Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Do outro lado da porta.


Vi-lhe a inquietação no olhar. Não entendi, confesso, nem achei importante averiguar razões;  tão pouco estabeleci relação de causa/efeito, expressão tão sua, Timóteo… 
Partilhávamos apenas a mesma sala,
a mesma fila,
          ela atrás de mim e, eu atrás de outros,  frente aos monitores, na proximidade que nos distancia e,  quiséssemos ou não,
o mesmo horizonte visual. O meu menor, porque à frente …
Sabíamos pouco uns dos outros e, dela, então, estou em dizer que sabíamos
nada.
Ou quase. Sabíamo-la cinja ao que se passava dentro das quatro linhas, que é como quem diz, dentro do formato da acção, figura apagada, apagadíssima, sacada de uma caixa de memórias - fotografia sépia -, por artes mágicas e pozinhos de perlimpimpim,  ali. 
Para que perceba melhor, lhe digo, Timóteo, imagine, ao fim de quase três meses de convívio diário, não lhe sabia o nome.  Nem eu, nem a maioria de nós …Mas se  de algo estava certa é de que o nosso assunto em nada a interessava.
 
Estava à vontade,  portanto e, porque assim, dia após dia, no intervalo maior, sacava da sanduíche que trazia de casa a que juntava um pacote de leite com chocolate comprado no Continente. Entre uma trinca e outra, teclava-lhe o mais rápido que conseguia, sempre com a janela minúscula.  Não por ela, que, como lhe digo, não manifestava qualquer interesse, mas pelos que, mais curiosos, mais vivos, entravam e saiam da sala, espreitando  ecrãs.
Por essa altura já nos conhecíamos quanto baste para  nunca saber o que poderias dizer, se
    Então sempre foi ao CCB este fim de semana, a menina disse-me que iria ver o Jeremias Fisher, não foi querida?  E que me diz a respeito? Ópera de Câmara… um libreto… muito bem, muito bem…
    Recomenda? Ainda não tive oportunidade de estar presente. E com quem foi? Ora, não minta - a verdade e só a verdade, se não me é fiel, pelo menos seja leal … Arminda, acha que me engana? Sou ciumento sim, e, quando for minha - quando vem???-, não mais a autorizarei a andar sozinha seja de dia ou de noite…
    (um diálogo natural, de dois adultos... )
    Como, um
    ...Preta? Cor de salmão? A sua lingerie,  querida, claro…   Diga-me, sabe que me faz feliz … que me faz… quer que diga a palavra? - não, não direi …    QUERO saber cada pormenor de sua vida …íntima…
    E eu, em regra:   negra…
   ... De renda? Lisa? Tem aplicações de gipure? Deixe-me adivinhar. Tem, claro... nem sabe o quanto aprecio a beleza de suas coxas (como as imagino) encimadas por peças de arte: guipure ... gipure, como quiser, mas sempre ... têxtil, suave, na cor, no toque. Hoje?...
    ...Carmim… o modelo  DeMillus bordado em amarelo-ouro… Fio dental com a parte de trás bordada…
    … fio dental, Arminda? Detesto, não compre mais … é invasiva, vulgar.  Vulgar!!É uma senhora ou não é?  Coloque sempre os olhos na sua avó Celeste, a que usa em avatar... imagina que usaria tal insanidade? Senhora D. Celeste, uma senhora. Um olhar doce... amante perfeita, a sua avó... veja como baixa os olhos, como...ai, Arminda, nem sabe o que imagino...
Use asa delta, sempre … sou eu quem lho digo. 
    Concordava. Concordava sempre… no catálogo on-line tudo me era possível …tudo era meu … e,  eu, entre evasivas e conclusivas, tecia e fiava, num tear de rendas e gipures, a tentar saber mais de si e, logo, a cada abordagem sua, do que não sabia, fazia pesquisa e respondia-lhe…
        e, deste modo, ingénuo e primário,  me achava à sua altura: Era um senhor, um senhor, Timóteo, versado em arte, em filosofia, em literatura...
                                 ...apesar de tudo…
   
Vi-lhe a inquietação no olhar, Timóteo, como lhe afirmo, e não alcancei.
Como não alcancei o súbito interesse na minha pessoa desde então. Nem a aproximação às falas, aos encontros de horários - ela que sempre chegava antes de todos nós e saía depois de todos, lenta e pormenorizada no  arrumar das folhas e no cerrar o dossier que recolhia num saco meio andrajoso, passou invariavelmente, a cruzar-se comigo à chegada no hall de entrada do edifício. Surgia do nada, com um sorriso, no início meio tímido,  e, dia a dia, mais aberto.  Sempre limpa, sempre correcta,  sempre figura do século passado.
Tinha idade para ser minha mãe, gostei dela. E ela de mim, acredito. Não raras vezes me trazia grossas fatias de bolo, frascos de compotas, queijos, manteiga caseira. Tudo de uma qualidade ímpar e divina...
Continuava asséptica nas palavras e nos gestos: poucos, escassos...  
Não sei como, não me consigo lembrar e já lhe estava a falar de mim.Da minha inquietação…  Do futuro que não tinha, 
                (Era tão boa ouvinte… Tão discreta… )
Permanecemos juntas nas secretárias em fila e além delas, para além da porta…
    … para além da porta,
(só não lhe contei que nos íamos encontrar. nunca aprovaria, suponho...)

Dia a dia, regulei a minha vida pela sua, Timóteo. O que lhe fui dizendo de mim eram absolutas verdades - está bem, reconheço, não eram… “se não é fiel, seja ao menos leal”, lealdade, portanto…
eram as verdades o que EU gostaria que fossem. Os meus gostos (refinados) os meus hábitos (desde o berço) … as viagens
... a minha  avó, sabe, Arminda, a minha avó, esteve na Inauguração da Torre Eiffel, desde sempre viajámos, e a Arminda? Claro que sim… Conhece o mundo,
    Sim, sim… a família viaja desde sempre. …
    … não Timóteo, obviamente que nunca sai de Portugal… Minto. Sai… um dia, a Espanha, numa daquelas excursões que vendem inutilidades… fui às Rias Baixas…comi marisco como nunca, sem saber que era alérgica, adoeci e quase morri... pormenor sem importância, bem vistas as coisas... ).  Sai, como vê…
    se conhecia o aroma do Poême? Conhecia, mas só.
Até ao dia em que fui ter consigo apenas de o ter cheirado nas tirinhas oferecidas em Perfumarias, ou, quando, a pretexto de “verificar a reacção na minha pele” ganhava ousadia  bastante de  borrifar umas gotas contra os pulsos… e saía sem comprar.
Naquela tarde,  Timóteo, para o poder agradar, imagine, percorri todas as perfumarias do Centro e, invariavelmente, em todas “testei” o perfume… Como o poderia comprar, Timóteo? Como?…
    Durante meses prescindi de todas as pequenas loucuras para comprar a lingerie, a que sabia do seu gosto - negra, bordada … E  o vestido que me viu,  foi-me emprestadado por ela, que me disse ser “de família”. Ajustou-o ela mesma, em minha casa, com uma máquina que trouxe.
   É costureira? Perguntei-lhe. Não, e sim… faço de tudo um pouco…
    Intui que vivia como eu de expedientes. Sazonalidades. E falei-lhe de si. E ela, sem que de novo entendesse razões, turvou o olhar
            não soube se era serra ou mar, se, à conta de tantas leituras eu mesma já não distinguia azeite e água… mas sentia-me abraçada numa bolha protectora,  casuística por certo,  ao mesmo tempo volátil e ampla, que me deixava respirar: ela…

    Passei a não lhe esconder nada. Os pontapés da vida, a vidinha antes, a preto e branco, no Alentejo sem pão. Depois a cidade, o marido sei lá onde …  o meu trabalho - os muitos trabalhos -, precário(s), os meses sempre maiores que os euros, o armazém sem luz da gráfica, oito horas por dia, a embalagem, os livros destinados a destruição, as folhas dobradas, as lombadas mal coladas…
o resgate, a infringir a lei...(o lugar onde tudo começou: no sonho… na imagem, nos poemas....).
À noite,  leituras. Mais tarde, computador. Comprado a prestações. As aulas de informática, o Programa  "Novas Oportunidades" … e de novo o sonho,            Uma janela aberta ao largo,
                         e logo o arco-íris que se desenhou desde que, numa noite-madrugada, recebi o seu convite de amizade… 
"Julgo conhecer a senhora do seu avatar -  o quadro é-me tão familiar... "
aceitei-o. Disse-lhe,
"É um quadro a óleo de minha falecida avó, D. Celeste,  pintada por ...
                           (e inventei um nome. Uma avó... e uma nova vida para lhe oferecer ...)

    Perdi a tarde.  Teria de ser. Trabalhei até à hora de almoço, pedi o carro emprestado à Florbela, amiga de longa data, e fui… Primeiro a casa, onde me preparei minuciosamente para si, para “lhe ser”…  Cada minuto, cada segundo, Timóteo, em sua glória:  o corpo, o cabelo, as unhas…  um chá. Apenas um chá …

Revi, minuciosamente, todos os seus gostos, verifiquei se, por descuido meu, algum pêlo restava para além do que sabia seu gosto… olhei-me em espelho -  um clarão rompeu o hímen dos meus olhos… uma gota de sangue transbordou, derrame subtil, prenuncio de  longínqua taça 
cicuta,
    geleia de amoras tardias ou sonhos doces em  cor de púrpura,
   
    e quando, sob aquele temporal de Maio (nem o tempo já é como era…) olhei a sua casa,  mansão secular perdida no emaranhado do betão, julguei, por fim, ter encontrado abrigo aos meus dias de chuva … não fora o acaso de
     uns olhos que reconheci (ou julguei reconhecer)
     um vulto esconso a espiar-me por detrás de uma janela pouco distante ao lugar onde deixei o carro…

    Vi-lhe a inquietação no olhar, o medo, o pavor, se possível, Timóteo…
Julguei estar a alucinar, tal o desejo de que ela estivesse por perto com o seu abraço amigo… Afastei o pensamento, ao mesmo tempo que, em gestos títeres - palavra sua, Timóteo -, gestos calculados, mil vezes ensaiados, na beira de minha cama
    Primeiro o pé direito,
               deslizar a anca
                 elevar o peito...
    agora a perna esquerda,
        resvalava o corpo na alma e ia ao seu encontro …  ao encontro de suas mãos…
Um golpe de vento inverteu o chapéu. E o destino de nossas vidas. De todos os lados  - até do rio -, a chuva. Cruzada. Encruzilhada, pretérita/presente/futura,
       subi num ápice a sua escada. O olhar dela, assombração inesperada …

    O frio. Ah Timóteo, o frio. O peito a enrijecer sem controle no gelo da hora.A boca a saber a "papéis de música" ...
    Não vi de imediato a campainha; o negro do rímel acessível fazia das suas…  tacteei . Por fim, encontrei-a. O resto já sabe…
    Os meus dedos colaram-se pastosos ao botão de forma ininterrupta. Em frenesi, cada segundo me parecia uma eternidade. Por fim a porta abriu-se.  Antes o seu cheiro… os seus passos, apressados, e o meu desejo suspenso de um tão ambicionado
    “seja bem vinda minha querida...”
    Como sempre me dizia,
    “...esperava-a…”
    O meu desejo (planície ressequida), de si -  arado,  lâmina em minha vida - e, a oferta que lhe trazia, a extrema limpidez dos meus olhos
    d’água,
    “virá um dia e esquecerei
    A extrema limpidez dos teus olhos, o impossível mistério do teu corpo
    … tuas vestes de linho e jaspe verde” (Pelo Deserto As minhas Mãos …) (1)

O último texto que me“leu“, noite adiante …
e a que eu lhe respondi   ....
...Sou quase assim...
   ...Venha, venha depois de amanhã, ou nunca ... dou-lhe dois dias para se aprontar; vista-se de vermelho... o resto sabe.
         (sim, poderia ser, ela tinha-me dado, nem há uma semana, o vestido... agradeci-lhe, mentalmente...)
     Disse-lhe que sim. Era tudo quanto esperava há tanto tempo ...
    E, Timóteo, ainda que adivinhasse a sombra incrustada na fenda do seu palato, viperina, desejei entregar-lhe em suas mãos a limpidez dos olhos… desejei
                                          que nunca me esquecesse…
    E ali estava,
    suspensa do baloiço de glicínias, veludo e afago. Suspensa do sibilar das  águas e dos relâmpagos em calda de morcegos e de oceanos largos,
     suspensa, 
     de um abraço…de tudo o mais, nada, a partir dai, necessitava...

Chovia … trovejava. E não o reconheci… apenas senti o vácuo, o vazio. Ainda o vi o Pólo da Florbela a chorar por mim, ao rés da estrada. Antes a força, o disfarce a tombar - o seu, o meu, o meu maior que o seu, o seu, maior e  sobre o meu,
e logo a quilha - a minha -, que empurrava, bulldozer, caterpillar... o peito,  a dor, os ossos, os  pássaros e as folhas  e os livros e os filmes e a música surda, abafada, dos candelabros, dos Limoges, das carpetes que não pisei, dos seus quadros nus que tapavam os olhos na plasticidade residual das cores, em despudor de si e apudorados de nós,   que …somos,
                        máscaras. Películas reveladas.(eu já não sou nada...)
...  
Um dia, recorda-se, Timóteo, numa dessas conversas, subitamente
    "Porque gosta de mim? Não me viu…"
E eu
   "Porque, sinto, nas suas mãos, tudo pode acontecer… até eu."
    "Minha  querida, Arminda, verá que sim..." 
                                                           Aconteci.


(1) citação da obra indicada,  autor: Victor Oliveira Mateus.
 ***

 Nota: 1ª Parte deste conto, aqui "O dia de todos os pecadores"; 3ª parte  a publicar ...

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...