Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Esta noite não escrevo ou "Carta ao Mar!"


Esta noite não te escrevo. Estou cansada!
Encosta o ouvido ao meu coração e ouve-o murmurar. Terás de estar muito atento, que fala moderadamente, numa cadência gemida e quase, quase, inaudível. Está esgotado também.

O Inverno - o teu e meu Inverno -, já se anuncia ou quiçá já se instalou. Sinto-o dentro de mim. Nas veias o sangue corre lento, plasmado, quase congelado. No rosto que me olha em moldura, na mesinha de cabeceira, não me reconheço… Sequer a forma de lua-cheia… está agora ovalizado. Sinto-me lentamente a definhar, a perder o viço, a cor. Empalideço. Da flor vermelha resta uma imagem a preto e branco… Sequer me espanto ou entristeço. Da vida, essa, sei-a, como um eterno recomeço. E em memórias enterneço.

Nota, não, não temo o tempo; é um estado lento, avançando de fora para o interior. Apenas me dói o cansaço de ver unissonância de olhares, olhares parados, baços, vítreos e quebradiços, andarilhos sem missão e objectivos, nas praças, nos supermercados.
Rostos que vagueiam solitários, sem sentido, e imaginar que o meu estará também a ficar assim. Sinto-os que não daqui, dali, ou sequer de algum lugar. Se perdidos, ninguém iria por eles indagar… Em última instância, fariam parte dos "anónimos mal parados". Decrépitos. (Des)créditos. E dou comigo a pensar que sequer algum dia foram ou serão seguidos pelo Homem do Fraque. Mercadoria sem valor de troca fiduciária …
Ei-los aqui: Resmas. Pilhas. Anónimos desembarcados em cais sem bilhete de voltar…
O rio ao lado.
No Colombo, no Vasco da Gama ... sob a capa e sob a égide de nossos heróis mareantes.

Também cansaço, sim, de ver outros, devassos, crápulas, que sem respeito me invadem. ... Se não me despem com o olhar, nojentos, roubam ou tentam roubar o que me resta de lucidez e me faz escrever linhas analépticas de palavras, estas em que me purgo da concupiscência com que me envolvem.
Esses, atípicos, quero ainda acreditar, ignoro-os. Sequer lhes atribuo-o condição de gente. Mas dói-me e cansada fico também ...

A este estado chama-se “tomada de consciência”.
Sabes, quando aqui se chega, a esta hora da vida, tomamos a pulso o destino, medem-se causas e efeitos, e até os nossos feitos, mais liminarmente, em medidas só nossas. Encontramos incorporalidades em ideologias e temporalidades nas direcções de voo. Somos quem somos e pouco nos importa o que de nós pensam os outros…

Neste tempo de “Inverno“, sou capaz de me copiar, replicar, duplicar, de me repetir nos meus cinco sentidos e para além deles ... Li algures que sendo cinco, nos dotam com dois pares de asas e meio – logo dando origem aos mais vastos desequilíbrios ...
De todo te garanto: não é o caso!
O destino foi, nesse aspecto, comigo, para além de generoso: dotou-me de seis... tenho um sexto e aguçado sentido, aquele que te pressente aí e aqui, coladinho a mim, neste peito a ouvir uma a uma as notas serenas com que te falo ...

Um sexto sentido que te vê a ler-me, noite a dentro, a imaginar o meu rosto, a recordar traço a traço, poro a poro todos os seus contornos e, na ausência, a imaginar as suas mais leves transformações...

Um sexto sentido que te sabe a imaginares, sorrindo, as matizes com que hoje os meus olhos se cobrem e te cobrem, num olhar que não mais te deixarei esquecer; a escutares as palavras que te disse antes de me conheceres. Antes, lá no Infinito dos Tempos...

Vejo-te agora, sim, nitidamente, a ti, semicerrando o olhar numa lágrima contida ... Afagas a tela, abres a tal pasta secreta, maximizas e aí, bem à tua frente está o olhar de quem te ama e te acalma. A voz, essa, a minha, está gravada nas mensagens imaginadas e nas outras, as que me retêm dentro de ti, brisa leve acordes de cello que me transforma de rosa amarela a simples flor desfolhada, pétala a pétala, sendo deste modo singelo, flor-cálice de mel e de cicuta.

O meu nome! Mastigas o meu nome, no desejo inatingível e real, mascas sem o libertar ... está aí para sempre, no sabor de um beijo que não me deste, e neste que te dou em cada consoante, em cada vogal, maresia e sal de nossa pele, meu amigo.

Hoje estou cansada ... não te escrevo.
... anda, encosta a cabeça bem no calor do meu peito, aninha-te, Mar, bem aqui sobre os meus seios, sem temores ou receios. Vesti das vagas o fato de espuma, perfumei de sândalo os meus cabelos. Ungi-me de lavanda e laivos de luar ...

Anda, Mar, que te estou a ouvir ronronar, gato em noite de lua cheia... Bebe o secreto néctar de minh‘alma.
Silêncio, agora: escuta. É apenas um coração a lacrimejar. Não mais que isso. Respeitosamente, ouve as palavras, as tais, as que te não disse e que imaginaste ... Exacto, essas, essas mesmas ...
Que te amo, antes da criação das águas, na espiral dos ventos, na restolhada das searas, nas águas mansas de tranquilos regatos, no piar das cotovias, no cantar alvoraçante de galos a madrugar, no silêncio de gotas de chuva depositadas nas rugas e nas pregas destas nespereiras ... Que te amo, de mil e uma maneiras, inventadas ou ‘inda por inventar, em todas as estações do ano, em todas formas e fragrâncias com que nos presenteia Geia ... e que, na urgência, anoiteço, apago o dia, salto a hora, em busca da radícula primeva da palavra, Via Láctea onde desenho em ecrãs de plasma o remanescente de cada estrela, que ao longo do meu dia fazem brilhar meu olhar:
- aqueles para quem trabalho e me fazem descobrir que aqui é meu lugar...
Por eles, sou Sereia, Mulher-palhaço, Fada, Menina, Contadora de Histórias ou seja lá o que for o nome que inventes para me baptizar.

Hoje não escrevo - estou cansada, sublinho.
Mas fica, fica aí. Descansa, meu Mar-Menino. Descansa, viajante, eremita, romeiro, peregrino. Encontra contra meus seios a plácida alvorada, e se, de cansada, finalmente dormitar, e se partires, sem me acordares, promete voltar... que te prometo igualmente, ter mil e uma história para te contar, noite e dia, dia e noite, seguidas, sem parar ... e tas contarei uma a uma, com todo o tempo do mundo, entrelaçadas em laços e laçadas, no ajour aberto de bainhas, no linho tecido em tear, neste modo de ser aprendido quando, noutra vida, fui fiandeira sem roca, moura embuçada ou ninfa secreta que avistaste difusa para além do alto-mar...

Do certo, e ao certo, quem sou, não sei. Sei apenas que de tudo farei para te pacificar.
Hoje não te escrevo... estou cansada.
Confesso... entre uma letra e outra, acho que afugentei o sono e o sonho tomou-lhe em posse o lugar ...

Tela:William Waterhouse
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Nota: Este texto fazia parte do meu 1º blog (homónimo) nas Comunidades e que já foi apagado há algum tempo. Tem ligeiras modificações, mas na essência é o mesmo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Ode à mudança ...

Nota: este texto foi publicado aqui. Hoje, acidentalmente, vi-o e reli-o. Confesso que nem me lembrava dele ... mas decidi partilhar de novo. Porque a mudança é, no fundo, no fundo, permanente em nós ...

***

Cansei-me de estar cansada de mim. De vogar em túneis permanentemente vazios, sem vozes, que não as que me acompanham vindas de dentro.

Então decidi lavrar as ondas e semear sementes - musas de palavras, planar sobre gelos, patinar sobre vermelhas águas – crivadas de dores e mágoas.

Tinha na algibeira um bloco. Procurei-o. Queria escrever nele cada andamento, cada compasso de uma melodia sem fim …

Tacteei a medo. Tinha a certeza de o ter ali. Procurei durante tanto e tanto tempo…
Finalmente encontrei.
Não passava de uma pedra de gelo e, no fogo destemperado de me encontrar, a pele em labareda o havia reduzido a um fragmento fino, um quase nada. Pouco restava. A Fada, que eu fora, havia arrefecido, perdido as asas. Esfumadas, caiam ao longo do corpo e esse, estava quase, quase morto …

Então procurei na greda, na terra por onde palmilhava. E o que encontrava eram somente poeiras… vermelhas, incandescentes. Queimavam, como escorrente soldadura, nas retinas dos olhos …

De mão descalças, abracei uma a uma, como se fossem elas, as pedras dispostas da calçada. Seguras, arrumadas… Procurava o rasto, o sulco dos teus passos. Não estavam lá…

Cansada de estar cansada, decidi que cantaria os Astros, os Planetas, as bocas abertas das gaivotas. Decidi que cantaria as aves do paraíso. Que faria do gelo bilioso um permanente gozo dos corpos retidos no recobro de repetidos abraços.

Em metáforas de poemas. Assim seria… Cantaria a Alegria.

Semeei sobre o anil das ondas a loucura impúbere de milhões de palavras.

Decidi que, e por homenagem a mim, seria palhaço, seria jogral, arlequim … cantaria uma a uma, as escamas de todos os vertebrados peixes.

Que me amamentaria dos seios de todas as orcas do Planeta.

Que seria filha da Terra e do Mar. Que exaltaria um a um, os Deuses do Panteão. Geia, Neptuno, Plutão ...

Que deixaria pegadas impressas nas abóbadas celestiais, intimas, cantos de cio e pranto.

Que ergueria triunfante a taça cálice de carne e sangue. Nas vogais abertas dos meus versos.

E que o meu riso soaria para além do rio silenciado do meu pranto.

E que os meus olhos reflectiriam os lagos de todas as cidades – aquelas que interiores, não se projectam nos espelhos dos Mares.

Hoje, desencontrada da Fada que por aqui viajava, não sei mais quem sou, mas sinto que a alegria de viver, ainda que seja dentro de um umbral de palavras, voltou.

Que os meus passos me conduzem para além das margens de um rio que, subterrâneo, habita em mim e que, em cascatas, tal corças, salta e brota.

Que fareja os sons da madrugada e que se matiza em favos de Mel, na obra de mil abelhas… obreiras de um tesouro – este reduto – onde aguilhoei as dores de estar ausente de ti. As prendi a grossos troncos, os rolei em rios rápidos e eles, floresceram, por fim …

Na certeza de que, não sendo Fada, me aceito finalmente a mim!
Poeta, louca, que seja ... mas seja, SIM!

terça-feira, 7 de julho de 2009

"O seu a seu dono..."

“O seu a seu dono“, sempre ouvi dizer, mas, neste momento em que os valores da ética e do respeito pela “propriedade do outro”, pelo “bem do outro", pela integridade física e moral do outro, parecem não fazer mais parte da pirâmide de valores e normas de conduta dos habitantes desta aldeia global, neste momento em que a “democracia” - e perdoem-me os animais de quatro patas, por quem tenho o maior apreço e respeito -, mas dizia, em que a “democracia” parece ter chegado, ao invés do que o meu falecido pai, homem de poucas letras, mas de grande sabedoria costumava dizer “… aos burros”, começo mesmo a duvidar que quem esteja errada nisto tudo seja eu...

Eu que tão acérrima defensora sou da partilha dos saberes e que vi, nesta coisa da Blogoesfera, um "palco luminoso" onde, cada um, pudesse mostrar e aprender com os restantes …
Uma biblioteca inigualável em que aqueles que, vivendo aqui, neste cantinho "distante" da Europa seriam lidos no Japão, por exemplo; que, e usando deste modo de comunicação os não publicados em livro - os ditos consagrados -, pudessem lá chegar… e isto era, pensei ingenuamente, simplesmente maravilhoso. Escrever e ser lido e entendido a milhares de quilómetros, era uma façanha extraordinária.
E não é?’?? É, sem dúvida, mas ...

Bom, vamos lá por partes….
Ora bem, do que me dispus mesmo a falar é de roubo da propriedade intelectual de cada um de nós, bloguistas - poetas/prosadores maiores ou menores, não vem ao caso. Vulgo plágio!!!!

E se nesta altura este assunto me começa a inquietar é porque, de prática esporádica e praticada por “ladrões de galinhas”, ou seja, “larápios de frases inteiras” com que costuram mantas de retalhos, mal remendadas, diga-se de passagem, e que nada têm a ver com a arte sábia das nossas avós em costurar belíssimas mantas com sobras de tecidos, "patchwork," chamemos-lhes assim, para ser mais “in”, estes, os tais “ladrões de galinhas” são, a cada dia, mais descarados …. Agora levam as galinhas e, duvido que se lhes fosse dado a possibilidade, levariam o terreno e o milho de que as ditas se alimentaram...

Roubam a obra pronta. Para quê? Simples: para alimentarem egos doentes! Só pode…
Cada dia, confesso, (não devia, contudo...) me surpreendo mais com este mundo de “pseudo-poetas” em particular…

Ao longo deste anos em que escrevo na net, nem sempre mostrei a cara como o faço e de forma tão frontal. Sou quem sou! O rosto que se mostra é o meu, o nome é o meu, o “nick” é, como mil vezes já tentei explicar, um diminutivo…

Tempos houve em que, porque ainda não lidava bem com o facto de escrever poemas… (coisas provincianas, dirão os senhores … Concordo. Seja!), visitava blogs, comentava de forma anónima, na maioria dos casos desdobrando, continuando, os poemas dos autores que admirava … e, sorrateiramente, saia.

Desses tempos, encontro hoje na net, os meus “filhos” … mas sobre esses não tenho quaisquer direitos… fui uma má mãe que os “pariu” e os abandonou à sua sorte. Alguns, os mais felizes, vivem hoje em casas onde a poesia é respeitada e, têm como autor o Sr/Srª “Anónimo/a"… Sementes, sejam, pois, da palavra ora produzida e assinada.

Todavia, e a partir do momento em que assumi esta “compulsão” pela escrita, é-me absolutamente doloroso ver, como já vi, poemas meus descaradamente plagiados de fio a pavio, com o titulo alterado, por exemplo, e postados em blogs de “poetas fast-food”…

Sou do campo, meus senhores, detesto fast-food. Gosto de tudo o que é genuíno e verdadeiro … Não busco, não é da minha natureza, pódios ou coroas de louros… mas por favor, respeito é bonito e eu gosto … e muito. Dispenso pois as coroas de sarças com que me coroam, quando me cortam à fatia e me colam em sites onde a natureza humana não é respeitada, por exemplo!… Pior que plágio é este “descontextualizar”…

Mas serei a única vítima??? Não!
Recentemente contei a um amigo que encontrei um blog onde vários poemas dele, integrais, estavam atribuídos a outro autor… que, como vem sendo hábito nestas coisas, recebe comentários, vai a palco e agradece… e volta a palco e agradece de novo… Tristes figuras, Santo Deus!!!

E, como se a coisa não fosse suficiente… ontem à noite encontro poemas de um outro bloguista por quem tenho profunda admiração e cuja poesia é inconfundível (poemas que fazem parte de um site colectivo “desactivado”) , atribuídos agora a uma senhora, num blog actual … E, de novo digo: Tristes figuras, valha-nos quem possa…

E (tantos “e”), como a imaginação - a minha -, e o tempo, andam escassos, hoje decidi ir, - aliás como vem de há tempos a esta parte a acontecer -, à minha “caixa de perdidos e achados”, buscar um poema … “Cansada, contacto”

Pasmem, meus leitores, eu, que sou meio desorganizada, mas gosto de vos deixar o link de onde e quando publiquei cada poema pela 1ª vez, fiz “inocentemente” uma pesquisa no google (maravilhoso google), desta vez pelo nome … de imediato … zás!!! Para além da Mel de Carvalho, outra alma o “escreveu” …

Começo a estar cansada, confesso.
Será que as pessoas que andam por aqui não sabem que basta colocar uma frase entre aspas e, de imediato, se descobre onde andam os nossos trabalhos? E será ainda que não sabem o que são IP’s? E desconhecem de igual modo que, em caso de denúncia, roubo da propriedade intelectual, porque é disto que se trata, a “coisa” é feia???

… pois é! Recomendo vivamente a referência ao autor, no mínimo, ao blog/site/livro, etc., de onde se retirou o texto. Citar até dá um ar intelectual, não é verdade???Fica sempre bem!

Sim, têm razão, estou irritada, começo ter pouca paciência para estas coisas…
O seu a seu dono e ponto final.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Gotas de cristal, orvalho, prata...

Desces serena pelo beiral da minha vida, gota de chuva, gota de prata, límpida, na beleza de um puro cristal. Lágrimas soltas no alcantilado gélido da noite.
Abro os meus galhos e acolho-te...

Sou árvore, sou flor, sou pétala, que, em ressupinação te aguarda e que, da tua visita, se purifica.
Sou a semente perdida de uma margarida...

Sou da flor, uma simples micro-pétala que, nesta espera, tão infinitamente alongada, se queda, comprimida contra as margens de um rio que transborda e que tudo alaga, na lágrima salgada. Rio veloz do leito até à foz. Rápido em sentidos desmaiados, a/enunciados, em tantas e tantas palavras, recalcadas na boca, retraídas entre o palato e a língua...

Sabes gota, hoje vou viajar nas tuas asas, vou percorrer o vento suspensa no teu voo secreto. Tu, que tens a capacidade de te transformar do estado líquido ao gasoso e sob o impetuoso frio glaciar... gelar, solidificar. E, como como tu... gota serei. Solidificarei, na recta final Catedral de Gelo, tal as do Lago Superior do Canadá.

Ficarei, que eu sei, com os sentidos mordidos pelo frio. Percorrerei inóspitos lugares, periclitantes, em gélidas paredes recobertas no meu próprio gelo – que gelada se anuncia a vinda do Inverno -, procurarei ai, nesse Universo de quietude e de brancura, a Paz... a Paz que tarda.

Sim, em mim própria serei a água e o alpinista escalador de gelos.

Colocarei os piolets, camelots, crampons, eriçarei os pés em picos... extensões dos meus próprios sentidos.

Sim, não sei na verdade se usarei sequer cartas sinópticas... navegarei apenas ao sabor do sentimento... sem recurso a mais “ferramentas”... Medirei, contudo, os teus secretos ângulos, que juro até comprei um Clinómetro...

Aguçarei a arte e o engenho, na eterna procura da sensibilidade dos sentidos.
Inventarei novos trilhos, nos trilhos da sólida água – que em ti adivinho... gota.

Gota de Prata... gota de orvalho ou de cristal... a mesma, a que tomba agora rumo à boca, em correria, tão, mas tão louca, que simultânea, me beija e me afaga...

Procuro em ti, gota, como te digo, caminhos! Caminhos que me conduzam ao cume, ao cume mítico da Montanha Mágica.
Caminhos de inovação e de atrevimento.
Caminhos de protecção e discernimento... de pureza e consistência...
Gota, parede de cristal.

E te encontro, e me encontro, entre o fim da noite e o início da madrugada, nesta eterna escalada, ao epicentro de mim.
Esta escalada que me obriga a escutar, a ler o que me habita...

Muno-me de cordas e de archotes, desafio a verticalidade, procuro-te e procuro-me.
És a certeza reencontrada na palavra Saudade.

E no negrume da noite, vislumbro-te, gota, estrela a pontilhar de luz a lua, a lua negra e fugidia. És de mim o farol, a guia, o anjo que sem que me toque me transporta a este abismo que sou, dentro do meu próprio corpo: mar tumultuoso, revolto...

Oceano sem fim, onde apenas o simples brilho de uma só gota, me ilumina e me conduz, me alumia, me reconforta, me fascina.
Gota de cristal, de chuva e prata!

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Escrito em Lx. 25/X/2006, Publicado aqui

terça-feira, 23 de junho de 2009

Poderia dizer-te, palavras que nunca te direi ...

Poderia dizer-te
dos pássaros mortos que encontrei naquele dia quando abri a porta da casa fechada há alguns anos. Do dardejar de suas asas por dentro do meu peito…
Do pó que contornava cada canto, cada estrado, cada flor inanimada p’la secura. Ou ainda da água enferrujada que, ao abrir a torneira, tingiu de ocre meus dedos.
Poderia falar-te do relógio de cuco que me olhava, como dantes, por entre as duas portas das salas. Mudo, contudo. Enclausurado no escuro do seu mundo …
Do lambrim do hall de entrada feito a custo - era tão escasso o dinheiro naquela altura -, por um artista da época sobre o estuque fresco, num imitar perfeito, dos nós, dos lenhos, dos veios, de troncos de madeira. Entroncados, ombreados, uns nos outros.
A inspiração viera-lhe dos tempos em que, como estivador, viajara nos porões dos barcos, onde à chegada, descarregava em ombros o que o navio levava, pelos portos de Lisboa a Veneza …
Poderia dizer-te
de como cresci ali, naquela casa, agora abandonada; onde aprendi a ouvir os cantos de todas as aves e mais uma: domésticas, de gaiola ou até capoeira. E daquelas que me visitavam p’la manhã e p’la tardinha e trinavam só para mim, então menina, cânticos em códigos só nossos.
Quase divinos, digo-te agora.
Eram, de todas, as que mais apreciava. Respiravam liberdade e, sem que ninguém soubesse, traziam-me notícias dos que no antes de mim, haviam rumado mundos ao mundo …
Dos que os vivos, diziam que estavam mortos (não nunca em mim ...).
Só a carne, porque o que deles emanara, perdurava na matriz cristalina da minha alma … cada gesto, cada palavra… até o barulho distinto dos passos … e a todos amava. E com todos me amparava … tios velhos, vizinhos, avós e primos …
Poderia dizer-te
da companhia que me fizeram os meus bichos (e tantos eram). Os da seda, que alimentava com folhas verdes de aroeira ….
o meu ouriço-cacheiro com quem me cruzei um dia e, num ápice tresloucado, salvei da roda de carro. Depois, afaguei-lhe os espinhos, alimentei-o a pedaços de pêras, de maças, que desviava da cozinha até ao dia em que, provavelmente cansado de tanto desvelo e afago, se escapuliu sorrateiro em busca do seu destino….
Deixou-me, tal como tu, uma lágrima silenciosa… e a percepção de que na vida, tudo o que chamamos de nosso, é efémero, transitório… dura enquanto dura. Apenas isso!
Ou dos porquinhos-da-índia … mal cheirosos, eu sei. Mas tinham um pelo tão lindo e um olhar que me esquentava a alma, de um castanho melado …
ou ainda dos outros, os da pocilga, que viviam e morriam para que eu pudesse viver… transitória a sua vida, mas amava-os de igual maneira. E tratava-os se adoeciam. Por eles aprendi até a dar injecções … a eles, e às ovelhas… aos gatos e aos cães; e mais houvessem, trataria de igual maneira …
Poderia ainda falar-te
do dia em que as águas subiram e, quando acordei de manhã, na beira rio e por todo o lado, só se viam destroços do que foram vidas dos que comigo comportavam, sem comportas ou barreiras, nas aldeias lado a lado.
Do dia em que tremeu a terra, em que dos altares do céu, os deuses se exaltaram… e que, na mesinha de vidro, um peixinho de barro, tilintou-me o aviso … acreditarias, pois?
E na verdade assim foi!
A um peixe de barro a uma mesa de vidro, devo o facto de ainda estar viva …
Poderia contar-te ainda
dos dias em que o despudor dos homens retalharam no toque e no abuso a inocência do meu corpo, tomando os botões de rosa que anunciam os seios, no argumento de que eu, a criança, era a “feiticeira” …
Se consumado o acto? Não! Sabes… Deus devia estar por perto…E alguém me libertou na hora derradeira...
E desta mágoa, que até hoje perdura, do quanto me senti impura. E do nojo que sentia …de um bafo que fosse, de ver um homem a menos de meio metro… insegura, sim!
Poderia contar-te
se a pressa não fosse sempre o teu maior alimento, de como cresci por fora, de uma beleza trigueira, nesta altivez de porte, neste olhar que intimida… E resiliente a outras quaisquer emoções, que não a partilha inteira com a natureza primitiva de plantas e animais …
Em suma, poderia ter-te contado a história da minha vida até ao dia em que a força centrípeta te colocou nuclearmente no certo do meu destino. E me fez confiar, acreditando, que o amor que emergia, que tão profundamente sentia, bastaria para nós dois …
se te amava de forma desmedida, de forma incontrolada …
se te daria a chave e o cofre de todos os alfabetos. Se te sonhava acordada, e me via solta e livre, em loucas correrias por serranias e prados...
Eram os teus braços que buscava. Tão-só e apenas... sem porquês, indagações, reticências, pontos finais ...

Poderia sim…
Todavia, em certos momentos, duvido até que, aos teus ouvidos, as minhas palavras tivessem o mesmo efeito que uma missa dada nos dias de hoje, mas liturgiada em latim… abanarias a cabeça, e dirias "amen", que sim…
Assobiarias e passarias adiante … ou estou errada e me ouvirias atentamente?

Diz-me … o cansaço está, definitivamente, a tomar conta de mim!
... Fazes-me falta, preciso de ti!

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Sonho de Deméter

Deméter, era vizinha de Antonino, a dois passos de Antonino, quase que lhe podia sentir o cheiro a lavanda.... Também ela era tímida, reservada, até mais do que isso, aparentemente congelada. Congelada por séculos de espera e de solidão.

Aí, um dia conheceu Antonino. De mansinho, percebeu que não estava mais só. Fora o olhar dele, um olhar queixume, foram os passos baloiçantes, leves, carregados de magia e de voos prometidos, ou apenas o som de batuques ao longe, não sabia!

Sabia apenas, que deste esse dia, se havia, para sempre, consagrado a ele. E, sem que ele soubesse ainda, lhe oferecera o seu olhar em forma de poema e com ele colocara estrelas no firmamento, guias, por onde um dia, igualmente sem saber, Antonino se haveria de projectar e viajar nas palavras.

Deméter não tentou impedir-lhe o voo!

Adorava vê-lo voar, asas abertas, num voo agitado, às vezes, acalmado outras, picado, noutras... Asas abertas, sem destino obrigatório, é certo.

Mas sabia que a todas as Primaveras, Antonino voltaria.
Voltaria para sorver o seu olhar maresia, o seu olhar poema. E com ele preencher telas infinitas de um amor maior que o espaço!

Da sua janela, vira Antonino a plantar pimenteiros nos passeios e percebeu. Então queria ele que provasse o picante-escaldante da vida? O picante da Paixão? Pois seria! Antes que a polícia chegasse e arrancasse um a um os pimenteiros, pela calada da noite apanhou as malaguetas coloridas de vermelho, macerou os frutos no mais fino azeite! Com este ópio se unge e se purifica, nas horas em que, sob a lua crescente, na magia das palavras, ambos se encontram e se amam perdidamente.

Deméter conhece-se-lhe todos os trilhos, todos os atalhos e isso faz dela a mais amada das mulheres!

Sim, também ela de amada passou a abandonada. Mas só fisicamente... Vive uma vida nova, sem incertezas. Tem as suas rotinas ... e, uma delas, é a de, todas as manhãs, procurar o seu Pólo, um cão que a acompanhou durante anos, fiel, e que a ajudou a manter acesa a esperança de vir a ser, um dia, apenas gente.

Deméter voa agora, suspensa nas asas do seu Anjo!

Recorda o tempo em que as asas estavam coladas ao corpo, como que incapazes de gerar afagos... Mas Antonino passou por perto e, como que por magia, o corpo estremeceu e o milagre da vida (uma nova vida) aconteceu. Deméter renasceu em Maio! E percebeu que uma ave a voar parada pode ser uma ave morta e não quis voltar.

Diz quem viu, que hoje, no céu estrelado da noite, voam dois pares de asas, tão, mas tão fundidas, que não se sabe onde começam umas e as outras acabam.

Deméter já não tem só sonhos. Vive o sonho!!!!

Sabe que a vida que vive agora, num voo supremo, é bem melhor que sonhar, aprisionada que estava num corpo de vidro fino!

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Conto originalmente publicado aqui

Nota:
  1. Démeter
  2. Antonino (inspirado no "conceito" de vias romanas ... caminhos ..."Itinerarium Antonini")

sexta-feira, 12 de junho de 2009

No Jardim da (i)lógica

Naquela noite, o mar estava incendiado. O Menino aguardava a vinda da sua Fada, por detrás da janela, olhando-o de frente. Tanta gente, tanta gente, e, contudo sentia o seu coraçãozinho demasiado sozinho .

A sua Fada, aquela que chegava quando o dia se despia e ele vestia o pijama do avesso, tinha o condão de lhe trazer uma Paz e um bem estar de que tanto necessitava para enfrentar o frio da madrugada. Tantas perguntas, tantas questões para lhe colocar. E, contudo, pressentia que haveriam muitas, às quais ela nunca iria responder ... ou talvez sim!

Na última noite a Fada quando se despedira, havia-lhe dito:

“Descansa meu tonto... acalma esse coração ... sente o marulhar das vagas, o rebentar das ondas nas falésias, deita-te na areia, encosta o ouvido bem sobre ela... e ouvirás o respirar da Terra. Ouvirás, que lá dentro, ela, como tu, tem medos e treme, ela, como tu, sorri e chora ...

A terra vive, cresce e evolui, tal como tu, tal como as estrelas e os planetas ... tudo tem um principio e tudo cessa e, de novo tudo recomeça. Um circulo contínuo!"

Tal como a Fada lhe dissera, deitara-se de barriga na areia, colocara o ouvido atento no seu ventre e, jurou que sentira a Terra a soluçar, a tremer e a vibrar ... com tanta, tanta força que se levantara de um ápice e correra saltando de vaga em vaga, envolvendo os pés e as pernas, envolvendo os calções e a camisola de espuma ...

A Terra chorava? A Terra sofria? A Terra...

Sempre pensara que só os animais tinham sentidos (sentimentos, não era isso?). E agora concluíra que ventre da Terra, lá no fundo, tal como uma criança ainda dentro do ventre de sua mãe, a Terra, ela própria, borbulhava e fervia ...
Porque choraria a Terra?

A sua Fada não chegava ...
Olhou de novo, uma e outra vez através das cortinas do Tempo... olhos com os seu olhos cor de Terra ... E, como por Magia, como respondendo ao apelo do seu coração, a Fada vinda do Jardim dos Deuses, materializou-se, vestida das cores do arco-íris... num sorriso de Luz, na melodia de harpas e flautas ...

O quarto era agora um lugar mágico. Sem mais, sentiu o beijo sereno de que já se habituara a tombar sobre a testa, no centro do seu espaço visual, sentiu-lhe as mão que o afagavam num abraço eterno. Sorriu....

- Fada... hoje pensei que já não vinhas...

- Meu querido, virei sempre, mesmo que os teus olhos me não vejam, o teu coração e a tua Alma saberá que estive aqui...

- Mas eu quero ver-te! Quero ...

- Querido ... nem sempre aquilo que nós queremos se pode obter. O que importa é que nós tenhamos a consciência que desenvolvemos todos os esforços para o conseguirmos...

- Sabes, Fada, hoje queria falar contigo sobre o que me disseste no último dia, quando me falaste de que a Terra sofria ...

- A Terra, meu querido, é um ser vivo, e como tal, sofre as maldades que os humanos fazem com ela… o desrespeito pela Mãe Natureza, como por todas as mães do Mundo, é sentido no ventre da Terra … quando o Homem não respeita os ciclos da Vida … esgota os recursos (destrói florestas, captura espécies animais em vias de extinção, quando pesca em épocas de reprodução, etc …), meu querido, isso faz a Mãe Natureza sofrer …

- Fada… eu nunca farei nada disso … prometo!

- Eu sei, querido … descansa agora…

- Sim, descansarei … conta-me então uma história … aquela do Jardim da Ilógica … não era assim que se chamava?

- Meu querido, essa já te contei … até já contei na net …

- Na net ? ... Fada!!! Tu tens net no teu Reino?...

- Tenho sim, meu querido … escrevo histórias … lá sou só contadora de Estórias (sem H ”… e com um “E”)… A Meldemim. Apenas para ti, Karmel ...".

- Só para mim !!!! ... Fada … isso está mal escrito …. Estória ? Ehhhh eu sei que está… Histórias é com H e com um I …

- Talvez meu querido … mas estas são de uma Fada para o seu menino, são Estórias (I)Lógicas … ora ouve então:

"Uma Rosa & Um Sapo"

“Era uma vez um sapo que vivia no Jardim do Éden. Tinha sido vítima de um feitiço, e por isso continuava ali, camuflado entre a folhagem verde, esperando o dia em que ela (a folhagem, claro) se transforma-se, amarelece-se e, assim ele, o Sapo, se pudesse revelar. Era um belo sapo... O tempo passava, sem que o Outono chegasse, o verde exuberante matizava a Primavera e perpetuava-se no Verão …

O Jardim, resplandecia em todo o seu vigor. Túlipas, dálias, amores-perfeitos … e rosas! Milhões de matizes e um Sapo, verde …


Assim decorria o tempo. Lento … O Sapo desanimava… Mas, vá-se lá saber porquê, durante a longa espera ...o Sapo apaixonou-se (coisas de animais) por uma Rosa do Jardim do Éden. Era uma rosa-espinhuda, uma rosa solitária. Vivia suspensa numa roseira mesmo na beirinha do lago habitado pelo Sapo … Gerou-se entre eles uma química (sabes o que é química, querido?... atracção, partilha de emoções ...sim, eu já te disse que no Jardim da (I)lógica tudo é possível ...e, não te esqueças, era ai que ambos viviam ...).

Se a Rosa o amava? Dizem que sim... Mas a rosa tinha espinhos, o sapo escorregava... Se algum dia o caso se resolveu?...

Espera, tenho sono... Pensando bem, talvez ta conte noutro dia.
Dorme agora, dorme bem, meu Pequeno Príncipe... chove lá fora, torrencialmente... Ou será dos olhos meus?
Dorme agora, Príncipezinho ...


E dizendo isto, aninhou-lhe a roupa, acariciou-lhe os cabelos, depositou-lhe ao de leve um beijo e partiu. Levava no olhar um estranho brilho ...
Seria que o seu pequeno príncipe alguma vez descobriria quem era a "Rosa"? ...

Para além do Infinito está agora a Fada Karmel ... escreve na Net uma outra Estória ... sobre Cães e Pessoas-Cães. A que irá no próximo fim de dia contar ao seu menino ...

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Era assim... faz algum tempo, quando a Mel escrevia em O Melhor de Meldemim, Feiticeira (rsrrs)

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...