Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Endeviches tinha os olhos largos

Endeviches tinha os olhos largos, diziam na aldeia à boca calada. via mais longe que ninguém, e, ainda as coisas estavam em margens inventadas e já ela, em premonição, quem sabe, lhes divisava contornos. se fosse caso disso,  desviava-se delas a sete-pés. talvez por isso nunca tenha casado, nunca tenha arranjado homem, diziam uns. talvez por ser uma espécie de videira rupestre,  torta e retrocida, a reflorir a cada primavera no círculo das pedras da aldeia de crescer, diziam os mais avisados – o seguro morreu de velho e,  de velha,  haveria Endeviches de morrer.  briosa, tinha gosto de assim ser.
 manienta, contudo,  terá sido por via dos "olhos largos" que embicou de cismar que o vizinho de baixo tinha um caso com o  da courela de cima, e, ela, ali no meio,  ficava agravada só por imaginar o que, ora em cima, ora em baixo, os dois sempre juntos, estavam a aprontar.  dona de um dialecto sensível, acomodou a fala na algibeira da saia.  por ter olhos largos,  quando entendeu o caso, armou o laço a ambos. no dia agendado de um tempo de vindimas, ébrio ao paladar, e em que, junto ao pelourinho, na peneira da tarde,  era obrigatória a vacina dos cães, entregou os seus, recolhidos de vadios, ambos, um a cada um, com a recomendação  solene de que jamais os largassem em que circunstâncias fosse  – seria um enorme favor, enfatizava,  abalizada à corcundice naquele olhar só dela, a luzir de penas, porque, em rigor, e por causa maior,  não poderia  ser ela mesma (e o quanto lhe custava) a portadora dos ditos. como assim? ora bem  vê, vizinho, por ter de ir a banhos na hora da maré rasa,  em hora certa, sem falhar uma virgula, recomendação do médico, do curandeiro, e, com perdão da palavra "do bruxo de subserra", repetiu a cada um, enquanto se soltava da trela, primeiro na courela cimeira, e a seguir, na de baixio. depois, devagarinho, deu três passos, rumo à várzea de beira-rio, não sem antes, onde os olhos lhe  foram aves e o ângulo dos ossos lhe doía, deixar  a bengala pousada contra a soleira da porta.
bebeu de um cantil a embriaguez da origem das causas justas, expurgou-se em diálise melancólica. metamorfoseada, como se, repentinamente, tivesse retirado um peso  dos ombros, como se, por obra e graça do divino, o pensamento fosse vassoura do tempo e  resina arábica a recompor colagens soltas, Endeviches, era moça em novidade de uvas. repuxou o corpete até às ancas, redopiou sobre os calcanhares e tomou caminho. para trás ficavam os cães e os seus vizinhos.  nos olhos levava um névoa, um gemido manso, mascarado de poesia, e, da vilanagem dos homens, uma dor tão funda  que comovia  a tarde.  a mesma tarde que,  recíproca, se nebulizava em gotas de orvalho nas árvores de pele descoberta. 
na escala da floresta ouvia nítidos, quão longínquos,  o ganir dos cães "os cães ladram, a caravana passa" .na verdade – sorria de si para si, na sensorialidade do tempo breve  – ,  recordava-se agora de uma falha  imperdoável  nas suas recomendações: não lhes falara, nem sequer ao de leve,  de que, cães vadios, o ódio entre eles era antigo,  tanto quanto o amor de  D. Quixote a Sancho Pança... 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

imagino

ainda não te vejo,
cultivo, ad eternum,  "o amor dos cegos",
a paixão pelo interior, o íntimo, o crepúsculo das fragas
em que decaem os meus e os teus olhos, as vozes de Pégaso, o risco e o traço da ilha dos amores
onde a luz se estilhaça e  não cede, parca, ao penhor da rotina, e se multiplica, emancipada,  em cada fim de tarde, 
imagino [te]
Pégaso, o acurado  do trato,  infinito,  infinita constelação boreal em palco de  ardósias, as leituras,  a sinalética,  os códigos, a pesquisa das raízes onde despontam os sinos replicados em sons ciciosos de vento a tons de rosa-púrpura.  perguntas-me,  amor, que forma tem o vento? voa,  voa  livre, livre, quiçá, digo[te], voeja além das pálpebras, abafa a fala melódica dos cânticos natalícios - anuncia, qual estrela,  a vinda dos reis magos, o ouro, o incenso, a mirra. os cânticos natalícios, ’inda? inquires-me, em incredulidade nata,  sim, pois sim… recordo-me de tantos natais à deriva, sabes? e do cansaço?  sim, também,  por certo,  confirmo-te. perpetuam-se, entoam-se agora,  como ontem,  nos musgos e nos presépios da  minha aldeia, é meio-dia, meia-noite, não sei,  não sei, perdi-me do tempo no tempo  exacto de dois ponteiros sobrevidos (e no seu antónimo), a porfiar  novelos à roca de fiar horas  dias a fio,
sem sentido,
por instantes, em exegese sumária, recordo-me de um texto, de uma melodia, de uma  flauta de osso, de ser
inverno na estação dos pássaros
de uma asa, de um rasto (eu quase bicho)
de um concha,
e de um porto d'abrigo,  estrela a preceder[me]o acto.
.
.
.
ainda não te vejo, as borboletas soltam-se-me do estômago à boca, rodeiam-me os lábios numa dança tribal,  iniciática,  
as sílabas, as  palavras. soletro-te,
imagino
o teu corpo a tomar conta do meu, e, sem  que me impeça,  deixo-me levar na serenidade  das tuas águas - daquele que nasceu do rio, que me é dia-após-dia, chama e claridade. encolho-me, mínima (sabes-me assim, caprichosa. prepositiva, contudo.  talvez, indefesa, menina). sabes-me, mulher-amor-maior, ternura mansa e tenra na textura de tuas mãos rugosas, adivinhando serem, e me seres,  a fresca brisa, a água sacarina,  a bruma  leve que lava  e expurga o entulho dos calhaus rolados em alto mar, e se faz,  per si, dourada  areia cristalina
da orla marinha, imagino,
as tuas mãos nas minhas - de mãos dadas, mi-amada, não tenhas medo, dizes, haveremos de encontrar a chave de todos os cárceres, haveremos de recusar a solidão profunda dos acompanhados,
anuo - cada vontade tua é uma ordem, que acato, por vontade própria -  felicidade suprema de  ver  um sorriso a provir  na matiz celular dos teus  lábios, "o amor dos cegos”, a luz, a luz, o devir.
em êxtase
subo os meus olhos baixos, a ser-te semente terra e esteira e lavra - olho-te semeada na palma da tua alma.  olho-te,  já te vendo. sorris e sei-te decanto,  cintilação profusa, plena  e nutritiva, da nascente, sei-te,  limo, sargaço e verbo.  no princípio era o verbo - e o sol, bem sabes - no princípio era o sol - és o meu sol,   repito [te]...
aninho-me mansamente no sorriso de teus lábios,  o chão a não suster-nos de pé, eclosão do universo, a garganta da serpente, a lava, a seiva jorrante,  primeva.  oiço-te  rente ao peito, reconfortado. ecoo em ti:  na tua voz  o meu nome tem a textura de um corpo acabado de nascer. o veludo de um ventre de mulher.  a maciez de uma pétala. é quanto importa,
       "o que fazemos na vida ecoa na eternidade..."
emudeço, humedecem-me os olhos, que, cerrados,  não podes contemplar. sorrio-te, a sublinhar-te, indelével. irreplicável,
ainda não te chamo amor porque não sei sequer como haveria de se pronunciar… apenas sei de um espaço onde os teus ombros [me] foram aves,  magia, incenso, ouro e mirra, e que,  na nobreza e gesto dos reis magos,  se perpetuam, eco,  fulgor vivaz de sábia eternidade.
imagino...


Imagem: Vladimir Dunjic

Nota post scriptum : Flauta de osso
"Os mais antigos instrumentos existentes(...) feitos de ossos de rena (10.000 a.C.)..."

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

"o que fazemos na vida, ecoa na eternidade ... "

na realidade, somos nós os maiores obreiros das nossas vidas. cada dia, dia-após-dia, pela eternidade...

o futuro começa hoje, agora, já. começa dentro de cada um de nós. na força e na certeza de que, dos pequeno gestos, nascem as grandes causas.






a todos um 2012 pleno de boas energias - dádiva sincera e respeito pelo outro. em tudo o mais, prossigamos, passo a passo, certos que o universo devolve sempre o que [lhe] ofertamos...

Bem-hajam, meus amigos, Feliz Ano Novo!

Mel

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A dança dos pares

"Dançava, às vezes, por dentro de si mesma."
Baptista-Bastos


Dobrava-os meticulosamente,  atenta às nervuras, aos canelados, aos canhões, estes últimos de diferentes alturas. Em tudo o mais, aparentemente iguais -  uma tortura para quem gostava que não ocorressem falhas, trocas impróprias. Sobre o leito, meticulosamente feito, as roupas puxadas e repuxadas para que não ficasse vinco algum, eles, os peúgos  pretos que tanto a irritavam. E, ao lado, a tortura análoga das suas próprias meias, que, sem saber muito bem como, nunca pareciam emparelhar. Como se, a cada viagem rotativa por  dentro do tambor, exactamente como lera um dia de uma conhecida escritora, houvesse internamente ali, invisível mas eficaz e persistente, um monstro acéfalo, devorador que, não só surripiava alguns dos pares, como, pior, deformava, relaxava e descoloria outros. E talvez ai residisse   o mais nefasto daquela história - no descolorir da imagem, no prolapso dos elásticos, no desbotar a cor inicial numa espécie de pasta mole, aguada, se perdia, irremediavelmente, e sem retorno possível,  a forma das coisas. Ao seu olhar, fica ali algo sem préstimo, sem brilho e sem pujança. O amorfismo era, sem margem à dúvida metódica,   no ser humano e na matéria invertebrada de um modo geral, algo que a tirava do sério.  Amorfos seriam, por conseguinte, os pares dispares ali expostos.

Maria Leonor levantou-se. Num gesto desconexo empurrou os  parceiros sobrantes para o fundo de uma cesta onde, regularmente, colocava a roupa por passar a ferro. O vime entrançado dava-lhe, ainda que ilusoriamente, a segurança de que a obra prosseguiria a bom termo - o engomar, bem entendido.  Decidiu que não gastaria mais tempo a emparelhar peúgas -  demasiado precioso lhe era o tempo. Do lado direito chegava-lhe, em jeito de abraço, um blue.  Não um qualquer som de um qualquer tema, mas sim um blue. Sorriu. Na verdade, a sua vida estava  incessantemente pautada por "não coincidências". A forma musical agora ouvida era-lhe “utilitária“.  Atentou no uso de notas cantadas e tocadas numa frequência baixa,  nas estruturas [sempre] repetitivas.  Construiu mentalmente um puzzle de imagens metafóricas.  Veio-lhe em memória a fé, a espiritualidade, as comunidades escravizadas, e, óbvio, as subtis manifestações de protesto contra  a escravidão servil  dos dias.  Os caminhos ásperos e palcos aveludados.  E os passos,  os pés, agasalhados e simétricos, aninhados  interinos nas formas melódicas, na harmonia dos traços e das notas -  as formas  puras de escapar dela... 

Deixou-se impregnar dos sons, de todos os que, vindos dali, a tomavam sua. Os pés, soltos das sapatilhas imaginárias,  desnudos em revelação do calcanhar de Aquiles afagaram a madeira, provocando-lhe uma onda de calor nas pernas igualmente desnudas. Solitária na  dança, rodou a roda dos enjeitados, determinada a ser
água, pássaro ou tornado.  Como as meias que escondera das vistas há minutos,  irmanada na diáspora, na concepção binária de diferença,  no deslocamento proximal a que se obrigava a si própria da, e na,  até então,  zona  íntima de conforto. Determinada à luta  volveu a si: abraçou-se,  em cadência, dançou  a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das  águas íngremes,  até à exaustão. Por fim,  já a noite ia alta, tombou,  algo binária,  como folha rubra e  lívida,  na cama própria. Desejou o esquecimento mitigado do cheiro,  do som, do sal da pele, em suma, o sono dos justos. Como um disco riscado, o blue fez o resto.

Acordou matinal, dando-se conta que, no dobrar de pares apenas suas as nervuras das folhas persistentes a revestir de incenso e mirra as lombadas dos cadernos da vida. E nada mais.





terça-feira, 1 de novembro de 2011

"sete-estrelo e umas botas"


(REPUBLICAÇÃO)

Mirou-as demoradamente. Acariciou-lhe o couro com o olhar. Deteve-se no picotado do cano, na cor de terra. No brilho de coisa nova, nunca usada. Depois, na calma que a vida lhe trazia aos poucos, olhou o horizonte, em ocres iguais. O ocaso chegava já, num Inverno que ainda não era Natal, e, contudo,  já se anunciava em cada rua, em cada esquina. Olhou o céu limpo em busca do Sete-estrelo. Desde sempre lhe ensinara a procurá-lo: azul, qual reflexo do mar que a habitava…
Agora eram suas, como lhe prometera. Não, nunca as usara. Quando as terminara, por fim, os seus pés não cabiam mais nelas. Crescera em demasia…
Abraçou-as, mediando o tempo desde que as vira a primeira vez, por sobre uma das múltiplas prateleiras empoeiradas que emolduravam grosseiramente o exíguo do espaço, a par de formas e calçados por consertar.
“...são tuas, um dia acabo-as e serão tuas...”

As linhas iam e vinhas no ritmo das sovelas a perfurar o couro, as solas batidas e rebatidas na pedra dura. As solas mergulhadas em água, por dias e dias. Pastosas. E depois moldadas ali, ao talhe dos pés.
“...um dia, quando tiver tempo, faço-tas. Nunca terás de andar descalça, que te durarão uma vida. A vida inteira… nem que isso seja a última coisa que faça. Não terás de andar, como eu, a ver “sete-estrelas” e umas botas … nos pés dos outros…"

As linhas iam e vinham no bico das sovelas, no cuspo das mãos, nas mãos magoadas. Pai…
“… um dia serão tuas, quando as acabar. Tem tempo. Agora tenho trabalhos em mãos, que te dão o pão da boca. Mas se tas prometo, faço-tas”
E logo o olhar turvado sem brilho no brilho da lágrima contida:
“nunca lhas cheguei a fazer…”

As linhas de sisal iam e vinham, rangiam na sola; na sola dos pés o frio de tantas horas ali parado. Era Inverno…

“Sete-estrelo e umas botas.”
Naquela manhã o povoado acordou em sobressalto. Francelina, de pouco mais de quarenta anos e oito filhos menores, morrera. Uma forte dor na nuca. Nunca se soube ao certo. As bocas pequenas falaram da “porradas” que o marido lhe "amandava", quando ao fim do dia de jorna, aquecido no pingo da bebida, ajustava as contas com a vida no corpo não menos estafado da mulher. Comadre. Quando enviuvou do primeiro marido e pai das suas duas filhas mais velhas, arrimara-se a ela
“por bem querer, senhora Francelina, serei um pai para as suas filhas, um marido de respeito para vossemecê. Cuido-lhe do nome e das terras, minha comadre. Que fará vossemecê com duas filhas neste fim de mundo onde o diabo perdeu as botas? fraca e pequena como vossemecê, nem com os cântaros há-de poder, que via o senhor meu compadre – que a terra lhe seja leve -, a carregá-los serra a cima… casemos pois, senhora Francelina. Não dê outro padrasto a suas filhas e minhas afilhadas, que sou seu amigo e “mai-lo” delas…”

Casaram. Sem pompa, sem circunstância. Sem o agrado do povo, nem dos pais. Sem a bênção da família da viúva recente e já nubente. Que guardasse distancia e logo tomasse rumo. Mas assim? Em pouco mais de dois anos? Certo que Jorge era parente, conhecia os cantos à casa e nela trabalhava desde que os seus pais o haviam posto fora de portas
“Ora, coisas de rapazolas. Uma má palavra e o meu pai se deu por ofendido. Levantou-me a mão e perdi a cabeça…”
sempre ia dizendo a despeito da sua deserdança:
“... que coma a terra, que por mim hei-de apanhar e chamar de meu, mais que aqueles palmos de terra”.

Achou. Achou a confiança do compadre, os olhares gulosos sobre as terras que eram suas e, porque não dizer?, sobre as ancas de Francelina  - “boa parideira, a minha comadre, tem um par de ancas que a benza Deus” e fome de lhe morder os seios e beber o leite que se lhe escorria “valha-lhe Deus, minha comadre, que esse leite é uma perda”… avançava, entre dentes, em falsa compaixão, sob olhares lascivos.

Tomou-a sua, ocupou o lugar do falecido nas terras e na cama, e, desejoso de lhe fazer prole, acrescentou mais seis aos dois filhos de Francelina.
Esta respondia, no início, às investidas do marido, à fome das ancas e dos seios, com cansaços e pouco deslumbramento - na verdade nunca o amara. Nem pouco nem muito. Temera a solidão, o deserto do casal, o comando das terras. Era seu compadre, mal não lhe havia de fazer, por certo. Sempre era um homem, elas três mulheres…

Amor tivera ao falecido, que a cobria de atenções e mimos. Que a abraçava demoradamente antes de lhe avançar na carne. Que a olhava num olhar maior, quando lhe soltava em adoração de alma e corpo, os cabelos de um ruivo luminoso que a inundavam de luz, e que, sob o manto do céu tangido de Sete-estrelo, sob a bênção do Sete-estrelo, a desnudava por completo e se desnudava a si, para a amar profundamente. Quando, em luar maior, se adoçava o gesto da posse. As noites eram sempre pequenas para os amantes e eles amavam-se…

Detinha-se íntima e introspectiva na Lua que, pressentia, alguma vez teria novamente, que se quedava agora sempre negra lá fora, nos braços dos salgueiros e nas urzes serranas. Amor tivera a quem a aconchegava de beijos antes que, bem amada, dormisse, e, na manhã seguinte a acordava com uma chávena de leite quente. …

“agora” a cama gemia e acordava as crianças. A palha de milho roçagava o vento que se escapulia das telhas vãs. As noites eram longas demais e, não raras vezes, na manhã seguinte, à beira rio, onde lavava as ceroulas de Jorge, os cueiros dos filhos mais novos e as camisas dos mais velhos, as mulheres do povoado lhe viam as marcas enegrecidas da “paixão”.
“ó Francelina, que é lá isso, ó mulher? Tens uma negra nesse braço… e que é isso na boca? Tá a modos que rebentada…”.
“… não, senhor, não é nada … fui eu que me abracei no descuido com um cepo no quintal,  calhando que ia de cabeça no ar …”
De olhos baixos, esfregava primorosamente as fraldas até a pedra se queixar e as mãos enregeladas do inverno se abrirem em sangue. Chupava os dedos para que estancasse, dava por concluída a tarefa, e, de alguidar numa anca, bilha na cabeça, e por último,  a cria mais nova, sua filha de meses, escarranchada na outra anca, avançava a custo o íngreme do monte. Nos entretantos, a sós com Deus e com a sua vida, rezava em contas das próprias lágrimas. Agora era tarde para recuos, como tarde se anunciava o dia já a pôr-se enegrecido no ocaso. Apenas uma luz lá no alto lhe conduzia o andar nos pés mal calçados de solas safas. Perscrutava o Sete-estrelo …

A proximidade do casal já se sentia, no latido dos cães e nas correrias das crianças que, no instinto se acercavam dela. Soltava Rosa da anca, confiava-a a Manuela, uma das mais velhas, gritava o nome de Raimundo, de Carlos e dele, o dono temporário das botas…
Acorriam em algazarra.
“mãe, mãe…”
“rapazes, onde está o gado? Já o arrecadaram? E a lenha? Trazei-me dai uns cavacos que se faz tarde…e o vosso pai já deve andar por perto…”
Manuela ajudava no pendurar da roupa, os rapazes acendiam o lume, os mais novos corriam em torno das suas saias. Por instantes eram uma família feliz. Francelina abraçava os filhos, beijava-os, deitava sobre eles um olhar de esperança – um dia as coisas mudariam. Seriam eles a tomar conta das terras. Jorge afinal não era dono de nada, valha-lhe Deus… Um dia. Um dia … “Sete-estrelo”
“...um dia faço a vossemecê, minha mãe, umas botas de cano grande, por via de não andar de pés no chão, nem com as pernas rotas dos silvados, vossemecê verá, senhora minha mãe… vou ser sapateiro, como o senhor Joaquim do Vale, meu padrinho."
Afagava-lhe o cabelo encaracolado e loiro. Abençoava-o. O seu filho mais velho, daquele casamento desgraçado. E agradecia, contudo. Lindo o seu filho. Grata, olha-o …
“… um dia, filho…”

O latido aflito do cão de guarda mais ao fundo do portão indicava a proximidade do dono. Era ele sempre a primeira vítima. “…é cão duma peste, não te calas nunca!”. Um pontapé ou uma verdascada marcavam o ritmo do discurso iniciático.
As crianças sumiam. Cada um para o seu canto, para as camas improvisadas em cima das arcas do pão, com mantas trapeiras.
Francelina colocava apressada Rosa no berço, com uma chucha de açúcar e vinho. Dormiria. Tinha de ser…
“já comeram os rapazes? É bom que sim, que quero descanso”.

Acenava que sim. Muitas vezes não, mas ninguém dizia nada. Ajoelhava-se aos pés do marido, ajudava-o a tirar as botas. Ele media-lhe o corpo enquanto se levantava rumo ao lume.
As couves fervidas a escaldar o pão. A “tiborna” com o alho. Tudo pronto.

Baixava os olhos, mexia o caldo e servia o seu homem. Depois a sua malga. Comiam em silêncio. Jorge por debaixo da mesa procurava-lhe as pernas. As mãos grosseiras, apertavam os joelhos, arranhavam desapiedadas a pele. Avançavam, subiam, buscavam o sexo. Achavam-o. Penetrava-o desvairado, e, se o sentia húmido da corrida e dos labores, dos cansaços do dia, que fosse, começava ali o chorrilho de difamação “puta, ‘tas com ela aos saltos, não é?, quem é que te comeu hoje, minha puta?”. Levantava-se num ápice, empurrava-a contra a parede, abria a braguilha, soltava o bafo do vinho pelas narinas de besta e possuía-a ali mesmo, sem uma palavra. Mordia-lhe a boca, mordia-lhe o corpo, fazia soltar os seios do corpete alvo, apertando-os impiedosamente. Rodava-lhos os bicos já macerados de vezes outras, mordia, sugava-lhe o leite e o sangue que escorria – ainda amamentava -, . . “puta, agora estás satisfeita? É disto que precisas, não é? Cadela, puta... ”. ...
Por fim largava-a. Voltava para a mesa, comia outra malga de sopa, bebia, raras vezes se lavava. Deitava-se.

Francelina chorava sem um ruído. Arrumava o que havia a arrumar, engraxava de sebo as botas de seu marido, recolhia as roupas caídas junto ao leito e, quando o julgava adormecido ia levar as malgas aos filhos às camas. Finalmente, quando as crianças adormeciam, voltava ao quarto e tomava o seu lugar na borda da cama, no silêncio que a palha lhe permitia.
Noutros dias, naqueles em que ele a tomava e a achava seca, nem por isso as coisas corriam de melhor feição “puta, não queres o teu homem? Gostas mais dos moços de estrebaria é? Ou dos oficiais de cavalariça? – dizia-o em alusão clara ao facto do primeiro marido ser da tropa. -, “morreu, puta, deste cabo dele, não foi? Rebentaste-o debaixo de ti..., agora rebento-te eu, que vais ver o que é um homem.”

Francelina foi a enterrar. O povoado inteiro em torno das crianças. Os padrinhos a adivinhar a falta. Cada um para sua banda. Cada um por si, ou Deus por todos...

Ele seguiu o padrinho, sapateiro de profissão. O pai desceu ao Vale três semanas mais tarde e naquele mesmo dia fez-lhe a trouxa, amarrou-a um pau e deu-lha para a mão.
“… vai, o teu padrinho já te espera. Aprende a profissão. Aqui não há lugar para malandros”.

Tinha onze anos. Olhou pela última vez os cães, olhou a casa deserta das feições de sua mãe. Abraçou. um a um. os irmãos, desceu o monte, procurou o vale e lá a casa do sapateiro… era noite fechada. Guiou-se pelas estrelas “uma, duas, três, quatro … sete-estrelas e umas botas”.
Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...”
Apenas o eco: Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...” Um homem não chora! Não era homem: chorava...

“ ... um dia hei-de fazer-te as botas, filha. Se não as fiz para ela...”
Nunca a nomeou. Como se as lembranças o matassem dia a dia, como naqueles dias em que o via a ele a possui-la, à sua mãe, ali na cozinha de lenha, quando o julgavam já acamado. Jurou que um dia o matava... mas ela morreu primeiro. A sua mãe. Tinha onze anos e foi ser “maltês”...

Olhava-as agora, castanhas, na cor da terra, da terra que aguardava para sempre: as suas botas (que nunca usara), as dela, que nunca as tivera ...
Abraçava-as devagar. lenta_mente.
O céu em Lua cheia.

Soltou os cabelos cor de fogo, os que herdara dela, e, num gesto insano possuída pelo tempo que não foi seu, jurou à Lua que nenhum homem a possuiria sem que a amasse de verdade, que nenhum homem encostaria um dedo que fosse no seu corpo sem que da sua alma se tivesse primeiro apossado em troca da que lhe tivesse confiado. Magicamente calçou as botas. Perfeitas. À sua medida.

Dizem que é Ninfa do Tejo, que o Sete-estrelo dança nas cores de seu olhar ...
                    Dizem!




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Notas:
In Wikipédia: “Sete-estrelo”- Trata-se das Plêiades, um grupo de estrelas na constelação do Touro, que consistem de várias estrelas brilhantes e quentes, de espectro predominantemente azul. A névoa azul que as acompanha deve-se à fina poeira interestelar da região em que elas se encontram que reflecte a luz azul das estrelas.
Referências Bíblicas a Sete-estrelo:Livro de : 9-9 [...] quem fez a Urso, o Órion, o Sete-estrelo e as recâmaras do sul"; 38-31 "Ou poderás tu, atar as cadeias do Sete-estrelo, ou soltar os laços de Órion?" ; Livro de Amós: 5-8 "[...] procurai o que faz o Sete-estrelo, e o Órion, e torna a densa treva em manhã e muda o dia em noite; o que chama as águas do mar, e as derrama sobre a terra: o Senhor é o seu nome."

sábado, 15 de outubro de 2011

o mistério da água


(REPUBLICAÇÃO)

habitava o mistério da água. a estação termal da pele. curandeira de si e dos demais vagueava a encosta em busca da planta certa para a enfermidade que assolava a plebe. para si mesma escolhia a mais amarga - bebia, não raras vezes, o fel da terra, e, reconfortada, numa espécie de penitência póstuma, prosseguia viagem num voo invertido de quilhas e asas.

naquela manhã deu-se conta de que acordara inversa à tão desejada resistência,  ao efeito triturador do tempo.  acordara  na forma atópica da derme, salina, ainda que, reconhecendo a (ainda) plasticidade cerebral. acordara crosta que  ao mais pequeno sopro se exaltava em manchas desmesuradas, ora vermelhas, ora enegrecidas à cor serosa das tempestades. os dedos avermelhavam-se no efeito emocional de um botok que recusava.  no texto e no contexto, bebia do mistério da água, um a um, de todos os factores, genéticos, epigenéticos, e dos mais que a ciência ainda não inventara. 

pelo buraco da fechadura olhou-se fronteiriça, anedónica, num estado que temia. pouco prazer já retirava das coisas que até ai tinham ilustrado o traço da sua vida à cor purpura;  mediu-se na fragilidade da sua intolerância, naquele estado em que, urticária ou eczema, tanto faz, lhe provocava o desconforto da reactividade; tomou-se de si, atravessou o quarto de dormir, depois o hall, onde, na semi-penumbra, vislumbrava os olhos dos que antes e depois dela própria, transportavam de si, comum genética.

"a importância está nos genes, na tenacidade, na vontade de vencer, de nunca se entregar... só estes factores determinam a qualidade das pessoas longevas", lera enquanto lá dentro a luta era pela vida a qualquer preço,  ainda que, segundo a segundo, menores as sinapsias e inferiores os reflexos... 
atravessou o escuro do hall. sentiu-se invadida - há espaços que são só nossos. sentiu-se fria. a tal sensibilidade excessiva mortificava-a, e, de novo, na memória, a certeza inabalável de que a natureza tudo resolve e dela, o mistério da água. mas,  e o frio, Júlia? o frio?...
um sorriso mordeu-lhe a alma  "júlia, tu sabes, os astros não morrem, arrefecem..."
pegou na toalha, abriu a torneira
deixou que o fio escorresse do inox
  livremente,
já quase a transbordar 
entrou na banheira, deslizando, ela, a pele, o esmalte, as mãos, os gestos, 
            a contornar o epicentro das tempestades - ao momento, recordava-se, apeteceu-lhe  gritar o instante inacabado, a fúria da charrua no encontro da várzea, o vislumbre nunca cicatrizado
sequelas
recidivas, e,
de um poema, uns versos,
"as sereias não se atrevem nos pastos, 
nem as musas acolhem as lágrimas
nuas 
nas  conchas convexas dos olhos..."
nos seus lábios, a palavra 
e o silêncio desconexo de neurónios - sinapsias menores...
embotada, emoliente, a água.  alambica-lhe a chaga -  voz  que não saía, retida,  grude,  intolerante,  na garganta -,  um poço de parede vertical onde  deslizava em fogo um nome, epigrafado em sombra crua,  decalcado ao picotado da uva e onde, o mosto nas primeiras chuvas, fermentava a matriz das horas silenciosas num embolo alagado de um lagar sem bica - o outro lado onde a noite se circunflexa pestanuda em vasos nasogenianos  e no contorno dos lábios - o tal  local  onde  as rugas se anunciavam na secura das águas, na flacidez das carnes. das suas carnes ...
deixou a mão descer,  tocou-se. pressentiu o canyon acontecido, texturas de pedra e de ostra nos sedimentos e na geologia de uma vida. a cabeça, depositada contra o rebordo da banheira, descia, lenta, sem esforço, em apneia, ou talvez não...
convicta júlia deslizava o vale, o mistério da água, a confluência dos tempos compositivos.  na sala a grafonola tocava  prodígios e metáforas, félio alimento de sua alma. na caixa de pandora o valete de copas discutia percursos alternativos com Alice do país das maravilhas...

a cabeça submergia a espuma, os dedos avermelhavam-se, a mão, por fim, tombava;  a água encontrava o caminho da água,  o amor era uma estação ao lado... Júlia!



domingo, 2 de outubro de 2011

A menina dança?...

  (REPUBLICAÇÃO)
Ouvia-o já como se seu não fosse. Irritava-se que batesse. Que batesse ainda. Umas vezes em fúrias arrítmicas, e outras, de uma forma tão serena, tão doce, quanto uma tarde de Inverno à beira de um rio de águas cinzentas.
Questiona-se tantas vezes porque ainda não deixara de bater. Porque não poderia ela, à semelhança de outras partes de si, prescindir dele, sem mais? Como os dentes, que já não tinha, por exemplo. Afinal não passava de um músculo. Um mero propulsor de sangue, vestido de túnicas sucessivas. Como uma bailarina em pontas.
Ai a dança, a dança…
Ainda presente as lições do corpo humano, a sala inteira:
- ... pericárdio, miocárdio, endocárdio, outra vez… mais alto…, pericárdio, miocárdio, endocárdio,
ou
- aurículos, ventrículos… aurículos, ventrículos…
Era o tempo em que o coração era o que era e nada mais. Tempo finito, deu-se conta bem cedo, no dia em que
- A menina dança? Psi, psi … A menina dança?...
fez com que o dito músculo se tornasse, de súbito, incontrolado. Descompensado, e, quase juraria, entoasse mais alto que qualquer instrumento em palco. Afinal, razão tinha a professora quando lhe falara que se tratava de um “músculo involuntário”.
- Brancas, no corpo humano existem duas espécies de músculos: voluntários e involuntários. Os primeiros, tu dominas com a vontade, com a razão, com o que te ensina a moral e os bons costumes… tu dominas as mãos, os pés, como sabes. Tu dominas os movimentos através do que te é dito pelo sistema nervoso central, mas Branca, tu não dominas, por mais que queiras, a quantidade de batidas do teu coração… ele é um músculo involuntário, caprichoso. Muito caprichoso, que, inclusivé, se mascara do ponto de vista da fisiologia com estrias, como se fosse do grupo dos músculos voluntários… sabes, não dominas os sentimentos. A saudade. A lonjura que o tempo não esbate… não, Branca, isso não se domina,
Nesses dias a professora parecia voar para longe. O olhar tornava-se mais negro, no azeviche do luto, do mosto dos lagares de uva tinta, das azeitonas sob as prensas. Tardava o regresso das palavras sábias, da ciência. A sala ficava suspensa num limbo nostálgico. Só as batas brancas eram ainda asas fulgurantes sobre as mentes. Como branco o nome de Branca. E ambos pareciam reflectir os últimos raios de sol daqueles instantes invernosos…
- ... repitam comigo, vá. Quero isto tudo na ponta da língua. Agora as válvulas: Mitral e Triscúspide…
É difícil, bem sei, mas recorram a mnemónicas (sabem o que é, já vos ensinei…). De novo, agora, tudo… pericárdio, miocárdio, endocárdio … aurículos, ventrículos… aurículos ventrículos… válvulas … o coração é um músculo involuntário…
Ele vinha, de um lado ao outro da sala.
Fato completo, sapatos de biqueira luzente. Cabelo puxado na brilhantina, anos sessenta.
Ela, de laço engomado na cabeça, de olhos baixos, fingia não perceber que o “menina dança” lhe era dirigido.
Ele insistia:
- A menina dança? … O dedo em riste. Sorriso calculado. Nem demais nem de menos. Como convinha. O embaraço. Dela. Os cochichos de Dália, atrevida, a seu lado…
- Branca, é o tal, o que estava no Domingo passado na leitaria… é tão alto, Branca… um figurino…não te armes em difícil, em pura donzela, que ele desiste …
- Dália, por favor, ele ouve…
- Que oiça. Eu ia, se ia … mas ele está é de olho em ti…
Ela também iria... Mas, e o medo? Da fama não se livrava. Mas havia que não dar crédito a falatórios de quem nada sabia. Gentes sem cultura que se entretêm só com a vida alheia. O meio era pequeno. Todos falavam de todos. Ele um gentio. Chegara à terra há meses, a bisbilhotice era, pois, natural ...
Por fim, após o compasso de espera, um olhar aprovador. Da mãe. E um “vai, mas olha o respeito”. Branca avançava a pista. As pernas bambas, a pele coberta de gotas finíssimas... Ai, o coração, esse, corcel sem nexo,
Avançava dois passos. Tímida, dava-lhe a mão, em ponta de dedos. Ele, engomado e tirado das caixinhas, cheirava-lhe, desde logo ao mirto dos dias proibidos. A pólvora dos dias de caça. Inebriava-lhe os sentidos, cantava-lhe ao ouvido a canção do bandido. Na cifra da música que alterava em sussurros de visco. O mesmo com que, nas noites de luar, na lezíria aberta, armava laços aos pássaros - estorninhos, tentilhões e etc.- , com que se haveria de lamber em tacho de barro. Fritos.
- Esta noite, ó pá, caíram mais de cinquenta. É proibido? E eu por acaso sei ler os avisos da venatória? Até sou analfabeto! Que se lixem esses gajos, se aparecerem por lá mergulho no Tejo, respiro horas a fio por uma palhinha. A mim nenhum arma o laço e, se me ensaboam os miolos, quando os apanhar de costas, papo-lhes as “passarinhas“… ossos e tudo…
Avançava. Da cintura fina, quando os pares se avolumavam no centro da pista, tacitamente descia-lhe por sobre a saia plissada. As mãos sobre as nádegas. Duras, moldadas ainda p’la candura. Ela corava, baixava mais os olhos. O coração, esse músculo irresponsável, arfava sob a blusa de bolinhas miúdas…E gostava.
Ou, quando, na valsa, por entre os passos, as pernas se tocavam. Os sexos adivinhados. O dele, incontido. Em poucos meses grávida. De flor de laranjeira e cauda, como mandava o figurino. Sem a bênção dos pais (os dela). Filha única, Maria Branca tinha de seu. Terras e casas. Ele apenas o Sol empinado nas calçadas. E a pretensão de fazer um belo de um casamento. Conseguido.
As lições do corpo humano na gaveta, o tempo passado. Filhos criados. Ela agora a rebuscar os restos no caixote do lixo.
- Cleptomaníaca, que pode um homem fazer? Não é necessidade, é vício, tem tudo em casa. Puta que a pariu. Nem de mola no nariz lhe toco. O que não me faltam são mulheres… ainda dou o meu pé de dança, ó pá, que julgas?
Uma estrondosa gargalhada ecoava o passeio marítimo. O sol descia. Eram horas de voltar para casa. Branca já teria lavado e engomado, feito a janta.
- Logo joga a Liga. Vejo no café, que tem plasma. Também tenho, mas porra, a gaja fede que tresanda. Não fico em casa um minuto. Saio logo que posso. Com ela não me cruzo. Pudera, a mania de andar nos caixotes do lixo. Não precisa, como sabem… Desde que casámos que decidi não trabalhar para que pudesse dedicar-se a mim… que outra razão teria para viver, digam-me lá?…
Ouvia-o como se seu não fosse.
Irritava-se que batesse. Que batesse ainda. Perdera o controlo de tudo e de si própria. Era agora, ela mesma, um "músculo involuntário", tomada de uma necessidade incontrolada de ver por dentro como os outros viviam… o que comiam, o que deitavam no lixo… se se amavam, se se possuíam…recolhia os sacos em pleno dia à vista dos demais. Então, em casa, abria-os e (re)vivia as suas vidas. Como as imaginava. Vivas. Plenas. Ela morrera no dia em que pousara, inadvertida, no visco de uma armadilha.
- A menina dança???
A sirene dilacerava o silêncio. Sob a chuva miudinha, de pernas no ar, suspensa do caixote do lixo, dobrada pela cintura, Branca. Negra agora… nos lábios um sorriso, enigmático, triunfal. Por fim, o tal  tinha-lhe obedecido. Era agora um músculo controlado. A todo o custo. Finalmente.
 - Está morta. Há que chamar a polícia. O senhor é o marido? … Supomos que se tratou de um AVC, mas só a autópsia o dirá...


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“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...