Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

domingo, 19 de setembro de 2010

...e das sombras se fez luz!

 "durante a Primavera inteira aprendo 
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto 
correr do espaço - e penso que vou dizer algo cheio de razão, 
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam,

um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária."... (Herberto Helder)
.


Poderia falar-te da extemporaneidade  dos afectos, do insolvente resíduo dos silicatos que me mofam os  olhos bolorentos. Poderia falar-te de poemas que invento para que, as palavras germinadas num lugar de mim, desabitada, não me subam como pássaros sem asas a garganta, e me corroam, sem mitigação de si, as silenciosas cordas vocais.
Poderia  ter apostado na afasia; na dialética sempre dúbia dos silêncios;
Poderia falar-te como lhe falei há pouco, da importância da pedra, da calçada portuguesa e, para que ninguém delapide o património cultural, da via romana em lages de terço,  que só eu sei onde, atravessa o horizontal chão que é meu assento. E de que faço residual a eternidade de um momento 
se, "numa eternidade se demorava a pele", do que me lembro...
Sabes, nos sons subtis do vento, nem as amoras moram já, nem a bruma se desvanece no caudal do verbo inconcludente - é sempre noite, na casa do verbo.
Poderia falar-te ainda desta tendinite aguda que, de tantas horas aqui em posição imprópria me faz exausta 
com ímpetos de, contra mim mesma, deferir golpes de espadachim em escarpa
             (e ser apenas lua plasmada nos campos de trigo  sem fazer, em rigor, nada.)

Por vezes adormeço; sonho que semeio girassol na enseada, outras que, entre frinchas de calçada; que me tomas pedra, que sou ave e subo vertical
até à nascente do teu magma, 
que solto infinitos siderais
que mergulhamos juntos as ogivas do silêncio 
e que um arco-íris perfura o tempo
e teço e cirzo 
pontas de laços entre 
o que não existe e que invento em silviculturas sagradas. E  a brida por sobre os ramos  se apascenta sereníssima nas colinas dos meus seios, e o andar da invernia vagueia-me  na curvatura das ancas, e tudo é equilíbrio momentâneo em ponta de faca...
Ou quase tudo,
que,  na hora que rebentam de meus olhos as marés e que o azul recobre o tecido moribundo da areia do Molhe Leste, inesperadamente, acordo.
                        E não sei mais falar de pontes nem destinos; não sei de dunas nem de levante de pássaros. Apenas sou processo reconstrutivo de várzeas   num gesto íngreme de quem do peito expele a mais líquida inocência. E deixo que as areias me enrolem e façam de mim -  pernas, coxas, clavículas, braços e tendões-,  redes utilitárias de pescadores,  quais as que vislumbro rotas e expostas  nos joelhos das varinas a que me junto no cais de embarque  para  que me ensinem a sublimar o vácuo 
na espera de que o sal transborde  e desagúes de  mim,  ritualizado, sabendo da fragilidade em definir o inaudito,  num turbilhão de ciclos sem marés de chegada.
 
                       Olhando a ilha que vejo agora, clara forma, quilha invertida nos mouchões do Mar da Palha, vejo uma flor que resiste. Antroposófica, chego-lhe à fala:  ela, a tal flor, assevera ser verídica a evidência; que nem duvida: jura  ver, no barco negro da tal quilha invertida, proficiência,  barca de alva, luminescência   

...e das sombras se faz luz! Um girassol na calçada e a vida, pé-ante-pé, ousa que passa.

 **
Foto da autora

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"Querida, ... mudaram-nos a casa"


Vista de longe, a península menor, apensa à outra de que todos sabiam o nome, fervilhava no branco das caravanas tresmalhadas. Ovelhas de um qualquer rebanho em que o pastor adormecera, e, sedentas da maresia, não hesitaram em se pespegarem contra a flora rasteira de armárias que emoldurava a escarpa, abocanhando o horizonte, namorando à descarada o faroleiro que, quando a noite se acoitava para lá do horizonte, em miríades e promessas de luas novas,  se entretinha a enviar-lhes uma espécie de mensagem - código morse, quiçá -  com sinais de luzes estanhadas, contundentes, que as revelava lá. Ali, no dedo peninsular da península, a indicar a Constelação das Três Marias - Orion, o cinturão de Orion, que, segundo a Bíblia, apenas Deus ,e só ele, tem poder de desatar… Para os populares era sem dúvida a provocação. Um dedo a “apontar” Orion? E as verrugas? À falta delas, a comprovar a teoria, sazonais, elas, as tais ovelhas tresmalhadas de que vos fala o narrador.
Quando a nevoaça se anunciava na buza fanfarrónica e estridente,  quase que se evadiam, como se Sebastianinas se tornassem. Mas ela, aprendiza de alquimias e leituras celtas em tábuas de marés,  sabia-as lá, esconsas, dissimuladas, sempre sem data de chegada ou de partida. Sabia-as cortantes à linha de cabotagem quando, pela manhã madrugada, se abeirava da ombreira metálica da janela a farejar o vento,  determinada a enfrentar a nortada. 

Era assim todos os dias. Rosália  trocava o vale de lençóis pelas dunas, trocava a tepidez mansa do lar por um vai-e-vem de velas e cascos, pelos contornos  imaginados das vagas e das  dunas... 

Nómada, naquele dia, como em tantos,  veio-lhe à memória de quando, tal como eles, imaginara iludir a canga das horas marcadas pelos ponteiros rítmicos da cintura industrial, por dinâmicas de liberdade. Haveria um dia de ser livre, dar a volta ao mundo…
Sobre rotas, de casa às costas.
Tão distante o propósito e a mais distante a vontade. A viagem, essa, fazia-se no pleno, sendo outra, muito mais lata que a imaginara, inter-galáctica… Tudo estava, tudo começava e acabava, nela própria. Era “princípio e fim de todas as coisas”, acreditava. E, porque assim, se aventurava.

Naquele dia, como nos anteriores, não as viu de imediato. Mas sabia-as lá, brancas, luzidias, chibas de serranias, em conversas improváveis com corvos marinhos,
Parecia ouvi-las:
Não há quotidiano nem miragem, tudo se esfuma, tudo passa, tudo se esvai, nos ralos invictos da memória, se não se escreve, se não se tecem fios, se, nos dedos abertos, nas falanges e falangetas,  os bilros não rendilham teias, pastilhas, pontos finos - motricidades finas, diria Rosália -  e cadeias de afagos e afectos, e se, dos degraus da escarpa se não faz, a pulso, no cuspo das mãos - lenhadores antigos -  a tábua rasa. Se não se ousa o mergulho em apneia, se … diziam, 
              enquanto ela, Rosália, jurava ouvir  vozes de escárnio, despautérios inverosímeis de  dúvida e espanto, sobre a sanidade mental de quem se detinha, horas e horas  à escuta,  diálogos inolvidáveis de  búzios à conversa com gambuzinos…  Reorganizava a história
e,
                 assim, sem mais, de si a si,
contava:
Eram três, o Moisés, o Zé, o Albino… Todos alinhados como elas. A princípios e futuros e tácitas de quadrado.   Em comum a vontade de ser  o mundo, a sua casa… de fibra, de oleado, de pano fino? Pouco ou quase nada importava.  Uma casa com rodas ou levada em rodas....
O sonho, esse, faria do Verão de 1983 um ano de célebre memória. Na lembrança dos acautelados e dos afoitos. Vamos a factos: 
Achados os mapas, começaram preparativos. A partida anunciada de um qualquer ponto proximal de acesso ao Auto-estrada: A1, rumo ao Sudoeste,  à Costa Vicentina…
A1 ao Sul, ao mais Sul que possível fosse - dentro da pátria, que por cá há muita praia, ó camaradas, 
A1 ao Norte…. E neste último, Melgaço, Valença, Gerês,  praias e serras…  quinze dias a sós, eles,  os dois, ainda sem filhos (não lhes dera Deus tal ventura, não porque ele não se esforçasse...)
“....uma espécie de lua-de-mel  - dizia à boca cheia Albino, para quem o ouvir quisesse -  até a barraca abana, ó pessoal, aquilo é que vai ser, sem limalhas nos olhos e sem cheiro ferro na pele, a minha Ilda quando voltar há-de ir de joelhos pedir à Santa da Boa Viagem, lá em Peniche,  o milagre de repetir para o ano…”.

Na sua pacatez, Mestre José, Zézinho para amigos, começara a obra a que chamaria de “sua menina“, longe ia o tempo,  sem pedir meças a forças,  nem equacionar enganos admissíveis.
Começara então  a preparar “A Viagem” em 1973; certo é que o vinte cinco de Abril lhe alterou os planos. Os camaradas solicitavam os seus saberes, e ele, homem de poucas falas e de desmedidas capacidades, lá dia desenhando, montando e soldando, para uns e outros, atrelados e reboques, portões e portadas, e, da sua "casa de fibra, uma roulotte ao melhor estilo, um orgulho para a classe operária, camaradas”,  a data de se fazer à estrada era, por esta via, democrática adiada sine dia …"É para o ano… "
             ...só não dizia qual.
e, orgulhoso, arrematava,  "um homem não pode pôr-se de franquelos se faz falta a outro, e é o caso…  "

Pai de uma filha moçoila e casadoira, marido extremoso, a ambas prometia que, naquele ano - e nem um mais -, daria por terminada a obra e, os três, na santa graça de Deus, se fariam à estrada, para umas mui merecidas férias. E, claro, desta vez, a Manta Rota não os veria chegar no seu Carocha apenas. E muito menos os veria  armar a barraca de pano - tenda, bem entendido -, ruça de tanto sol, mais ruça que a mula da cooperativa … E, noite adiante, depois de partilhada a janta, ao serão, riam, entre si, antevendo a chegada apoteótica do Carocha com um rabinho de ferro, uma espécie de “pompom” - a bola de engate- , onde a sua obra, construída de raiz, peça a peça, por si, decorada pelas mãos de fada da sua esposa, reluzida nas tranças da filha de formas generosas, haveria de cruzar a Recepção do Parque.
...Vais pagar Parque, ó pá? A malta faz campismo selvagem …
Campismo selvagem? Ó camaradas, acham que sim? E eu deixaria a minha “menina” abandonada na beira da estrada e ia a banhos? Ora, isso está fora de propósito, nem tal me ocorre, sequer à Beatriz, minha esposa…

Por essa altura, Moisés, entre uma medida de tensão e uma pesagem, sempre ia avançando:
        “…bom preço, a minha auto-caravana. Uns amigos deram-me uns ingressos e fui à FIL, à Nauticampo.  Coisa fina, aquilo. Comprei e vou buscá-la de véspera ali a um representante no Campo Grande. Trago-a, e, dia 1 de Agosto, madrugada cedo, não me apanham mais por cá. Hei-de chegar ao Sudoeste ainda não cantaram galos e o belo de um pequeno almoço, esse, hei-de tomá-lo, eu, a mulher e os putos (já marquei encontro com o Mestre Zé), ali para os lados da Marateca, que nesse percurso os “tascos” abrem cedinho…”

" ...dia 1, dizias, camarada? Também sigo nesse dia, mas rumo a norte. Mas a sorte não me abençoa, queres saber da alhada em que se meteu a minha Ilda? Não é que contou à minha sogra que a tenda tem dois quartos e uma sala? E não é que a velha - é boa gente e gosto dela, mas porra, não fazia falta agora -, cismou-se de que, sendo assim, mal não haveria de se fazer  à boleia e acampar com a gente, ó Moisés, isto só daquela cabeça que enviuvou no outro século. Que não empaxa, que não nos há-de pesar, que até contribui com as despesas do “gás-oil“… e, das trepas à minha  Ilda Rosa,  que posso fazer? Ora a velha… E a filha? Que eu sou um depravado, que ando sempre a fisgar o assunto, que quinze dias passam depressa, que a mãezinha é uma santa,  rija como ferro…
Portanto, amigo Moisés, dia 1, seguimos os três, rumo a Melgaço, ao Gerês, a Caminha, mas antes pela costa, pelo litoral, que são paisagens sadias e o frio há-de resfriar-me os ímpetos e as vontades … ou não..."
Riram. 
"…Albino, ora acalma-te lá,  que assim não te posso medir a tensão e ainda te finas no norte e eu é que sou culpado -  afinal sou o enfermeiro da medicina do trabalho… mas não das férias, bem se vê, ai a responsabilidade é de quem as inventou…"
Riram de novo e  Moisés,  naquela tarde,  ainda haveria de, a muitos, entre  pesagens e testes auditivos e  etc's., ir arrolando, a bom grado, e de modo exacerbado,  a capacidade e a qualidade intrínseca da sua novíssima, ainda não estreada, mas já paga a pronto, como  manda a boa educação - antes pagar e depois usar -, auto-caravana,
           “hei-de colocá-la no engate, colocar dentro, de véspera, à noitinha, todas as tralhas . De manhãzinha, madrugada, é só lavar a modos as mãos e a cara  (e as partes, homem, bem se vê …) e dar à chave. Que fosse agora e já seria tarde… Não lhe vejo a hora; de férias a esticar espias e pano, ó camarada,  a malta está farta … fartinha!!! Uma auto-caravana, tem rodas, dá-se ao botão e a casa  salta, além do que, não se fica no chão, a cama é alta…”.

O cheiro da maresia a meias com a industria conserveira, ao lado direito, aguçava a lembrança. E o espanto dos planos, dos detalhes das viagens, contadas de boca em boca. Toda a maralha o sabia e, talvez por isso,

              "…Quebranto, a malta sofreu de quebranto, mau olhado, só isso acho  que lhe dizer, camarada Jordão. Então quer que lhe conte em detalhe  ou já lhe deram fé  de como foi? Línguas de trapo, não sabem guardar recato …
Não se canse, ó amigo Zé, todos sabemos que não foi descuido. Quem mal não faz, mal não cuida, e, acautelado é você, sempre o foi. Zeloso, trabalhador,
Sou, sou sim senhor. Levava pneu sobressalente para a minha “menina”. À Marateca ainda esperei o Moisés, mas ele não me apareceu por lá, para tomarmos o mata-bicho juntos… segui em frente. Amigo não empata amigo… mas fiquei desapontado,
Mas vossemecê não sabe, amigo Zé??? Se mal pergunto,
Não sei? Sei sim senhor, não honrou a palavra, ou adormeceu e saiu já sol alto,  ou perdeu-se do destino…
Não sabe!!! Mas logo lhe conto, avance com o que lhe aconteceu, com a sua versão dos factos…
E lá existe outra? Sou homem de duas palavras? Oiça, por favor,  e não me retenha. O que aconteceu foi que, no meio da Serra, do Caldeirão,  o pneu esquerdo da minha menina não suportou e a carga começou a dar de lado…. Por um pouco não íamos, família e Carocha, agarrados à “menina” pela garganta da serra abaixo. Parámos e, a muito custo, que o material de tanto tempo em espera estava calcinado, lá substituí o pneu. Seguimos viagem e,  cruzes canhoto, não é que numa curva apertada, fui à berma e lá, parecia que colocado a propósito, um ferro retorcido, se cravou como espora, na roda dianteira, desta vez do lado direito? E como resolver agora? A localidade mais próxima, a mais de vinte quilómetros… Discutimos o assunto. Ficariam as mulheres - filha, esposa e “menina”… e eu, claro, faria a estrada.
Mas logo a minha esposa:  - Zézinho, e se te demoras? E se nos molestam, aqui, mulheres  desamparadas? E se…
Decidimos.
Ficaria a “menina” e iríamos nós…mais seguro assim… Fomos, era Domingo e nem vivalma. Nem mecânico, nem oficina, naquela aldeia. Na próxima,  por fim, a roda arranjada. Voltámos à serra,  quase noite, neblina… nevoeiro a bordejar os vultos das figueiras, das amendoeiras…
Era aqui, juro que era aqui… não, era mais à frente, naquela curva… E mais outra, e o nevoeiro a descer…
Era aqui, Beatriz. Eu sei que sim… Vou parar.
E parámos…
No chão, visíveis, os rodados. Quatro rodas, mas uma de trilho desigual, e outros trilhos, talvez de um tractor… E ela, a menina dos meus olhos?
Sumida, qual  a voz de Beatriz,
               “querido, vamos embora… mudaram-nos a casa…” …

Do Moisés? Quer contar-me agora? Adormeceu, foi isso? Ó gente fraca  …

Naquela manhã, a tal, Moisés levantou-se muito antes que o despertador tocasse e fez com que todos, esposa e crianças se levantassem num ápice. Banhos tomados de véspera, roupa aposta ao fundo das camas, um copo de leite aos meninos, que o Zézinho nos espera na Marateca para o mata-bicho, conferido o gás e a água, os estores corridos, e todos à porta da entrada do prédio recém construído, de que eram condóminos, com grossa hipoteca à Caixa… Viviam no R/C e ela, a “outra casa” a tal de rodas, ficara de focinho a cheirar-lhes a porta… “de lá de dentro, hei-de sentir-lhe o cheiro a nova, ó camaradas…”.
Saíram, pois. Um luar de Agosto iluminava claramente a Nacional 10, à beira da qual viviam… O prédio silencioso dormia o sono dos justos. Guilhermina de mãos dadas com o filho menor foi a primeira a sair a ombreira e foram dela as palavras
     “Querido…. mudaram-nos a casaaaaaaaaaa…. “

Um grito rasgou a noite. Uma a uma, todas as janelas se iluminaram emoldurando os rolos das mulheres e as cabeças desgrenhadas, carecas ou  com três pêlos, dos seus anafados maridos… Pitoresco o quadro, a  aguarela; Salvava-se o Policarpo que, Don Juan,  lutava desde novo contra a calvície  precoce ensopando o cabelo com restaurador Rolex,  mas a quem as bexigas doidas tinham feito do rosto uma montanha-russa … Salvava-se a custo, e salvavam-se eles, um casal jovem, a destoar dos demais…na beleza, mas não na "esperteza"...
 Durante dias e dias não se falou de outra coisa, fosse para onde quer que se fosse,
             “querido … mudaram-nos a casa”… O prejuízo, valha-nos Deus, coitados...
e mesmo assim, iam dizendo, entre-dentes:  “descobriram a careca do Moisés” ou seja, “falou de mais … e levaram-lhe a “casa”…
Coisa meditada, premeditada, estudada, não havia dúvida.
"... As paredes têm ouvidos, o calado vence tudo, o segredo a alma do negócio..."
Assim lhe contava Jordão. "Por ser verdade, camarada, por ser a mais pura verdade... não que o esteja a defender de lhe faltar ao encontro,
Zezinho coçava a cabeça, “Home’essa, Home’ssa…”
Irmanado na dor da perda, deixou, finalmente cair uma lágrima, “Home’essa …”

Por essa altura já Albino varrera o litoral nortenho e se adentrava à montanha. Por essa altura já engolira malgas de vinho quente na noite minhota para esquecer a promessa feita à esposa de que lhe daria, por fim, uma lua-de-mel. Afinal a culpa era dela, que, desbocada,  se fora exibir para a mãe dos cómodos que o seu Albino arranjara 
         “dois quartos, senhora minha mãe, uma sala… parece uma casa, já a vi aberta que o meu Albino a abriu na frente de nossa casa… E luz, senhora minha mãe? Parece que um girassol dorme lá dentro… e espaço? Minha mãe, cabem dois colchões de casal, pequenos bem se vê, mas cabem…” 
E o resultado o sabido: uma lua-de-mel a três, a “velha” ao lado, o desejo encolhido e os gemidos apressados quando, pela manhã, D. Gervásia ia fazer as suas necessidades. E nisso Albino era manhoso… Da casa de banho sempre distante o mais possível…
Por essa altura, nos diz o narrador, que o Gerês era “logo ali…” E, nas festas e romarias, D. Gervásia, não se negava a nada. 
Na Serra d'Arga, em Caminha, pediu  a S. João a cura para os quistos, para as verrugas, para a  infertilidade da filha … Pediu ainda, e disso não se confessou, um uma "ajudinha" para arranjar um novo casamento. Garbosos os homens do norte, Benzós Deus, pensava … Afinal ela ainda era nova, os setenta não lhe pesavam. Um pé de dança, bem comida e bem bebida, dormia que nem um anjo sem asas…

Naquela noite não foi assim. Entre vómitos e idas à, sempre longínqua, casa de banho, começou a perder forças… “não tenham cuidados, filhos, que estou bem…”.
Deitou-se. Deitaram-se, por fim. Gervásia impava, impava
      “estou bem, estou bem…
mãezinha, quer que chamemos alguém? por quem filha? Por Deus, passa… passa…Foi das rezas a S. João …, do esforço das rezas..."
O coração palpitava-lhe …
E passou. Deixaram de a ouvir. “a mãezinha sossegou…sossega também, querida… vira-te, meu anjo, vira-te para mim… não, não pode ser… chiu… filha, cansada como estava, a tua mãezinha dorme o sono dos justos… vira-te, amor…

O sol brilhava ténue …”mãezinha, mãezinha, como está a senhora, minha mãe?”…
D. Gervásia não podia responder. Direita como um fuso, com um sorriso maior que a boca, dormia  além da vida…
 Ilda assumou-se ao fecho do quarto da mãezinha. Espreitou, 
“não…, Albino, nãoooooooooo, nãooooooooo..."
Depois o silêncio, por fim, o inarrável veredicto,  
Querida, a mãezinha partiu e está feliz…
Que faremos agora? E logo ele : Levamos-la connosco, regressamos e damos-lhe o chão que é seu…
Como? Está hirta…
Ora, enrolamos-la na tenda, nos quartos, depois a mesa, as cadeiras, um volume só; …irá no tejadilho que dentro não cabe, tão-pouco.
Ela incrédula…E se chamássemos a polícia?
Pagar a um carro funerário?... Mulher e onde tens tu dinheiro?
E ela em lágrimas,
... Ilda, não faças barulho mulher…A mãezinha dorme o sono dos anjos ... Vê como sorri...

Em minutos e antes que o sol abrisse, saíram  tomaram a  A1 de regresso. Sem palavras, semblantes abatidos. O dia ia alto e o estômago não perdoava. Pararam na beira da estrada. Um olho no burro, outro no cigano, que era como quem diz, no carro e na bagagem preciosa. Encontraram no primeiro restaurante um lugar à janela… Nos "entretantos", camiões. A visibilidade do seu bem ocultada. Alimentaram-se o mais rápido que puderam, pagaram num fósforo e num fósforo chegaram ao estacionamento…
“Era aqui, Albino, era aqui… aqui onde está vazio……….nãooooooooooo... nãooooooooo"
A incredulidade, o espanto, o pasmo  desmesurado recortado nos rostos de ambos. O olhar ao redor, a busca. Nãoooooooooooo, não pode ser,
Sem reacção, e, por fim, realizando o sucedido,  ele, atónito,
           “...querida…valha-nos Deus… mudaram-nos a casa, o carro - e, baixo, muito baixo, para que nem o asfalto ouvisse, completou -  ...querida, acho que nos levaram também, a mãezinha …” 
...

                                   Vista de longe, a península menor, apensa à outra de que todos sabiam o nome, fervilhava no branco das caravanas tresmalhadas. Ovelhas de um qualquer rebanho em que o pastor adormecera … 
Fora o caso. O pastor adormecera em todos os destinos destas viagens…

            Senhor, porque não velas pelas tuas ovelhas? E logo Rosália julgou ouvir:
                                       
“o problema foram as rodas, Rosália… rodas são feitas para andar… ”. 

Estúpidos corvos marinhos que assim lhe respondiam …

domingo, 18 de julho de 2010

entrelinhas

Maria Felismina forjava o tempo por dentro dos bigodes da gata andaluza que lhe tinha chegado um dia ao colo vinda de uma vala sem água, por bondade divina.
Parida em pleno Inverno, quiçá fruto incestuoso entre
        uma nuvem carregada e um qualquer chuvisco ácido,
vira, com escassos dias, a vida por um fio. A atestar o risco, ficara-lhe o rabo prensado contra os entulhos que o mar, na maré-cheia, empurrava borda fora, junto com os moliços, ou como a  montante dali diziam,  no emaranho d’ enredos, teias de aranhiços e sargaço.

Ao mar o que era do mar, a terra o que era de terra. Ruvisca, assim se viria a chamar, era da terra. E,  por esta ordem de ideias, ao entulho das margens confinada - haveria  de ser sempre,  entre a chegada e a partida, um risco delgado acossado à  fímbria crua das miragens.

Viu-a. Tremelicava.  Olharam-se,  olhos nos olhos e, nesse preciso instante alcançaram que,  para bem de ambas, haveriam de ser, de hora em diante, ponteiros cartesianos nas deshoras que as habitava. Uma da outra, equação, metáfora, enigma ‘inda e sempre por resolver, mas que, pressentida, em comuns instintos, dava valor à vida - ambas paridas do ventre proceloso das águas, haveriam, juraram sem intitular,  de encontrar a direcção certa de medir vontades sem palavras, de se entregarem a estranhíssimas cumplicidades, para a primeira sempre improváveis, porque, dizia, detestava gatos - na memória celular, trazia de outro tempo, o mapa de quando, Jacomé Lencastre, herdeiro de graças, de títulos e de terras,  lhe aventou em cara o gato Malhaço, que,  sem como se esquivar, enrolado nas grades que a resguardava da queda, mas não do espaço, donde ele agora, coisa manhosa, lhe caia em colo, lhe demarcou,  no ímpeto  das garras a pele fina.
Genérica a memória e abstracta a distância cristalizada entre, o “tal genérico” e o “exacto-particular“: neste  havia o ponto, o azimute,  aquele que distinguia o assunto, límpido, sereno, dando razão ao que,  peremptoriamente, reafirmava:  não gostava de gatos. 
E não se desdizia, quando, aos sete-ventos tal afirmava ,e logo,  sem tirar um milímetro ao anterior, destacava em ênfase, sempre sorrindo:
Mas não de gata aquela, a que, por razões que a razão ignora, se roçava no seu olhar a cada noite madrugada, nessas vésperas tardias de retorno à inocência das coisas, ao sonho pontiagudo capaz de lhe coalhar as mágoas ainda  acesas, lanternas, candeias de  luz, ou, naquelas em que as pálpebras teimavam em gerar cloretos de sódios que, rapidamente, como as unhas emporcalhadas dos gaviões de outra história, voavam planuras sobre a canícula das Lezírias
e  feriam
e geravam,
no felpo manso da vida,  potássios. E ela, Ruvisca (e só ela) meigamente, lhe subia a cadeira, lhe trepava o ombro, lhe minorava o tempo já aguado, a acariciava como ninguém, e, como ninguém, aninhada em si, lhe respeitava a verborreia e os silêncios.

   - assim lhe contou, ditando, para que escrevesse -,

mas também de como, numa dessas noite, lhe jurou ter visto o modo inoperante, desavisado,  do burgesso que vivia a portas meias, adamado com Vitória… E do modo como vestia a pele de Jacomé Lencastre,

   - mentes, Ruvisca, não sabes nem um nico dessa história,

e a outra, de olhos turquesa, de novo roçando a pele na pele e o mar em baixo, lhe segredava de como havia visto, também, e  repetia,
o modo de Baltazar:  cuspia palavras entre dentes, enquanto palitava gengivas negras com as unhas de cotovia por nascer...
 
    - assim, lhe confidenciou, para que registasse -,

Mas também do modo como a olhava - à  Vitória, bem se vê -,  adestrada, fêmea pronta a montar, disponível à hora certa - comia-lhe as entranhas sem lhe sentir o veludo do olhar,  e de como ela se desacostumara, porque sim,  a pronunciar afectos. A bem dizer, da sua boca onde os dentes ainda eram pérolas de um colar completo, apenas lhe saíam, direccionadas à “preta” preciosidades de quilate terno - donde viera, que não se lembrava, mas que importância tinha? E de novo, impulsionava a voz, confidenciava e logo, peremptória, sublinhava para que se duvidas houvesse da sua seriedade: Só a  ela se afeiçoara. A quem? Ora…No mais, vestira o colete do recato de quem, a dar mimo, prefere o arranhado de felinos a texturas travestidas,  camaleão em posse …

Nas entrelinhas metálicas do dia que tombava apenas ele na hora certa -  redondo, metálico, na linha antiga  em desuso,  relógio de estação.  Uma gare de província, onde só passava, rápido, o vento…

Metálico também, abriu-o (vivia apaixonada pelo mecanismo). Tacteou as teclas. Uma bola mundo girava em convulsão; tacteou de novo. Nada a saber: o Sol, que não se regulava pelas suas emoções, era criança que, sentada ao lado – no lado esquerdo de si – teimava em não fazer chegar a merenda à paragem devida, qual aquela que, a descontento da jovem mãe, insistia em ocupar a espera com palavras a galope – a idade dos porquês… Castelos, príncipes e princesas em dorso de cavalos - estórias  a ponto-livre  por onde desembocava o que retivera de mais um dia num qualquer jardim improvável de proximidade. Diziam-lhe que era uma fábrica.
E ao lado, via-a,  uma espécie de fim de linha. De produtos descontinuados, sem préstimo. Insistia que a ser, seria, uma fábrica de fabricar afectos. Ou não?
Ela nem queria saber. Era um lugar de fazer o tempo correr, vazio. Entre a linha-férrea e o rio que a fascinava. Um dia, tão certo quanto o sol nascer a norte de si,  haveria de tomar assento no bucho da carruagem que, anunciada ao microfone, não parava nunca  ao ritmo reticulado de vontades – Inter-cidades, levava o sonho a outras paragens. E os sorrisos…

Maria Felismina, Ruvisca para os amigos - forjava o tempo por dentro do sorriso felino de mulher.



quarta-feira, 7 de julho de 2010

"eu ABRAÇO .... eles ABRAÇO" ... e você???

Em época de limpezas gerais nas nossas habitações, regra geral encontramos mil e uma "inutilidades", gavetas a abarrotar de "isto e mais aquilo" que, por sentimento de posse, e, convenhamos, algum comodismo, vamos encafuando para os fundos - longe dos olhos, longe do coração...

Bom, talvez seja a hora de, para além de nos expormos ao sol de verão, dar luz a quem dela, mais que nós, necessita. Falo de uma Campanha que conta com o total apoio dos CTT's . Este  apoio visa encaminhar, a custo zero,  os bens por nós recolhidos e que, se para nós são "inutilidades", para muitos são a luz ao fundo do túnel. São dezenas as Instituições que recebem e agradecem.  

A Lista está disponível em qualquer posto de CTT. A que me despertou mais atenção e à qual me associei de imediato, recolhendo em minha casa, no escritório (meu e de amigos), os chamados "cabos eléctricos disfuncionais"  de  impressoras, fax,  computadores, etc., etc... foi a ABRAÇO.


Por um cabo, abracei esta causa. E você? Sei que a abraçará também. Bem-haja.  

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Além daquilo que [nos] faz chorar



Além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com que 
os soldados se lancem para a frente e percam a vida 
à luz do sol: que será, Bill?

(Carl Sandburg)


Morriam lado a lado como peixes podres com os olhos esbugalhados ao ridículo da questão. Por vezes, quando o Inverno lavrava leivas desapegas na argila lisa, improperando os terrenos à caminhada, impondo tempos de pousio em vésperas de cultivo das novidades, quando o frio antecipava a morte e lhes impregnava a pele no mofo de pregas vincadas - "féleo jugo" de ser pó e ao pó voltar -, davam-se conta, ainda que de forma ténue e nunca verbalizada, de que, dia a dia, esmoreciam de vontades e de futuros em afasias e extemporaneidades. Aí os dedos aproximavam-se aos gestos.

Mas não havia liturgias nem salmos nem oráculos divinos. Tudo era, à luz negrejada pela noite lá fora (e dentro de cada um) uma espécie de função utilitária onde só os corpos fermentavam em leveduras requentadas; os olhares, de baços já não se nutriam de palavras e, dia a dia, morriam. No canto espúrio dos olhos dela, por vezes havia ainda uma luz, centelha fortíssima à força de pedra. Jade onde as lágrimas resilientes nascidas algures numa nascente de serra se retalhavam antes de tombarem largas a eviscerarem, iguais às chuvas torrenciais, o tecido do rosto. No canto espúrio dos olhos dele, no modo inverso, parecia já não haver espaço a manietações gravíticas, inquietações, desideratos sódios ou sequer projectos adocicados.

Em tangência virtual, vendiam-se ao tempo que passa, por dois reis de sobrevivência. Em litologias de anjos barrocos e olhares de peixes mortos.

Dela ainda a esperança de ser Fénix. Além do que fazia chorar os peixes. Vertebrados. 

terça-feira, 15 de junho de 2010

... que chegue rápida.



Na tarde dos olhos dela, os deles. Laços serenos entre
o inox do púcaro,
as bolachas
de água e sal e o guardanapo de papel. Amarelo, Sol …
Um  compromisso com os afectos, apenas.
Sobre a mesa, a espaços no colo, as mãos inquietas, sôfregas de dias novos - pensou. Ou talvez não…
Atirou a primeira acha, rezou que a fogueira pegasse, que as chispas colorissem desmedidas em arco-íris o cinza das paredes, desejou que, pelo menos, se não o profundo da dor, então o sal das lágrimas superficiais de suas vidas, se ustulasse, momentâneo.
Atirou o barro à parede,  assim como quem não quer a coisa. Artesã de lama e fogo,
queria construir um castelo - Almourol no Tejo de suas vidas- tinha medo das ameias, do óleo quente em tempo de guerra, dos fossos da distância (e do escuro) - tinha medo das perdas - onde
os leões, do que se recordava, não defendiam as princesas
“a menina dança???
mas haviam as crenças, as Ordens dos Templários. Divagava em fímbrias margens de aluvião - abraços de Zêzere, dela, vinda, de lá. 

Outras falas,
vozes que o infinito já consumira:
“traga-me uns panitos, umas toalhinhas de chá, umas linhas, uma farpa: faço-lhe as rendas…só quero estar entretida. Entediam-me os dias grandes…Saudades, menina, do meu poiso. Do poial da porta, da pedra  onde m' assentava a arrefecer as ancas achatadas das bilhas. Traga-me uns panitos, que lhos faço  de gosto."
O lugar vazio, memórias …

Ou quando, ela, em desafinação, afinada no diapasão das emoções, se atrevia e lhe trauteava, na rama do olhar, entre a carne que cortava, e o babete que se escapulia no chão, por artes "mágicas", em resposta a um
"ao que um homem chega ... babetes..."
ah ... caiu .... azaretes, meu amigo (sorriam, jogo dúplice ...); fica sem ele ... e logo:
escute-me, veja lá se ganho o festival da canção:
Grilo, grilinho, bichicho da seda … bebemos água? … não tem sede? ... tem de ter … a água faz bem à pele … Grilo, grilinho…
E ele, sorrisos escancarado à lembrança - o seu nome “Grilo“, o seu espaço,
chegou a conhecer a minha horta, menina? Tinha lá de tudo, da batata ao feijão verde, não faltava nada… um mimo, um mimo. Nunca mais lá fui, ainda existe, o meu filho há-de ter deixado secar tudo… Existe, com viço, menina?
O olhar em súplica…
Que sim. Abanava a cabeça, afirmativa, mas não sabia, não tinha sequer pálida ideia … iludia a  viagem na viagem que, adivinhava, franca e breve…
    O sofá vazio, a bilha, a horta, as pontilhas de renda, as farpas na lembrança, o ancinho, a água por dentro dela a abrir caminho, 

Um gole de café e a acha, na fogueira da amizade partilhada, despojada de si, 
na prosa retomada,

...E se, assim de repente, eu fosse, digamos, por exemplo, mágica? uma fada, e vos pudesse realizar uma vontade antiga, um anseio, que me pediriam?
Inquinado nas mãos, o espanto, e estas - mãos enroladas, aos pares, contorcionistas em regressos impossíveis, uma sobre a outra  - tão trémulas, 

Sem pausas, uma nova acha sem rodeios,  fogueira rosa pálida e  logo de todas as cores,
...Um só, um só desejo… vai uma bolachinha senhor Válter? Não? … pois faz mal, estaríamos todos - e não só eu, - numa "gulodice interminável". Estas são boas,  sabe,  não perturbam os "diabretes"... Não vai? Bem  assim  sou só eu de boca cheia… e, de boca cheia,  terão de ser os meus amigos a falar …
Coma menina que está magrinha… quase que nem a conheci quando entrou,
Ora, ora, Senhor Válter, nem menina, nem magrinha… temos de ir de novo ver a graduação dos óculos… devem estar desfocados, meu amigo, para além de que está a ser muito benevolente comigo, que menina? Já fui, sim, mas isso foi no século passado… há bués...
...parece a minha bisneta a falar... O riso na tarde dos seus olhos, iluminados na teia familiar, ausente e ela, na  canção que, por vezes, bisneta, neta, ou "nada",  amigos lhe trauteavam   
“A... dos olhos doces…gostava que fosses da cor do limão …”  
Premunição? Por certo.
Seria, no que da sua força dependesse, em mil cores: verde,  amarelo, arco-íris ...assim se desejava representada àqueles a quem se dava. Em sonhos de tardes partilhadas ungida
nas  lágrimas de Válter Saudade. Tardava a resposta. Voltou atrás, reformulou. Pegou nos sorrisos de antes e, subtilmente, insistiu,
...Imaginemos - é um jogo, não mais que isso  - quem dera eu fosse fada, ai é que haveriam de me ver de vassoura a viajar por  essa Lezíria; eu que nem gosto de conduzir,não teria tempo para respirar. Uma poupança só, viajante ecológica….
Risos francos, serenos… Válter repetia: De vassoura, a menina de vassoura …. ehhh, gostava de a ver...
Fernando anuía: A menina de vassoura, haveria de ter que ver, sim senhor, sim senhor; até o Diacho se ria...
Não me façam rir, amigos, que me engasgo … as bolachas são muito espessas para as minhas “goelas de passarinho” … 
E diz que não tenho razão: nem consegue comer, tal não vai a magreza, menina. Ora não será melhor uma açorda de unto? De unto basto! Para escorregar ...
Riam juntos. Ela retomava o ponto, o fio da meada:  - imaginemos então, juntos que, por artes mágicas,  posso realizar um sonho, um sonho antigo… ir ver um teatro, ir à revista, aos  toiros, às esperas do Colete Encarnado, à sardinha assada… andar na montanha russa, ir a uma coutada em Espanha, para uma porta (o meu pai delirava…)
Valha-me Deus, menina, com respeito da palavra, mas vocemessê variou? variou da tolinha? tenho lá pernas para tais caçadas e touradas? … daqui ninguém me tira, e vontades, confesso, só que ela chegue … e que venha depressa que se faz tarde…
Cruzes, credo, Senhor Válter. Bem vejo que faço aqui muita falta… então isso são conversas para nós? Eu aqui, e o senhor a falar-me que  quer que "ela "chegue? Vou ter ciúmes, meu amigo, então existe outra fada e eu não sabia? …
Um sorriso rasgado à renúncia da vida, um toque na mão que sustém o púcaro, um afago tímido no cabelo,
Benzá Deus, Benzá Deus  … só a menina para me fazer rir hoje. Estou desgostoso com a vida, menina,  é o que é, cansado,  quando a minha Micas se foi  havia  Deus me de ter levado – sem a companheira um homem coxeia, compreende? Deus podia ter trocado, levava-me adiante que eu alumiava-lhe o caminho e havia de estar lá para a receber como no dia em que a tomei ao pai, no sacramento do altar…Era tão linda a minha Micas…
...conhecia-a? Ainda chegou às falas com ela, menina?
Claro que sim, Senhor Válter, claro que sim. Conhecia a D. Micas, era uma senhora delicada, linda  …
Linda menina? Mas havia lá mulher mais linda que a minha Micas? Era a luz dos meus olhos, o calor do meu coração. Uma fada, menina? … uma fada, a minha Micas.
Por isso lhe digo: desejos? Só que ela chegue. E que venha depressa, que chegue rápida, as saudades são maiores a cada hora ..  Um homem não suporta …
Não estava mais. Os olhos além dos vidros, longínquos,  na proximidade dos dela…
Insistiu, ainda, baixinho
...mas aqui existe amizade, companhia, e, se me deixasse, poderia haver … magia...
Não não … não me apoquente com isso, beba o seu café que s’arrefenta…beba. Beba!

    Irredutível. .... a chegada dela, quanto mais  breve, melhor.

Era Inverno. Outro o espaço, outro o tempo.Coalhadas de memória, em que se azedava por dentro... Realidades outras. Absolutas, realistas, 
        os passos apressados, miúdos, trémulos, a ecoar no silêncio de pós almoço. Pé-ante-pé, entre a sala e o quarto, invariavelmente trancado. Naquele dia, por um qualquer esquecimento, distracção, aberto. Um saco de plástico escondido algures e meia dúzia de pertences dentro.
A premunição de novo...
  
         Sem parte de um braço, com dificuldades acrescidas no exercício de rotinas triviais,  e não obstante, quando a companheira de mesa, no seu dizer, “cismou de não comer”, tomou sua a tarefa de a alimentar. Titubeante, oscilava a colher entre o coto e o peito, enquanto, num sorriso doce, rebuscado ao fosso dos leões, num bailado de garças em pontas,
    D. Eunice, tem de se alimentar, ora vamos lá a ver… eu ajudo. Outra, outra mais, minha senhora, abra a boca…
    Ela partiu. Modista de profissão foi fazer mantos para os anjos no céu ,e ele, que encomendara um vagão cheio de fardos de fazendas de primeira fiação, para que ela pudesse fazer o gosto ao dedo em recriação de figurinos franceses, que ele mesmo haveria de mandar vir pela mala-posta,  viu-se mais solitário que a própria solidão. Morrera? Também ela? Então não o ouvira? Tinha de ter comido, tinha que ter feito um esforço - era no lar a sua companhia, a amiga do seu peito - que por esta não esperava, 
       
       Sem sentido, 

O que se passa, meu amigo? Onde vai com esse saco?... Venha comigo, por favor,… chove lá fora…
O soluço roto da garganta, a alma em sangue. A mentira piedosa. A porta de saída fechada à chave: daqui ninguém saí, uma grande responsabilidade.
Dias, meses, anos. Às vezes, escassas vezes,  ao jardim das traseiras – tem Alzeimer; não temos autorização. Dias  santos e feriados, Natais e Carnavais. Iguais como gotas de um lago inquinado. O sofá da sala – aquele e nenhum mais. O quarto, apenas aberto para a noite. O acesso vedado a tudo, agora até ao prato da sua companheira de missão. Esvaziado de propósitos, 
o lugar vazio. Até que chegue um novo residente…
                             Para mim chega!!!
Menina, por quem mais ama, deixe-me sair daqui … quero voltar à minha casa, apanho o táxi, o autocarro … se ligar para o meu estabelecimento o meu moço de recados vem cá a despacho.
Autocarros? …Não passa aqui nenhum, Senhor Vicente …
Passa sim, menina, na Estrada Principal. Não me minta… Deixe-me ir embora,  não quero ficar, um homem tem dignidade…
“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.”

Conheço esse poema, Sr. Vicente… Álvaro de Campos…não sabia que gostava de poesia.
Fernando Pessoa, esclarece. Fernando Pessoa,
... e as senhoras sabem alguma coisa de mim? Diga lá...
O soluço recortado em dor,  incompreensão de quem, aprisionado, ainda sabe o cheiro das olaias em flor – era nas Olaias o meu armazém. Quem toma conta dele agora? Tenho de ir, menina, mandei vir as fazendas do Norte, chegam a Santa Apolónia por certo amanhã. De Lisboa, sou quem tem a melhor colecção …

Repetia,
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça...

O seu irmão toma conta, Senhor Vicente…
Não pode ser, menina, não lhe dei delegação … Deixe-me ir, pela luz dos meus olhos, lhe digo
      fui sempre um bom pai, um bom chefe de família, temente a Deus e um bom cidadão…
… porque me fizeram prisioneiro aqui?... porquê, porquê? Sinto que, daqui, só num caixão…Menina, menina, tenha compaixão de mim…
...
Senhor Vicente…Eu sei. Sei que é um homem de bem. Por quem é, não sofra assim, abrace-me, e deixe que o abrace... não tenha pejo. Chore se desejar, não se inquiete mais. Um homem também chora, chora porque é Homem.
peço-lhe, por favor, peço-lhe... faça-me um favor: fique comigo, Senhor Vicente; sei que não sou sua filha, mas podemos fazer de conta que sou… não tenho pai... faz-me companhia eu faço-lhe a  si…  vamos para a sala, estão lá os outros, a esta hora já inquietos com estas nossas falas, aqui, como dizem “prantados” a ganhar raízes no corredor… todos gostam de si. Eu gosto muito e sei que também gosta de mim, 

Abrupto, quase grito,

Não, não, não quero gostar… nem de si, nem de mais ninguém.… um dia vai embora. 
Não quero gostar de mais ninguém… quero só, 
quero apenas,
que chegue rápida… que chegue rápida… rápida....

     No junco dos destroços, a visão. Que chegue rápida.  Derradeira hora
 ...

Os lugares vazios, as memórias: 
               Uma mulher, uma técnica,  não chora ... Ou chora? ...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Espessa madrugada.



Não tinha mapas enológicos mas sabia de cada cepa a sua uva. Conhecia-lhes a casta pelo olfacto anterior às parras e ao bagar dos  frutos. Do pedúnculo, sabia as farpas, que se enastravam na lenha do tronco. Quando por ali passava, não raras vezes, se entretinha em prosas estranhas. Com as cepas, bem se diga. Certa amanhã, uma delas confessou-lhe um segredo: desejava ir ver o mar. Dali de onde se plantara, só o rio serpenteava as margens. Prometeu-lhe que um dia a havia de levar. Não era mulher de faltar ao prometido.

No entretanto, futurou-se: do suco, adivinhava o mosto, a bica aberta, o doce que haveria de fazer quando em fermentação lhe botasse dentro nozes, frutas passas e avelãs.  Depois, não se pouparia a esforços, haveria de enovelar  o preparado à força de seus braços, lentamente, por horas a fio, até que ponto se desse por certo na ressonância borbulhada do carpo e da calda. O cheiro vitivinícola já lhe embargava a fala, só de o imaginar, tomando-lhe todos os seus espaços.

Em levitação de espera e nos últimos tempos, enquanto não era tempo das colheitas, tinha-se dedicado à arte estranha de porfiar silêncios, que cultivava. Tornara-se nómada, recordando  Leibnitz, mais alma que matéria, substanciando-se simples, campesina, impenetrável a quanto neste mundo existe de ostentatório e, de alguma forma, distante e  incorruptível. Dizia-lhe muitas vezes, quando a acompanhava,  que apenas  se sujeitava a evoluções, nem sempre satisfatórias, de desenvolvimento  intelectual…

Na sombra das videiras sem luz - como as palavras -, antes, quando alvorava, ainda o galo não cantava,  tomava-se de forças em tina enferrujada, água em que se desenxovalhava, e, como quem não quer a coisa, bebia o orgulho, comia a papa rançosa por onde, formiga de asa,   voara.
Acautelada em não acordar a própria sombra, abria a porta.

Não necessitava de o chamar. Ele aparecia. Sem palavras, olhavam-se cúmplices, partilhavam memórias. Roçava-lhe a orla da saia.  Farejava-lhe o corpo da noite.
Fingia não gostar.  Olhava-o com aquele olhar de vaga-mundo que a caracterizava,  soprava o tempo por uma cana semi-oca  para que fluísse lento, amparava-se de canastra  de vime ao  lenço antigo, seguia o instinto - teria de ir em busca do sustento.  No bolsa da bata, que sempre lhe cobria sobreposta a blusa alva e a saia de barra, a tesoura de podar.

No rigor das manhãs, descalça, Verónica subia ao monte; a madrugada subida recordava o frio da noite no focinho do cão, estalactite que pingava. Em estado de semi-condensação , tangente à linha de ascensão, o sangue das cepas em  vésperas de si, no tardar da estiva, descia-lhe em reincidência, igual a ontem. 

Subia a encosta, quando, nos socalcos da serra, olhou o rio - ia largo na neblina que se transmontava.  Imaginou-se mergulhada, retornada ao umbigo do Geia. Um sorriso iluminou-lhe o rosto. Um esgar entre o que era e o que gostava de ser - no espelho das águas viu-se luminosa. Lentamente, desabotoou a bata, depois, um a um, os punhos, um a um cada botão da carcela vertical da camisa, os seios em flor arrepiaram-se - a água era uma promessa. Sentiu uma espécie de orgasmo na morte antecipada -, o colchete da saia e esta aos pés… apenas um colote de renda antigo lhe cobria a nudez; desenhou no ar o gesto de despedida sobre o nariz que, pingando em bica,  farejava o perigo…

… acordou na outra margem. Aos poucos retomou a consciência. Tacteou o corpo. Fumegava. A pele era outra. Uma pelagem parda contra a madrugada.

***


“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...