aconchegava de beijos antes que, bem amada, dormisse, e, na manhã seguinte a acordava com uma chávena de leite quente. …
“agora” a cama gemia e acordava as crianças. A palha de milho roçagava o vento que se escapulia das telhas vãs. As noites eram longas demais e, não raras vezes, na manhã seguinte, à beira rio, onde lavava as ceroulas de Jorge, os cueiros dos filhos mais novos e as camisas dos mais velhos, as mulheres do povoado lhe viam as marcas enegrecidas da “paixão”.
“ó Francelina, que é lá isso, ó mulher? Tens uma negra nesse braço… e que é isso na boca? Tá a modos que rebentada…”.
“… não, senhor, não é nada … fui eu que me abracei no descuido com um cepo no quintal, calhando que ia de cabeça no ar …”
De olhos baixos, esfregava primorosamente as fraldas até a pedra se queixar e as mãos enregeladas do inverno se abrirem em sangue. Chupava os dedos para que estancasse, dava por concluída a tarefa, e, de alguidar numa anca, bilha na cabeça, e por último, a cria mais nova, sua filha de meses, escarranchada na outra anca, avançava a custo o íngreme do monte. Nos entretantos, a sós com Deus e com a sua vida, rezava em contas das próprias lágrimas. Agora era tarde para recuos, como tarde se anunciava o dia já a pôr-se enegrecido no ocaso. Apenas uma luz lá no alto lhe conduzia o andar nos pés mal calçados de solas safas. Perscrutava o Sete-estrelo …
A proximidade do casal já se sentia, no latido dos cães e nas correrias das crianças que, no instinto se acercavam dela. Soltava Rosa da anca, confiava-a a Manuela, uma das mais velhas, gritava o nome de Raimundo, de Carlos e dele, o dono temporário das botas…
Acorriam em algazarra.
“mãe, mãe…”
“rapazes, onde está o gado? Já o arrecadaram? E a lenha? Trazei-me dai uns cavacos que se faz tarde…e o vosso pai já deve andar por perto…”
Manuela ajudava no pendurar da roupa, os rapazes acendiam o lume, os mais novos corriam em torno das suas saias. Por instantes eram uma família feliz. Francelina abraçava os filhos, beijava-os, deitava sobre eles um olhar de esperança – um dia as coisas mudariam. Seriam eles a tomar conta das terras. Jorge afinal não era dono de nada, valha-lhe Deus… Um dia. Um dia … “Sete-estrelo”
“...um dia faço a vossemecê, minha mãe, umas botas de cano grande, por via de não andar de pés no chão, nem com as pernas rotas dos silvados, vossemecê verá, senhora minha mãe… vou ser sapateiro, como o senhor Joaquim do Vale, meu padrinho."
Afagava-lhe o cabelo encaracolado e loiro. Abençoava-o. O seu filho mais velho, daquele casamento desgraçado. E agradecia, contudo. Lindo o seu filho. Grata, olha-o …
“… um dia, filho…”
O latido aflito do cão de guarda mais ao fundo do portão indicava a proximidade do dono. Era ele sempre a primeira vítima. “…é cão duma peste, não te calas nunca!”. Um pontapé ou uma verdascada marcavam o ritmo do discurso iniciático.
As crianças sumiam. Cada um para o seu canto, para as camas improvisadas em cima das arcas do pão, com mantas trapeiras.
Francelina colocava apressada Rosa no berço, com uma chucha de açúcar e vinho. Dormiria. Tinha de ser…
“já comeram os rapazes? É bom que sim, que quero descanso”.
Acenava que sim. Muitas vezes não, mas ninguém dizia nada. Ajoelhava-se aos pés do marido, ajudava-o a tirar as botas. Ele media-lhe o corpo enquanto se levantava rumo ao lume.
As couves fervidas a escaldar o pão. A “tiborna” com o alho. Tudo pronto.
Baixava os olhos, mexia o caldo e servia o seu homem. Depois a sua malga. Comiam em silêncio. Jorge por debaixo da mesa procurava-lhe as pernas. As mãos grosseiras, apertavam os joelhos, arranhavam desapiedadas a pele. Avançavam, subiam, buscavam o sexo. Achavam-o. Penetrava-o desvairado, e, se o sentia húmido da corrida e dos labores, dos cansaços do dia, que fosse, começava ali o chorrilho de difamação “puta, ‘tas com ela aos saltos, não é?, quem é que te comeu hoje, minha puta?”. Levantava-se num ápice, empurrava-a contra a parede, abria a braguilha, soltava o bafo do vinho pelas narinas de besta e possuía-a ali mesmo, sem uma palavra. Mordia-lhe a boca, mordia-lhe o corpo, fazia soltar os seios do corpete alvo, apertando-os impiedosamente. Rodava-lhos os bicos já macerados de vezes outras, mordia, sugava-lhe o leite e o sangue que escorria – ainda amamentava -, . . “puta, agora estás satisfeita? É disto que precisas, não é? Cadela, puta... ”. ...
Por fim largava-a. Voltava para a mesa, comia outra malga de sopa, bebia, raras vezes se lavava. Deitava-se.
Francelina chorava sem um ruído. Arrumava o que havia a arrumar, engraxava de sebo as botas de seu marido, recolhia as roupas caídas junto ao leito e, quando o julgava adormecido ia levar as malgas aos filhos às camas. Finalmente, quando as crianças adormeciam, voltava ao quarto e tomava o seu lugar na borda da cama, no silêncio que a palha lhe permitia.
Noutros dias, naqueles em que ele a tomava e a achava seca, nem por isso as coisas corriam de melhor feição “puta, não queres o teu homem? Gostas mais dos moços de estrebaria é? Ou dos oficiais de cavalariça? – dizia-o em alusão clara ao facto do primeiro marido ser da tropa. -, “morreu, puta, deste cabo dele, não foi? Rebentaste-o debaixo de ti..., agora rebento-te eu, que vais ver o que é um homem.”
Francelina foi a enterrar. O povoado inteiro em torno das crianças. Os padrinhos a adivinhar a falta. Cada um para sua banda. Cada um por si, ou Deus por todos...
Ele seguiu o padrinho, sapateiro de profissão. O pai desceu ao Vale três semanas mais tarde e naquele mesmo dia fez-lhe a trouxa, amarrou-a um pau e deu-lha para a mão.
“… vai, o teu padrinho já te espera. Aprende a profissão. Aqui não há lugar para malandros”.
Tinha onze anos. Olhou pela última vez os cães, olhou a casa deserta das feições de sua mãe. Abraçou. um a um. os irmãos, desceu o monte, procurou o vale e lá a casa do sapateiro… era noite fechada. Guiou-se pelas estrelas “uma, duas, três, quatro … sete-estrelas e umas botas”.
Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...”
Apenas o eco: Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...” Um homem não chora! Não era homem: chorava...
“ ... um dia hei-de fazer-te as botas, filha. Se não as fiz para ela...”
Nunca a nomeou. Como se as lembranças o matassem dia a dia, como naqueles dias em que o via a ele a possui-la, à sua mãe, ali na cozinha de lenha, quando o julgavam já acamado. Jurou que um dia o matava... mas ela morreu primeiro. A sua mãe. Tinha onze anos e foi ser “maltês”...
Olhava-as agora, castanhas, na cor da terra, da terra que aguardava para sempre: as suas botas (que nunca usara), as dela, que nunca as tivera ...
Abraçava-as devagar. lenta_mente.
O céu em Lua cheia.
Soltou os cabelos cor de fogo, os que herdara dela, e, num gesto insano possuída pelo tempo que não foi seu, jurou à Lua que nenhum homem a possuiria sem que a amasse de verdade, que nenhum homem encostaria um dedo que fosse no seu corpo sem que da sua alma se tivesse primeiro apossado em troca da que lhe tivesse confiado. Magicamente calçou as botas. Perfeitas. À sua medida.
Dizem que é Ninfa do Tejo, que o Sete-estrelo dança nas cores de seu olhar ...
Dizem!
___
Notas:
In Wikipédia: “Sete-estrelo”- Trata-se das Plêiades, um grupo de estrelas na constelação do Touro, que consistem de várias estrelas brilhantes e quentes, de espectro predominantemente azul. A névoa azul que as acompanha deve-se à fina poeira interestelar da região em que elas se encontram que reflecte a luz azul das estrelas.
Referências Bíblicas a Sete-estrelo:Livro de Jó: 9-9 [...] quem fez a Urso, o Órion, o Sete-estrelo e as recâmaras do sul"; 38-31 "Ou poderás tu, atar as cadeias do Sete-estrelo, ou soltar os laços de Órion?" ; Livro de Amós: 5-8 "[...] procurai o que faz o Sete-estrelo, e o Órion, e torna a densa treva em manhã e muda o dia em noite; o que chama as águas do mar, e as derrama sobre a terra: o Senhor é o seu nome."
sábado, 15 de outubro de 2011
o mistério da água
(REPUBLICAÇÃO)
habitava o mistério da água. a estação termal da pele. curandeira de si e dos demais vagueava a encosta em busca da planta certa para a enfermidade que assolava a plebe. para si mesma escolhia a mais amarga - bebia, não raras vezes, o fel da terra, e, reconfortada, numa espécie de penitência póstuma, prosseguia viagem num voo invertido de quilhas e asas.
naquela manhã deu-se conta de que acordara inversa à tão desejada resistência, ao efeito triturador do tempo. acordara na forma atópica da derme, salina, ainda que, reconhecendo a (ainda) plasticidade cerebral. acordara crosta que ao mais pequeno sopro se exaltava em manchas desmesuradas, ora vermelhas, ora enegrecidas à cor serosa das tempestades. os dedos avermelhavam-se no efeito emocional de um botok que recusava. no texto e no contexto, bebia do mistério da água, um a um, de todos os factores, genéticos, epigenéticos, e dos mais que a ciência ainda não inventara.
pelo buraco da fechadura olhou-se fronteiriça, anedónica, num estado que temia. pouco prazer já retirava das coisas que até ai tinham ilustrado o traço da sua vida à cor purpura; mediu-se na fragilidade da sua intolerância, naquele estado em que, urticária ou eczema, tanto faz, lhe provocava o desconforto da reactividade; tomou-se de si, atravessou o quarto de dormir, depois o hall, onde, na semi-penumbra, vislumbrava os olhos dos que antes e depois dela própria, transportavam de si, comum genética.
"a importância está nos genes, na tenacidade, na vontade de vencer, de nunca se entregar... só estes factores determinam a qualidade das pessoas longevas", lera enquanto lá dentro a luta era pela vida a qualquer preço, ainda que, segundo a segundo, menores as sinapsias e inferiores os reflexos...
atravessou o escuro do hall. sentiu-se invadida - há espaços que são só nossos. sentiu-se fria. a tal sensibilidade excessiva mortificava-a, e, de novo, na memória, a certeza inabalável de que a natureza tudo resolve e dela, o mistério da água. mas, e o frio, Júlia? o frio?...
um sorriso mordeu-lhe a alma "júlia, tu sabes, os astros não morrem, arrefecem..."
pegou na toalha, abriu a torneira
deixou que o fio escorresse do inox
livremente,
já quase a transbordar
entrou na banheira, deslizando, ela, a pele, o esmalte, as mãos, os gestos,
a contornar o epicentro das tempestades - ao momento, recordava-se, apeteceu-lhe gritar o instante inacabado, a fúria da charrua no encontro da várzea, o vislumbre nunca cicatrizado
sequelas
recidivas, e,
de um poema, uns versos,
"as sereias não se atrevem nos pastos,
nem as musas acolhem as lágrimas
nuas
nas conchas convexas dos olhos..."
nos seus lábios, a palavra
e o silêncio desconexo de neurónios - sinapsias menores...
embotada, emoliente, a água. alambica-lhe a chaga - voz que não saía, retida, grude, intolerante, na garganta -, um poço de parede vertical onde deslizava em fogo um nome, epigrafado em sombra crua, decalcado ao picotado da uva e onde, o mosto nas primeiras chuvas, fermentava a matriz das horas silenciosas num embolo alagado de um lagar sem bica - o outro lado onde a noite se circunflexa pestanuda em vasos nasogenianos e no contorno dos lábios - o tal local onde as rugas se anunciavam na secura das águas, na flacidez das carnes. das suas carnes ...
deixou a mão descer, tocou-se. pressentiu o canyon acontecido, texturas de pedra e de ostra nos sedimentos e na geologia de uma vida. a cabeça, depositada contra o rebordo da banheira, descia, lenta, sem esforço, em apneia, ou talvez não...
convicta júlia deslizava o vale, o mistério da água, a confluência dos tempos compositivos. na sala a grafonola tocava prodígios e metáforas, félio alimento de sua alma. na caixa de pandora o valete de copas discutia percursos alternativos com Alice do país das maravilhas...
a cabeça submergia a espuma, os dedos avermelhavam-se, a mão, por fim, tombava; a água encontrava o caminho da água, o amor era uma estação ao lado... Júlia!
domingo, 2 de outubro de 2011
A menina dança?...
(REPUBLICAÇÃO)
Ouvia-o já como se seu não fosse. Irritava-se que batesse. Que batesse ainda. Umas vezes em fúrias arrítmicas, e outras, de uma forma tão serena, tão doce, quanto uma tarde de Inverno à beira de um rio de águas cinzentas.
Questiona-se tantas vezes porque ainda não deixara de bater. Porque não poderia ela, à semelhança de outras partes de si, prescindir dele, sem mais? Como os dentes, que já não tinha, por exemplo. Afinal não passava de um músculo. Um mero propulsor de sangue, vestido de túnicas sucessivas. Como uma bailarina em pontas.
Ai a dança, a dança…
Ainda presente as lições do corpo humano, a sala inteira:
- ... pericárdio, miocárdio, endocárdio, outra vez… mais alto…, pericárdio, miocárdio, endocárdio,
ou
- aurículos, ventrículos… aurículos, ventrículos…
Era o tempo em que o coração era o que era e nada mais. Tempo finito, deu-se conta bem cedo, no dia em que
- A menina dança? Psi, psi … A menina dança?...
fez com que o dito músculo se tornasse, de súbito, incontrolado. Descompensado, e, quase juraria, entoasse mais alto que qualquer instrumento em palco. Afinal, razão tinha a professora quando lhe falara que se tratava de um “músculo involuntário”.
- Brancas, no corpo humano existem duas espécies de músculos: voluntários e involuntários. Os primeiros, tu dominas com a vontade, com a razão, com o que te ensina a moral e os bons costumes… tu dominas as mãos, os pés, como sabes. Tu dominas os movimentos através do que te é dito pelo sistema nervoso central, mas Branca, tu não dominas, por mais que queiras, a quantidade de batidas do teu coração… ele é um músculo involuntário, caprichoso. Muito caprichoso, que, inclusivé, se mascara do ponto de vista da fisiologia com estrias, como se fosse do grupo dos músculos voluntários… sabes, não dominas os sentimentos. A saudade. A lonjura que o tempo não esbate… não, Branca, isso não se domina,
Nesses dias a professora parecia voar para longe. O olhar tornava-se mais negro, no azeviche do luto, do mosto dos lagares de uva tinta, das azeitonas sob as prensas. Tardava o regresso das palavras sábias, da ciência. A sala ficava suspensa num limbo nostálgico. Só as batas brancas eram ainda asas fulgurantes sobre as mentes. Como branco o nome de Branca. E ambos pareciam reflectir os últimos raios de sol daqueles instantes invernosos…
- ... repitam comigo, vá. Quero isto tudo na ponta da língua. Agora as válvulas: Mitral e Triscúspide…
É difícil, bem sei, mas recorram a mnemónicas (sabem o que é, já vos ensinei…). De novo, agora, tudo… pericárdio, miocárdio, endocárdio … aurículos, ventrículos… aurículos ventrículos… válvulas … o coração é um músculo involuntário…
Ele vinha, de um lado ao outro da sala.
Fato completo, sapatos de biqueira luzente. Cabelo puxado na brilhantina, anos sessenta.
Ela, de laço engomado na cabeça, de olhos baixos, fingia não perceber que o “menina dança” lhe era dirigido.
Ele insistia:
- A menina dança? … O dedo em riste. Sorriso calculado. Nem demais nem de menos. Como convinha. O embaraço. Dela. Os cochichos de Dália, atrevida, a seu lado…
- Branca, é o tal, o que estava no Domingo passado na leitaria… é tão alto, Branca… um figurino…não te armes em difícil, em pura donzela, que ele desiste …
- Dália, por favor, ele ouve…
- Que oiça. Eu ia, se ia … mas ele está é de olho em ti…
Ela também iria... Mas, e o medo? Da fama não se livrava. Mas havia que não dar crédito a falatórios de quem nada sabia. Gentes sem cultura que se entretêm só com a vida alheia. O meio era pequeno. Todos falavam de todos. Ele um gentio. Chegara à terra há meses, a bisbilhotice era, pois, natural ...
Por fim, após o compasso de espera, um olhar aprovador. Da mãe. E um “vai, mas olha o respeito”. Branca avançava a pista. As pernas bambas, a pele coberta de gotas finíssimas... Ai, o coração, esse, corcel sem nexo,
Avançava dois passos. Tímida, dava-lhe a mão, em ponta de dedos. Ele, engomado e tirado das caixinhas, cheirava-lhe, desde logo ao mirto dos dias proibidos. A pólvora dos dias de caça. Inebriava-lhe os sentidos, cantava-lhe ao ouvido a canção do bandido. Na cifra da música que alterava em sussurros de visco. O mesmo com que, nas noites de luar, na lezíria aberta, armava laços aos pássaros - estorninhos, tentilhões e etc.- , com que se haveria de lamber em tacho de barro. Fritos.
- Esta noite, ó pá, caíram mais de cinquenta. É proibido? E eu por acaso sei ler os avisos da venatória? Até sou analfabeto! Que se lixem esses gajos, se aparecerem por lá mergulho no Tejo, respiro horas a fio por uma palhinha. A mim nenhum arma o laço e, se me ensaboam os miolos, quando os apanhar de costas, papo-lhes as “passarinhas“… ossos e tudo…
Avançava. Da cintura fina, quando os pares se avolumavam no centro da pista, tacitamente descia-lhe por sobre a saia plissada. As mãos sobre as nádegas. Duras, moldadas ainda p’la candura. Ela corava, baixava mais os olhos. O coração, esse músculo irresponsável, arfava sob a blusa de bolinhas miúdas…E gostava.
Ou, quando, na valsa, por entre os passos, as pernas se tocavam. Os sexos adivinhados. O dele, incontido. Em poucos meses grávida. De flor de laranjeira e cauda, como mandava o figurino. Sem a bênção dos pais (os dela). Filha única, Maria Branca tinha de seu. Terras e casas. Ele apenas o Sol empinado nas calçadas. E a pretensão de fazer um belo de um casamento. Conseguido.
As lições do corpo humano na gaveta, o tempo passado. Filhos criados. Ela agora a rebuscar os restos no caixote do lixo.
- Cleptomaníaca, que pode um homem fazer? Não é necessidade, é vício, tem tudo em casa. Puta que a pariu. Nem de mola no nariz lhe toco. O que não me faltam são mulheres… ainda dou o meu pé de dança, ó pá, que julgas?
Uma estrondosa gargalhada ecoava o passeio marítimo. O sol descia. Eram horas de voltar para casa. Branca já teria lavado e engomado, feito a janta.
- Logo joga a Liga. Vejo no café, que tem plasma. Também tenho, mas porra, a gaja fede que tresanda. Não fico em casa um minuto. Saio logo que posso. Com ela não me cruzo. Pudera, a mania de andar nos caixotes do lixo. Não precisa, como sabem… Desde que casámos que decidi não trabalhar para que pudesse dedicar-se a mim… que outra razão teria para viver, digam-me lá?…
Ouvia-o como se seu não fosse.
Irritava-se que batesse. Que batesse ainda. Perdera o controlo de tudo e de si própria. Era agora, ela mesma, um "músculo involuntário", tomada de uma necessidade incontrolada de ver por dentro como os outros viviam… o que comiam, o que deitavam no lixo… se se amavam, se se possuíam…recolhia os sacos em pleno dia à vista dos demais. Então, em casa, abria-os e (re)vivia as suas vidas. Como as imaginava. Vivas. Plenas. Ela morrera no dia em que pousara, inadvertida, no visco de uma armadilha.
- A menina dança???
A sirene dilacerava o silêncio. Sob a chuva miudinha, de pernas no ar, suspensa do caixote do lixo, dobrada pela cintura, Branca. Negra agora… nos lábios um sorriso, enigmático, triunfal. Por fim, o tal tinha-lhe obedecido. Era agora um músculo controlado. A todo o custo. Finalmente.
- Está morta. Há que chamar a polícia. O senhor é o marido? … Supomos que se tratou de um AVC, mas só a autópsia o dirá...
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domingo, 25 de setembro de 2011
lavanda e zimbre
a contornar-lhe os olhos, o cheiro limpo da lavanda. ladeava a escada. subiu, não sem antes ter solto dos pés as sandálias de corda. gostava de sentir o frio do mármore como gostava de sentir os dias soltos entre os dedos. contudo estava presa a um tempo indeterminado.
riscos do seu próprio traço. ledo engano, que, de alegre triste se sabe.
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Nota: Este blog esteve, lamentavelmente, atacado por software malicioso proveniente de widgests considerados inofensivos, entretanto já removidos. Contou com a rápida ajuda da blogger, e, bem assim, com a informação e a ajuda preciosa de leitores amigos. Parece-me ultrapassada a situação, mas, muito agradeço que, se de alguma forma, for detectado quaisquer problema, tenham a bondade de enviar mail.
A todos, um enorme e sincero bem-haja.
Espero poder beneficiar da continuação das vossas visitas que muito dignificam o meu espaço.
Mel
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Nota: Este blog esteve, lamentavelmente, atacado por software malicioso proveniente de widgests considerados inofensivos, entretanto já removidos. Contou com a rápida ajuda da blogger, e, bem assim, com a informação e a ajuda preciosa de leitores amigos. Parece-me ultrapassada a situação, mas, muito agradeço que, se de alguma forma, for detectado quaisquer problema, tenham a bondade de enviar mail.
A todos, um enorme e sincero bem-haja.
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Mel
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
espalhou o verão
espalhou o verão num tabuleiro de verga. colocou o xaile de cambraia afegã sobre os ombros desamparados e foi para o ponto mais ventoso da casa - tinha que se poupar a esforços, e, se aquela era a hora e aquele o lugar, não haveria com que hesitar - soltou a alpista no epicentro da peneira, deixou que as cascas soltas vaiassem o verbo, deixou que ousassem colar-se à face antes que, respeitando a gravidade, tombassem na tijoleira, deixou ainda a arte da debulha galgar as várzeas e as serras a tropel dos sentimentos, os últimos sempre filhos pródigos retornados em ombros ao brilho mortiço dos olhos, e, por ali ficou, no gemido das águas, suspicácia sua de folhear os dias em troca directa - entre si e a mãe-natureza sabia não existirem artifícios - tudo, mas efectivamente tudo, se desvendava na forma simples e prismática -, o sol, a luz, a lua, e ele. seu, no absoluto da posse, o mar, o oceano coralino das suas faces, o mesmo que lhe bebia o rio e o lodo das margens - ele, sempre ele, era-lhe, ainda assim, a quinta-essência paradigmática.
espalhou-se com o verão na longitudinal dos meses verticais. a boca, em certos dias, sabia-lhe a sangue, o sono era então inquietude preponderante. noutros dias, a boca era-lhe um lugar sem amo, fenda palatina onde mergulhava em silêncio,
diz que (assim escreveu no único bloco disponível, a toalha de mesa, com nódoas de café …) por entre os mastros das pequenas embarcações o vê - ao rio. azula-se, algo acinzentado, a caminho da foz em cama áspera de correntes. a luz é-lhe leve, contudo, na planura mais profunda do tecido. aconchega o xaile, soletra, em récita: alpista, bago, bico, de-lacre, de lápis, pernalta da beira d'água,
geme baixinho ... aconchega o xaile à pele dos ombros,
relocaliza o olhar por entre os mastros. no vislumbre
a língua ténue das lezírias recobertas de restolhos amarelecidos, depois o céu, implume, onde castelos de nuvens brancas montam sem estribos o dia poente - o casario nas suas costas é-lhe indiferente, como indiferente o bulício do espaço onde se sentou consigo,
a língua ténue das lezírias recobertas de restolhos amarelecidos, depois o céu, implume, onde castelos de nuvens brancas montam sem estribos o dia poente - o casario nas suas costas é-lhe indiferente, como indiferente o bulício do espaço onde se sentou consigo,
indemnes e cabisbaixos, são-lhe os olhos dos cães vadios, onde crava os seus, famélicos, tristes, solitários, encravados no rosto, tisnado e já rugoso - de nada valem dos cremes e as mezinhas que se apregoam redentoras, a verdade afunila o tempo, inquebrável, a marcar-lhe o ritmo da passada, na, igualmente inquebrável força dos aturdidos pelos signos, em perseguição de miragem - a juventude não volta, vês?
madalena abre a mala, retira o livro, sofre de codícia literária, um apetite algo desordenado pela riqueza das palavras, nada intratável dizem-lhe as amigas, a zé, a jó, ambas psicólogas, com quem toma o chá das quatro - o das cinco é, para ela que madruga antes dos corvos a quem estão destinadas funções de cães de fila em guarda das sementeiras no ardor da alvorada dos galos, e das ressacas dos padeiros, a hora britânica das cinco, é, sublinha, quase tempo de ceia - janta cedo e dorme com as galinhas - há sempre um livro, um ombro amigo que a espera, enamorado, quando regressa aos claustros e a lua se espreguiça maquiavélica nas janelas e nas entranhas; abraça-o, engoda-o, amorosa e terna, toma-o, voraz, entre os dedos, aflora-lhe os lábios, e só depois, reconhecidos no acto consumado de entrega e posse, dá início à leitura tentando reposicionar-se no que lera antes, no dia anterior, na semana passada, no mês antecedente, o tempo não se regula no tempo das páginas, a leitura é sempre diferente quando retomada de outro ângulo; dá a si própria o benefício da dúvida, o primeiro capítulo foi lido, se não recorda o enredo não importa, adiante. recomeça em leitura no segundo, olha o marcador que repõe, metodicamente, sob a mão esquerda, com a direita vai acompanhando a linha, letra a letra,
…até nos dias em que dizia que tinha esquecido, era sempre aquele o primeiro pensamento. mesmo nos dias em que o matava, era, em ressuscitação maior, que o tinha em si, mais largo que o vento, maior que as tempestades engolidas na boca da fala; tudo me faz lembrar que te imagino - a morte das árvores, até das mais sadias, são sinais inequívocos de que, se podem eu posso, morrer de pé,
depois tu chegas,
atravesso os restolhos, o labirinto sigiloso da metáfora, onde me escondo, dou de fronte com os chaparros, juro ouvir os urros dos javalis, o sinete grita a desfolhar do avesso os espigueiros, os cabelos secos do milho-rei, os chicotes varrem os versos vindos do sertão, vindos de além, algures sou moura - é alcácer-quibir sem d.sebastião, são vogais como alcateias a soletrar a voracidade das fendas, a aridez desértica onde me perco, onde me acho, tu está perto de mim, sei o teu cheiro, conheço cada movimento de ti, talvez seja alcácer-do-sal, a janela de amaralis, a leveza de um texto, a premonição rasante ao olhar do cavalo alasão, o porte grandioso, a cor aleonada, de um tom amarelo-claro, extremidades carregadas. desmonto o puzzle, desconstruo o vórtice, o vértice, o ombro negro da espera, a viuvez do tacto, os dedos têm agora as unhas verdes, soletram os bichos rastejantes - há uma vida inteira em cada peça, cada cortina, mesa, cama ou candelabro - há ainda os teus lábios, os meus lábios, a insistência compulsiva de te evocar nas hastes fintas do silêncio...
há ainda este lugar vazio, onde espalho o verão, o dedo indicador a impedir a perda,
em que lugar se perdeu de si, do texto, em que lugar do compêndio se fez, do desvio, a norma - foram sempre restritos os seus códigos e consonante a conduta, até que,
madalena,
que importa isso agora? há oito dias poderia ter sido importante, o verão ainda estava lá, espalhado no tabuleiro das damas, no jogo de xadrez, o corpo sabia a sal e as moscas azougavam as orelhas moucas das mulas, sentava-se na beira de água, era criança com rugas, não tinha BI nem identidade reconhecida,
havia um pessegueiro na ilha, bem sei, fui eu mesmo que consumi o pêssego e fiz peixinho com o caroço. o miúdo riu-se, és uma tonta tia. não acreditas?, que me importa, mas fui eu, sim,
havia burros, também. são espécimen desprotegida; na ilha faziam, como nós, a travessia na maré-baixa… por vezes a onda, bem sei, a onda, a canga, a carga toda...
bem sabia - era perniciosa a natureza das coisas, mas maior seria a saliência onde se enrugavam as formas puras, o leite coalhava e o queijo fermentava no inverno das têmporas; o verão, benilde, o verão é sempre o tempo de todas as misérias, sabes?, disse-lhe. as moscas andam mais tontas, infestam os quintais e as latrinas a que esta gente insiste em chamar, pomposamente, de wc's. tu entras e cheiram à cerveja das noitadas dos magotes de turistas, e, em lugares como este, por mais que queira, o maravilhosos das letras não se manifesta na fala dos homens - todos temos uma puta, olha que a frase não é minha, mas é como se fosse, sublinho-a e repito-a, uma puta, uma muleta, um cigarro fora de horas, umas litradas de cerveja, uns copos de tinto, alguns acumulam putas ao longo da vida, como se, sem vida própria, a própria vida, fosse um bordel de terceira categoria - perdem a essência e não se equilibram no eixo cartesiano da brisa cristalina colhida na palma da mão das manhãs de estio antes do chicotear do vento, ou, menos ainda, temem porque temem, em beber da mão humana a humidade primeira. em suma, zabaneiros por vocação de índole, trocam a felicidade por uma rapadura de porcos, desde que a malga esteja cheia, o copo transborde, não sabem das planícies, e, talvez por isso, a vidas é-lhes uma espécie de deserto eriçado. como um ouriço, rolam sobre pedaços bolorentos de maça, ainda que os espinhos sejam, tão-só, afectos emprestados,
deu-te para filosofar? não, de todo, benilde, apenas te falo da matéria-prima de que se fazem os mitos nos verões de praia,
... vou contar-te uma história. hoje, como os demais dias, foi-me impossível, sentada aqui, neste lugar onde espalhei o verão, não me instalar algures entre a profissão e a curiosidade mórbida de ouvir baboseiras,
dir-me-ás, é feio, muito feio, escutar conversa alheia, bem sei, mas, por momentos, para mim, o homem ou a mulher, tanto faz, que ali escuto, cede lugar a uma personagem, a um actor em palco - não sei quem é nem isso me importa, recorto-o da cena, o técnico lá de cima coloca-lhe o microfone e oiço, mas oiço claramente - tenho ouvidos de tísica, oiço o que quero e o que não quero; por vezes é um inferno, benilde, como naquele dia em nisa, às portas de montalvão, em que os agudos do sino da igreja matriz quase me endoideceram, mas hoje foi assim: ó pá, chouriço, está aqui a meu lado o cremalheira, diz que vais dar uma festa ai em casa, ó chouriço tu esqueceste-te de mim? … logo, às seis? só uns copos e umas gajas? e que mais é preciso? gostava de ir ai, pois claro, ó chouriço, porra pá, sou teu amigo, pois, entendo, mas vá lá... é um favor que me fazes, quem não aparece, esquece... obrigado, mas obrigado mesmo, fico-te a dever uma, mas claro que sim, não te causo problemas, é gente fina, mas claro, chouriço, então está combinado…
dir-me-ás, é feio, muito feio, escutar conversa alheia, bem sei, mas, por momentos, para mim, o homem ou a mulher, tanto faz, que ali escuto, cede lugar a uma personagem, a um actor em palco - não sei quem é nem isso me importa, recorto-o da cena, o técnico lá de cima coloca-lhe o microfone e oiço, mas oiço claramente - tenho ouvidos de tísica, oiço o que quero e o que não quero; por vezes é um inferno, benilde, como naquele dia em nisa, às portas de montalvão, em que os agudos do sino da igreja matriz quase me endoideceram, mas hoje foi assim: ó pá, chouriço, está aqui a meu lado o cremalheira, diz que vais dar uma festa ai em casa, ó chouriço tu esqueceste-te de mim? … logo, às seis? só uns copos e umas gajas? e que mais é preciso? gostava de ir ai, pois claro, ó chouriço, porra pá, sou teu amigo, pois, entendo, mas vá lá... é um favor que me fazes, quem não aparece, esquece... obrigado, mas obrigado mesmo, fico-te a dever uma, mas claro que sim, não te causo problemas, é gente fina, mas claro, chouriço, então está combinado…
três passos e uns quilos de areia mais tarde: ó fininha, a sério, aqui o "je" não sabe para onde se voltar, a malta não sossega, imagina tu que acabei de ser convidado para ir à ericeira a casa do chouriço, que não posso deixar de ir, que faço lá falta, e, se o amigo pede, e me pede com tanto afinco (está enrascado) ó fininha, como pode um gajo dizer que não? …mas é um favor que lhe faço, que fique bem claro, que fique, vão ter que me pagar em "géneros", bem vês ... a minha hora tem preço, e preço altoooooo...
um palmo dista da boca à razão cerebral e outro palmo, da boca ao coração. aqui - apontou o seio esquerdo - , aqui, benilde,
a vegetação é nada agora, no pinhal o sol esturra, e, quando a noite desce e sobe a bruma logo a seguir em ciclo inverso, quando se aparta a noite do dia alvo, surge, por certo, no topo do monte, o sol raiado... e, no lodo do rio, o catre em que agonizam os dias infindáveis,
chamou os gatos e os esquilos para catar o feijão, os cães sabia-os ocupados a guardar as uvas, as andorinhas a ralar a bruma no esforço de soltar a alpista da casca - a cada um, tarefas suas, exclusivas - importa a divisão do pão, a especialização já não se usa.
rentabiliza os esforços,
rentabiliza os esforços,
depois, liberta do que, sem préstimo, se desprende dos dedos, subiu a alfazema dos degraus, correu as cortinas - era a hora da codícia, a tal a que se entregava, noite após noite,
dela(s) eram amplos os caminhos que nascem com o sol e nele findam, pó assente na inverossímil rota das sedas de um fundo antigo. ouviu ainda, diria próximo, o torpor arrastado da grande ceifeira; ouviu ainda, sem que quisesse, no azar de ter ouvidos de tísica: a senhora está morta...
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