Sobre mim ...

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Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Onde só o vento conseguia ter voz...

Dava-se conta de que a vida inteira a esperara. Não que a tivesse definido na claridade madrugadora dos seus dias iniciais, ou que a tivesse adivinhado líquida nos cântaros de que bebia, mas porque, naquele lugar, em certos momentos tão deserto, onde apenas a voz do vento se fazia ouvir a par de Bach, construíra, profundo, em si, o espaço côncavo para que viesse - agora a aragem estava limpa, as roseiras dispostas aleatoriamente esperavam a poda, as laranjeiras, em carreiras lineares, carregadas de bolas de sol nascente, aguardavam a colheita das suas mãos esguias, o vinho amadurecia em silêncio aconchegado no ventre da casa, frutífero, concentrado, aromático - o seu vinho, com taninos bem marcados, subia suave, noite a dentro, inebriando-o de sonhos e sedas e brocados...
Lá fora, nas brumas do planalto, um mar de verde começava a cobrir os pés das cepas, agasalhando a terra, evitando que endurecessem, em definitivo, com as geadas.
Em certas noites de luar, um rosto de lua cheia pousava tímido na cancela. Depois subia, em espiral, a um lugar distante - a vida era, na verdade, uma espiral contínua. Acendia um cigarro, sentava-se rente à janela, na cadeira predilecta, à fala com os pirilampos, até que, exausto, adormecia. Despertavam-no o canto dos galos, os arrulhos dos pombos, o piar faminto das poedeiras. Sereno, erguia-se, olhava a cancela e, ainda lá, a lua cheia, retrato sépia, a elevar-se vagarosa. No ciclo dos dias,
dentro de si, havia o tempo inteiro. A promessa molhada de um Inverno. E o fogo. O todo. A dádiva. A certeza de que desejava sentir a leveza dos pássaros - os seus passos -, na tijoleira da entrada. Encontrar jarras floridas, o cheiro do amor plasmado nos lençóis a cada madrugada de mãos dadas com o café que ambos, aninhados como gatos, beberiam devagar. Os cães por perto. A comungar de si, sem mais.
Inquietava-se na espera. Uma inquietação de ave livre na liberdade de se acorrentar. Tardava.
Viu-a. Umas calças de ganga, uma camisola de lã. Um casaco, longo, traçado. As mãos despidas, os lábios num sorriso, o cheiro exalado das brumas de Outono - desculpe, estou ligeiramente atrasada...
Abraçou-a. Nunca antes. Nunca a tocara. De estômago a estremecer, olhou-a, lua plasmada no arco dos seus braços. Acolhia-se ao calor daquele abraço, mínima. Sentiu-a. Desejou-a sua, no movimento lento das marés, a acasalar o vento. Desejou-a, de fronte a si, na sua mesa, na sua sala, na sua cama. Desejou-a a reinar nas paredes da casa. Um mar subiu-lhe aos olhos, adolescente. Não tentou neutralizar o efeito, intuiu a causa.
Sem aviso, como se fosse a coisa mais simples, como se fosse convidá-la a sentar, disparou:
Venha viver comigo, as roseiras estão por podar ... são suas todas as rosas....


Imagem da net, retirada daqui

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

a última a morrer.

Não se recorda de mim, Doutora? Atrapalho alguma coisa?...
Apanhada assim, enquanto descia as escadas, por um número desconhecido, mentiu.
Mas que alternativas lhe restavam? Do outro lado a voz, familiar, desenhava a distância num sorriso alargado. Sentiu de imediato o carinho de alguém a quem devia, no mínimo, o reconhecimento do nome. Mas não. A memória, a sua, até então de excelente fisionomista, e não menor reconhecedora de timbres, começava a pregar-lhe repetidas partidas nos espaços brancos das tecnologias ...
Claro que sim, desculpe, estou a ouvi-la mal - respondeu a ganhar tempo.
A Caetana, a administrativa do Lar de "..." ; não me diga que não se lembra de mim, está melhor Doutora, já está de novo a trabalhar? ...estamos todos com saudades suas...
Detestou-se.
A Caetana, pois claro, como vai, minha amiga? e como estão todos, desculpe, na verdade estou a ouvi-la mal - agora melhor-, mas que bom ter ligado, que bom mesmo., Caetana, obrigada. É uma querida, obrigada. Também tenho saudades vossas, mas a vida não me tem permitido visitar-vos, agora o meu destino é o sentido inverso, o sul, mas prometo que, breve, breve, irei ai passar uma tarde convosco... Como estão os nossos idosos? Partiu algum?...
Temeu a resposta. Dizia sempre que a morte era um processo inevitável, que era, não mais que um continuar da vida, ainda que a sós, que...
e, a cada vez que formulava a pergunta, uma dor de parto antes da hora, maturava na língua e já lhe cortava as entranhas,
... pois, isso é que é pior... sim, Doutora, vários... recorda-se do Sr. Afonso, da D. Cândida, da D. Esperança?
a cada nome um rosto, uma história de vida, um sorriso, um registo
memórias suas e partilhadas, memórias que nenhuma nova história apaga.
Sr. Afonso, repetia...
Dª. Candinha ... ai, a D. Candinha ...
Dª. Esperança, a D. Esperança, quase cem anos...

... menina, sabe, fui cozinheira. E das boas. Não me negava ao aprender, do nada, que nada sabia, me fiz daquelas de detrás da orelha.
Fazia o gesto, o sorriso a acompanhar a fala, o corpo redondo cravado à cadeira de rodas, o rosto, expressivo, sem rugas, sem mácula. Os olhos um mar de bonomia.
A esperança de que um dia, num qualquer dia, alguém ainda voltasse a gabar-lhe as suas artes e ela sentisse que a vida tinha ainda um sentido. Além do sentido repetido, nos dias iguais e sucessivos.
Os seus pratos: o seu arroz de sarrabulho, o do dia da matança, o coelho à caçador, o borrego de meia-cria ao sabor da hortelã, as enguias de rio em cama de pimentos marrones, o arroz de tomate com sementes de pimentão, o arroz-doce de casamento, com flor de laranjeira, o doce de dióspiros com abóbora, o puré de castanhas,

... dou-lhe as receitas, quer?... noutros tempos não lhas daria, eram segredo meu... mas agora até lhas dou. anote ai, no seu caderninho: arroz de sarrabulho, escreva ...
fiz tantos banquetes de casamento, menina, os dos filhos dos meus senhores e os dos filhos doa amigos deles, quando me pediam de empréstimo aos senhores (umas santas almas que já lá estão, na terra de Jericó...) e eles, os meus senhores, me cediam por uma semana a fio. Tudo passava por estas mãos...
Mostrava-as, alvas como o trigo, generosas como ela. As palmas viradas aos olhos de quem as quisesse olhar...
... estas, que na água lavava, constante - o asseio é muito bonito, sabe?
Franzia o sobrolho, olhava em torno de si, media o interesse à prosa e, vendo na cabeça dos demais o menear constante, afirmativo, prosseguia:
... tudo passava por estas mãos. Estas que a terra um dia há-de comer...
Logo, num sorriso maior
... mas tem de esperar, a terra tem que esperar, menina. Tem de esperar, porque
a Esperança é a última a morrer...

...
Pela tarde adiante, nas muitas tardes partilhadas - uma adivinha, um adágio, uma cantoria-, por não raras vezes, se repetia. E todos riam salivando a vontade de provar os manjares da D. Esperança.
Se não os fizer aqui, vou fazê-los lá em cima. E sento-os todos comigo à mesa... E nem me diga, a menina Doutora que fazem mal ao Colistrroleee... Nem ao diabretes,
Diabetes, D. Esperança, corrigia, a Senhora sabe que tem que os controlar, senão sobem...
E eu desço-os. Com chá de São Roberto, ora... Ou de alho, que é bom também... enquanto há vida há esperança...
E ria, riamos todos,
Do chá, dos diabetes
... na esperança de que, a esperança fosse sempre, em cada um, a última a morrer...

Caetana, do outro lado, prosseguia: E há ainda o Senhor Maldonado, recorda-se, Doutora? Aquele senhor que sofria de gangrena a quem nós íamos fazer assistência domiciliária... É do seu tempo? ...
...
Esperança... Sempre.


Imagem da net

domingo, 19 de setembro de 2010

...e das sombras se fez luz!

 "durante a Primavera inteira aprendo 
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto 
correr do espaço - e penso que vou dizer algo cheio de razão, 
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam,

um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária."... (Herberto Helder)
.


Poderia falar-te da extemporaneidade  dos afectos, do insolvente resíduo dos silicatos que me mofam os  olhos bolorentos. Poderia falar-te de poemas que invento para que, as palavras germinadas num lugar de mim, desabitada, não me subam como pássaros sem asas a garganta, e me corroam, sem mitigação de si, as silenciosas cordas vocais.
Poderia  ter apostado na afasia; na dialética sempre dúbia dos silêncios;
Poderia falar-te como lhe falei há pouco, da importância da pedra, da calçada portuguesa e, para que ninguém delapide o património cultural, da via romana em lages de terço,  que só eu sei onde, atravessa o horizontal chão que é meu assento. E de que faço residual a eternidade de um momento 
se, "numa eternidade se demorava a pele", do que me lembro...
Sabes, nos sons subtis do vento, nem as amoras moram já, nem a bruma se desvanece no caudal do verbo inconcludente - é sempre noite, na casa do verbo.
Poderia falar-te ainda desta tendinite aguda que, de tantas horas aqui em posição imprópria me faz exausta 
com ímpetos de, contra mim mesma, deferir golpes de espadachim em escarpa
             (e ser apenas lua plasmada nos campos de trigo  sem fazer, em rigor, nada.)

Por vezes adormeço; sonho que semeio girassol na enseada, outras que, entre frinchas de calçada; que me tomas pedra, que sou ave e subo vertical
até à nascente do teu magma, 
que solto infinitos siderais
que mergulhamos juntos as ogivas do silêncio 
e que um arco-íris perfura o tempo
e teço e cirzo 
pontas de laços entre 
o que não existe e que invento em silviculturas sagradas. E  a brida por sobre os ramos  se apascenta sereníssima nas colinas dos meus seios, e o andar da invernia vagueia-me  na curvatura das ancas, e tudo é equilíbrio momentâneo em ponta de faca...
Ou quase tudo,
que,  na hora que rebentam de meus olhos as marés e que o azul recobre o tecido moribundo da areia do Molhe Leste, inesperadamente, acordo.
                        E não sei mais falar de pontes nem destinos; não sei de dunas nem de levante de pássaros. Apenas sou processo reconstrutivo de várzeas   num gesto íngreme de quem do peito expele a mais líquida inocência. E deixo que as areias me enrolem e façam de mim -  pernas, coxas, clavículas, braços e tendões-,  redes utilitárias de pescadores,  quais as que vislumbro rotas e expostas  nos joelhos das varinas a que me junto no cais de embarque  para  que me ensinem a sublimar o vácuo 
na espera de que o sal transborde  e desagúes de  mim,  ritualizado, sabendo da fragilidade em definir o inaudito,  num turbilhão de ciclos sem marés de chegada.
 
                       Olhando a ilha que vejo agora, clara forma, quilha invertida nos mouchões do Mar da Palha, vejo uma flor que resiste. Antroposófica, chego-lhe à fala:  ela, a tal flor, assevera ser verídica a evidência; que nem duvida: jura  ver, no barco negro da tal quilha invertida, proficiência,  barca de alva, luminescência   

...e das sombras se faz luz! Um girassol na calçada e a vida, pé-ante-pé, ousa que passa.

 **
Foto da autora

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"Querida, ... mudaram-nos a casa"


Vista de longe, a península menor, apensa à outra de que todos sabiam o nome, fervilhava no branco das caravanas tresmalhadas. Ovelhas de um qualquer rebanho em que o pastor adormecera, e, sedentas da maresia, não hesitaram em se pespegarem contra a flora rasteira de armárias que emoldurava a escarpa, abocanhando o horizonte, namorando à descarada o faroleiro que, quando a noite se acoitava para lá do horizonte, em miríades e promessas de luas novas,  se entretinha a enviar-lhes uma espécie de mensagem - código morse, quiçá -  com sinais de luzes estanhadas, contundentes, que as revelava lá. Ali, no dedo peninsular da península, a indicar a Constelação das Três Marias - Orion, o cinturão de Orion, que, segundo a Bíblia, apenas Deus ,e só ele, tem poder de desatar… Para os populares era sem dúvida a provocação. Um dedo a “apontar” Orion? E as verrugas? À falta delas, a comprovar a teoria, sazonais, elas, as tais ovelhas tresmalhadas de que vos fala o narrador.
Quando a nevoaça se anunciava na buza fanfarrónica e estridente,  quase que se evadiam, como se Sebastianinas se tornassem. Mas ela, aprendiza de alquimias e leituras celtas em tábuas de marés,  sabia-as lá, esconsas, dissimuladas, sempre sem data de chegada ou de partida. Sabia-as cortantes à linha de cabotagem quando, pela manhã madrugada, se abeirava da ombreira metálica da janela a farejar o vento,  determinada a enfrentar a nortada. 

Era assim todos os dias. Rosália  trocava o vale de lençóis pelas dunas, trocava a tepidez mansa do lar por um vai-e-vem de velas e cascos, pelos contornos  imaginados das vagas e das  dunas... 

Nómada, naquele dia, como em tantos,  veio-lhe à memória de quando, tal como eles, imaginara iludir a canga das horas marcadas pelos ponteiros rítmicos da cintura industrial, por dinâmicas de liberdade. Haveria um dia de ser livre, dar a volta ao mundo…
Sobre rotas, de casa às costas.
Tão distante o propósito e a mais distante a vontade. A viagem, essa, fazia-se no pleno, sendo outra, muito mais lata que a imaginara, inter-galáctica… Tudo estava, tudo começava e acabava, nela própria. Era “princípio e fim de todas as coisas”, acreditava. E, porque assim, se aventurava.

Naquele dia, como nos anteriores, não as viu de imediato. Mas sabia-as lá, brancas, luzidias, chibas de serranias, em conversas improváveis com corvos marinhos,
Parecia ouvi-las:
Não há quotidiano nem miragem, tudo se esfuma, tudo passa, tudo se esvai, nos ralos invictos da memória, se não se escreve, se não se tecem fios, se, nos dedos abertos, nas falanges e falangetas,  os bilros não rendilham teias, pastilhas, pontos finos - motricidades finas, diria Rosália -  e cadeias de afagos e afectos, e se, dos degraus da escarpa se não faz, a pulso, no cuspo das mãos - lenhadores antigos -  a tábua rasa. Se não se ousa o mergulho em apneia, se … diziam, 
              enquanto ela, Rosália, jurava ouvir  vozes de escárnio, despautérios inverosímeis de  dúvida e espanto, sobre a sanidade mental de quem se detinha, horas e horas  à escuta,  diálogos inolvidáveis de  búzios à conversa com gambuzinos…  Reorganizava a história
e,
                 assim, sem mais, de si a si,
contava:
Eram três, o Moisés, o Zé, o Albino… Todos alinhados como elas. A princípios e futuros e tácitas de quadrado.   Em comum a vontade de ser  o mundo, a sua casa… de fibra, de oleado, de pano fino? Pouco ou quase nada importava.  Uma casa com rodas ou levada em rodas....
O sonho, esse, faria do Verão de 1983 um ano de célebre memória. Na lembrança dos acautelados e dos afoitos. Vamos a factos: 
Achados os mapas, começaram preparativos. A partida anunciada de um qualquer ponto proximal de acesso ao Auto-estrada: A1, rumo ao Sudoeste,  à Costa Vicentina…
A1 ao Sul, ao mais Sul que possível fosse - dentro da pátria, que por cá há muita praia, ó camaradas, 
A1 ao Norte…. E neste último, Melgaço, Valença, Gerês,  praias e serras…  quinze dias a sós, eles,  os dois, ainda sem filhos (não lhes dera Deus tal ventura, não porque ele não se esforçasse...)
“....uma espécie de lua-de-mel  - dizia à boca cheia Albino, para quem o ouvir quisesse -  até a barraca abana, ó pessoal, aquilo é que vai ser, sem limalhas nos olhos e sem cheiro ferro na pele, a minha Ilda quando voltar há-de ir de joelhos pedir à Santa da Boa Viagem, lá em Peniche,  o milagre de repetir para o ano…”.

Na sua pacatez, Mestre José, Zézinho para amigos, começara a obra a que chamaria de “sua menina“, longe ia o tempo,  sem pedir meças a forças,  nem equacionar enganos admissíveis.
Começara então  a preparar “A Viagem” em 1973; certo é que o vinte cinco de Abril lhe alterou os planos. Os camaradas solicitavam os seus saberes, e ele, homem de poucas falas e de desmedidas capacidades, lá dia desenhando, montando e soldando, para uns e outros, atrelados e reboques, portões e portadas, e, da sua "casa de fibra, uma roulotte ao melhor estilo, um orgulho para a classe operária, camaradas”,  a data de se fazer à estrada era, por esta via, democrática adiada sine dia …"É para o ano… "
             ...só não dizia qual.
e, orgulhoso, arrematava,  "um homem não pode pôr-se de franquelos se faz falta a outro, e é o caso…  "

Pai de uma filha moçoila e casadoira, marido extremoso, a ambas prometia que, naquele ano - e nem um mais -, daria por terminada a obra e, os três, na santa graça de Deus, se fariam à estrada, para umas mui merecidas férias. E, claro, desta vez, a Manta Rota não os veria chegar no seu Carocha apenas. E muito menos os veria  armar a barraca de pano - tenda, bem entendido -, ruça de tanto sol, mais ruça que a mula da cooperativa … E, noite adiante, depois de partilhada a janta, ao serão, riam, entre si, antevendo a chegada apoteótica do Carocha com um rabinho de ferro, uma espécie de “pompom” - a bola de engate- , onde a sua obra, construída de raiz, peça a peça, por si, decorada pelas mãos de fada da sua esposa, reluzida nas tranças da filha de formas generosas, haveria de cruzar a Recepção do Parque.
...Vais pagar Parque, ó pá? A malta faz campismo selvagem …
Campismo selvagem? Ó camaradas, acham que sim? E eu deixaria a minha “menina” abandonada na beira da estrada e ia a banhos? Ora, isso está fora de propósito, nem tal me ocorre, sequer à Beatriz, minha esposa…

Por essa altura, Moisés, entre uma medida de tensão e uma pesagem, sempre ia avançando:
        “…bom preço, a minha auto-caravana. Uns amigos deram-me uns ingressos e fui à FIL, à Nauticampo.  Coisa fina, aquilo. Comprei e vou buscá-la de véspera ali a um representante no Campo Grande. Trago-a, e, dia 1 de Agosto, madrugada cedo, não me apanham mais por cá. Hei-de chegar ao Sudoeste ainda não cantaram galos e o belo de um pequeno almoço, esse, hei-de tomá-lo, eu, a mulher e os putos (já marquei encontro com o Mestre Zé), ali para os lados da Marateca, que nesse percurso os “tascos” abrem cedinho…”

" ...dia 1, dizias, camarada? Também sigo nesse dia, mas rumo a norte. Mas a sorte não me abençoa, queres saber da alhada em que se meteu a minha Ilda? Não é que contou à minha sogra que a tenda tem dois quartos e uma sala? E não é que a velha - é boa gente e gosto dela, mas porra, não fazia falta agora -, cismou-se de que, sendo assim, mal não haveria de se fazer  à boleia e acampar com a gente, ó Moisés, isto só daquela cabeça que enviuvou no outro século. Que não empaxa, que não nos há-de pesar, que até contribui com as despesas do “gás-oil“… e, das trepas à minha  Ilda Rosa,  que posso fazer? Ora a velha… E a filha? Que eu sou um depravado, que ando sempre a fisgar o assunto, que quinze dias passam depressa, que a mãezinha é uma santa,  rija como ferro…
Portanto, amigo Moisés, dia 1, seguimos os três, rumo a Melgaço, ao Gerês, a Caminha, mas antes pela costa, pelo litoral, que são paisagens sadias e o frio há-de resfriar-me os ímpetos e as vontades … ou não..."
Riram. 
"…Albino, ora acalma-te lá,  que assim não te posso medir a tensão e ainda te finas no norte e eu é que sou culpado -  afinal sou o enfermeiro da medicina do trabalho… mas não das férias, bem se vê, ai a responsabilidade é de quem as inventou…"
Riram de novo e  Moisés,  naquela tarde,  ainda haveria de, a muitos, entre  pesagens e testes auditivos e  etc's., ir arrolando, a bom grado, e de modo exacerbado,  a capacidade e a qualidade intrínseca da sua novíssima, ainda não estreada, mas já paga a pronto, como  manda a boa educação - antes pagar e depois usar -, auto-caravana,
           “hei-de colocá-la no engate, colocar dentro, de véspera, à noitinha, todas as tralhas . De manhãzinha, madrugada, é só lavar a modos as mãos e a cara  (e as partes, homem, bem se vê …) e dar à chave. Que fosse agora e já seria tarde… Não lhe vejo a hora; de férias a esticar espias e pano, ó camarada,  a malta está farta … fartinha!!! Uma auto-caravana, tem rodas, dá-se ao botão e a casa  salta, além do que, não se fica no chão, a cama é alta…”.

O cheiro da maresia a meias com a industria conserveira, ao lado direito, aguçava a lembrança. E o espanto dos planos, dos detalhes das viagens, contadas de boca em boca. Toda a maralha o sabia e, talvez por isso,

              "…Quebranto, a malta sofreu de quebranto, mau olhado, só isso acho  que lhe dizer, camarada Jordão. Então quer que lhe conte em detalhe  ou já lhe deram fé  de como foi? Línguas de trapo, não sabem guardar recato …
Não se canse, ó amigo Zé, todos sabemos que não foi descuido. Quem mal não faz, mal não cuida, e, acautelado é você, sempre o foi. Zeloso, trabalhador,
Sou, sou sim senhor. Levava pneu sobressalente para a minha “menina”. À Marateca ainda esperei o Moisés, mas ele não me apareceu por lá, para tomarmos o mata-bicho juntos… segui em frente. Amigo não empata amigo… mas fiquei desapontado,
Mas vossemecê não sabe, amigo Zé??? Se mal pergunto,
Não sei? Sei sim senhor, não honrou a palavra, ou adormeceu e saiu já sol alto,  ou perdeu-se do destino…
Não sabe!!! Mas logo lhe conto, avance com o que lhe aconteceu, com a sua versão dos factos…
E lá existe outra? Sou homem de duas palavras? Oiça, por favor,  e não me retenha. O que aconteceu foi que, no meio da Serra, do Caldeirão,  o pneu esquerdo da minha menina não suportou e a carga começou a dar de lado…. Por um pouco não íamos, família e Carocha, agarrados à “menina” pela garganta da serra abaixo. Parámos e, a muito custo, que o material de tanto tempo em espera estava calcinado, lá substituí o pneu. Seguimos viagem e,  cruzes canhoto, não é que numa curva apertada, fui à berma e lá, parecia que colocado a propósito, um ferro retorcido, se cravou como espora, na roda dianteira, desta vez do lado direito? E como resolver agora? A localidade mais próxima, a mais de vinte quilómetros… Discutimos o assunto. Ficariam as mulheres - filha, esposa e “menina”… e eu, claro, faria a estrada.
Mas logo a minha esposa:  - Zézinho, e se te demoras? E se nos molestam, aqui, mulheres  desamparadas? E se…
Decidimos.
Ficaria a “menina” e iríamos nós…mais seguro assim… Fomos, era Domingo e nem vivalma. Nem mecânico, nem oficina, naquela aldeia. Na próxima,  por fim, a roda arranjada. Voltámos à serra,  quase noite, neblina… nevoeiro a bordejar os vultos das figueiras, das amendoeiras…
Era aqui, juro que era aqui… não, era mais à frente, naquela curva… E mais outra, e o nevoeiro a descer…
Era aqui, Beatriz. Eu sei que sim… Vou parar.
E parámos…
No chão, visíveis, os rodados. Quatro rodas, mas uma de trilho desigual, e outros trilhos, talvez de um tractor… E ela, a menina dos meus olhos?
Sumida, qual  a voz de Beatriz,
               “querido, vamos embora… mudaram-nos a casa…” …

Do Moisés? Quer contar-me agora? Adormeceu, foi isso? Ó gente fraca  …

Naquela manhã, a tal, Moisés levantou-se muito antes que o despertador tocasse e fez com que todos, esposa e crianças se levantassem num ápice. Banhos tomados de véspera, roupa aposta ao fundo das camas, um copo de leite aos meninos, que o Zézinho nos espera na Marateca para o mata-bicho, conferido o gás e a água, os estores corridos, e todos à porta da entrada do prédio recém construído, de que eram condóminos, com grossa hipoteca à Caixa… Viviam no R/C e ela, a “outra casa” a tal de rodas, ficara de focinho a cheirar-lhes a porta… “de lá de dentro, hei-de sentir-lhe o cheiro a nova, ó camaradas…”.
Saíram, pois. Um luar de Agosto iluminava claramente a Nacional 10, à beira da qual viviam… O prédio silencioso dormia o sono dos justos. Guilhermina de mãos dadas com o filho menor foi a primeira a sair a ombreira e foram dela as palavras
     “Querido…. mudaram-nos a casaaaaaaaaaa…. “

Um grito rasgou a noite. Uma a uma, todas as janelas se iluminaram emoldurando os rolos das mulheres e as cabeças desgrenhadas, carecas ou  com três pêlos, dos seus anafados maridos… Pitoresco o quadro, a  aguarela; Salvava-se o Policarpo que, Don Juan,  lutava desde novo contra a calvície  precoce ensopando o cabelo com restaurador Rolex,  mas a quem as bexigas doidas tinham feito do rosto uma montanha-russa … Salvava-se a custo, e salvavam-se eles, um casal jovem, a destoar dos demais…na beleza, mas não na "esperteza"...
 Durante dias e dias não se falou de outra coisa, fosse para onde quer que se fosse,
             “querido … mudaram-nos a casa”… O prejuízo, valha-nos Deus, coitados...
e mesmo assim, iam dizendo, entre-dentes:  “descobriram a careca do Moisés” ou seja, “falou de mais … e levaram-lhe a “casa”…
Coisa meditada, premeditada, estudada, não havia dúvida.
"... As paredes têm ouvidos, o calado vence tudo, o segredo a alma do negócio..."
Assim lhe contava Jordão. "Por ser verdade, camarada, por ser a mais pura verdade... não que o esteja a defender de lhe faltar ao encontro,
Zezinho coçava a cabeça, “Home’essa, Home’ssa…”
Irmanado na dor da perda, deixou, finalmente cair uma lágrima, “Home’essa …”

Por essa altura já Albino varrera o litoral nortenho e se adentrava à montanha. Por essa altura já engolira malgas de vinho quente na noite minhota para esquecer a promessa feita à esposa de que lhe daria, por fim, uma lua-de-mel. Afinal a culpa era dela, que, desbocada,  se fora exibir para a mãe dos cómodos que o seu Albino arranjara 
         “dois quartos, senhora minha mãe, uma sala… parece uma casa, já a vi aberta que o meu Albino a abriu na frente de nossa casa… E luz, senhora minha mãe? Parece que um girassol dorme lá dentro… e espaço? Minha mãe, cabem dois colchões de casal, pequenos bem se vê, mas cabem…” 
E o resultado o sabido: uma lua-de-mel a três, a “velha” ao lado, o desejo encolhido e os gemidos apressados quando, pela manhã, D. Gervásia ia fazer as suas necessidades. E nisso Albino era manhoso… Da casa de banho sempre distante o mais possível…
Por essa altura, nos diz o narrador, que o Gerês era “logo ali…” E, nas festas e romarias, D. Gervásia, não se negava a nada. 
Na Serra d'Arga, em Caminha, pediu  a S. João a cura para os quistos, para as verrugas, para a  infertilidade da filha … Pediu ainda, e disso não se confessou, um uma "ajudinha" para arranjar um novo casamento. Garbosos os homens do norte, Benzós Deus, pensava … Afinal ela ainda era nova, os setenta não lhe pesavam. Um pé de dança, bem comida e bem bebida, dormia que nem um anjo sem asas…

Naquela noite não foi assim. Entre vómitos e idas à, sempre longínqua, casa de banho, começou a perder forças… “não tenham cuidados, filhos, que estou bem…”.
Deitou-se. Deitaram-se, por fim. Gervásia impava, impava
      “estou bem, estou bem…
mãezinha, quer que chamemos alguém? por quem filha? Por Deus, passa… passa…Foi das rezas a S. João …, do esforço das rezas..."
O coração palpitava-lhe …
E passou. Deixaram de a ouvir. “a mãezinha sossegou…sossega também, querida… vira-te, meu anjo, vira-te para mim… não, não pode ser… chiu… filha, cansada como estava, a tua mãezinha dorme o sono dos justos… vira-te, amor…

O sol brilhava ténue …”mãezinha, mãezinha, como está a senhora, minha mãe?”…
D. Gervásia não podia responder. Direita como um fuso, com um sorriso maior que a boca, dormia  além da vida…
 Ilda assumou-se ao fecho do quarto da mãezinha. Espreitou, 
“não…, Albino, nãoooooooooo, nãooooooooo..."
Depois o silêncio, por fim, o inarrável veredicto,  
Querida, a mãezinha partiu e está feliz…
Que faremos agora? E logo ele : Levamos-la connosco, regressamos e damos-lhe o chão que é seu…
Como? Está hirta…
Ora, enrolamos-la na tenda, nos quartos, depois a mesa, as cadeiras, um volume só; …irá no tejadilho que dentro não cabe, tão-pouco.
Ela incrédula…E se chamássemos a polícia?
Pagar a um carro funerário?... Mulher e onde tens tu dinheiro?
E ela em lágrimas,
... Ilda, não faças barulho mulher…A mãezinha dorme o sono dos anjos ... Vê como sorri...

Em minutos e antes que o sol abrisse, saíram  tomaram a  A1 de regresso. Sem palavras, semblantes abatidos. O dia ia alto e o estômago não perdoava. Pararam na beira da estrada. Um olho no burro, outro no cigano, que era como quem diz, no carro e na bagagem preciosa. Encontraram no primeiro restaurante um lugar à janela… Nos "entretantos", camiões. A visibilidade do seu bem ocultada. Alimentaram-se o mais rápido que puderam, pagaram num fósforo e num fósforo chegaram ao estacionamento…
“Era aqui, Albino, era aqui… aqui onde está vazio……….nãooooooooooo... nãooooooooo"
A incredulidade, o espanto, o pasmo  desmesurado recortado nos rostos de ambos. O olhar ao redor, a busca. Nãoooooooooooo, não pode ser,
Sem reacção, e, por fim, realizando o sucedido,  ele, atónito,
           “...querida…valha-nos Deus… mudaram-nos a casa, o carro - e, baixo, muito baixo, para que nem o asfalto ouvisse, completou -  ...querida, acho que nos levaram também, a mãezinha …” 
...

                                   Vista de longe, a península menor, apensa à outra de que todos sabiam o nome, fervilhava no branco das caravanas tresmalhadas. Ovelhas de um qualquer rebanho em que o pastor adormecera … 
Fora o caso. O pastor adormecera em todos os destinos destas viagens…

            Senhor, porque não velas pelas tuas ovelhas? E logo Rosália julgou ouvir:
                                       
“o problema foram as rodas, Rosália… rodas são feitas para andar… ”. 

Estúpidos corvos marinhos que assim lhe respondiam …

domingo, 18 de julho de 2010

entrelinhas

Maria Felismina forjava o tempo por dentro dos bigodes da gata andaluza que lhe tinha chegado um dia ao colo vinda de uma vala sem água, por bondade divina.
Parida em pleno Inverno, quiçá fruto incestuoso entre
        uma nuvem carregada e um qualquer chuvisco ácido,
vira, com escassos dias, a vida por um fio. A atestar o risco, ficara-lhe o rabo prensado contra os entulhos que o mar, na maré-cheia, empurrava borda fora, junto com os moliços, ou como a  montante dali diziam,  no emaranho d’ enredos, teias de aranhiços e sargaço.

Ao mar o que era do mar, a terra o que era de terra. Ruvisca, assim se viria a chamar, era da terra. E,  por esta ordem de ideias, ao entulho das margens confinada - haveria  de ser sempre,  entre a chegada e a partida, um risco delgado acossado à  fímbria crua das miragens.

Viu-a. Tremelicava.  Olharam-se,  olhos nos olhos e, nesse preciso instante alcançaram que,  para bem de ambas, haveriam de ser, de hora em diante, ponteiros cartesianos nas deshoras que as habitava. Uma da outra, equação, metáfora, enigma ‘inda e sempre por resolver, mas que, pressentida, em comuns instintos, dava valor à vida - ambas paridas do ventre proceloso das águas, haveriam, juraram sem intitular,  de encontrar a direcção certa de medir vontades sem palavras, de se entregarem a estranhíssimas cumplicidades, para a primeira sempre improváveis, porque, dizia, detestava gatos - na memória celular, trazia de outro tempo, o mapa de quando, Jacomé Lencastre, herdeiro de graças, de títulos e de terras,  lhe aventou em cara o gato Malhaço, que,  sem como se esquivar, enrolado nas grades que a resguardava da queda, mas não do espaço, donde ele agora, coisa manhosa, lhe caia em colo, lhe demarcou,  no ímpeto  das garras a pele fina.
Genérica a memória e abstracta a distância cristalizada entre, o “tal genérico” e o “exacto-particular“: neste  havia o ponto, o azimute,  aquele que distinguia o assunto, límpido, sereno, dando razão ao que,  peremptoriamente, reafirmava:  não gostava de gatos. 
E não se desdizia, quando, aos sete-ventos tal afirmava ,e logo,  sem tirar um milímetro ao anterior, destacava em ênfase, sempre sorrindo:
Mas não de gata aquela, a que, por razões que a razão ignora, se roçava no seu olhar a cada noite madrugada, nessas vésperas tardias de retorno à inocência das coisas, ao sonho pontiagudo capaz de lhe coalhar as mágoas ainda  acesas, lanternas, candeias de  luz, ou, naquelas em que as pálpebras teimavam em gerar cloretos de sódios que, rapidamente, como as unhas emporcalhadas dos gaviões de outra história, voavam planuras sobre a canícula das Lezírias
e  feriam
e geravam,
no felpo manso da vida,  potássios. E ela, Ruvisca (e só ela) meigamente, lhe subia a cadeira, lhe trepava o ombro, lhe minorava o tempo já aguado, a acariciava como ninguém, e, como ninguém, aninhada em si, lhe respeitava a verborreia e os silêncios.

   - assim lhe contou, ditando, para que escrevesse -,

mas também de como, numa dessas noite, lhe jurou ter visto o modo inoperante, desavisado,  do burgesso que vivia a portas meias, adamado com Vitória… E do modo como vestia a pele de Jacomé Lencastre,

   - mentes, Ruvisca, não sabes nem um nico dessa história,

e a outra, de olhos turquesa, de novo roçando a pele na pele e o mar em baixo, lhe segredava de como havia visto, também, e  repetia,
o modo de Baltazar:  cuspia palavras entre dentes, enquanto palitava gengivas negras com as unhas de cotovia por nascer...
 
    - assim, lhe confidenciou, para que registasse -,

Mas também do modo como a olhava - à  Vitória, bem se vê -,  adestrada, fêmea pronta a montar, disponível à hora certa - comia-lhe as entranhas sem lhe sentir o veludo do olhar,  e de como ela se desacostumara, porque sim,  a pronunciar afectos. A bem dizer, da sua boca onde os dentes ainda eram pérolas de um colar completo, apenas lhe saíam, direccionadas à “preta” preciosidades de quilate terno - donde viera, que não se lembrava, mas que importância tinha? E de novo, impulsionava a voz, confidenciava e logo, peremptória, sublinhava para que se duvidas houvesse da sua seriedade: Só a  ela se afeiçoara. A quem? Ora…No mais, vestira o colete do recato de quem, a dar mimo, prefere o arranhado de felinos a texturas travestidas,  camaleão em posse …

Nas entrelinhas metálicas do dia que tombava apenas ele na hora certa -  redondo, metálico, na linha antiga  em desuso,  relógio de estação.  Uma gare de província, onde só passava, rápido, o vento…

Metálico também, abriu-o (vivia apaixonada pelo mecanismo). Tacteou as teclas. Uma bola mundo girava em convulsão; tacteou de novo. Nada a saber: o Sol, que não se regulava pelas suas emoções, era criança que, sentada ao lado – no lado esquerdo de si – teimava em não fazer chegar a merenda à paragem devida, qual aquela que, a descontento da jovem mãe, insistia em ocupar a espera com palavras a galope – a idade dos porquês… Castelos, príncipes e princesas em dorso de cavalos - estórias  a ponto-livre  por onde desembocava o que retivera de mais um dia num qualquer jardim improvável de proximidade. Diziam-lhe que era uma fábrica.
E ao lado, via-a,  uma espécie de fim de linha. De produtos descontinuados, sem préstimo. Insistia que a ser, seria, uma fábrica de fabricar afectos. Ou não?
Ela nem queria saber. Era um lugar de fazer o tempo correr, vazio. Entre a linha-férrea e o rio que a fascinava. Um dia, tão certo quanto o sol nascer a norte de si,  haveria de tomar assento no bucho da carruagem que, anunciada ao microfone, não parava nunca  ao ritmo reticulado de vontades – Inter-cidades, levava o sonho a outras paragens. E os sorrisos…

Maria Felismina, Ruvisca para os amigos - forjava o tempo por dentro do sorriso felino de mulher.



quarta-feira, 7 de julho de 2010

"eu ABRAÇO .... eles ABRAÇO" ... e você???

Em época de limpezas gerais nas nossas habitações, regra geral encontramos mil e uma "inutilidades", gavetas a abarrotar de "isto e mais aquilo" que, por sentimento de posse, e, convenhamos, algum comodismo, vamos encafuando para os fundos - longe dos olhos, longe do coração...

Bom, talvez seja a hora de, para além de nos expormos ao sol de verão, dar luz a quem dela, mais que nós, necessita. Falo de uma Campanha que conta com o total apoio dos CTT's . Este  apoio visa encaminhar, a custo zero,  os bens por nós recolhidos e que, se para nós são "inutilidades", para muitos são a luz ao fundo do túnel. São dezenas as Instituições que recebem e agradecem.  

A Lista está disponível em qualquer posto de CTT. A que me despertou mais atenção e à qual me associei de imediato, recolhendo em minha casa, no escritório (meu e de amigos), os chamados "cabos eléctricos disfuncionais"  de  impressoras, fax,  computadores, etc., etc... foi a ABRAÇO.


Por um cabo, abracei esta causa. E você? Sei que a abraçará também. Bem-haja.  

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Além daquilo que [nos] faz chorar



Além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com que 
os soldados se lancem para a frente e percam a vida 
à luz do sol: que será, Bill?

(Carl Sandburg)


Morriam lado a lado como peixes podres com os olhos esbugalhados ao ridículo da questão. Por vezes, quando o Inverno lavrava leivas desapegas na argila lisa, improperando os terrenos à caminhada, impondo tempos de pousio em vésperas de cultivo das novidades, quando o frio antecipava a morte e lhes impregnava a pele no mofo de pregas vincadas - "féleo jugo" de ser pó e ao pó voltar -, davam-se conta, ainda que de forma ténue e nunca verbalizada, de que, dia a dia, esmoreciam de vontades e de futuros em afasias e extemporaneidades. Aí os dedos aproximavam-se aos gestos.

Mas não havia liturgias nem salmos nem oráculos divinos. Tudo era, à luz negrejada pela noite lá fora (e dentro de cada um) uma espécie de função utilitária onde só os corpos fermentavam em leveduras requentadas; os olhares, de baços já não se nutriam de palavras e, dia a dia, morriam. No canto espúrio dos olhos dela, por vezes havia ainda uma luz, centelha fortíssima à força de pedra. Jade onde as lágrimas resilientes nascidas algures numa nascente de serra se retalhavam antes de tombarem largas a eviscerarem, iguais às chuvas torrenciais, o tecido do rosto. No canto espúrio dos olhos dele, no modo inverso, parecia já não haver espaço a manietações gravíticas, inquietações, desideratos sódios ou sequer projectos adocicados.

Em tangência virtual, vendiam-se ao tempo que passa, por dois reis de sobrevivência. Em litologias de anjos barrocos e olhares de peixes mortos.

Dela ainda a esperança de ser Fénix. Além do que fazia chorar os peixes. Vertebrados. 

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...