Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Do outro lado da porta.


Vi-lhe a inquietação no olhar. Não entendi, confesso, nem achei importante averiguar razões;  tão pouco estabeleci relação de causa/efeito, expressão tão sua, Timóteo… 
Partilhávamos apenas a mesma sala,
a mesma fila,
          ela atrás de mim e, eu atrás de outros,  frente aos monitores, na proximidade que nos distancia e,  quiséssemos ou não,
o mesmo horizonte visual. O meu menor, porque à frente …
Sabíamos pouco uns dos outros e, dela, então, estou em dizer que sabíamos
nada.
Ou quase. Sabíamo-la cinja ao que se passava dentro das quatro linhas, que é como quem diz, dentro do formato da acção, figura apagada, apagadíssima, sacada de uma caixa de memórias - fotografia sépia -, por artes mágicas e pozinhos de perlimpimpim,  ali. 
Para que perceba melhor, lhe digo, Timóteo, imagine, ao fim de quase três meses de convívio diário, não lhe sabia o nome.  Nem eu, nem a maioria de nós …Mas se  de algo estava certa é de que o nosso assunto em nada a interessava.
 
Estava à vontade,  portanto e, porque assim, dia após dia, no intervalo maior, sacava da sanduíche que trazia de casa a que juntava um pacote de leite com chocolate comprado no Continente. Entre uma trinca e outra, teclava-lhe o mais rápido que conseguia, sempre com a janela minúscula.  Não por ela, que, como lhe digo, não manifestava qualquer interesse, mas pelos que, mais curiosos, mais vivos, entravam e saiam da sala, espreitando  ecrãs.
Por essa altura já nos conhecíamos quanto baste para  nunca saber o que poderias dizer, se
    Então sempre foi ao CCB este fim de semana, a menina disse-me que iria ver o Jeremias Fisher, não foi querida?  E que me diz a respeito? Ópera de Câmara… um libreto… muito bem, muito bem…
    Recomenda? Ainda não tive oportunidade de estar presente. E com quem foi? Ora, não minta - a verdade e só a verdade, se não me é fiel, pelo menos seja leal … Arminda, acha que me engana? Sou ciumento sim, e, quando for minha - quando vem???-, não mais a autorizarei a andar sozinha seja de dia ou de noite…
    (um diálogo natural, de dois adultos... )
    Como, um
    ...Preta? Cor de salmão? A sua lingerie,  querida, claro…   Diga-me, sabe que me faz feliz … que me faz… quer que diga a palavra? - não, não direi …    QUERO saber cada pormenor de sua vida …íntima…
    E eu, em regra:   negra…
   ... De renda? Lisa? Tem aplicações de gipure? Deixe-me adivinhar. Tem, claro... nem sabe o quanto aprecio a beleza de suas coxas (como as imagino) encimadas por peças de arte: guipure ... gipure, como quiser, mas sempre ... têxtil, suave, na cor, no toque. Hoje?...
    ...Carmim… o modelo  DeMillus bordado em amarelo-ouro… Fio dental com a parte de trás bordada…
    … fio dental, Arminda? Detesto, não compre mais … é invasiva, vulgar.  Vulgar!!É uma senhora ou não é?  Coloque sempre os olhos na sua avó Celeste, a que usa em avatar... imagina que usaria tal insanidade? Senhora D. Celeste, uma senhora. Um olhar doce... amante perfeita, a sua avó... veja como baixa os olhos, como...ai, Arminda, nem sabe o que imagino...
Use asa delta, sempre … sou eu quem lho digo. 
    Concordava. Concordava sempre… no catálogo on-line tudo me era possível …tudo era meu … e,  eu, entre evasivas e conclusivas, tecia e fiava, num tear de rendas e gipures, a tentar saber mais de si e, logo, a cada abordagem sua, do que não sabia, fazia pesquisa e respondia-lhe…
        e, deste modo, ingénuo e primário,  me achava à sua altura: Era um senhor, um senhor, Timóteo, versado em arte, em filosofia, em literatura...
                                 ...apesar de tudo…
   
Vi-lhe a inquietação no olhar, Timóteo, como lhe afirmo, e não alcancei.
Como não alcancei o súbito interesse na minha pessoa desde então. Nem a aproximação às falas, aos encontros de horários - ela que sempre chegava antes de todos nós e saía depois de todos, lenta e pormenorizada no  arrumar das folhas e no cerrar o dossier que recolhia num saco meio andrajoso, passou invariavelmente, a cruzar-se comigo à chegada no hall de entrada do edifício. Surgia do nada, com um sorriso, no início meio tímido,  e, dia a dia, mais aberto.  Sempre limpa, sempre correcta,  sempre figura do século passado.
Tinha idade para ser minha mãe, gostei dela. E ela de mim, acredito. Não raras vezes me trazia grossas fatias de bolo, frascos de compotas, queijos, manteiga caseira. Tudo de uma qualidade ímpar e divina...
Continuava asséptica nas palavras e nos gestos: poucos, escassos...  
Não sei como, não me consigo lembrar e já lhe estava a falar de mim.Da minha inquietação…  Do futuro que não tinha, 
                (Era tão boa ouvinte… Tão discreta… )
Permanecemos juntas nas secretárias em fila e além delas, para além da porta…
    … para além da porta,
(só não lhe contei que nos íamos encontrar. nunca aprovaria, suponho...)

Dia a dia, regulei a minha vida pela sua, Timóteo. O que lhe fui dizendo de mim eram absolutas verdades - está bem, reconheço, não eram… “se não é fiel, seja ao menos leal”, lealdade, portanto…
eram as verdades o que EU gostaria que fossem. Os meus gostos (refinados) os meus hábitos (desde o berço) … as viagens
... a minha  avó, sabe, Arminda, a minha avó, esteve na Inauguração da Torre Eiffel, desde sempre viajámos, e a Arminda? Claro que sim… Conhece o mundo,
    Sim, sim… a família viaja desde sempre. …
    … não Timóteo, obviamente que nunca sai de Portugal… Minto. Sai… um dia, a Espanha, numa daquelas excursões que vendem inutilidades… fui às Rias Baixas…comi marisco como nunca, sem saber que era alérgica, adoeci e quase morri... pormenor sem importância, bem vistas as coisas... ).  Sai, como vê…
    se conhecia o aroma do Poême? Conhecia, mas só.
Até ao dia em que fui ter consigo apenas de o ter cheirado nas tirinhas oferecidas em Perfumarias, ou, quando, a pretexto de “verificar a reacção na minha pele” ganhava ousadia  bastante de  borrifar umas gotas contra os pulsos… e saía sem comprar.
Naquela tarde,  Timóteo, para o poder agradar, imagine, percorri todas as perfumarias do Centro e, invariavelmente, em todas “testei” o perfume… Como o poderia comprar, Timóteo? Como?…
    Durante meses prescindi de todas as pequenas loucuras para comprar a lingerie, a que sabia do seu gosto - negra, bordada … E  o vestido que me viu,  foi-me emprestadado por ela, que me disse ser “de família”. Ajustou-o ela mesma, em minha casa, com uma máquina que trouxe.
   É costureira? Perguntei-lhe. Não, e sim… faço de tudo um pouco…
    Intui que vivia como eu de expedientes. Sazonalidades. E falei-lhe de si. E ela, sem que de novo entendesse razões, turvou o olhar
            não soube se era serra ou mar, se, à conta de tantas leituras eu mesma já não distinguia azeite e água… mas sentia-me abraçada numa bolha protectora,  casuística por certo,  ao mesmo tempo volátil e ampla, que me deixava respirar: ela…

    Passei a não lhe esconder nada. Os pontapés da vida, a vidinha antes, a preto e branco, no Alentejo sem pão. Depois a cidade, o marido sei lá onde …  o meu trabalho - os muitos trabalhos -, precário(s), os meses sempre maiores que os euros, o armazém sem luz da gráfica, oito horas por dia, a embalagem, os livros destinados a destruição, as folhas dobradas, as lombadas mal coladas…
o resgate, a infringir a lei...(o lugar onde tudo começou: no sonho… na imagem, nos poemas....).
À noite,  leituras. Mais tarde, computador. Comprado a prestações. As aulas de informática, o Programa  "Novas Oportunidades" … e de novo o sonho,            Uma janela aberta ao largo,
                         e logo o arco-íris que se desenhou desde que, numa noite-madrugada, recebi o seu convite de amizade… 
"Julgo conhecer a senhora do seu avatar -  o quadro é-me tão familiar... "
aceitei-o. Disse-lhe,
"É um quadro a óleo de minha falecida avó, D. Celeste,  pintada por ...
                           (e inventei um nome. Uma avó... e uma nova vida para lhe oferecer ...)

    Perdi a tarde.  Teria de ser. Trabalhei até à hora de almoço, pedi o carro emprestado à Florbela, amiga de longa data, e fui… Primeiro a casa, onde me preparei minuciosamente para si, para “lhe ser”…  Cada minuto, cada segundo, Timóteo, em sua glória:  o corpo, o cabelo, as unhas…  um chá. Apenas um chá …

Revi, minuciosamente, todos os seus gostos, verifiquei se, por descuido meu, algum pêlo restava para além do que sabia seu gosto… olhei-me em espelho -  um clarão rompeu o hímen dos meus olhos… uma gota de sangue transbordou, derrame subtil, prenuncio de  longínqua taça 
cicuta,
    geleia de amoras tardias ou sonhos doces em  cor de púrpura,
   
    e quando, sob aquele temporal de Maio (nem o tempo já é como era…) olhei a sua casa,  mansão secular perdida no emaranhado do betão, julguei, por fim, ter encontrado abrigo aos meus dias de chuva … não fora o acaso de
     uns olhos que reconheci (ou julguei reconhecer)
     um vulto esconso a espiar-me por detrás de uma janela pouco distante ao lugar onde deixei o carro…

    Vi-lhe a inquietação no olhar, o medo, o pavor, se possível, Timóteo…
Julguei estar a alucinar, tal o desejo de que ela estivesse por perto com o seu abraço amigo… Afastei o pensamento, ao mesmo tempo que, em gestos títeres - palavra sua, Timóteo -, gestos calculados, mil vezes ensaiados, na beira de minha cama
    Primeiro o pé direito,
               deslizar a anca
                 elevar o peito...
    agora a perna esquerda,
        resvalava o corpo na alma e ia ao seu encontro …  ao encontro de suas mãos…
Um golpe de vento inverteu o chapéu. E o destino de nossas vidas. De todos os lados  - até do rio -, a chuva. Cruzada. Encruzilhada, pretérita/presente/futura,
       subi num ápice a sua escada. O olhar dela, assombração inesperada …

    O frio. Ah Timóteo, o frio. O peito a enrijecer sem controle no gelo da hora.A boca a saber a "papéis de música" ...
    Não vi de imediato a campainha; o negro do rímel acessível fazia das suas…  tacteei . Por fim, encontrei-a. O resto já sabe…
    Os meus dedos colaram-se pastosos ao botão de forma ininterrupta. Em frenesi, cada segundo me parecia uma eternidade. Por fim a porta abriu-se.  Antes o seu cheiro… os seus passos, apressados, e o meu desejo suspenso de um tão ambicionado
    “seja bem vinda minha querida...”
    Como sempre me dizia,
    “...esperava-a…”
    O meu desejo (planície ressequida), de si -  arado,  lâmina em minha vida - e, a oferta que lhe trazia, a extrema limpidez dos meus olhos
    d’água,
    “virá um dia e esquecerei
    A extrema limpidez dos teus olhos, o impossível mistério do teu corpo
    … tuas vestes de linho e jaspe verde” (Pelo Deserto As minhas Mãos …) (1)

O último texto que me“leu“, noite adiante …
e a que eu lhe respondi   ....
...Sou quase assim...
   ...Venha, venha depois de amanhã, ou nunca ... dou-lhe dois dias para se aprontar; vista-se de vermelho... o resto sabe.
         (sim, poderia ser, ela tinha-me dado, nem há uma semana, o vestido... agradeci-lhe, mentalmente...)
     Disse-lhe que sim. Era tudo quanto esperava há tanto tempo ...
    E, Timóteo, ainda que adivinhasse a sombra incrustada na fenda do seu palato, viperina, desejei entregar-lhe em suas mãos a limpidez dos olhos… desejei
                                          que nunca me esquecesse…
    E ali estava,
    suspensa do baloiço de glicínias, veludo e afago. Suspensa do sibilar das  águas e dos relâmpagos em calda de morcegos e de oceanos largos,
     suspensa, 
     de um abraço…de tudo o mais, nada, a partir dai, necessitava...

Chovia … trovejava. E não o reconheci… apenas senti o vácuo, o vazio. Ainda o vi o Pólo da Florbela a chorar por mim, ao rés da estrada. Antes a força, o disfarce a tombar - o seu, o meu, o meu maior que o seu, o seu, maior e  sobre o meu,
e logo a quilha - a minha -, que empurrava, bulldozer, caterpillar... o peito,  a dor, os ossos, os  pássaros e as folhas  e os livros e os filmes e a música surda, abafada, dos candelabros, dos Limoges, das carpetes que não pisei, dos seus quadros nus que tapavam os olhos na plasticidade residual das cores, em despudor de si e apudorados de nós,   que …somos,
                        máscaras. Películas reveladas.(eu já não sou nada...)
...  
Um dia, recorda-se, Timóteo, numa dessas conversas, subitamente
    "Porque gosta de mim? Não me viu…"
E eu
   "Porque, sinto, nas suas mãos, tudo pode acontecer… até eu."
    "Minha  querida, Arminda, verá que sim..." 
                                                           Aconteci.


(1) citação da obra indicada,  autor: Victor Oliveira Mateus.
 ***

 Nota: 1ª Parte deste conto, aqui "O dia de todos os pecadores"; 3ª parte  a publicar ...

terça-feira, 11 de maio de 2010

O dia de todos os pecadores

Há ainda no meu olhar a sombra do teu. Uma loucura doce e perturbadora  que me faz sentir vil.
Joguei todas as cartas naquele pano. Todos os trunfos, todas as manilhas, todos  os Ases. Tudo, Arminda, naquela tarde, naquela data. Joguei tudo. E chovia …

Olhei-te a descer do teu pequeno pólo cinzento, vi como as tuas pernas magras deslizavam o rebordo do assento quadriculado a miudinho, vi como, sem pressa, colocavas do lado de fora o pé esquerdo semi-nu evitando a poça que se formara entre o passeio e o local onde aparcaras, vi, por detrás do reposteiro de veludo da minha sala em semi-penumbra, como rodavas os quadris e, vi, por fim, como, delicadamente colocavas o pé direito no asfalto lustroso…  mas antes, antes do mais, de tudo o mais, vi as tuas mãos, as tuas unhas compridas e vermelhas, abrias o guarda-chuva de cor igual ao teu vestido: vermelho, com um debrum a negro. Vermelho, de corte recto, cinjo ao corpo (ai o teu corpo Arminda, nunca o tinha visto assim … senti avolumar-se em mim o desejo. Naquele instante desejei-te … )

Vi como te erguias e como o teu peito se erguia, pequeno, no alinhamento perfeito com a linha mediana entre o cotovelo e a clavícula.  Abri, dali, daquele lugar onde me encontrava, a palma de minha mão. Olhei,  medi.  Seria perfeito…
Imaginei que trarias lingerie Chantelle, quase que juraria, preta, que usarias o  teu perfume predilecto… Poême da Lancôme, correcto?  Respirei fundo e senti-te. Quase que ejaculei, imagina... 

Chovia Arminda…
E que nos importava a chuva, dirás agora, volvidas luas de plástico e luares de cores e de sílabas imóveis?
Importava, sim, Arminda, importava e muito. Tinha vestido o meu melhor fato, aquele que, por sinal, tu tanto gostavas, de pura lã, com toque de caxemira.  Tinha colocado a camisa com a risca malva, e, porque tu apreciavas tanto, até os meus botões de punho, herança do padrinho regedor. E, como não podia deixar de ser, estava barbeado a rigor,  tinha até colocado lavanda discretamente na maça de Adão. 
Arminda, confesso, passei o dia anterior aquele, e os anteriores ao anterior, para ser mais concreto, todos os outros antes, desde que nos conhecemos, a sonhar com o momento, com o instante exacto em que o ferrolho que nos colocava trancas se abrisse sem soluços, sem lágrimas, sem gotas nem nebulosas…
Naquele dia, Arminda, amanheceu  soalheiro. Na varanda os pássaros cantavam líricas copiosas e, no lago de nenúfares próximo, um sapo falou-me do Teorema de Pitágoras. Achei oportuno, achei até que de bom augúrio. Sentei-me num banco de pedra, durante mais de duas horas, imagina.
Recapitulei tudo. Com a minúcia que me sabes; ensaiei as falas, as deixas, agora dizes tu, depois eu,           Arminda, sente-se por favor, Arminda sinta-se em casa,  não faça cerimónia, esta é, de agora em diante, a sua casa. O espaço que melhor nos serve... Sem sobressaltos, sem os constrangimentos de hotéis nem a pequenez  de motéis - não temos idade nem estatuto, entende?

Haverias de concordar com tudo. Baixar os olhos, enrubescer as faces... Assim estaria certo... 
Depois, haveria de chamar a criada com a sineta de cristal (ou a de porcelana de Limoge, herança da avó Dulce?… qual das duas? sabes o quanto me assaltam questões de pormenor, insolúveis, por vezes…).
Chamaria a criada, tomaríamos um chá de cidreira, mastigarias devagar,  de boca fechada, obviamente e  só se acaso desejasses, a frugalidade de bom pão em  torradas com compota - providenciei que houvessem bastas, em sabores diversos - tomate, ginga, cenoura, pêra abacate, mirtilos  -,  absolutamente caseiras, haveria de te convidar a dançar, e, só depois, depois Arminda, te convidaria a subir. Haveríamos de olhar o Tejo, a Torre Vasco da Gama ali ao lado… A cama estava feita de lavado, a colcha da avó Micas dobrada aos pés, sobre o banco de apoio...

Mas chovia, Arminda…
Num instante, absolutamente imprevisível,  tocavas a campainha com a fúria de uma mulher vulgar. De uma mulher vulgar ...
Os teus dedos colaram-se pastosos ao botão de forma ininterrupta. A Ludovina não deve ter ouvido sequer,  estaria a ultimar os últimos retoques para a tua chegada. Em boa hora, que teria feito mau juízo de ti, pela certa...

Chovia … trovejava. O som estridente da campainha percorreu o hall de entrada, maximizou-se contra as paredes, contra o pé-direito em dobro da tua altura. Temi pelos lustres, que se quebrassem, temi pelas telas da mãe, que se rasgassem. Temi pela caxemira do meu fato, que se desfiasse sem recuperação possível; temi pelos Limoges, pelas Vistas Alegres, pelos cristais  e porcelanas da Bavaria, pelas carpetes persas. Temi, porque, agiste em completo despautério.  Arminda, Arminda, acredita, a culpa foi tua em absoluto, da tua pressa que me revelou quem tu eras...
(a culpa é, confirma-se,  sempre das mulheres. Em última análise são sempre umas tresloucadas e, desculpa que te diga, umas oferecidas ... se não, olha a forma como chegaste, vestida de vermelho ...)
Corri (e tu sabes o quanto detesto correrias) como louco direito à porta. Nem queria acreditar. Não poderias ser tu, Arminda, a tocar daquela maneira abrupta!?
Abri. Abri de par em par. E, ali, no patamar, estavas tu. O teu pequeno chapéu vermelho virado do avesso por um qualquer golpe de vento (isso não vira eu, certamente estaria a olhar as palmas de minhas mãos onde imaginei o bico de teus seios tumescido …);
Ali estavas tu, como te conto, encharcada de lés a lés, o vestido colado à pele, a pele colada aos ossos… a maquilhagem desfeita na cara. Achei-te gótica e não te reconheci…
Tentaste o abraço, Arminda. 

Balbuciaste um "desculpe, Timóteo, esta chuva ... imprevisível..."
Como te atreveste? Abraçar-me? E o meu fato de caxemira? … Não pensaste nisso, minha querida. Deverias ter pensado. Devias!!!
Depois tudo aconteceu com a rapidez de um fósforo. Num ápice, escorregaste pelas escadarias, num ápice tombaste na calçada onde te esperava o teu pequeno pólo. É certo que não entraste, presumo, estragarias os estofos, e, ainda que não condizentes com o teu suposto estatuto, seria um desperdício...terás tido o bom senso de não entrar... para além de que havia o vermelho a tingir a calçada e o lancil...
Quanto a mim, Arminda, voltei calmamente para dentro, não sem antes fechar a porta, correr  todos os ferrolhos, não sem antes dizer à Ludovina
    A tal senhora minha amiga acabou de telefonar a dizer que não pode vir por causa da chuva… pode ir, Ludovina. 

         E ela saiu. (É tão discreta a Ludovina...)

Dirigi-me ao escritório. Abri de novo a janela. E vi-a …
Peguei do estojo o cachimbo Billiard que me pareceu o mais apropriado à ocasião; enchi, calquei, acendi… Despi o casaco, vesti  mon chambre parisiense, bebi um conhaque. Em tardes de chuva nada melhor que um conhaque ... Napoleon, um dos meus preferidos... Falei-te disso, recordas?
É óbvio que ouvi as sirenes, mas sabes, esta rua já não é o que era desde que aqui fizeram o Vasco da Gama…  Contrariedades, minha querida...
...
Abri a janela;  falámos até quase de madrugada: De como sou, de como me visto,  do meu fato favorito,  e dela: de como gosta de vermelho - trivialidades, claro. Também falámos de ópera, de teatro..
Mas ela não sabe de arte. Nunca foi à ópera… Teatro diz gostar; falei-lhe então da peça “O dia de Todos os Pescadores” prestes a subir à  cena;
Ela repetiu
"O dia de todos os pecadores", ah, sim, sim, já ouvi falar (é óbvio que nunca terá ouvido, querida, mas de momento este, como tu dizias "postal", é irrelevante ...)
Falou-me de poemas e compotas.
E eu  de  Foucault, o filósofo da loucura… Ela não entende de filosofia, e é uma pena… Poderíamos ter mais pontos em comum, mas nem tudo é perfeito.
Amanhã talvez lhe sugira que me revele a cor da lingerie…  Sinto que nos haveremos de entender.
O problema é, e será sempre, a meteorologia…
E esta sombra em meu olhar. A sombra do teu na ombreira da minha porta, doce e perturbador...

sábado, 1 de maio de 2010

queria ter bebido a desordem de teus olhos.


queria ter bebido a desordem de teus olhos, devagar,
e os silêncios dos teus gritos
em cada tarde a termo, de cada termo tardio, quando, no [des]verso de ti, me olhas e não me vês - transpareço -, e te iludes sem iludir. quando apregoas aos sete ventos verdades encruadas de mentiras; quando forjas um pódio sem tíbias, operetas vespertinas sem palanques, no lastro das tuas mágoas para te puderes instalar; e não careces, não precisas. ao meu olhar, sobressaiam intrínsecas, todas as índoles que, porque imperfeitas, nasci para complementarizar. entre nós corre o rio das coisas inacabadas, capelas defectivas, em que, a real  beleza está no azul do céu que as tinge ao reclinar-se, lépido e basto, de tão experimentado, adjacente à pedra basáltica em forma abrupta
há um sorriso nos meus lábios
e
uma imobilidade no gesto, um desacerto de acto, um pano que não sobe, uma deixa que já esqueço, ou talvez nunca a tenha entendido sequer. e um ponto ausente… dizem: “o problema é esquecer”
depois, existem sempre, os síndromes dos ponteiros dos relógios. por mais que os estudes, na verdade não passas, e eu não passo, não passamos em suma, de relojoeiros a quem o universo, ele mesmo desatento às nossas comuns vontades, não dotou de olhos de pombo, nem de mãos de cirurgião ainda que grosseiro. e, o que nos convinha, em rigor, era a capacidade de sermos, um e outro, modeladores de pele e aço… na estética de burilar o rosto, de esculpir estrelas e luas, de trazer o coração nas mãos
e oferece-lo
sem qualquer hesitação…

detenho-me por um segundo no desvão onde dependurei as horas pardas; descalço a alma, dispo a dor de ver ao longe um sapo a fumar um charro sem razão; e outro mais, e outro ainda, e, choro por todos quantos, das lágrimas apenas e só conhecem as de crocodilo.
pelo sapo, choro: temo que sucumba como sucumbem as vagas nas falésias, desmembradas…
(ontem ouvi ler um poema que falava da importância de saber respirar por guelras e entendi que, sem dúvida alguma, seria de todo pertinente que tal  matéria, fosse dada ao lactente, como vital suplemento, no biberão da papa, antes da primeira dentição …; é de poesia que falo, pois então…)

olho o rio e nem sei se já é mar ou apenas o busca no estuque  insalive da rebentação - o sol desceu, é quase noite, a marginal esfuma-se numa luz que cega e que a sublima, negra viúva,
ou
toupeira. toupeira em rendição …
debato-me neste conflito atípico entre a luz que engorda o fogo e a água que, sendo gota, faz o copo transbordar; estanco-o ao sabor sincopado do meu próprio coração: tic-tac, tic-tac … afago por sobre o branco da camisa o seio que se eleva, a dor que ameaça ser um AVC. sei de cor todos os sintomas
        “a diminuição da força do membro superior de um lado, o desvio da parte inferior da face e a dificuldade em dizer as palavras certas, ou nem as conseguir dizer, ao pretender falar” 
 de tantas as vezes  que as repeti… desvio a atenção, penso no seio, na pele alvíssima, no contraste  no risco,  no rosáceo do mamilo, no equilíbrio
entre
o lábio de igual cor,
e o beijo que não se vislumbra, vivido, meu amor…
e esta doença, que, duma fase assintomática, me conduziu à demência vascular…,
e, nada faz sentido ao meu redor …
agora oiço longínqua a sirene de ambulância,  agora esfumam-se os rostos e já são máscaras, agora o oxigénio que não chega, agora são as unhas, vermelhas, a ocultar o negro… acabei de chegar do paraíso …

queria ter bebido a desordem de teus olhos, devagar, repito,
acalentar-te o rosto, emaranhar meus dedos na ausência de teus cabelos, descer-te o corpo, como uma nuvem e desta ser
tal qual como a água lisa em solicitude e queda;
ajoelhar a hora derradeira ao redor do teu mundo…soletrar o teu nome, ao compasso de um arfar de fogo - anel de fogo - que apenas te protege e me desventra, ínfima, minúscula, larva ou borboleta, quando ouso lançar um olhar sobre a eternidade de um momento, escrever em cada sílaba que não escrevo, a história do mundo, numa (porque te conheço), vantagem competitiva ,e, porque jogo comigo mesma o jogo da cabra-cega, gerando em mim capacidade adaptativa,  jurei viver, 
jurei ...
mas não consigo…

se,
infinito o amor,
o regaço aberto.
o lençol de linho e o meu corpo,  ambos,
jazem escurecidos sob os raios ferozes do sol soprado na forma turva de uma enciclopédia sem palavras, reconstruída das ruínas de uma torre de babel:  reconstruo-me de um legado antigo, ao arredondar arestas  ao trigo e gerar o pão de côdea fina, onde, palavras são lâminas a lamber as minhas feridas.

queria ter-te aberto o meu peito
- esta janela de par em par -,
para que nele encontrasses o espelho de comum verdade…
esta janela, este peito que o AVC acabou de rasgar. rasgão de verbo, pretérito mais que perfeito,
escurece...
          tic-tac; tic-tac;
asas, máscara, massagem, máscara, massagem, asas, fénix
pássaro
subo 
e o mundo sem pernas para andar …
tic-tac; tic-tac...

sábado, 24 de abril de 2010

em seara ... a meias ...

Quem me conhece sabe o quanto amo a fotografia. Digamos que é como que uma vontade de reter, eternamente, aquilo que meus olhos vislumbram. E, se reter desta forma é agradável, poder partilhar com aqueles que nos tocam, que nos sensibilizam com pequenos e grandes gestos, o que, num qualquer lugar do universo, a natureza nos ofereceu, é, indubitavelmente um bem maior.
 Assim aconteceu. Uma fotografia partilhada com uma amiga que a poesia me deu, real, ao vivo e a cores:

Maria João Martins
E, na volta do correio, um poema da autora, sobre o meu olhar.
"Seara a meias". Ei-la aqui. E eu, no lago dos nenúfares, gota de água.
Obrigada João. És poeta; mas, e acima de tudo,  a amiga que qualquer um gostaria de poder ter...
***

Nota: colocar o cursor sobre a imagem para melhor ler o poema de Maria João Martins

quinta-feira, 22 de abril de 2010

rasgão de verbo

entre o casco e a água, a sombra. o infinito derradeiro onde as palavras não cabem; a tinta, camada sobre camada, cada vez mais espessa, cada vez mais densa, com que se pinta a certeza reflectida. a imagem inversa de cor  ferrete; o arpão que não arpoa;  a incapacidade de fuga - exalação em que se vaporiza tempo e sobra o nada.

nenhuma asa, nenhum voo, nenhuma viagem, a uma civilização perdida no sopé da montanha, se preconiza maior do que os cheiros das folhas dos abetos e das buganvílias que nos chegam decifrados no reponto da maré, entre a rasa e a cheia; do que o vai e vem contínuo, em que nos sabemos,  cadência de baloiços onde nos tomámos crianças na placidez dos lagos habitados de peixes vermelhos que  nos olhavam de olhos fora de orbitas, enciumados - o meu cabelo em chuva, fulvo e basto, solto no teu peito e o gesto incontrolado de te beijar a carne… moura dantes, prisioneira tua, num reino onde, amendoeiras em flor delimitavam raias; e destas, a cor pálida de  rosas,  de pétalas, desprendidas em absoluta dádiva, de meu regaço em tua boca…  e logo as chuvas. tropicais.

deslaço o olhar, até onde a vista alcança e mais além. a vaga volta. maré grande onde o mar se entorna. ficam submersos os bancos de corais onde a vida fervilha benevolente e sábia,  ininterrupta, de todas as cores, de todos os formatos, no ziguezaguear dos peixes, na inequação logarítmica; nas incógnitas irresolutas; na busca da função crescente, como um fio condutor de ousadia e coragem que se percorre líquido;  inverso ao rio de montanha em queda, rápido; como a cascata de ontem, cujo nome limon me rememorou o ácido contido no ventre do amarelo solar. e tudo abarco. e tudo é meu. e tudo teu, porque to ofereço…

daqui, a iminência da solidão contínua e este silencio imperturbado com a presença de meus pés. tudo ao redor, mar. oceano de confluências de águas. lápis-lazúli, igual de um olhar, e a pedra, a pedra de toque. o barco…lazúli, silicato de alumínio, sódio e cálcio sulfatado…

descalço-me, a nudez vem por acréscimo, na alma que se revela e no contraste.
é deste último que te falo, quando me elevo a outra dimensão no desamparo que me fustiga a partida e me instiga a ficar. são sempre enigmas estas obscuridades, tal como aquelas que se vislumbram em espaços submergidos onde a luz não brilha e a vaga se aquieta: embalam, esculpindo, as exaltações de minha alma; lentamente, deixo que olhar se aquiete, que as cortinas subam contemporâneas ao lugar, que as vagas sejam longínquas. por momentos são.

                                                depois voltam a varrer-me da popa à proa, instante a instante, sempre mais altas. sempre mais rudes e sou barco a adornar sem rumo ou norte. embarco-me. no sono que não chega, sonho-te; exacto, não temo a escassez do sonho, que o sei prenhe de cor. sequer temo a agonia ébria do acordar. basta-me um pouco de água doce e as polpas dos teus dedos - um conta gotas -, e a certeza de que os lábios saberão de esperar. volátil se torna a vida se não assim...

na polpa dos teus dedos a minha estrada; o tempo como areia, o vento que nos abraça e a pele - um traço,  rasgão de verbo e sal. e este mar …

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Fotografia da autora.

quarta-feira, 24 de março de 2010

"Epístola quase lírica à poeta Mel de Carvalho", palavras de outros...


Poderia, amiga, falar-te das manhãs que não cheguei a ver. Porque o ar me faltava e o suicídio seria imediato. Um pouco de formicida. Mas tento falar da revolução cubana, enquanto o comandante ainda respira. Queria cantar-te os poetas do meu país. Mas as viagens por eles me sumiram do mapa. Tenho um olhar de quem não tem nada. E desde muito cedo os olhos muito tristes. Um dia, ainda no ginásio ouvi de um professor: "Deu pra ser poeta, não pode ser boa coisa." Aos 12 anos, gazeteando aula, vi meu avô morrer debaixo de um caminhão. Foi o meu primeiro contato com a morte. Viriam outras depois. O jornalismo, a literatura, prêmios que nunca sonhei receber. Veio um beijo na boca. E aprendi que a poesia é bem maior que qualquer metralhadora. Vem de longe, de muito longe, o meu gosto pelo álcool. E pelas pombas que agora vejo passar em frente onde moro. Todo fato é um fado, escrevi certa vez. A barba deixa meu rosto mais velho. Tenho a mulher que amo. E a poesia para escrever. Gostaria de aprender violino. Não tenho jeito pra música. Eu queria imenso ser como uma dessas pombas que voam na praça perto de onde moro.

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júlio, itinerário, inédito

Júlio Saraiva

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Porque de quando em vez nos sabe bem acreditar que as nossas palavras fazem sentido …
Porque estou a preparar um trabalho para alunos sobre as minhas (modestas) palavras poéticas... e, acima de tudo, porque sempre acreditei que as coisas, ao caso, os estímulos, nos chegam quando é tempo de chegarem, hoje, pesquisando, reencontrei estas.

Partilho e agradeço-lhe, Júlio Saraiva,  generoso prefaciador do meu 2º Livro.

terça-feira, 16 de março de 2010

3º Encontro de Poetas do Concelho de V.F. de Xira

3º Encontro de Poetas do Concelho de V.F. de Xira 
 dia
20 de Março, às 15.30h  

3º Encontro de Poetas do Concelho de Vila Franca de Xira, apresentação e leitura de poesia dos seguintes autores: Cristina Moita, Mel de Carvalho, Sara Rodrigues. Com a colaboração dos grupos de poetas da Póvoa e Gente Viva de Vila Franca de Xira. O Encontro terminará com a actuação do Grupo Coral “Ares Novos”.

Biblioteca Municipal de Quinta da Piedade.
Toda a informação aqui 
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Não me considerando poeta, mas tão-só, mera amante das letras (da poesia aos contos às crónicas...), não posso, na oportunidade,  deixar de agradecer aqui, publicamente,  o gentil convite da Câmara de Vila Franca de Xira e, deste modo, informal e directo,  convidar-vos a cada um, meus leitores e amigos, para nos acompanharem neste evento comemorativo do Dia Mundial da Poesia.
Pela língua portuguesa, pela poesia... 

Grata, Mel
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“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...