Sobre mim ...

A minha foto
Lisboa / V.F. Xira / Peniche, Estremadura, Ribatejo ..., Portugal
(Maria Amélia de Carvalho Duarte Francisco Luís)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Canana

Canana...

Sempre me pareceu nome de código. Cifra estranha e “irreconhecível” aos meus ouvidos de criança. Depois havia a crispação de rostos, a contracção das mãos e dos braços na hora de cumprimentar, o esgaçar de más vontades, ou, em alguns casos, de palavras ditas em voz sussurrada, miudezas de que não entendia sentidos. Nunca abonatórias, nunca de boas vindas, nunca manifestações de lato agrado, ou, porque não, de agrado simples.

Excepção, a minha mãe. Saber da vinda da Canana a nossa casa era, para além de um rol de trabalhos acrescidos tendo em vista o bem receber “pobres mas arranjados, pobres mas arrumados, filha...”, que tantas vezes verbalizado e exemplificado em actos me incutia em espírito, e que, para além da sua morte, haveriam de se perpetuar em códices de conduta imperativos, legisladores dos meus hábitos rotineiros de forma inabalável, havia igualmente e sempre, no seu semblante, um prazer recatado, secreto, de poder, durante um ou dois dias, acolher Canana. Ser cúmplice de Canana… Desabafar com Canana.

Nunca lhe soube o verdadeiro nome. Nunca soube se era diminutivo ou alcunha. Mas isso, à época não tinha qualquer significado. Canana era Canana e tão só. No alto do seu metro e setenta e muitos (pelo que me recordo, mais coisa menos coisa …), impunha com um sorriso rasgado e uma voz máscula e suave - uma mistura estranha, devo confessar-, respeito. Vestia invariavelmente calças, tinha o cabelo ondulado e cortado curto a roçar as omoplatas largas, não usava adornos, nem rendas, nem laços. Não usava saltos… fumava.

Decorriam os primeiros anos da década de sessenta. Vivíamos na aldeia. A vinda de Canana, regra geral pelo Colete Encarnado, passava de boca em boca, como notícia de primeira página. Nos lavadores, na bica, na fonte…no reduzido comércio local. Gerava falatório. Ó se gerava!

Conhecera Canana na fábrica, dizia-me. No “Redol” como denominava (por relação directa com o nome de um dos seus proprietários…), aliás como as demais moçoilas da aldeia e colegas de jornada, a conheceram. Rapidamente se tornara sua amiga.

Canana era a ponte entre o masculino e feminino, era a liberdade, a criatividade, a força de vontade, a força física. Canana era solidária, experiente e esclarecida. Morava nos arrabaldes da capital, em parte incerta. Divorciada (ou largada do homem, como diziam…). Fosse o que fosse, independente. Não se escudada ao debate, ao confronto de ideias e (entendi muitos anos mais tarde) de ideais. Ideais políticos de emancipação, independência, da mulher. Defesa acérrima pelas condições dignas de trabalho, de salários justos, de horários justos; de respeito pelos “dias difíceis das mulheres”… “que a mulher não é menos que o homem, filha, mas há dias em que não se pode andar à chuva o dia inteiro, a mulher “escorre”… entendes, filha?”… Abanava a cabeça que sim. Já vira quando a mãe “escorria” e se contorcia pálida de dores. Estava “naqueles dias”.
“… Canana combinava com os homens para nos renderem, percebes?... para fazerem trabalhos mais duros. E eles a ela ouviam.”
Na altura percebia pouco. Mas percebia seguramente que, se a mãe dizia, deveria ser verdade… e, se as “mulheres escorriam”, então era muito feio andarem à chuva a revelar as suas intimidades.

Pouco se falava da vida da Canana em frente a nós, crianças. Apanhava, aqui e além, umas frases soltas… “meteu-se em tantas, que teve de fugir, senão era presa”… “uma mulher macho…má rês e má influência” …"qual era o homem que ia conseguir viver com uma mulher-macho”?

No meu intimo de menina, tentava colar aquelas frases ao rosto sereno de Canana. E não faziam sentido. É certo que tinha um ar diferente, mas era terna, amiga, trazia-me sempre uma caixa enorme de chocolates da Regina (nessa altura, trabalhava por lá …), e, os pequenos rectângulos, meticulosamente alinhados, duravam quase de ano a ano. A caixa, de cartão duro, quando esvaziada, fazia as minhas delícias. Era o guarda-roupa das minhas bonecas, minúsculas (as tais, da farinha Amparo, que, quando partidas, me negava a abandonar e, peça a peça, no “hospital de bonecas” readaptava… nem sempre com pernas e braços da mesma cor, do mesmo tamanho …). Diferentes, porventura, as minhas bonecas e Canana…

Quando Canana partia da aldeia, o verão parecia sempre chegar ao fim de forma antecipada e prematura. Como se um brilho, uma luz, que vinha dos lados do Bugio, do mar a sul e atravessava o nosso rio, o mar da palha e subia a encosta da serra, se apagasse sem aviso. Em regra, a mãe ficava mais calada, menos activa. O viço sempre provisório dos seus olhos esmaecia, como candeias em tempos escassos.E eu, eu mesma, me sentia mais sozinha.

Os demais pareciam libertos. Menos contidos, comentavam os despropósitos de Canana. Fumar e beber na taberna com os homens? Falar na rua? Valha-nos Deus, isso são exemplos que se dêem?
“…E é isto mulher da cidade…, ora, mais vale não saber uma letra do tamanho dum “quimboio”… só vem meter más ideias na cabeça das raparigas”.

Perdi-lhe o rasto… as visitas cessaram. Recordo-me vagamente de ter ouvido uma conversa de que estaria “onde devia estar”… Recordo-me de ouvir, nos fundos da casa, a mãe a chorar. Não perguntei nada. Para quê? Era uma miúda de tantos anos como dedos de uma só mão … e mais um.

Durante décadas "esqueci" Canana. As minhas fontes de informação destes tempos estão a partir, numa viagem sem retorno… A primeira delas, minha mãe, sua grande amiga, sua eterna amiga e companheira de jornada. No sol a sol de burilar a pedra das colunas de postes de iluminação para a Praça do Império ...

Dei comigo um dia destes a pensar que Canana, canoa do Tejo, mulher vela e luz, falua a brilhar, ainda se passeia no meu imaginário e, sem que disso tenha tido consciência, me marcou de forma altamente positiva. Deixou em minhas mãos, não só chocolates Regina, mas também, sementes de liberdade, de utopia, de verdade. Sementes de diferença e de igualdade …

Onde estás Canana?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Cinco minutos de silêncio

“Falo como quem está para perder
a ocasião do silêncio e assim se salva.”

Vitorino Nemésio, “Silêncio”

Noite. Reflicto sobre o silêncio, esta quietude onde construo e me reconstruo, no tecido das palavras, onde as ideias, coalhadas pelo vigor do dia, se alinham num puzzle em permanente construção. É no silêncio que a mente tece em tear antigo ideias, farrapos, fiapos de memórias. É aqui que estas se constroem a si próprias...

Na verdade, o ruído que trazemos dentro de nós, não nos permite cultivar este bem maior: Chama-se Silêncio.

Despojada de vestes, reconfortada sob um pijama de seda azul índigo, aqui, neste espaço cúbico, rodeio-me de silêncio no mistério de mim mesma.

De olhos copados sou apenas sentimento. Veloz rio, aluvião de margens, na senda da raiz do signo, anunciação dos tempos, sentido dos sentidos.

Neste espaço intimista, sobre a cama de nogueira vestida de algodão branco tecido em teares antigos, lençóis rematados a rendas das avós, bordados a crivo e matiz de anis, aqui, encontro o meu porto de abrigo.

Elevo a alma, abro-a ao cântico, à prece. Absorvo nos poros e por osmose este momento onde o silêncio é ele próprio a minha companhia. O silêncio, que antecede a palavra, composto de alma soprada no fole, aquecida na bigorna dos tempos.

Aqui, no silêncio, a palavra fermenta, leveda; a palavra, a parte mais visível do sujeito que eu sou. Dou-me conta que viver é “Ser" de e no tempo. É tecer fiapos de seda, teias, ateadas pelo destino, rotas de caminhar de peregrino.

Sabes .... o silêncio é a maior prova de intimidade que podes oferecer a alguém? Dois corpos distendidos na madrugada, lado a lado, fundidos no silêncio. A prova irrefutável de que se complementam. Para além deste, apenas na música conheço igual partilha. Voar numa malha de romance sem fim... sentir, apenas.

***

Ligo agora o MP3. Selecciono Piazzola - “Tango Apasionado” . Cerro de novo os olhos, deixo que o corpo se embale na magia deste tango. Deixo ...

Sinto a tua na minha mão num cruzar ritmado de dedos. E sobre os meus quadris, a outra, leve, leve... espalmada. Não, não me prende, não me trava. É suave brisa, quase um roçar de asas. Os corpos colados encontram-se, ritmados no saber e no sabor de um novo e contudo reconhecido amor antigo. Deslizas, deslizamos, sem palavras.

No silêncio melodioso desta dança cultivamos a proximidade e a ausência. No silêncio reencontramos, nos anais da história, eras, rotas, cartas sinópticas, em que a palavra, por desnecessária foi abolida.

Neste silêncio reconhecemos a Ilha que nos foi prometida, revestida entre a noite caída e a hora nova, branca, leitosa, alva – espaço cósmico da Magia.

Tacteias e encontras a chave, a secreta chave no infinitésimo fragmento de um segundo. A chave, revelação de nós, no eco e no compasso, no vibrado iluminado, harmónico, divino.

***

Cessa a música. A alma purificada encontra um agora atmosfera de graças – prelúdio de um cântico novo, espaço este onde escrevo e sou, a um só tempo, animal mudo, acoitado em cendrada hora no plúbeo manto da noite.

E de novo, no silêncio, é a nostalgia que volta e comigo chora. Enrolo-me sobre mim mesma, refundo-me em concha, sou molusco, fecho a alma no silêncio saturnino, no silêncio mais rotundo. Isolo-me em carapaça do mundo.

Silencio a voz ... solto a palavra!

“A voz é rosa roída / eu bicho roedor.”

Vitorino Nemésio – “A minha voz”

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Cap. III, A construção

(ler Cap. II)

“A casa é feita semente / Recibo que paga a chuva No morno inteiro da Vida / Que a fala compra à enxada”
ARMANDO DA SILVA CARVALHO - “A CASA O CAMPO E OS TIOS”

Aos poucos, tios e primos começaram a comprar terrenos e a erguer pequenas casas. Linda comprou o seu, nos “terraços do rio”, como hoje alguém que quisesse vender terrenos lhe chamaria. Um pequeno lote de pouco mais de duzentos e cinquenta metros, circundado por um olival abandonado e encimado pela serra donde viera.

A herança não chegaria para erguer as paredes de fora. Quando chegou a vez de colocar o telhado, o dinheiro da venda do Casal dos Anjos há muito havia acabado.

Que fazer? Restavam ainda as ovelhas, um rebanho de mais de cento e cinquenta cabeças. Talvez fosse hora de vender também o gado. A mãe sozinha não podia pastoreá-las, a pedreira cada vez mais perto, bufava pedras desgovernadas, por pouco havia dias não a tinham levado desta para melhor. ..

Que fora por pouco, sim senhor, caíra-lhe aos pés um pedregulho, solto dos quintos dos infernos. Outra como esta, e nem o seu santo marido, que Deus haja, a salvaria de morte certa.

Concordou! Quando a filha lhe falou em vender o gado, abençoou-lhe a ideia, que sim senhor, estava muito bem, aquela Vida já não era para ela, as filhas estavam arrumadas, a mais nova a viver na casa que ambas, mãe e filha, com o dinheiro da venda do Casal haviam conseguído construir. Sem luxos mas suficiente. Igualmente nos “terraços do Tejo”, perto da fonte Graciosa, ao pé do Palácio e do Mato do Convento. Concordava, mas sem gado, o que iria fazer? Não fora talhada para a Vida de casa, salvo seja. Que saber fazer o essencial sabia, mas entretens de rendas e bordados não era para ela. Além do que, a parcela que lhe coubera de amanho no Casal da Oliveirinha, bem mais pequeno que o que vendera, era insuficiente para o seu sustento.

Que não havia problema, argumentava Linda. A "madrinha parteira", que morava paredes meias com o Palácio, sabia que o senhor Capitão, o novo dono, tinha a mania de aves, aves raras, vindas de várias partes do Mundo, de muitas cores, barulhentas como só elas. Que até tinha mandado construir umas gaiolas, capazes de serem lavradas por uma junta de bois, com rede toda à volta, da altura de dois homens em pé, cobertas por cima também de rede. Sim, mas o que tinha a mãe de Linda, Aurélia de seu nome a ver com esta história de pássaros? Ora aí está, tudo a ver. A "madrinha parteira" fora assistir ao parto da criada de fora, no Palácio, que se houvera enrolado com o tratador. O Capitão quando soube não gostou!
No Palácio, todos casavam à sombra de Deus, para isso se havia aberto as portas da capela a todos quanto lá quisessem ir rezar. Pouca vergonha, não, mil vezes não. A criada ficava, que ele não era de por porta fora mulheres e crianças, mas ele, o tratador, que se cuidasse, o melhor era fugir para bem longe, não fora o acaso de, algum dia, enquanto o Capitão treinava tiro ao alvo, por engano, sem querer, algum chumbo perdido encontrar o desgraçado.

Da estória restou uma gaiola sem tratador, e um monte de araras, papagaios, tucanos e demais espécies, alimentados a medo por entre as malhas da rede, que ninguém se lhes queria abeirar. Não era ela uma mulher sem medo, que agarrava cobras pela cabeça, capava porcos, fazia partos às vacas e cabras?
Não se dizia dela, que nas redondezas, os seus bigodes hirtos, faziam inveja a muitos mancebos? Pois provasse agora a valentia, entrasse sem medos na gaiola das araras.

Olhou a comadre, casada com o primo Fidalgo, madrinha da sua filha, com um olhar desafiador. As duas mulheres mediram-se. Se uma sabia fazer nascer crianças (não todas, bem se sabia, à sua neta não fora capaz de fazer nascer, não foram os médicos da cidade grande e, vá-se lá saber onde é que a esta hora, filha e neta, estariam - no quinto dos infernos, talvez!...), a outra, por vezes fio, era useira em vestir mortos, atar-lhe os queixos com um lenço branco e encomendar as suas almas ao criador.

Afinal, ambas, cada uma por seu lado, abriam e fechavam as portas das estações da vida...

Iria lá, sim, e as araras que se cuidassem, era mais certo saírem mordidas do que morderem, era mais seguro perderem todas as penas do que ela um único cabelo, que lhe eram muito caros, os seus cabelos, que cuidadosamente escondia num carrapito, por baixo do lenço preto de viúva. Pagavam bem? Era o que bastava, aquela tarefa não havia de lhe levar o dia todo, sempre gostara de madrugar, que as araras madrugassem também, que não iria admitir molezas, estava treinada para dar o primeiro passo, à frente de um rancho de mulheres à ceifa, sobre o Sol de Agosto, marcar o compasso com os homens, no lagar do vinho, não seriam um grupo de cinquenta passarinhecos pintalgados com a cor dos demónios que a haviam de intimidar.

Se bem o disse, melhor o fez. Na manhã seguinte, ainda o Sol não despontara no horizonte, chegou ao Palácio. Pediu para ser recebida pelo capitão, que era com ele e só com ele que queria falar.

O caseiro quis saber ao que vinha, alguma ovelha destrambelhada tinha entrado no perímetro do mato do Convento, nos terrenos do Paço e não tinha de lá saído? Se era isso, tudo se arranjaria, podia procurar a vadia... Que não, já não tinha ovelhas, se isso lhe importava saber. Queria, porque queria falar como o Senhor.

Esperou horas a fio, sem cruzar a ombreira da porta, que a casa acordasse e o Capitão descesse. Finalmente, quando da cozinha já vinha um cheiro a assados, capaz de fazer levantar do caixão os mortos que estava habituada a preparar para a viagem, o Senhor chegou, envolto numa espécie de gabão de seda vermelho sangue. Não se intimidou também. Nem com a figura, nem com a aparato. Recuou no tempo e veio-lhe à memória a figura desenxovalhada do seu amada pai, e foi quanto lhe bastou para ganhar alento e falar ao que vinha.

A princípio o Capitão nem a queria receber, aquela tarefa era para homens, e de barba rija, que maricas não teriam lá guarida. Mas depois, perante a determinação da candidata ao lugar, ousou deixar que entrasse no recinto. O Palácio parou para ver tamanha provocação. As cabeças de dragão, talhadas em pedra, por onde minutos antes jorrava água, como por encanto, quedaram-se mudas. Empunhando uma vassoura, tal uma bruxa, entrou cantarolando, começou a limpar a gaiola, encarando os bichos um a um nos olhos. O resto, forma anos a fio de amena cavaqueira, numa língua e num código desconhecida, entendível apenas pelas aves.

Anos mais tarde, quando deixou aves decorativas por aves comestíveis, utilizou os códigos para as adormecer, ao mesmo tempo que as enfiava, de cabeça para baixo, segurando-as pelas patas – tal como fizera a parteira na hora do nascimento – fincando-lhe de um só golpe a navalha na goela. Fazia tudo isto, sem hesitações, lamúrias ou clamores.

Numa sequência só, matava, enviava as ditas nos caldeiros de água fervente, e ainda fumegantes, quase a queimar as mãos, de um golpe só, apanhava uma mão cheia de penas, e outra e outra. Em segundos, uns atrás dos outros, os galináceos iam sucumbindo ao poder da sua mão. Depois, com um golpe certeiro, rompia-lhes a pele por de cima do papo, outro na zona de baixo, esventrava-lhes as entranhas, retirava os pertences comestíveis – fígado, moela, coração – enfiava-lhes as pernas sem pés na ranhura que fizera, as asas dobradas, alinhava-as num tabuleiro, coberto por um pano xadrez, repetia a cena, horas a fio, dias a fio, meses e anos a fio, até que a lei veio proibir, finalmente o abate caseiro de animais para fins comerciais. Mas isso foram anos e anos depois já Lia andava no Liceu… A casa ganhou telhado - sacrificadas as cabeças de gado -, e janelas e portas. Mas estava longe de estar pronta....
***

in "Apenas um conto, cerzido ponto por ponto na cadeia dos sentidos" © Todos os Direitos Reservados

sábado, 30 de agosto de 2008

Entre uma treva e outra

Entre uma treva e outra
Entre perdidos e achados
Entre a guerra basilar de pernas e de braços, meu amor, havemos de encontrar lugar a conjugar
a forma (im)perfeita de todos os verbos nus, cedidos em súplica ao corpo de um poema. Anáforas e metáforas, que usamos em lúdica esperança, de luz, à paisagem vagabunda.

Atreve-te,
revolve a terra seca onde se esconde o sol nascente, espreita a lua e avança no areal da praia antes que o vento desgaste pegadas difusas de páreas gaivotas.

Sabes, existe um vento disseminado, difundido - inanidade que me afaga a cara enxuta, que se acoita no pavilhão do meu ouvido -, que não teme em bordar nervuras no sal do meu olhar. E uma vela latina e uma saia de baile escondida ainda num baú do convés. E um velho violoncelo com cordas feitas com a baba de Neptuno em corpo de sereia…
No convés profundo existe de igual modo, um secular violoncelista, e, na proa dum vaso de guerra, voga um corpo de baile em contradanças d’encantar …


Entre uma treva e outra,
existe uma aurora sempre a crescer, um poema por escrever em que, uma pérola minhota, se acirra a deslizar de um colar, em pele, solta. Uma urbe serrana, uma sarça, uma fola … Ou faz de conta…


E existe,
em forma de uma carapaça d’ostra, uma montanha magnética à qual, barcos sem rumo se atraem, e se confundem, quando, uma a uma, todas as traves imoderadas, todas as tábuas sagradas, se soltam no desassossego de carácter, em fulgor de metal fundido…


Entre uma treva e outra,
sobressalta-se o actor em palco, no títere do gesto, no afago refreado em tempo indefinido.

[Balsâmica a solidão, meu amigo, quando os limos se colam aos pés descalços e se não sabe dos ritmos duma vindoura canção. Se, na jactância, piratas-barcos, em excessos extravagantes, se mordem e são, frutos de todos os perigos na fúria de todos os gestos (inex)pressivos .].

Entre perdidos e achados
opressivos bramidos contrastam com a serenidade os dias mansos. Estrépitos e vozes imoderadas se agigantam das furnas subterrâneas… ecoam na preia-mar. São loucas…

Não, meu amigo, não nos corrompe vaidades fátuas, nem louvores fora de tempo. Jubilamos com a voz do vento, com o risco assumido de nossa estrada. E, antegozamos a plenitude dos dias bons, em que somos tão só, modulações de fibra e de voz, de comum sangue,
correnteza nervosa da mesma pigmentação, embalados ao Jazz, à Bossa Nova.

Entre uma treva e outra
entre uma trova e um fado ou uma loa de luar, plantaremos manhãs de espuma na noite deste lugar.
E haveremos de sangrar a realidade!

Ou faz de conta…

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

... um olhar ausente. (parte II)

***
Neblinas provindas do mar, avançavam por sobre o seu leito até ai inalterado. O sol despenhava-se na superfície das dunas mais longínquas. Lentamente, um a um, os veraneantes recolhiam da tarja marítima os pertences, num zelo de coisa própria.
Espraiavam um último olhar por sobre o espaço que os acolhera nas últimas horas. Como que para reter em memória, uma a uma, todas as horas daquele dia, daquela tarde - as brincadeiras das crianças, os afectos e os namoros de verão, de ocasião, ou, porque não, aqueles que, tendo atravessado décadas, pareciam resistir ao desgaste, à erosão do tempo. Fiquei com o olhar parado num casal de sexagenários. Ele, atencioso, oferecia-lhe o braço para que se levantasse da cadeira. Ela, de estatura baixa e volumosa, sorria, alisava os cabelos ralos … Fechava a cadeira e entregava-lha. Depois, de mão dada, avançavam, em passos certos, de quem palmilhou a par a vida e, tal como os demais, tão diferentes e, porventura tão iguais, rumo às passadeiras de madeira, na sua maioria já danificadas …

Ouviam-se os motores dos carros e os piares incessantes das gaivotas, num rumor desigual. Era o fim de tarde a cair no ciclo da vida …Os cheiros intensificavam-se, num iodo baixo.

Irene deu sinal de que, esgotada, se iria erguer da cadeira. Chamei a empregada, a que estava afecta à esplanada. Fez menção de puxar pela carteira. Travei-lhe o movimento, rapidamente:
“não, de todo não … eu pago, Irene. Afinal estás na minha terra de adopção, logo tu é que és minha convidada e não o inverso …”
Sorriu. Não insistiu. Como se, na verdade lhe fosse indiferente pagar ou não dois gelados…

Paguei. Segurei-lhe o braço e desafiei-a:

“queres esticar as pernas? Andar um pouco … ou muito?...”
“não sei … estou esgotada …”
“anda dai … vai fazer-te bem. Gosto de andar por aqui, sabes? A areia é fina, como verás e, daqui ao Baleal são apenas cerca de 5Km… pelo nevoeiro…”
“… e pelo Sol? Não?...”

Rimos ambas. Irene, não obstante as vicissitudes da vida, da sua vida, mantinha o humor britânico que se esboçava já, tímido, na nossa juventude. Assaz mais sagaz, mais “crocitante” – de “corvo negro”. Mais “estridente” …

Caminhámos, lado a lado em silêncio durante algum tempo. O nevoeiro não me permitia vislumbrar sequer a Ilha.

Sempre gostara de por ali vaguear. Descalça, claro. Sempre descalça. De Inverno ou Verão. Ir da “minha praia” à Ilha, percorrê-la de lés-a-lés, circundando-a, beber um sumo num dos seus cafés, e, sem pressas regressar pelo areal, era, tantas e tantas vezes o meu amanhecer em tempo de férias ou, como naquele dia, o anoitecer. Em cada um destes tempos encontrava belezas raras. Inaugurar o areal, por exemplo, ser a primeira a pisá-lo e senti-lo virgem, dava-me energias redobradas … ser a última a sair da praia, “expulsa pelas gaivotas” e pelo declínio do sol poente, ou, pela chegada da lua, trazia-me uma fonte suprema de bem estar… de paz… uma comunhão orgânica que me apaziguavam. Dei por mim às voltas com as minhas próprias emoções, enquanto alternava a vaga e a areia molhada e já enrijecida …diferentes texturas que me massajavam a pele e que buscava a cada passo …

Avançávamos. Ao mesmo tempo que me aproximava tinha sempre aquela sensação antiga de que, por ali, algures num qualquer tempo, havia deixado memórias da minha própria vida … A Ilha ganhava forma, envolta no azul do mar … Todavia não naquele dia. Não na neblina. Estava submersa, escondida …

Mas que importava se conhecia cada espaço daquele trajecto, ao milímetro? Não havia surpresas. Ano após ano, nos últimos vinte e dois anos, voltava todos os verões, senão durante três meses, pelo menos durante um mês acrescido do máximo de fins-de-semana possível. Irene confiava pois que não a haveria de conduzir para o mar alto…

- “confio em ti, Mel… sei que tratarás esta minha história com a dignidade possível…Sabes, durante todos estes anos, não foi fácil a renúncia. Não me foi fácil aceitar que havia cometido um sem número de erros. Contínuos e continuados. A começar pelo facto de deixar que os outros e não eu, decidissem os timmings certos para esta ou aquela mudança em minha vida. Mas o que é facto é que, quando se vive numa pequena aldeia, quando somos vistos como um modelo de virtudes, como a filha de “X” e a neta de “Y”, temos como que a obrigação testamentária de prosseguirmos determinados padrões comportamentais. Ancestrais. Os das nossas mães, das nossas avós, das tias e das primas. Não, não digas que não… que podemos romper com tudo isto impunemente. Não é verdade. Desde que nascemos que nos é determinado um caminho. No meu caso, como sabes, o ter ido para a faculdade já foi um avanço não esperado no percurso. Sim, quando casei parei …. Ou melhor, parei antes de me casar. Afinal, para trabalhar como administrativa de uma imobiliária, tinha até “habilitações a mais…” . E acrescia a necessidade de trazer rendimentos ao lar. Pagar o que havia a pagar…. Tomar as rédeas do lar e dos filhos.

Minha amiga, voltando à minha história quero que saibas que, ao longo destas décadas, muitas foram as oportunidades para que, se estivesse em minha mente, trair o meu marido. Não duvidarás pela certa!...”

Anui com a cabeça. Claro que não duvidava. Acreditava. Irene era, à altura em que nos conhecemos na Faculdade (que ela abandonou no 1º ano do Curso de História), uma rapariga belíssima. De estatura média, meio roliça (campesina como alguns colegas da linha faziam questão de sublinhar), dotada de uma abundante cabeleira castanha com laivos cor de fogo, de uns expressivos olhos azuis turquesa, sardenta mas não em demasiado…

Vestia de forma clássica, algo exagerado para a sua idade, o que a fazia, irremediavelmente, parecer mais séria, mais velha, mais taciturna. A postura discreta. Respondia sempre com um sorriso afável o que, por si só, seria matéria suficiente para que se lhe augurasse melhor futuro. Chegava em regra, atrasada às aulas. Havia iniciado actividade profissional, e, segundo nos contava, o chefe não lhe concedia tréguas. Nunca a deixava usar as horas destinadas a trabalhador-estudante … Acabaria por ser esta uma das razões pela qual não dera continuidade ao seu sonho de formatura…

“não, Irene, claro que não …”
“pois, não duvides. Na verdade, pese embora nunca ter falado da minha vida íntima a ninguém, o que é facto é que, em várias ocasiões me vi literalmente assediada. Como se a minha insatisfação fosse transparente e, por isso, uns e outros achassem por bem que me haveriam de dar consolo…”
“mas?...”
“mas nada, minha amiga. Uma mulher só vai por onde quer ir. Nunca fez parte do meu imaginário a traição. Jamais me senti confortável perante a possibilidade de, hoje beijar um e amanhã dormir com outro… confesso-te que, em certos momentos, desejei ter dentro de mim esse modus operandus. Nota, Mel, não critico de forma alguma quem opte por esse caminho. Todavia, minha amiga, cada um de nós é, como é. Pelo que te acabei de contar, percebes que não me tenho em grande conta, que tudo isto me magoou em demasia, que, a anulação de mim e a “substituição” de um amor real pelo acto de me amar a mim mesma, não é, de todo, saudável. Sempre tive disto absoluta consciência. Desde o primeiro dia. Mas, minha amiga, foi a forma que encontrei para não morrer antes do tempo…”
“e se te tivesses apaixonado por alguém, Irene?...”
“apaixonar?... não sei, na verdade não sei. Sabes, a questão é que, por educação, por formação, por… sei lá, sempre coloquei tantos muros em meu redor que seria uma probabilidade remota. Direi, uma improbabilidade. Todos os que, de uma forma ou doutra se insinuaram, foram, um a um, repudiados. E fi-lo, acredita, de forma a que saíram magoados…”
“magoados?...”
“sim. Fi-los sempre sentir menores. Imbecis. Estúpidos. Porque, minha amiga, perante ataques evidentes, repetidos, te "fazeres" completamente despercebida, transforma qualquer Dom Juan num pateta…”
“fizeste isso, Irene?”...

Não reconhecia agora a minha amiga. O olhar toldava-se num misto de ódio e glória. Senti-lhe um tremor no corpo. Como se a neblina marítima se estivesse a misturar na sua corrente sanguínea. Como que todo o frio do mundo, num instante único se arvorasse em seu redor. O meu coração pululava em ânsias de saber que mais aquele fim de tarde me traria. Começava a desconfiar que não conhecia Irene. A sua história era um presente anódino e um passado magoado… e o futuro Irene???

Segurei-lhe firme o antebraço. Nem de forma remota desejava que se quedasse na história. Que, de alguma forma retrocedesse e não se revelasse… pudera eu ser ar e, juro, naquele instante iria insuflar-lhe os pulmões e as cordas vocais para que, de forma clara desse prossecução ao assunto.

“… fiz e faria tudo de novo. Fi-lo por duas razões objectivas. A primeira tem a ver com o facto de que, só desta forma me livraria de assédios … quem é que gosta de se ver “ridicularizado”, amiga?. Passei a ser vista como a "tipa do mau feitio, a "gaja que tem a mania que é boa"...A segunda, e não menos importante, porque, duma vez por todas, os homens tem que aprender que as mulheres não são só objectos sexuais. As mulheres têm vontade própria. Não é correcto que se achem no direito de entrar na vida de uma ou outra mulher, só porque a adivinham carente e, não serem depois responsáveis e responsabilizados pelos danos que, levianamente, na sua estrutura emocional possam vir a fazer… não nos podemos esquecer que somos sempre, tal como nos disse Antony Saint-Exupery… , “responsáveis pela nossa rosa…" ... ainda gostas de ler Saint-Exupery?

Respondi que sim. Que as suas sábias palavras eram como biblia em minha vida. Sempre presentes. Continuou.

"acresce ainda uma terceira razão, a mais importante, minha boa amiga: nunca, sublinho, nunca, vi no olhar daqueles que de mim se aproximaram, uma verdadeira lealdade, uma verdadeira vontade em dar amor. Não falo sequer de fidelidade. Falo de lealdade. Alguém que, de um modo “leal” se interessa por nós, num todo e não exclusivamente tendo em vista a vertente sexual. Não vi!. Não, de todo não. Em regra, o que vislumbrei sempre foram formas difusas de, através de conquistas ocasionais, insuflarem os seus egos (carentes, isso sim) e, acredita, jurei a mim mesma que não faria parte, objectivamente, das suas listas… e, por tudo isto, preferi a solidão. Aquela e na forma de que te dei conta …”

A ilha estava agora à nossa frente. Surgira repentinamente, como o vértice de um iceberg. Atravessava a neblina, furando impiedosa, aquela teia cinza, nas suas casas pequenas e brancas… Um sol estranho dançava na cara pálida de Irene, nas lágrimas de Irene que, agora e só agora, deslizavam sem contenção…

Tinha tantas questões a colocar-lhe. Todavia, o seu semblante fechara-se num muro de mutismo … intransponível.

Irene era agora, à semelhança da Ilha, um iceberg de que eu apenas tivera oportunidade de conhecer o vértice … e percebi que não retomaria o assunto, nem naquele dia nem mais. Como uma concha, cerrou-se.

À nossa direita, das dunas, surgiram dois surfistas abraçados às suas pranchas … avançaram em corrida sincronizada à vaga....

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

telas imperfeitas

“…Não espero mais nada. Na verdade, em boa verdade, há muito que deixei de esperar, de me angustiar na espera do que, premonitoriamente sabia, desde o primeiro instante, que me não era devido, concedido e que, porque frágil, um dia haveria de vir, em que não teria mais.

A quietude impera-me nos sentidos, como que se estivessem invernados. Hibernados. Como se, aquietados na mansidão do tempo largo, aguardassem uma nova vida, uma nova era. Semente congelada em calotes pálidas ou, quem sabe, no umbigo da terra, por sobre a aridez desértica.

Não espero nada. E nada esperando, não desespero.

Deitada na areia da praia, fundo a curvatura das costas numa toalha antiga em tons de azul. Xadrez, azul e verde. É lato o horizonte, a linha de água, definida livre no encontro com o céu estanhado, que vejo, num esgar esboçado, num prolongamento natural do oiro, do areal, este, este em que me sereno e em que me deixo envolver num abraço maior. De Sol…

O olhar solta-se das linhas do livro que sempre me acompanha e, imigrado em longínquas terras, vagueia. É tamanha a beleza deste lugar, sabias? Dou comigo a pensar que ao poeta basta que se detenha na beleza da natureza, na grandiosidade incomparável dos seus quadros – pinturas de inultrapassável beleza - e que, dela e nela, fielmente se reproduza. Terá matéria mais que suficiente para a sua arte, nesta e noutras vidas. Cogito que basta que se deixe imbuir no quimérico e no orgânico de cada instante. Que ceda a si, num lento e profundo relaxamento muscular, num relevamento de alma… reconheço tudo isto e mais além e, contudo, deixo que uma nostalgia se me entranhe em mente. Estranhamente, agrada-me. A nostalgia agrada-me, sabias? Como a neblina deste lugar.

Sabes, quando te conheci, cresci. O facto de te saber, de te sentir, desamparado, fez com que, sem que disso me tivesse apercebido de imediato, me tivesse transformado para te acolher. Para te proteger. Talvez seja assim. A relação que se estabelece entre aqueles que estão predestinados a se encontrarem é, uma relação de atracção. Pólos opostos, como um baloiço, que se, de um lado sobe, do outro desce. Um baloiço de dois lugares, de frente a frente. Em poucos dias, a cada nova aproximação, sentia mais a tua estranha fragilidade e a minha força crescente. Só te poderia dar aquilo que tivesse em mim. E se o que necessitavas era que te amasse, que fosse uma mulher segura e determinada, seria. Seria...

Dou-me conta agora que me tornaste muito melhor pessoa. E, como te disse acima, sempre soube que estavas de passagem em minha vida, que eras apenas uma projecção do meu inconsciente … e, por isso, nunca esperei em demasia. E que não, e de não quero, cobrar-te passagem pelo meu porto…

Há vários dias que não tenho uma ideia luminosa, um arroubo poético, uma inflamação sensorial daquelas que me cataduptavam em turbilhões para o papel, para as telas, e que me impõem pinturas viscerais. Tais as que sentia quando ainda te conjecturava perto de mim. Há vários dias que não me sei, não te sabendo. Doem-me ausências e presenças ausentes. De uns e outros. Como as destes seres anacrónicos e desfasados do tempo que por aqui, nesta cidade, vagueiam. Talvez mais estas que as primeiras.

Doem-me as palavras que não digo e as que dizendo, oiço e não reconheço minhas.

Vem-me à mente um título de um livro de Inês Pedrosa: “Fazes-me falta”. É, na realidade, estas duas palavras resumem toda a turbulência que me vai em alma, que me assola o corpo em varejos de varas verdes sobre azeitona madura. Impiedosa, a vara vai e vem e bate e rasga e talha, do fruto ao ramo, à folha ao caule … jazem os bagos por sobre panos depostos em castanhos de chão. Assim a tua ausência. Fere, recorta e aguilhoa tudo o que resta de uma emoção…”

__

Estava a meu lado, na esplanada e escrevia freneticamente. Nunca a havia visto. Não era daquele lugar. Não era dos habitues da praia. Envergava um vestido de algodão branco, solto, longo. Duas rachas profundas descobriam-lhe a pele dourada e um par de pernas já com algumas marcas de cansaço. Tentei avaliar-lhe a idade. Rondaria os trinta e muitos anos, próximo dos quarenta. Tinha o cabelo solto em caracóis pouco definidos a atingir a cintura. Não estava pintada. Não era vulgar, mas também não era ostensiva. Nas mãos anéis multicores, alguns colares de contas e vidros e, nos pés, umas sandálias de couro.

Pediu um café. Bebeu-o dum só gole, decidida. Abriu o saco de pano. Deduzi que procuraria a carteira. Mas não. Buscou o telemóvel. Abriu-o. Olhou-o longamente … acariciou-o e, num destempero inimaginável, face à calma que até ai havia demonstrado, levantou-se da cadeira, correu ao mar… e, numa fúria visível, desfez-se daquele que acabava de acariciar. O pequeno objecto, como uma pedra, fundeou nas pequenas ondas, desaparecendo rapidamente. O seu semblante recortava-se no infinito como uma tela imperfeita ... tragicamente imperfeita.

Depois, com um sorriso maquiavélico, regressou à cadeira. Sentou-se. Retomou o caderno em que escrevia. Arrancou a folha, amarfanhou-a demoradamente entre as mãos. Era agora uma bola que passava de uma para a outra mão.

Levantou-se, dirigiu-se ao balcão. Pagou. Olhou em redor, os meus e os seus olhos cruzaram-se, quentes. Reconhecidos.

Discretamente, sem que os restantes entendessem o seu gesto, abriu a mão e depositou a bola na minha mesa… Sorriu-me, serena. Afastou-se em passos ritmados, polvilhados duma sensualidade segura. Fiquei ali, durante muitos minutos a vê-la afastar, como uma visão, como uma fantasia.

O Sol tombava já no bojo do mar. Na esplanada, um a um, todos os ocupantes das mesas vizinhas se iam levantando. A música continuava a tocar. Bob Marley ...

Restava eu, petrificada, dividida entre o som negro e a imagem nívea e difusa que se evaporava na orla marítima ...

Sem saber que fazer, abri lentamente o papel amarfanhado em jeito de granada que me havia sido confiado. Uma letra miudinha, sem sequer uma rasura revelou-se à minha frente.

“…Não espero mais nada.”…

sábado, 23 de agosto de 2008

... um olhar ausente. (parte I)

"despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado“.

Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro, Mário Cesariny.


Assim fizera. Despira-se de todas as verdades. Das grandes e, depois, num ritual mímico, de gueixa em acto, das mais pequenas. Camada sobre camada, como as sete saias das nazarenas, assim Irene se foi desnudando, mostrando, revelando. Naquilo que lhe era mais secreto, mais seu, mais do seu íntimo desassossego.

Naquela manhã acordou com o rosto amarfanhado pelas rendas enlaçadas nos cantos da almofada. O pano branco, algodão comprado a metro nos anos setenta, à vendedeira que, numa periodicidade certa, montada lateral num jumento estafado de velho, percorria o povoado. O pano branco que, com a ajuda de sua mãe, marcara a fio tirado, cortara e alinhavara, para o enxoval. Depois as rendas, feitas em linha fina, nº sessenta, de cor crua. Depois os bordados, nas longas tardes em que se isolava numa estranha meditação e, os seus dedos, de unhas alongadas se esgrimiam num vai-e-vem frenético, perfurando tecido e pele, em muitos momentos. O bordado surgia, como que por magia. Crivos e abertos, ilhoses e pontos cadeia. Nesses tempos Irene não sabia de si. Perdia-se e voava num voo incontido e fragmentado, entre os sonhos e a realidade. Nesses tempos, só o relógio da torre a chamavam à realidade. E, a realidade era, invariavelmente, a solidão. Deslocava o corpo, em direcção à cozinha, preparava a refeição, os afazeres múltiplos daquela casa que, demasiado cedo lhe caíra em ombros. Tudo, ou quase tudo, era de sua responsabilidade. Das plantas aos animais, das limpezas diárias às semanais. A par com os livros, com os estudos, com as políticas de emancipação a que, por convicção aderira à revelia dos demais da casa. Irene era uma mescla, um recalque e um decalque de muitos palcos. Tantos que se esquecia ou nem sabia quem, em rigor, era ela mesma.

Viu-se casada. Sem dar conta como, via-se num jardim público, rodeado duma trupe estridente de convivas, a esboçar sorrisos à esquerda e à direita, para um fotógrafo de qualidade duvidosa. Posses repetidas, iguais a tantas outras nubentes de ocasião. Naquela noite, cumpriu sem emoção o ritual de entrega àquele com quem casou. Adormeceu, por fim, esgotada em alma e sem certezas de ter dado o passo certo. Acordou na manhã seguinte no meio de lençóis bordados, numa casa recém construída em que, se sentiu refém. Refém da mensalidade que teria que pagar, do emprego que entretanto havia empreendido e que, jamais estivera nos seus horizontes. Dum marido que havia aceite sem paixão, duma sociedade que a empurrara literalmente para a condição de mulher casada. E, acima de tudo de si mesma. Refém.

Maquinalmente, dirigiu-se ao banheiro, de dimensões generosas, e, maquinalmente deu por si a escovar os cabelos cor de fogo. Olhou o espelho que recobria parcialmente a parede por cima do lavatório cor de azeitona, última moda em loiças sanitárias. De lá, uma figura de mulher inacabada, reflectiu-se embaciada aos vapores do banho que, em golfadas compassadas, enchia a banheira ao lado.

Maquinalmente, deixou que a camisa índigo lhe caísse aos pés. Instintivamente acariciou o corpo, tocou-se nos seios e no sexo, imaginou-se amada, desejou-se longa e loucamente amada. Tal como sempre imaginara que seria numa noite de lua-de-mel. O corpo respondeu ao toque, inicialmente em espasmos tímidos e, depois, de forma selvagem e frenética. O espelho reflectia agora uma mulher adulta, vibrante, pulsante, determinada em se conhecer. De se saber. Continuou a tocar-se, a explorar cada prega do seu corpo, de si em si. Um misto de prazer e de raiva incendiavam-lhe o olhar, a pele. O suor apoderava-se de todo o corpo, escorria-lhe em fio pelas axilas até aos cotovelos. As lágrimas sulcavam-lhe a cara, grossas e cadentes. Sentia-se nojenta e, contudo gostava. Dúplice. Dual e antagónica.
Insaciável, penetrou a água, deixou-se decair por entre um mar de espuma e de fragrâncias de jasmim e menta. Recostou a cabeça na orla da banheira e retornou a si. Ao seu corpo, à necessidade incontrolável de se sentir e se dar prazer. A água possuía-a amplamente. Ao seu toque, o sexo explodia numa fome cada vez maior. Num cio animal. Ficou ali, até que a água se revelou fria, naquela manhã de Inverno. Lentamente, saiu da banheira, envolveu-se no toalhão espesso tombado por sobre o tampo da sanita, esfregou o corpo no vagar de quem tem a vida inteira pela frente, secou-se o melhor que conseguiu. Desembaraçou os cabelos, vestiu o roupão e, dolente, dirigiu-se ao quarto. Miguel dormia, convicto de que havia cumprido a sua função marital. Afinal, havia tomado a sua mulher assim que se viram a sós no quarto. Rápido é certo, mas, porra, estava cansado. Os vapores do álcool e os convivas dançantes também ajudaram a desfocar a imagem. Sonhou que era um garanhão tal como os que via no pasto. E ela, a fêmea passiva. Não longe da realidade…

Os primeiros raios da manhã invadiam o quarto. Aos rumores da sua esposa a deambular pelo quarto, acordou. Chamou-a. Irene acorreu. Viu-lhe uma centelha de satisfação no olhar. De fêmea saciada… intuiu.

Deitou-se a seu lado. Miguel beijou-a bruscamente, abriu-lhe o roupão e, em escassos minutos fê-la de novo sua. Como se o mundo acabasse naquele instante. Seria assim por muitos e muitos anos.

___

Encontrei-a um dia deste. Já não tinha os cabelos cor de fogo. A prata da vida instalara-se definitivamente. Convidou-me a tomar um café. Sentámos-nos numa explanada, mandámos vir um gelado ao invés do tal café e, sem que suspeitasse, Irene irrompeu:
“olha lá, tenho lido as tuas escritas …”
“eh?”…
“gosto! Vou contar-te o que, por certo sabes do mundo íntimo das mulheres …”.

Contou. Contou como havia ultrapassado a solidão da sua vida. Como não morrera dentro de um corpo mal amado. Amara-se a ela própria, milhões de vezes, sempre que o desejara. Todavia, a cada final “de acto” se sentira mais sozinha, mais asfixiada em sua pele. Sentia que era tempo de se despir das suas verdades …das grandes e das pequenas, abrir uma cova e enterrar os seus fantasmas.

Irene deambulava os olhos magoados na mescla de cores do gelado à nossa frente. Vestia-se agora de um olhar ausente …

“𝕮𝖗ó𝖓𝖎𝖈𝖆 𝖉𝖊 𝖚𝖒 𝖈𝖍𝖆𝖕é𝖚”

“… palerma, chapéus há muitos”… Haver há, de certeza absoluta. Nem contesto. Mas não são meus e nunca estabeleci com eles uma relação...