Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

canção de embalar silêncio

"que só a dor amacia a dor/que só o silêncio fala a verdade/em toda a sua inicial nudez"
Luís Costa


as pestanas a beijar o rosto, foices largas no olhar humedecido,
como lágrimas
como o dia
como as searas que longe via madrugadas sol da terra antiga; os dias frios, a palidez do rosto esvaecido. e os outros, anteriores àquele e, quem sabe, outros tantos os que se lhe seguiriam.

hoje é o dia de candeias, não te esqueças de acender uma vela, dissera-lhe,
acendera. colocara-a na janela da sua procura, altar excelso de oferta,
se as candeias sorrirem, já sabes, o Inverno ainda está para durar,
se as candeias chorarem, breve o Inverno há-de findar,
no teu Inverno

naquele dia um sol em arco-íris alargara-lhe os horizontes, uma nesga de claridade, um fio de tarde estendido sereno sobre a ponte, e esta, leve e luminosa, sobre o caudal do rio,

naquela tarde
de candeias espreguiçadas em fímbrias serenas dos eucaliptos
descodificou-se,
ela e as margens, elevadas além das nuvens que, de tão limpas, estavam ali por estar, a decorar a paisagem.

agora chovia, as estacas não seguravam os barcos, nem as ruas eram trilhos seguros.
cognitivo, o percurso fazia-se em zig-zags, na penumbra necessária, como um navio fantasma a enganar os piratas em alto-mar.

apagou as luzes. tão perto quanto o verbo lhe permitia, deitou a cabeça num lugar só seu - o lago de nenúfares - quando, no fio do horizonte, os cereais carregavam sem esforço o peso das águas, incendiavam o branco dos malmequeres bravios, e o sol, na linha de cabotagem, caia a pique
na casca dos búzios e, ambas,
duas gotas de água
arregaçavam rendas dos pulsos
em punhos de carne - amassavam o pão da vida na ternura lenta dos caracóis selvagens.

antecipando miríades primaveris nas casas brancas dos seus dias,
tomou-a em colo, olhou-lhe os olhos febris na certeza das incertezas de que, reflectidas, conheciam as relíquias e os sinais de uma canção de embalar silêncios em laçadas de seda.

não sem antes lhe segredar,
Sorri!




terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A trança.

Desfazia-a lentamente, os dedos longos por entre os fios  entrelaçados. A humidade colada à pele, gota a gota, neblina pousada sobre os ombros nus. 
E ele, metade de si. Tiara, diadema...
A casa é onde o coração se esconde..., barro, ninho, ramo ou árvore. Amarrava-se. Deliberada
deliberadamente  
deixava que lhe recobrisse a nudez agora exposta. A toalha branca, de boa felpa, em que, entre uma divisão e outra, se envolvia (gostava-a ligeiramente áspera, sem amaciador) estava agora, caída aos pés
    e as palavras

    O meu António nunca me viu o comprimento da trança. Nunca…

Sentia o frio da pedra colado às nádegas ainda por moldar. Juraria que, por tantas tardes ali, por tantas horas a fio, no porfiar de agulhas e de farpas, camisolas tecidas e fios tirados no que havia de ser toalhas  sob a broa, por tempos intermináveis,   até que lá longe, na beira-rio, a buzina das fábricas da descasca do arroz soltasse todos os reclusos, um a um, seriam planas. Espalmadas e secas como o bacalhau que o Heitor cortava, no ranger de dentes,  com precisão cirúrgica. Mas não, os quadris fartos de diva de Orleães... Igual àquela que, na galeria, a olhava, persistente. A mão a amparar a queda, o rosto que, em planos contundentes, sabiam caminhos das sarças, a rasgar intentos e vontades...

    São quantas as postas, D. Joana?
    Ora, bem se vê, tantas quantos semos lá por casa
    E tem vossemecê cá a famelga que anda a labutar lá nas Franças, vá-se lá de saber?, não dei por as ver chegar…mas também, se bem pergunto, porque se  não se acostuma a senhora de os ir de acompanhar e largar por cá a sua criação e as hortênsias?
À pergunta, meia resposta,
    Tenho, sim senhor, todas as filhas, bem casadas por lá  nas Franças de Paris,  com quem não sabe da pronúncia da nossa terra, e também o Senhor António, que, desta vez, como vieram de carrinha emprestada, mo trouxeram, a minha Rosinda e a minha Hercília.  Por via de acertarmos umas papeladas…
    E adiantava
    uns negócios, umas máquinas que ele por lá há-de comprar, na troca da venda dos palheiros aqui que não me servem de nada - agora só tenho as pitas, por mor dos ovos -, venda dos terrenos, bem se vê…
    São nove as postas, então? … tem três netos D. Salomé? …
    P’ra orgulho dos meus olhos, que a terra há-de comer… quero-as altas, bem amanhadas...

    Menina, onde estás com a cabeça? Bagos de romã, o ponto: na primeira volta, já te disse: a 1ª malha tece, a 2ª malha passa e dá laçada e, a segunda volta, do avesso, trabalhas sempre em liga. Presta atento, que não me ocorre ensinar a cabeças de vento: na 1ª malha tece e a 2ª faz-se junto com a laçada…

    O meu António nunca me viu a trança, comadre Felismina, disso lhe garanto. Ora vamos lá a ver da pouca vergonha. Dizem que nas Franças as mulheres se despem nuas em pelo no quarto com os maridos. Se isso tem sentido, diga-me lá, a comadre ou vossemecê, amiga Quitéria? O seu homem, que Deus tenha em santo sossego, que se escafodeu, com perdão da palavra, lá nas Áfricas, algum dia lhe viu mais que a fralda da camisa?
     E de seguida, como que balançando o verbo,
o seu Miguel nasceu de sete meses mal medidos não foi? E que grande moçoilo, bem’zó Deus…, nem cabia nas camisas que a senhora sua mãe bordou, teria mais de cinco quilos a criança…
       E logo,
não te diz respeito a conversa, ouviste? Mostra lá o trabalho… desmancha… desmancha…   na 1ª malha tece e a 2ª faz-se junto com a laçada, não foi como te ensinei?
       agora o meu António chegou, está na cidade por via de aprontar a venda dos palheiros… quer saber,  ó comadre, que o homem queria dormir no meu quarto? E ainda mais que as filhas no ano passado contrataram a luz eléctrica… havia de ter de ver… desmanchar a trança ali, tão claro como o dia no campo…
    mostra. Agora sim, passa à 3ª volta… na 1ª malha passas e dás laçada, na 2º malha teces
    Bagos de romã,
    ...como cerejas as conversas, valhó Deus, que se faz tarde, o bacalhau é de forno, com azeite de meu governo. Pela barriga se guarda um homem, ó comadre… de maus intentos, bem se vê, que, de bandulho cheio, nem se alevantam do assento…

    O meu homem era de pouca comida, uma malga de caldo à noite e pouco mais, aventurava-se Felismina, o sol poente a repousar-lhe na cambraia da camisa bordada a cheio e sombra, a noite inesquecida, perpétua,  nas pontas da trança sob o lenço, e este, amarrado com duas pontas no alto da cabeça. Rubra, aqui e ali num matiz  de cobre e estanho. O corpete atado langoroso contrário à medida dos anos. De quando em quando, soltava acordes de uma cantiga...
    De quando era moiça nos campos, ó comadre, e por lá conheci o seu irmão e meu homme
    Vossemecê era fresca… ora deixe-me de estar calada, que não é a hora nem a ocasião se apronta útil.
    A buzina tocava. Salomé guardava a malha na canastrinha,  com um  até amanhã ,tia Felismina, tia Joana, D. Antónia …
    Vai com Deus, amanhã não venhas, que tenho de ir à cidade, com o meu António, as comadres sabem, a vendas dos terrenos…

Salomé seguia num passo de quem da vida era  ainda pó, barro por moldar; seguia o vento da tarde, rumo ao lar…
    Mais tarde
    “Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias” (1)
Cada sombra lhas contaria. Os linhos, as rendas, as malhas
    de que fugia. O arame farpado; e o monstro do Lago Ness que ouvia, do antes, réptil marinho, cobarde forma de serpente…


Desmanchava-a lentamente, desfiapando-a  entre os dedos. Fúlgida. O espelho embaciado, e a palavra
    “para te acolher” ...para te acolher...
    Tomava por fim conta do seu corpo, algures moldado por um oleiro do pó, barro original. Tomava-se para se poder dar, na plenitude da trança que desmanchava, rubra, a tocar as ancas, redondas, carnudas,
Enquanto
desmesuradamente, à beira de ser água, um dia
[a Tarde se fez Noite, o Sol, bola incandescente, tombou rotundo no palco uterino do Mar.],
E de novo era
    manhã,

    O cheiro a coco, o gel de banho colado a si, o ritual a que se dava, sem pressa e no vagar de ser instinto  - agora os dedos a penetrar o verde do pote de gengibre,  mouse hidratante que espalhava num cerimonial de mímicas e de afectos
    O pecado mora ao lado, a lezíria de fenos expostos, doirados no calor de um sol que vinha nascido a norte e se desdobrava em si

         [Tu chegaste, aragem, manto de linho poroso, complexo composto de milhões de minúsculas bocas]

    O lago Ness.O medo. O negro.
O linho, a flor,
a tarte de gengibre, a receita antiga a coberto dos bagos de romãs e, ela, sob  as rendas, que vestia, uma a uma, peça a peça, tão a seu gosto, tanto dele, oleiro, obreiro, sal e sol, sabor
de dar e receber
    Igual.     O sabor da casa, a busca do espaço, o abraço. Visceral.
    O lar, instante iniciático em que
    [a planície se elevou em arco, ondulou em  searas de brilho luz e som. E a Noite nasceu em Dia. Explodiu em cor e no cantar da cotovia.]
    Perdurado, doce… nela,  a arte, o artefacto. A tela… parede, espelho ou vitral em que se projecta
Salomé,
    “o lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo”
(2)
E onde a outra, a que desconhecida até ai, se projectava invicta a clamar no verbo,
    “Lar é onde o coração habita… meu amor”

Desmanchava a trança enquanto a jugular se enchia pulsante de um canto de pássaros do paraíso, e as mãos, inquietas,  teciam todas as malhas contingentes, sobre folhas despidas de rosas bravas, rosas brancas, num contar de contas, ábaco,  de estrelas do mar - diziam-nas acéfalas, pouco importava -, e os lábios entreabertos aspiravam os beijos e rezavam a bênção se ser mulher, e de lhe poder dar o espaço do seu ventre - avé-maria. Avé!


Eram os tempos em que, na manhã dos campos, rés às ilhoas, nos mouchões,  corriam livres os potros, enquanto nua,  se despia da pele que antes a cobria, e, em glória  a um Deus Maior, a quem cantava loas, sabia apenas da coralina cor das suas águas, metáfora progressiva de um caudal, gota  rio e logo mar, oceânica forma de ser mulher em braços, em entrega integra e fatal, e de,  asseverar, com ele ter aprendido a desmanchar sem medo a trança, a soltar cabelos fogo, e os movimentos  futuros dos quadris sem cilhas, ao  jurar saber a língua eterna dos bichos, das falhas cósmicas, de todos os pontos cardeais, dos sentidos invertidos em cadernais, do relincho das roldanas subidas em noras onde a água chora e ri, indicando o lugar exacto onde se encontram os ninhos, e neles, os pintalgados ovos dos passarinhos;

De alcatruzes compassados à  vida, deixava-se vestir na luz de sua presença, ela a cigarra travestida de formiga. Ou ambas,  numa só, e o seu nome fosse firme prenúncio de justiça salomónica: Salomé.

Desmanchava a trança,  olhava-se em espelho. 
Nem sempre jovem
nem sempre bela
e no entanto Ela, Salomé, à beira de ser, seria. E nada demais importava ou importaria senão a voz do vento e os cabelos, soltos,  a moldar o rosto ao tempo...

***
Citações 1 e 2, in Rosa Lobato de Faria, O Sétimo Veu.
Pintura de Eduardo Nery
Restantes citações do poema da autora, "Para te acolher"


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

No ventre, uma caravela.

Há quanto tempo estava ali? Perdera, por completo o  interesse no conceito do tempo, na volumetria dos dias. Como dos barcos. Apenas sabia que, do casco ao mastro, eram. Quanto bastava.  Como as fragatas do seu Tejo. Ou as outra, no mar alto... Prenhe, dizia-se, sempre "de uma caravela…"
A tempestade, por dentro. E o sangue em pernas...

No canto superior direito, quanto podia afirmar ver, no ângulo oposto àquele em que se encontrava, havia uma fenda, que, descaindo pálida pela parede contígua, deveria ter o epicentro na divisão adjacente - a enfermaria propriamente dita. E se adivinhava lá, mais macabra, mais profunda, mais virulenta,  desde a medula à pele, coberta de fungos e bolores. Aliás, em rigor da verdade,  toda a parede pedia meças à cor. Talvez -  deitava-se a adivinhar - , a original, a que se eleva dúbia acima do lambrim de madeira de pinho carunchoso, aqui e além solto dos parafusos, ora partidos, ora enferrujados, fosse amarela. Num amarelo de Van Gogh  de que tanto gostava. Ou amarelo mais claro, como os canários em cujo papo não entravam dietas vitamínicas de cenouras nem beterrabas… Adiante. Amarelo, seria. O que se poderia afirmar, convictamente, é que, da tal cor original, sobrava o assombramento pálido, morfinizado,  de dentadura atacada pelo fumo de milhares de cigarros, suspensa  por grampos imaginários em gengivas, também elas, não saudáveis.  Piorreia,  escorbuto de marinheiros.  Tudo podia ser, e seria. Assim a parede, a que a via, ali,  às cautelas e por via de, deitada…

Dali, do aquário como lhe chamava,  podia observar sem esforço, através do vidro de generosas dimensões, o movimento  repetitivo e sempre azafamado do corpo médico, o vai vém do pessoal de enfermagem, dos estudantes de medicina,  que, em grupos de quatro, cinco, não mais que isso, e sempre dois passos atrás, de prancheta A4 em punho e, onde adivinhava lugar a um papel rabiscado, tomavam rapidamente notas de tudo quanto podiam. De todas as observações que, muitas delas não entendia, de outras que, entendendo, por desconforto, ignorava. As que lhe eram dirigidas - raras vezes -, e as que, tinham como objecto as restantes quatro que com ela partilhavam o espaço. Três, separadas pelas mesas de cabeceira, denominação eloquentemente dada a um móvel de ferro, “cambeta“,  igualmente enferrujado, e ainda uma outra,  a quarta, aos pés de todas, alojada numa, mais maca do que cama, provisória, como tudo ali parecia ser.
Todos de passagem, até as caravelas que navegavam os ventres…

Ai as caravelas!!! Frutos incertos de baías e de mastros…  Na maioria, nunca se fariam ao mar…
Rotinas em que gastava os dias dos seus pouco mais que vinte anos,  para não falar, do antes,  do quando, porque ainda escuro lá fora - estava-se em pleno Inverno -, repentinamente, num estalo só,  todas as luzes se acendiam ferindo-lhe os olhos claros. 
Ou de quando,  madrugada ainda, as batas azuis e as esfregonas  mais moribundas que a sua vontade de se abstrair ao cenário decadente, avançavam por sob a cama, estremecendo-lhe as entranhas, e os sons emergiam das gargantas, em relinchos de apoteoses e cio, complementares à noite de onde algumas vinham directas, deferindo aos sete ventos, às sete colinas de Lisboa, de como, da Mouraria ao Rossio, se tinham atavidado com os amantes. De amor? Nada, de ocasião. 

Que se lixe, meninas, já basta a nojice do dinheiro de fim de mês, deste, aqui, a limpar o que ninguém vê, a vomitar despejando os filhos de umas e outras… desta merda de  trabalho, há que desfrutar o intervalo… bebi uns copos a mais;  ò Bianca, limpa aqui, trás lá a lixívia... não há??? até me admirava...  fui com o gajo, mas estava sem pica… despacha as mãos, não tarda nada temos que as fazer saltar da cama..."


Levantava-se.  O medo a reter o passo:  - nada de esforços, se quer levar a gravidez avance. E logo, como se o  movimento das águas, das que continham a caravela  viva em seu corpo, lhe fosse indiferente: você é que sabe, há muita maneira de matar moscas… pois claro.

Não replicava. Ignorava. Em mente, numa dança de vespas sobre peixe fresco,  cada uma das palavras, quando, de pernas içadas, sentiu a invasão e o sangue quente escorrido em oposta direcção: - vai abortar… são todas umas cabras, umas putas.  Como se pode pedir mais a quem não tem como comer uma fatia de pão?.

Medida única. Todas calibradas pela mesma bitola. O estigma colado na testa.
Depois…  "olha, esta é casada, diz aqui que primeiro filho…
uma pausa em rebate de consciência. tardia, contudo,
Oiça lá, quer falar como tudo aconteceu? Se calhar estava enganada, mas sabe, aqui, das cem que entram, escapa uma."...

Não respondeu. Cerrou os olhos, numa maré de espanto donde o sal do Tejo brumava a tarde, salgava mais que o verbo, sem asas, que calava. Deixou-se observar, alheia a tudo. Concentrou-se no foco de luz do estetoscópio que, sobre a bata branca do médico, recém-chegado, lhe lembrava um âncora. Sentiu um porto...
(com tudo se aprende); um tempo que, ainda que se adivinhasse longo, teria de viver. 
Ouviu então, sem pestanejar: - tem de ficar, sabia não sabia? … aqui não temos quase nada, é Stª Bárbara, como sabe (sabia lá… pouco importava), mas o seu médico é meu amigo,  trabalhou já cá, e a senhora foi-me recomendada. Terá de fazer muitos exames. Não sabemos o que se passa… é estranho, convenhamos.


 Levantava-se, portanto. Todos os dias. Todas as manhãs. A fila para a casa de banho. Um só duche sem água quente em que se lavava "à gata" quando, por fim a sua vez chegava. Lavava-se, a opção é sua,  de mangueira ou de garrafa, ou fazendo recurso das duas, dado que, duche, propriamente dito, não havia... um tubo de ferro, perpendicular à parede e outro, uma cruzeta, donde a água corria menos que do gargalo… à família, nada dizia:  - Estás bem? ...óptima, há que esperar…


Era Dezembro, disse-lhe. - Será hoje. Vai ver que tudo corre bem. Terá de ser. Não coma nada nem beba, de agora em diante. A enfermeira já lhe dará pormenores…
Que pormenores? Tudo era secundário.
Como se chama, diga-me por favor… a tal "caravela" que não quer navegar, Sr. Doutor… 
Soltou o palavrão: Hydatidiform Mole… é muito nova, verá, daqui a dois anos pode, se desejar, voltar a engravidar…

"Hydatidiform Mole…", então... e que era lá isso, que não sabia?
De uma coisa  estava certa: era mole demais, nunca se faria ao mar. Naquela noite não dormiu. Na manhã seguinte, quando por fim voltou ao quarto, vomitava o que não tinha comido.
“...putas… eu bem digo, esta, uma sonsinha, deve ter espetado uma agulha pela “…” acima… agora vomita e e eu que limpe…  a malta tem que ter um estômago..."

Era Inverno, quanto se recordava. Teria vinte e picos anos. (São verdes os verbos, malbaratados...)
Às vezes para enganar o tempo  deixava que  a negra da cama ao lado lhe fizesse do cabelo longo, longas tranças... ficou-lhe o gosto, o hábito... em tudo o ensinamento, sempre afirmou. E, nem porque prenhe de um sonho, naufragado, era agora que o negava... 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Como um girassol


“O meu olhar é nítido como um girassol./Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,/ E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto…”
(1)



O jardineiro pegou na saca branca cheia de nada e dirigiu-se ao vento. Abriu as mãos. Introduzindo-as profundamente sacou um punhado de sementes. Lançou-as suaves sobre a terra seca, um composto de solo comum, terra vegetal e areia, tudo bem incorporado.
Cobriu-as então um sopro forte dos ventos de fim de tarde.... As  chuvas chegariam, estava certo disso - as andorinhas já tinham partido. Estava só, num excessivo campo vazio. Era um tempo árido e infrutífero, pensava, tantas e tantas vezes, eremítico.  Ele apenas e a sua cognição. E a natureza das coisas, que aprofundava.
Enquanto as chuvas não caiam, e,  como recomendado, decidiu regar a esforço de braços e de baldes, sempre que o solo se apresentasse seco.
Cada dia mais curtos, os dias, diziam-lhe ao ouvido que os frios se abeiravam. Com eles, as geadas. O campo, antes serpenteado a verde e a vermelho, quedava-se  alvo, enregelado. Por esses dias, o jardineiro, ocupou-se de outras plantas sob o abrigo da pequena casa onde vivia. Mas o relógio teimava em mostrar-lhe a mansidão dos ponteiros intolerantes e desassertivos  com a avidez dos seus sentidos.  Haveria que reocupar-se de outras formas, pois então. Assim  pensou, melhor o fez. Com os restos, com os trapos das roupas debotadas das longas caminhadas, com a palha seca dos trigais, habilitou-se a construir espantalhos “ …dizem que as searas precisam de protecção; para isso servem os espantalhos...”.  Tarde após tarde, noite após noite, fez um, e depois outro, e mais outro, e outro mais. Todos diferentes, como diferentes os dez dedos de suas mãos, ocupadas na construção. Os espantalhos eram tantos, que, a casa minúscula onde vivia, parecia  agora habitada.

Semeara girassol. Ouvira dizer que essa planta trazia a bênção em qualquer jardim ou campo onde brotasse. O seu elemento, o Fogo. O fogo que queimara a sua alma, durante tantos anos.

Enquanto esperava pela chegada das suas amigas andorinhas e pela Primavera, estudava. Aprofundava conhecimentos sobre o mundo das plantas e dos animais, e, aos poucos, percebia que tudo era energia, tudo era matéria. Todos um só. Sobre o girassol descobriu as origens: - introduzido na Europa durante o século XVI, "domesticado". Proveniente da região temperada norte americana, onde os indígenas convertiam as sementes em farinha alimentícia.

Pensou então porque escolhera plantar girassol. Nada acontecia por acaso, como tantas vezes havia referido o mestre.O girassol reunia em si mesmo as características que mais admirava nos seres humanos:  alta resistência e adaptabilidade. Duas características fundamentais, de que tanto haviam falado, quando,  por alturas do fim do dia, migrava ao alto da montanha para lhe falar:

“Jovem jardineiro, semeia girassol. Para além de alegrarem o teu terreiro, são plantas com as quais podes aprender lições constantes, das quais, quicá a mais pertinente, seja o facto de girar para o lado que se move o Sol. A penumbra torna os seres vivos mortiços e tristes. O Sol devolve-lhes a energia. Sol e a água abundante, nunca esqueças. Se não tratares do teu jardim, em breve ele definhará e morrerá. Na água, encontras o princípio de todas as coisas. O girassol têm ainda  uma característica que deves sempre recordar: armazenar. Esta planta sabe fazê-lo como nenhuma outra, e fá-lo em quantidades excedentes. Os humanos esquecem as regras básicas da mãe natureza: armazenar – armazenar sempre, para épocas de necessidades. E, podes crer, que um dia virão. Sob as mais variadíssimas formas...
Quando olhas alguém, lá no fundo dos seu olhos, e vês amor, pensa: “pode não durar para sempre…". Então, fecha os teus, e retêm essa dádiva. Se um dia te faltar, viverás da recordação, até que, um novo olhar,  te faça sorrir de novo... seja o sol da tua vida. Quanto à água, deixa que tombe dos teus olhos nas ausências.- a água procura sempre o seu curso. Nada adiante retê-la. Estagnada mata a vida que contém em si. Ajudar-te-à, por certo, a sarar feridas, lavando-as, em primeira instância,  em ti mesmo.
Aprende ainda: esta planta, um dia maturada (formado o total de folhas que deverá de ter), dependerá uma vez mais, do Sol, dado que, o ritmo de aparecimento das mesmas, será governado pela temperatura. Logo, quanto maior for, quanto mais alta conseguir chegar, menor será o tempo necessário para a floração -  ou seja, para mostrar o pleno da sua beleza. Uma curiosidade, meu jovem: as folhas são alternadas, em forma de coração, belíssimas.  Todavia…  ásperas  - o amor,  manifesta-se, na prática, também de muitas formas e feitios - , disse, em tom quase inaudível, prosseguido:
...de certa forma por isso,   muitos não reparam sequer nelas, ou, reparando, hesitam em tocar-lhe, com receios infundados…
 Outra ainda:  para que possa crescer em segurança, têm que desenvolver uma raiz profunda, perpendicularmente ao solo, quase tão funda quanto a altura que pretende atingir. Como poderia ser de outra forma? Sem raízes que a suportassem, tombaria a qualquer abanão de vento... "

Assim falando, o mestre, suavemente evaporava-se tal como tinha aparecido… Reaparecia dias depois continuando no exacto ponto onde tinha parado:

"Sob batuta da mãe natureza ocorre a polinização. Numa cadeia de solidariedade, surgem insectos polarizadores - abelhas, por exemplo, como as de que te falei, quando me sondaste sobre a punção do amor..."
O jovem escutava, perplexo. O mestre continuava:
“...do Girassol, nada, mas mesmo nada se desperdiça. Tudo é utilizável (re-utilizável).”

Deu-se conta, de que, para além de bela, aquela planta ser-lhe-ia utilíssima:  aproveitaria sementes, flores e os ramos. Voraz em saberes, inquiriu o mestre:
“E essa planta magnífica de que me falas, têm outro nome?”.
“Sim, o seu nome científico é Helianthus Annus, "flor do Sol". Semeia no teu jardim e espera! Aguarda com serenidade o dia da sua total maturação. Nesse dia experimenta sentar-te à sua sombra e goza o chapéu que te disponibiliza. E agradece…"

Embrenhado em reflexões sobre estas lições de vida o Inverno foi passando. A construção dos espantalhos contribuíra decisivamente para lhe ocupar as mãos e o pensamento. Por vezes, detinha-se langorosamente  a perscrutar o campo, que, timidamente germinava, a identificar o lugar mais vantajoso para os colocar- não, não os deixaria ao acaso, apesar de, como a todo o criador,  só o facto de antever a possibilidade de  os deixar a sós no meio das colheitas, lhe confrangir a alma. Teria de ser, contudo. Teriam de seguir o seu destino de espantalhos. Todavia, decidira que, de todos, havia um de que nunca se ira separar. Vestira-lhe uma capulana, de cores garridas, vermelhas, verdes, amarelas, encontrada bem lá no fundo do baú do passado. Fizera-lhe o cabelo longo, quase branco, a palha de milho. As feições, desenhara-as de memória. Os olhos, dois corais da praia. E as mãos, ai as mãos … essas deixara-as soltas, livres. Para o abraço...

Num dia de maior tristeza, durante uma forte trovoada,  parecera-lhe que o espantalho vestido de capulana, falara. O barulho ensurdecedor dos trovões e o brilho dos relâmpagos sobre o milheiral, impediram-no de,  no imediato,  lhe prestar atenção. Finalmente, quando tudo serenou, ouviu com mais atenção e percebeu que o espantalho-capulana trauteava baixinho canções da Mãe África...

Como um menino perdido, libertou as lágrimas contidas durante anos, limpou a cara ao pano da capulana, abraçou a capulana, num abraço biogenésico de tão profundo…Rapidamente se esqueceu do mundo. Deixou-se embalar ao som dos sons da sua terra, das canções que conhecia.  

“Dorme, dorme meu menino / Foi-se o Sol, nasceu a Lua / Qual será o teu destino, que sorte será a tua?... Dorme, dorme meu menino.”. (2)

Adormeceu e dormiu como só dormem as crianças: entre os dois renascera a esperança.
     A capulana falava-lhe de África, o jovem de milheirais.
    A capulana contava contos nas línguas ocidentais - aprendera-as falando, com os restantes trapos, no fundo do secular baú…

Naquela noite o jardineiro sonhou: - a capulana envolta em si, nas costas de uma africana. Sentiu e não renegou o cheiro de sua mãe, sentiu e aprofundou, cada compasso das batidas do coração; sentiu o cheiro do milho, esmagado sob o pilão; sentiu os pés doridos de tanto pisar o chão; provou e até gostou, Ebó,  comida/ safra -  farinha-milho, esmagada sob o pilão resgatada do milheiral; a  farinha que temperou com lágrimas grossas, sabor do sal, mais azeite ocidental...
                             
                          ...à falta de dendê, que não o produzia no seu quintal.

Como um girassol…
“… Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…”
(3)


Citações, 1 e 3 : Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 1914
Citação 2: Canção popular de embalar. 
Pintura de João Fróis

domingo, 17 de janeiro de 2010

O relojoeiro sem tempo



Eram dele todos os relógios. Não as horas, dizia amiúde  para quem o quisesse ouvir.
Dizia-o por debaixo do monóculo com que afinava a luz do dia nas pinças pudicas com que lhes tocava os órgãos expostos, desventrados, oxidados pela corrosão salobra em proximidade à borda-d’água. Milhentos relógios que guardava em precisão cirúrgica e que cuidava em  hiantes  de abismos matinais.
Ria-se deles, algo trocista. Sem ele, seriam... nada. Caixas disfuncionais de ressonância vazia.

Perdera há muito o rasto do dia em que, cada um, chegara à sua vida. Alguns (muitos) tinha quase a certeza de que os herdara num qualquer tácito testamento - de pai para filho, de espaço em espaço, de loja em loja,  onde a família assentara arreais, da Rua da Alegria à Belavista, onde agora,  para seu desconcerto, os sons do rock suplantavam a aficion dos demais passante, que ainda há tão pouco tempo, se rendiam  à sua arte.
Da costureira de bairro, à varina, passando pela menina de análises laboratoriais, que trabalhava, dissera-lhe um dia, no Parque das Nações...

Outros (dos seus relógios) juraria que os havia comprado em leilão, em hasta pública. Tudo podia acontecer, não é verdade?  E acontecia, não raras vezes, o que, em rigor da história e para o caso, não mudada uma virgula.

Eram dele todos os relógios, portanto,  e, para que constasse,  dele a vontade de a todos manter vivos - dava-lhes corda, a espaços, paulatinamente, um a um, sem desconcentro. Centrava-se na presunção de que, dessa maneira, cada graveto de metal de que cada qual era composto, cada átomo de poeira que tentasse encravar a engrenagem, cada rolamento minúsculo, cada filamento de cobre, todos, mas todos, fosse qual fosse a função ou o seu oposto (virtude disfuncional), sem qualquer dúvida,  saberiam onde e quando, estava a pinça do comando, alinhados em carreira, antes que manifestassem a seus olhos inequívocos sinais de estrabismo e cegueira. De agonia pulsante. De desvio. De  disrupção. Eram relógios certeiros, de ritmos obedecidos. Nutridos e animados pelo desvelo de seus cuidados…Afirmava!

Eram dele todos os relógios, pois, tão óbvio quanto claro, que comandava ao som crepuscular de um barítono escondido algures numa qualquer distante estação de que, ele, e apenas ele, detinha a chave mestra em mão. Não a vendia nem a trocava por qualquer outra atracção e, como já se disse, noite e dia zelava, para que, há hora exacta, no minuto certo, na casa toda, unida na vertical, por patamares, varandins, escadas - angulares, de caracol - , de alto a baixo, em cada piso, em cada sala, em cada quarto, em sintonia, ecoassem certas as badaladas, os cucos saíssem,  se cantassem as “avés-marias” nas madeiras ressequidas em sincronia ritualista, pois que - ele aprendera na Bíblia -, Deus tivera a certíssima intuição de criar o mundo ao sétimo dia...
E, se assim fora, só pudera ser porque, nalgum lugar escondera o relógio da criação - Um solista confiante que lhe havia soltado a nota certa em pavilhão d’ouvido…Ao sétimo dia, fazia todo o sentido!!!
Um alquimista, alguém que sabia de metafísica? - indagavam do demais.
Pois, a isso não tinha como responder… Desde criança, mais cedo que cedo, o que lhe fora dado aprender fora da mecânica dos relógios, da forma exageradamente contorcionista e necessária para subir e descer a todas as bancadas, a todos os escaparates, a todos os expositores, sem nenhum esquecer,  e, não menos, a importância de ter, bem exercitados,  todos os cinco sentidos. E um sexto, se é que isso poderia acontecer.
Não sendo mareante, como se disse, vivia à beira mar e sabia da importância de saber medir a distância angular dos astros : o quão distantes estão acima do horizonte… Na sexta parte do circulo, num ângulo de 60º, na perfeição do sextante, o seu sexto sentido, dera-lhe então a necessária intuição para, naquele mar de grunhidos, em prenuncio de tempestades, pôr o corpo a pensar. Todo o corpo, indo mais e mais longe, que as leis lógicas da razão. É de emoção que estamos a falar…

Tomou-se de solipsismos  - afinal não fora sempre a sua vida, a mais completa solidão? -vestiu-se a rigor. Casaco azul escuro, assertoado. Não antes de se ter lavado minuciosamente, num banho de tina, demorado. Ainda envolto numa toalha aquecida, dirigiu-se frente ao espelho. Num bafo quente, desembaciou-o. Olhou-se demorada e minuciosamente. Pegou na navalha, que afiou. Colocou-a de lado. Depois a espuma, numa emulsão meio oleosa - a pele seca a tanto obrigava. Mexeu e remexeu, até que, por fim, quando a caneca transbordou, achou o tempo certo. Esticou a pele o mais que pode, deslizou a lâmina sobre a maçã de Adão.
Não, ainda não era o momento.
Dirigiu-se ao quarto. Vestiu, uma a uma todas as peças previamente preparadas. Calçou-se "que um homem nunca pode ser apanhado descalço!!!". A custo, dobrou-se, abotoou os atilhos dos sapatos. Olhou-se de novo no espelho, agora do quarto. De alto a baixo... Aproximou-se da janela. A tarde caia nos fios de telefone. O advento da electricidade... "grande obra a do homem, sua Santidade"
Esboçou um sorriso trocista. Colocou o relógio no pulso, cofiou o bigode...

 Aos poucos, um a um, todos os relógios da casa deixaram de trabalhar. O silêncio total. Apenas os ratos, desinquietos, trepam mesas desconchavadas pelo caruncho e os pés de galo das cadeiras. O cheiro nauseabundo.
Em forma disforme, uma teia de aranha tece a rede e une, um a um, cada peça de um puzzle em  desconstruto.

Foi a enterrar ontem. Dizem, contudo,  que já tinha morrido há muito … ninguém sabe em rigor quando. Eram dele todos os relógios…
             Não as horas.
O seu nome?  Arguto.  Ludovino Arguto.  Ou Lulu, para os amigos ...


Trabalho fotográfico de
José de Almeida & Maria Flores

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Balbucio's


Pese embora a forma como chegara ao bairro, corriam os fins dos anos sessenta, o senhor Aquilino era estimado e considerado por todos. A fazer jus ao nome, já entrado na casa dos setenta, mantinha o porte e a verbosidade de sempre. Sem ocupação outra que não de vigiar a miudagem e arbitrar contendas entre vizinhos, gastava o dia para cá e para lá ao longo da linha branca orlada a amarelo ocre: o “seu” bairro. Em passinhos mansos, como quem “não quer a coisa”, o Senhor Aquilino, às páginas tantas, tinha ganho, à boca pequena, o epitáfio de “o pisa-flores”. O “pisa-flores” para cá, o “pisa-flores” para lá…
Com o decorrer dos dias, dos meses e dos anos, quase todos se tinham esquecido do seu verdadeiro nome, ou melhor dizendo, daquele com que se tinha apresentado aos restantes moradores, quando, numa tarde alcantilada nas memórias de todos, a Vivi, Virgolina de seu nome, por ele se fez acompanhar de braço dado…
Teuda e manteuda, abrenuncio Santo Padre…, bem se via pelo andar da carruagem que este era o destino dela. Nunca teve dez alqueires de siso. O povo diz com razão: "muito riso, pouco siso". Por conta, é o que é. Uma afronta para o bairro. Somos gente pobre, mas digna. Aqui nunca se viu coisa igual…”
Vira. Mas a memória colectiva era curta. E apontar o dedo dava jeito. Enquanto se apontava o próximo não se falava das misérias próprias. Mas isso era “outros quinhentos mil-réis” e, do que vos falo hoje é mesmo do “pisa-flores”. Ora não nos desviemos então…
À porta do número 31, lá estava o Ford preto, chovesse ou ventasse, estacionado e empoeirado pela falta de uso. Só uma ou outra viagem à cidade se impunha e, nesses dias, nos que antecediam ao grande acontecimento que era o de ver o Ford de marcha à ré a levantar poeira por todos os cantos, Vivi e as manas, desdobravam-se em idas à fonte, lavando primorosamente o distintivo da sua “qualidade de vida”… zelando escrupulosamente para que, nem um só risco ofuscasse o fulgor do dito, quando descesse até à, Nacional 10. E, claro, nos lavadores e nas lojas, por onde passavam ou mandavam se não iam, sempre iam anunciado a necessidade imperativa do “Senhor Advogado Aquilino”, ir à cidade receber as rendas e vigiar o bom andamento dos seus negócios…
Por aqueles tempos não se sabia ao certo que negócio tinha o “Senhor Advogado”, nem que rendas lhe eram devidas. Fossem quais fossem, o certo era que, sempre que voltava, a Vivi ostentava o sucesso das itinerâncias e os dias da ausência eram sempre de grandes labutas. A casa arejada, encerada e limpa ao pormenor. As jarras enchiam-se de flores e Vivi dormia e andava de rolos na cabeça vários dias antes. No dia da chegada, defumavam-se as divisões com folhas de laranjeira e rosmaninho e mais umas quantas plantas secretas, por via dos maus-olhados. Vivi vestia um dos seus melhores vestidos, as manas gastavam meio dia a ripar-lhe os cabelos até ai enrolados em rolos, como já se referiu, e cuidavam para que tudo fosse a contento do “Senhor Advogado”. Os acepipes, o prato principal… O vinho...
E, ei-lo que chegava…
Nos dias seguintes ao regresso, quando os homens voltavam das fábricas e dos campos, lá estava ele, encostado à figueira centenária, com o cachimbo da “paz” na queixada adunca… Esperava-os para lhes falar da cidade grande e, como não quer a coisa, ir ouvindo aqui e ali o que lhe interessava ouvir: dos bulícios, dos desconfortos, dos anseios e movimentos dos trabalhadores: - “Confidente, meus senhores… estejam comigo à vontade, mas olhem o balbucio… falem baixo, nada de confusões, perguntem, perguntem que, no que puder vos hei-de ajudar… mas cuidado com o balbucio, homens, cuidado…É que há a lei e o espírito da lei, como sabem…”. Enfatizava o “balbucio”, vezes sem conta… O eco propagava-se em mim, desmesuradamente: “Balbucioooooooooo”…
Menina que era à altura, agarrava-me ao macaco que meu pai vestia, tremendo que nem varas verdes… Balbucio? Quem seria? Se havia uma Balbina, uma Ti-Balbina, podia ser um Ti-Balbucio… mas não me fazia sentido… Os “Ti” da serra eram todos pachorrentos e boas pessoas e aquele “Balbucio” a fazer fé no tom com que era prenunciado, pela certa era ou bicho ou coisa ruim… Temia, pois. E, porque me haviam ensinado a não me meter nas conversas dos adultos, não perguntava nada mas quando a noite tombava e as estrelas se escondiam no galinheiros das minhas “pitas”, escondia-me por sob todos os cobertores e rezava ao menino Jesus para que me livrasse do “Balbucio”… E ao pai, à mãe, aos primos, e aos vizinhos… E à minha cadela Traquina, e ao meu gato Jeremias… A todos. Todos…
Correram os tempos. As viagens continuaram. As do Ford, as do Senhor “pisa-flores”… E, curiosidade das curiosidades,  a aldeia deixou de ser tão tranquila…
A cada “itinerância” do Senhor Advogado, correspondia uma agitação sem comparação no antes… Homens estranhos começaram a visitar a aldeia amiúde. A visitar as casas de cada um. A vasculhar as casas de cada um, detalhadamente. As vidas de cada um…O banzé, o “balbucio” tinha por fim chegado sem aviso… Mais baixo que se pronunciava o cognome de “pisa-flores”, passou a correr outro cognome como senha … “o Pide…” Mas não a tempo de uns quantos, aqueles que haviam solto a língua naquelas conversas inocentes de fins de tarde sobre as figueiras dos figos de capa-rota, não terem “rebentado a boca”. Uns presos, outros admoestados e devolvidos provisoriamente à liberdade…
Agora já ninguém confiava a disputa das contentas ao Senhor Advogado, nem sequer paravam por perto dele. Agora era o tempo de cerrar fileiras a estranhos ao bairro. E cerrar a boca e abrir os olhos e os ouvidos. E medir o rigor de cada palavra. “da lei e do espírito da lei”, dos rumores e dos balbucios, do “diz que disse”.
Não disse! Não ouviu! Não viu! Nem sabe quem viu, ouviu ou disse…
Estancar a verborreia num garrote apertado… Apressar o passo!
Afinal, foram dele sempre as palavras “olhem o balbucio, meus senhores, olhem o balbucio…”.
                            E minha a intuição de que “balbucio” só podia ser coisa ruim…


Trabalho fotográfico: Dias dos Reis

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Caminhos de Fé...


Importava dizer como a conheceu.
Do que se recordava, fora num daqueles dias em que os parceiros de redes sociais se interligavam. Não era interna, não fazia parte dos a que chamava “os nossos”.
Viu-a chegar, num andar lento e pesado. As pernas inchadas, rubras, grossas como troncos. O corpo largo, quase quadrado. Vinha sozinha. Cumprimentou num sorriso semicerrado quem estava. Entrou a custo no autocarro que os haveria de levar, a todos, técnicos, voluntários, idosos - institucionalizados ou não -, a um dos passeios coordenados pelo poder local.

Era Primavera, os dias já largos, claros. Para trás ficavam os chuvosos que os haviam retido em casa, tementes às enxurradas que, tantas e tantas vezes, não poupavam as gentes nem os bens das Lezírias. Nem os dos montes. Nem os das serranias a jusante. Na fúria das águas não se confiava, diziam todos, e certo era. Cautelas, portanto. E a bênção de Deus e rezas a Santa Bárbara. E a todos os demais santos de suas particulares devoções. Nunca seriam em demasia, face à força das águas…
E aquele tinha sido um Inverno caudaloso, sem dúvida, em que, para além das chuvas, por vezes diluvianas, o frio se fizera marmóreo, colando pestanas e vontades. Em suma, dias e dias de forçada reclusão nas entranhas da Instituição, alegrados a espaços pelas visitas - também elas escassas -, dos familiares, dos amigos…

Os dias que antecederam ao passeio foram de grande excitação - a ida a Fátima era sempre um momento especial, quer pela religiosidade intrínseca do local, quer porque, em regra, marcava o início da temporada das saídas.

Entrou a custo, muito custo, no autocarro cedido pela autarquia para efeito. Valeram-lhe as mãos, as forças, das auxiliares. E as palavras de estímulo que ouviu “...suba D. Arminda, vá lá, ponha aqui o seu pézinho, apõe-se sem medo em mim… sou pequena mas sou de ferro, a senhora sabe..."  e, lá do cimo, rés ao volante, tão redondo quanto a barriga, a voz do motorista: “ora aqui temos a D. Arminda… desde o ano passado que não a via… cada dia mais nova, é o que é… hoje o dia é de Fátima, trouxe o terço??…”

Sorriu e subiu. Subiu os três degraus que a içariam ao interior do autocarro. Olhou ao redor a medir os passos e os espaços vagos. Necessitava de quase dois… Maria fez-lhe um sinal…
- Aqui, D. Arminda (acabara de ouvir o seu nome, pela primeira vez). Aqui, se não se importar. Faz-me companhia, por favor…, disse-lhe, afável.
Olhou-a desconfiada. Donde sairá, que não a conhecia? Olhou os demais, os “institucionalizados”… e, sempre ajudada, sentou-se. Maria encolheu-se quanto pode de encontro ao vidro lateral. Desejou ter menos vinte quilos, se possível… e, intimamente,  sorriu de si mesma e dos seus pensamentos “credo, seria um pau de virar tripas…”

A viagem, por fim, começou. Tomaram a Auto-estrada do Norte, rumo a Alcanena. Ao lado direito, a vastidão das vinhas e das lezírias, afastavam-se vertiginosamente nos primeiros raios de sol da manhã. E as águas sempre adivinhadas do rio, de igual maneira. Alguns cantavam, outros, de pandeiretas em punho, tentavam acompanhamentos desafinados. D. Arminda era total silêncio. Uma lágrima deslizava-lhe as rugas pouco vincadas num rosto largo. A bandolete, em desuso, de várias décadas, sustinha-lhe os cabelos grisalhos. As mãos sobre o colo retorciam-se em ânsias. Desconforto nítido. De ambas. Maria por não saber nada sobre D. Arminda, optou por nada fazer a não ser, tornar-se "transparente", e delongar-se na paisagem.

Estavam agora em pleno Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. O panorama alterava-se a cada segundo.  A rocha,  sempre presente. Os algars, os campos de lapiás, as dolinas…estranhas formas e estranha, gloriosa, a grandeza da natureza, pensava para com os seus botões.

Aqui e além, subiam aves… Aves que, nesta heterogeneidade de habitats, encontrariam, por certo ali, o melhor dos mundos …Gralhas-de-bico-vermelho, bufos-reais… e  flores - que belas as flores - os narcisos de mãos dadas com os alecrins. E, sobre estes, altivos, indómitos,  os carvalhos a par das azinheiras…

Um rumor de corpo mais inquieto trouxe-a à realidade mais próxima. D. Arminda agitava-se no acento, sobressaltada…
- Está bem, D. Arminda? Posso ajudar? Necessita de alguma coisa? Quer que diga ao sr. motorista para pararmos na próxima Estação de Serviço? - foi avançando, na presunção de que, eventualmente, necessitaria de ir ao “privado”…
- Não, não, minha senhora. Estou bem, este caminho é que me trás memórias de morte… naquele dia, quem devia ter morrido era eu, não elas… ou no outro, anos antes …
Silencio absoluto. Maria não perguntou nada. Arminda nada mais adiantou. O autocarro prosseguiu a marcha. Repentinamente...
- ... Morávamos aqui perto, numa aldeia ao rés de Fátima. Quase há cinquenta anos. Com a minha falecida mãe, que Deus a haja… e aqui começou a minha desgraça…
De novo o silêncio. E as curvas sinuosas da estrada agora municipal. E os muros a dividir espaços. De pedra. Como de pedra, de novo, o mutismo…
O autocarro parou, por fim, no parque destinado a essa  finalidade. O Santuário visível já:
- Chegámos. Como todos sabem, vamos dividirmos-nos em grupos. Visitaremos o Santuário, haverá tempo ao recolhimento, assistiremos à Santa Missa… Depois, iremos almoçar - está tudo ali, meus amigos… a sopa, o arroz de tomate, os pasteis de bacalhau, a fruta … a água, o chá, o leite … Os da “comunidade” podem e devem juntar-se a nós. Temos de sobra e, o pouco bem dividido, dá para todos,  não é verdade? … De tarde descansaremos. O regresso por volta das 16 Horas, está certo?

Distribuídos os grupos de idosos pelas auxiliares e técnicos, ajustados os planos de apoio mútuo, cada qual seguiu rumos particulares. Maria permaneceu no grupo de D. Arminda. Deu-lhe o braço e foram lentamente andando. Poucas palavras. As necessárias, contudo,  à vinculação afectiva. Missa assistida, o almoço. E, subitamente...
- Como lhe disse de manhã, menina, foi por aqui perto que começou a minha desgraça… há mais de cinquenta anos atrás… ela teria hoje perto da sua idade … mais velha, mas pouco. E seria como a menina. Os olhos eram tão azuis… às vezes verdes, não sei. Como você… Chamava-se Maria. Maria de Fátima….

Era, pois,  a hora de almoço. Comeu pouco, quase nada. Do que trouxera de seu, do que a Instituição oferecia. Findo o almoço, os grupos reabraçaram-se por interesses comuns. D. Arminda sentou-se junto ao muro que os separava do Santuário. Olhou-a enternecida. Fez menção de se sentar a seu lado. Ela percebeu ...
- Sim, sente-se aqui a meu lado. Temos tempo e tenho, quero, preciso,   lhe contar tudo…
Sentou-se. Antes procurou o saco dos bonés da Instituição. Pegou dois. Colocou um em si mesma  e depois ofereceu-lhe o segundo...
- o Sol ainda anda baixo, D. Arminda, quer usar este?
Abanou a cabeça afirmativamente. Maria colocou-lho levemente. Vazou chá em dois copos, ofereceu-lhe um. Sentaram-se ambas, sob o cheiro dos círios que queimavam próximos, ao som das vozes em conversas cruzadas e das rezas pegadas.
D. Arminda, sem levantar os olhos do copo, bebeu-o num trago e continuou…
- Chamava-se Maria de Fátima. Tinha dois anos, era uma menina delicada, de caracóis louros, com uns olhos tão lindos… naquele dia, deixei-a com a minha mãe e fui à missa. Era Domingo. Quando voltei, ouvi choros aflitos ao longe. Pressenti que alguma coisa de muito má tinha acontecido. Desatei a correr, carreiro adiante, em direcção à porta (nesse tempo tudo podia…).
Vi de imediato tias e primas … E lá dentro, menina, a minha Maria de Fátima… negra, sem vida, nos braços de minha mãe. O médico disse-nos que tinha sido uma convulsão de febre… mas ela nem doente estava…
Minha mãe chorava, inconsolada. Dizia que ela se tinha finado como um passarinho, que nem sofrera… Que Deus a tinha chamado, anjo que era …
Parava. Olhava o espaço ao redor sem lágrimas. Tomava-se de forças e continuava:
- Depois do funeral, partimos. Não havia quem nos fizesse ficar na terra que haveria de comer o nosso sonho… a nossa menina. Meu marido era pastor. Partimos sem destino. Sem bens. Parámos em Vila Franca - tínhamos ouvido falar de que haviam por ali lavradores. Pensamos que ali podíamos começar de novo. E assim foi. O meu marido a pastorear o gado e eu, de criada de fora. Deram-nos uma casinha térrea, num saguão traseiro às casas dos senhores, perto dos estábulos. Nada tínhamos de nosso. Só a mágoa e a saudade …
E de novo o Senhor nos deu a bem bem-aventurança de sermos pais. Uma casa cheia de risos… Uma e outra e outra filha. Sempre meninas, anos após ano. Cinco. Tínhamos cinco meninas naquela noite …A todas demos o nome de Maria, louvada seja a mãe de Jesus…

Os demais idosos ocupavam-se em conversas, em jogos, ou dormitavam, sentados nas cadeiras, em particular os que ocupavam as cadeiras de rodas. Os que melhor se moviam davam passeios circulares e sempre curtos - por via de não perder as horas -, voltando a cada dez ou quinze minutos ao local onde o grupo assentara arraiais. Pontualmente, um ou outro, pedia apoio para a deslocação às casas de banho, ou às lojas de lembranças. Voltavam com pequenos presentes destinados a filhos, a netos. Voltavam de rostos iluminados com as suas escolhas…

Maria ouvia em silêncio D. Arminda. Apenas os olhos de ambas se tocavam.

- Naquela noite… naquele dia, menina, fez há meses quarenta anos, naquela noite de Novembro, depois de um dia inteiro a chover, a chover sem parar, sem podermos chegar à rua, aos bens necessários, sem as meninas poderem ver aos cães e os gatos, que tanto gostavam, sempre dentro de portas, por via do temporal, tudo se alagou. O gado mugia aflito, que era um dó de alma, a adivinhar a calamidade que nos haveria de derrubar a todos. Os cães uivavam, menina, de cortar as entranhas… Rezávamos, tementes a Deus, que outra coisa não podíamos fazer. Acendemos velas e rezávamos …

A minha mais velha, a Maria das Dores, tinha então oito anos. A mais nova era de berço, ainda a amamentava. Quando as águas começaram a encher o pátio, sem escoar nas sarjetas, o meu José tentou chegar ao estábulo para soltar as ovelhas, menina, mas as águas vinham de lá de cima, uma lamaçal só, um mar de lama. Por um pouco não foi arrastado. Conseguiu entrar em casa, trancamos todas as janelas com os poucos móveis que tínhamos, cada um de nós com uma das filhas ao colo; colocamos as restantes três , julgávamos nós, a salvo, sobre a mesa da cozinha… a aflição era tanta, tanta. A água entrava por todo o lado. Tudo negro, menina, como breu. Sem luz, dentro e fora de casa, só a dos relâmpagos varavam  na força dos trovões. Nada mais havia a fazer. Abraçados rezávamos, sempre a segurar a mesa e as meninas…
A porta cedeu, tudo aconteceu em segundos. A cólera das águas era bem maior que a força do meu Zé, que tentava, dando-me a menina a mim, fechá-la. Luta desigual. Tão desigual… As minhas queridas filhas, choravam de medo e frio, todas molhadas… e, menina, num segundo, as janelas abriram-se de par em par, a água nivelada dentro e fora … a mesa virou-se… nunca mais as vimos. Não conseguimos, menina. Quando, por fim desceu, ficámos cada um de nós com uma em braços… Depois disseram que tinha sido na hora da praia-mar, em que as ribeiras e os esgotos não foram capazes de escoar as águas… E a água, na força toda, tudo levou: casas, pontes, pessoas… as nossas filhas, menina. Três das nossas cinco filhas foram-se para sempre naquela onda destruidora.
No leito da cheia, menina, dormiram eternamente… Enterramos-las todas, por Deus os corpos foram encontrados nos dias seguintes, soterrados em entulhos, nuinhas…
A nós, os pobres, parece que as tragédias chegam mais cedo… Naquela noite, menina, perdi tudo (ou quase tudo)… menos a Fé.
E olhando-a como se a visse pela primeira vez naquele momento, perguntou-lhe:
- Como se chama a menina, desculpe …
- Maria… Maria de Fátima…
- Não … não pode ser. Chama-se assim mesmo? Não pode ser … Louvado seja o Senhor...
- Sim, D. Arminda. Foi o nome que minha madrinha, em honra a este lugar de fé, Fátima, me colocou: Maria de Fátima …
Arminda agarrava-lhe as mãos. Afagava-lhe o rosto num gesto incontido. Beijando-a, enrolava os dedos nos cabelos de Maria, em viagens de memórias …"Maria de Fátima"...

O céu escurecia subitamente por entre as azinheiras e as oliveiras, ameaçando chuva. Rapidamente se reuniram os pertences, não fosse a meteorologia ensombrar, ensopando calamitosamente, o que tanta falta fazia… Um após outro, todos os idosos, ajudados ou não, tomaram lugar no autocarro. O lanche foi servido ali mesmo, dentro do veiculo parado. Maria, após o mesmo, retomou lugar ao lado de D. Arminda, que, depois de liberta daquelas memórias, por fim, dormitava, aparentemente serena. Todavia, Maria juraria que no canto dos seus olhos, duas lágrimas incontinentes e teimosas, brilhavam…
___

Post-Scriptum: As cheias de 25 para 26 de Novembro de 1967 assolaram drasticamente a região da Grande Lisboa. O Ribatejo foi uma das zonas mais atingidas. Para além das perdas de bens, perderam-se centenas de vidas, muitas das quais, crianças, deixando enlutadas famílias em quase todas as aldeias. O balanço final das vítimas apontam para cerca de 700 mortos, mas os dados do regime foram substancialmente inferiores …
As memórias das populações fustigadas, perduram até hoje, como feridas incuráveis de gravidade social.

«nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar: foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, quem provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por o ser». - Comércio do Funchal.
__
Fotografia da época, autor desconhecido

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...